terça-feira, 11 de novembro de 2008

A semente

Refletiam no mar os primeiros raios de sol daquela manhã enquanto ele estava em um barco no alto-mar.
Na sabia como havia parado ali, só sabia que ali estava.
Era um homem de trinta e sete anos e líder religioso de sua tribo que apesar dos momentos conflituosos em sua vida, naquele momento encontrava-se inundado por uma estranha paz.
Estava olhando o azul do céu quando um doce canto chamou sua atenção para uns cem metros à frente de onde se encontrava: era uma linda moça que se locomovia em sua direção.
Quando chegou rente ao barco dele ela lhe perguntou:
— Posso entrar Chivu?
— Sim senhora, senhora sereia das águas do mar!
— Chama-me Jandaiá.
E, dizendo isto, entrou no barco para continuar o diálogo:
— Como está você Chivu?
— Até ontem estava bastante pesaroso e preocupado, mas vendo hoje o nascer deste dia tão lindo, em volta deste espaço sagrado e contando com sua companhia é como se não existissem problemas e eu vivesse em estado de felicidade imensa e sem fim.
— Mas não existem problemas Chivu!!!
— Não?
— Não. Tudo depende da forma como se encara a vida!
— Como assim?
— Você é o líder religioso de uma tribo que vive há poucos quilômetros daqui, não é verdade?
— Sim senhora!
— Você exerce este ministério há quase um ano, certo?
— Sim senhora!
— E, desde quando recebeu sua ordenação, você foi orientado espiritualmente a retirar sua tribo do local em que viviam e encaminha-los para cá; um local bem distante de sua antiga morada, certo?
— Sim senhora!
— Só que aqui, em sua nova morada, a sua tribo não vem lhe dando um minuto de sossego, por que neste mar não existem peixes, não é verdade?
— Sim senhora! Eles julgam que minha pouca experiência no cargo deve ter feito com que eu interpretasse equivocadamente a determinação que recebi do chefe ancestral de meu povo.
— Você se lembra quando o chefe ancestral de seu povo ordenou que você me seguisse até o ponto onde deveriam fixar nova morada?
— Lembro! A senhora veio até aqui e é por isto que nós aqui estamos vivendo há três meses: em um local onde muito se planta e pouco se colhe.
— E, evocando o conselho tribal, alguns membros de sua tribo querem destituí-lo do cargo e ir para uma nova morada, certo?
— Certo! Só que isto não está correto! Nosso povo sempre seguiu os oráculos preditos, por que mudar agora?
— O chefe ancestral de seu povo ordenou-me que lhe entregasse uma semente.
— Semente? Uma? Mas, e os peixes?
— Plantarei esta semente em teu espírito hoje e amanhã, quando você despertar, irradiará a luz desta semente no meio do seu povo.
— A senhora me desculpe a insistência, mas só uma semente? E os peixes?
— Não se preocupe com os peixes, pois esta semente, dependendo de como você irradiará a sua luz, trará muitos peixes para cá.
E, proferindo estas palavras, Jandaiá encostou sua destra no tórax de Chivu que ficou todo iluminado de uma coloração azul-branqueada; então ela retirou sua mão e a coloração recolheu-se para dentro do tórax de Chivu e foi quando ele a perguntou:
— Por que a senhora não pôde socorrer-me antes, por que tivemos de passar por tantas luas de infelicidade?
— Chivu, não lhe disse que a infelicidade depende da forma como se encara a vida?
— Disse sim senhora! Mas não consigo entender!
— Se seu povo estivesse em uma terra onde nela houvesse um terrível tremor que destruísse a quase tudo e todos ao redor, você estaria feliz?
— Não senhora, seria a pior tragédia na história de meu povo!!!
— Aqui onde seu povo está não há muito que comer, mas se sobrevive correto?
— Sim senhora!
— Então, por que você diz que está infeliz? Infelicidade, de verdade, não seria perder os que lhe são caros?
— Certamente, mas aqui nunca houve tremor de terra!
— Mas amanhã ela estremecerá!!!
— Pai sagrado, a senhora é um ser de luz!!! Por que encaminhou nosso povo até aqui? Para morrermos?
