Ele era bem empregado, feliz no casamento e tinha um casal de filhos que inundavam o seu lar de alegrias.
Também era bem visto pela comunidade e em seu local de trabalho, mas já há muito vinha sendo invadido por inquietações sem causa.
Ainda assim, a medida que o tempo passava, as palpitações no peito, sensação de falta de ar e sudorese espontâneas só faziam aumentar.
Então buscou especialistas que nenhuma motivação orgânica detectaram nos exames realizados.
Mais um tempo se passou e ele começou a ser atendido em psicoterapia. Houve certa melhora ao longo do dia, mas a noite, especialmente antes de dormir, sentia-se tomado por aquelas inindentificaveis sensações que passaram a lhe causar episódios de insônia.
Consultou-se com especialistas do sono e os remédios prescritos provocavam-lhe um sono que não conseguia eliminar o cansaço.
Em geral, as noites de sono eram tomadas por sonhos que ele não conseguia entender, todavia antes de se deitar àquela noite, lembrou-se de lição de sua saudosa mãezinha e realizou sentida prece
Então deitou-se , dormiu e , sem perceber, viu-se deitado dentro de pequeno barco que, pelo seu balançar, julgou encontra-se em alto-mar.
Recordou-se que não sabia nadar e levantou-se, de supetão, sentando na embarcação.
Confirmou que estava em alto-mar e sem remos a sua disposição, ainda assim, sentiu-se inexplicavelmente seguro
As luzes da cidade eram percebida a grande distância, mas ao olhar para o céu e observar aquela noite de rara beleza, ele pouco se importou com o fato e pos-se a rezar e agradecer com intensa gratidão, até que alguém disse a ele:
- Belíssima noite, não é meu filho?
Ele, desta forma, despertou de seu estado contemplativo e viu sua interlocutora: era linda jovem, sentada em um banco de areia , com pescoço enfeitado por colares de conchas e profundos, lindos, acolhedores e maternais olhos azuis.
Então, ele a respondeu:
- Sim, é verdade! Lá da cidade não consigo encontrar a beleza que aqui vislumbro neste orbe enfeitado por estrelas e pela lua.
- E nem poderia, não é mesmo?
- Sim, devido as luzes da cidade que roubam o brilho dos astros celestiais, não é?
-Nem tanto!
-Entao por que seria?
- Porque você não olha para o céu! Você não o observa com o carinho e a atenção que você precisa e merece
Ele não retrucou, pois sabia, em sua honestidade, que escutava a realidade dos fatos, assim apenas respondeu:
- Você tem razão!
- Mas não é razão o que eu preciso ter, apenas sua atenção.
- E você a tem: toda!
- Então necessito que você reflita sobre o que vou lhe dizer: a resposta para o que te aflige em seu mundo interior não está fora, mas dentro de você.
- Assim, a palpitação é o teu espírito imortal dizendo que teus pensamentos e sentimentos estão dessintonizados com os aspectos da solidariedade ao próximo e, desta forma, com o ritmo de um coração saudável pela sensação do dever cumprido.
- Observe bem que a falta de ar é o seu peito que não aguenta mais respirar os ares da indiferença em relação ao sofrimento dos necessitados.
- Reflita que a sudorese é o efeito da inércia de ação sua em relação aos desvalidos do mundo.
- Estaria eu mentindo, meu filho?
Ele era sócio sênior no ramo jurídico e já, há bastante tempo, vinha sendo assomado pela ideia de abrir parte de seu tempo ao atendimento daqueles com poucos recursos para custear um atendimento jurídico de qualidade, então ele tinha plena certeza que sua interlocutora dizia-lhe apenas a verdade.
O que ele desconhecia era como ela poderia saber tanto sobre ele mesmo.
Olhar para ela e para aqueles imensos olhos azuis a externarem um amor tão maternal, provocou-lhe incontida vontade de chorar.
Ao mesmo tempo, ela , então, passou a entoar um encantador, doce, suave e divino canto.
Um canto que desarmou-lhe toda resistência em um sentido pranto.
Eram lágrimas aliviadoras de sofrimento, mas também imantadoras de paz, esperança e alegria.
Em certo tempo o canto dela cessou junto com as lágrimas dele, que a ela agradeceu por toda ajuda recebida.
- Não há porque me agradecer! Agradeça apenas a Deus!
-Antes de ir, você poderia dizer o seu nome?
-Qual seria a necessidade?
-Interpelar por sua ajuda, quando dela precisar, neste caminho que pretendo seguir.
-Entao lembre-se de mim, se assim julgar melhor, mas faça teus pedidos a Deus!
Ela sabia que ele ainda era muito ligado às convenções terrenas de sua religiosidade, mas diante da autorização de sua Senhora, disse-lhe:
-Eu sou sereia do mar!
-Sereia do mar? Puxa, fico até sem graça de dizer, mas não acredito nestas coisas.
-E eu sei disto! Foi por isso que te orientei a fazer tuas rogativas a Deus, você se lembra?
- É verdade.
- Mas você não precisa ficar sem graça! Também não precisa acreditar em mim, porque eu acredito em você e isto basta! Mas saiba que eu existo além das religiões e convenções humanas! Estendo o meu amor e entoo o meu canto para todo aquele que Deus julgar necessário e por intermédio de minha senhora: mãe Yemanjá! Assim, continue a acreditar em Deus, meu filho! Mas vamos começar a acreditar também em todo o seu potencial para o bem, para o amor e auxílio ao próximo, pois foi para isto que Deus Pai nos criou: eu, você e a todos!
- Que Deus possa fazer do barco da sua vida uma embarcação de resgate a todos os náufragos no oceano da existência!
- Que Deus também te abençoe no socorro aos que se encontram perdidos nas correntezas da maldade e nos tsunamis da ilusão!
- Preciso retornar para junto de minha senhora, pois muitos são aqueles necessitados de paz e entendimento, mas saiba que minhas orações seguirão contigo, neste propósito de fazer o bem. Tenha fé e fique em paz!
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