— Você não me entendeu Chivu: morrer vocês iriam se continuassem vivendo em sua antiga morada, pois lá será o foco deste grande tremor de terra.
— Divino Criador! Então a senhora salvou nossas vidas! Por isto que fomos guiados até aqui?
— Principalmente, mas não só por isto! Você, como líder espiritual de seu povo, foi guiado até aqui também para ser testado em suas crenças, em seus oráculos, em sua missão.
— E eu fui aprovado?
— Com louvor e a semente que recebeste em teu espírito é prova disto. Mas agora é necessário que eu retorne para o reino de minha senhora!
— Antes, a senhora poderia dizer que semente foi esta que plantou em mim?
— Adeus irmão! Entenda que a resposta está em seu coração!!!
Chivu olhou para o seu tórax e nada viu. Balançou a cabeça sem nada entender e foi assim que despertou do sono físico em cima de uma rede.
Chivu não conseguia entender o porquê, mas o seu sentido de crer estava infinitamente ampliado quando acordou naquela manhã.
Ele, então, conclamou a toda sua tribo que tomassem os seus barcos e com ele remassem mar adentro, esclarecendo que somente as grávidas e mães com crianças de colo é que deveriam permanecer em terra firme.
Quando os barcos tomaram a precisa distância da terra firme Chivu determinou que todos eles formassem, com uma corda ligando uns aos outros, uma circunferência da forma mais precisa possível.
De inicio a tribo liderada espiritualmente por Chivu demonstrara desconfiança, mas o crer de Chivu naquela manhã estava tão irradiante que logo todos seguiam as ordens dele na maior prestimosidade.
Chivu explicou a todos que eles entoariam cânticos solicitando que o Divino Criador e a senhora das águas do mar abençoassem àquelas águas com fartura de peixes.
Assim foi feito e algum tempo depois, ali mesmo onde eles estavam orando de olhos fechados, eles sentiram um demorado tremor como se a terra longinquamente houvesse se agitado.
Momentos após, seguindo determinação de Chivu, todos os barcos voltaram para terra firme e ele, estranhamente, conseguia ver de forma clara no semblante de cada membro de sua tribo a presença de uma crença revigorante de que aquele procedimento religioso faria com que os peixes realmente aparecessem.
Cinco horas depois, por determinação de Chivu, pescadores de sua tribo foram ao mar com a certeza tão grande de pescaria farta que levaram todas as redes consigo.
Todos os barcos retornaram repletos de peixes e isto não aconteceu só aquele dia, mas em todos os outros que esta tribo viveu naquela localidade.
Sete dias depois Chivu estava novamente em espírito dentro de um barco em alto-mar só que, desta vez, em seu sonho, era noite: Chivu olhava para as estrelas e para a lua sem entender claramente o que fazia ali.
Minutos haviam se passado quando ele recordou-se do encontro anterior com Jandaiá; lembrou-se também quando ela lhe disse que a resposta do nome da semente plantada nele por ela estava em seu coração.Instantaneamente, então, ele olhou para o seu tórax nu e nele viu escrito com uma tênue luz de cor azul-clara e que pulsava pausadamente a palavra fé e, neste instante, de incomensurável alegria Chivu chorou: fora abençoado pela Senhora do mar, por meio de Jandaiá, a ser um espírito humano gerador da fé!!!

Mensagem recebida em 28/10/2008


3 comentários:

Anônimo disse...

já que o comentário é fundamental, adorei seu texto, camarada! parabéns!
Gostaria de sua permissão para publicá-lo no ArteFolk.
Abs.

Visitem: www.artefok.com.br

Anônimo disse...

Edificante mensagem irmão!!!

São os nossos amigos de Aruanda a enaltecerem a imporância de desenvolvermos cada vez mais a nossa fé.

Que Olorum continue a lhe abençoar com essas mensagens tão lindas!!!

Erika Barreto disse...

Sinceramente...
Já li os dois primeiros textos do blog e não sei de qual gostei mais =)