domingo, 14 de abril de 2013

Entendendo o carma: palavras de preto-velho




Dona Isabel caminhava em direção a Pai Antônio. Chegara a hora de seu atendimento e ela estava para comunicar-lhe sua decisão: pediria afastamento do terreiro.
− Oi zifia! Como vai suncê? Ah quanto tempo hein?!?
− Boa noite Pai Antônio! O senhor já sabe o que eu vim fazer aqui hoje, não sabe?
− Filha se este preto-velho tivesse este poder ele não seria Pai Antônio: seria o próprio Deus, pois só Ele sabe de todas as coisas.
− Como assim vovô?
− Nós não somos advinhos zifia! Se suncê veio aqui é por que tem algo a dizer e este nêgo velho aqui se encontra, de coração aberto, só para te escutar!
− Então acho que tenho que dizer de uma vez, não é vovô?
− Da forma que suncê achar melhor, minha filha!
− É que eu vou pedir desligamento do terreiro! O que o senhor acha disto?
− Filha toda decisão sinaliza um caminho que envolve pensamentos e sentimentos. Onde este caminho vai dar, abaixo de Deus, só teu pensar e sentir é que poderão dizer.
− Como assim Pai Antônio?
− Bom senso minha filha! Toda decisão, de todo ser humano, deve ser pautada pelo bom senso!
− O senhor está dizendo que esta minha decisão não está baseada no bom senso?
− Longe de mim zifia, pois este preto-velho não faz julgamento de valor! Só estou tentando explicar para a filha que a ilusão obscurece o bom senso.
− Ilusão? Como assim?
− Só um instantinho minha filha!
A entidade solicitou que seu cambone lhe trouxesse água gelada. Somente quando ele retornou foi que Pai Antônio disse a Isabel:
− Filha, por caridade, estique sua mão direita e diga se este líquido está quente ou frio.
A entidade derramou um pouco de água mineral, que estava em temperatura ambiente, na mão dela que respondeu-lhe:
− Nem quente, nem fria: está em temperatura ambiente!
− Continue com sua mão esticada.
Pai Antônio derramou a água gelada, que seu cambone trouxera, na destra de sua consulente que falou-lhe:
− Este líquido está gelado!
− Permaneça com sua mão esticada!
O preto-velho tornou a derramar a água mineral em temperatura ambiente na mão de Isabel que disse:
− Esta água está quente!
− Suncê viu de onde nêgo tirou esta água que suncê falou que estava quente?
− Vi sim senhor. O senhor a tirou da garrafa de água mineral!
− E como a mesma água que suncê respondeu que estava em temperatura ambiente, de repente ficou quente?
− É que a água que o senhor jogou na minha mão antes dela estava muito gelada.
− Muito bem minha filha! Suncê é muito sabida! Percebe o que a ilusão dos sentidos pode fazer com seu julgamento? Seu pensamento? Seu sentimento?
− Não totalmente.
− Não se preocupe minha filha! Continue a prosear com este velho que Deus, em sua infinita misericórdia, há de fazê-la compreender certas coisas!
− Vovô eu não consigo mais ver sentido em ficar aqui: o senhor sabe que minha filha, que assim como eu era médium desta casa, acabou de desencarnar fulminantemente por conta de uma enfermidade que ninguém pôde diagnosticar a tempo de salvá-la.
− Salvá-la de que zifia?
− Da morte!
− Mas não existe morte zifia: só existe vida, ainda que em outro plano da existência!
− Nenhuma entidade contou nada para mim ou para ela que só foi saber da doença quando passou mal e os médicos a diagnosticaram como enferma após realização de vários exames.
− Suncê se sentiu traída por nós, minha filha?
− Vocês sabiam da doença?
− Sim minha filha!
− Então, eu me senti traída, porque vocês não me alertaram!
− Filha, e de que adiantaria nosso alerta se a doença começara a se desenvolver em sua filha há dez meses? Se a situação da saúde de sua filha era irreversível há cinco meses e se vocês entraram para corrente mediúnica do terreiro há três meses?
− Mas vocês poderiam ter nos alertado, nos preparado!
− Preparar? Desculpe a franqueza zifia, mas a preparação, a ser realizada com sabedoria e humildade, para a verdade imutável que é o desencarne deve acontecer todo dia e a todo o momento, pois só Deus sabe a hora de cada um.
− Eu vou sair por que acho que vocês podiam ter nos preparado!
− Filha há muito tempo, quando suncê tinha dezesseis anos, seu pai faleceu da mesma moléstia que sua filha apresentou!
− É verdade.
− Seu pai lutou contra a moléstia por quase treze meses!
− Isto também é verdade!
− E foi justamente durante estes treze meses que suncê, somatizando todo o sofrimento pela condição de saúde de seu paizinho, desenvolveu uma úlcera gástrica que tanto lhe incomoda até os dias de hoje!
− É verdade!
− Agora minha filha, abrindo seu coração com honestidade, responda:
− Em que lhe ajudou saber sobre a doença do seu pai à época em que ele estava doente?
− Acho que começo a entender o senhor!
− Zifia Isabel, este nêgo véio fala a suncê que nós, que suncês chamam de entidades, não somos advinhos! Somos falangeiros que militam pela Lei Maior e pela Justiça Divina!
− Eu entendo.
− Para Deus o bem maior está acima das individualidades dos seus humanos filhos e foi por isso que ao mundo Ele enviou Jesus.
Isabel chorou sentidamente ao lembrar-se do sofrimento a que Jesus fora submetido quando encarnado e reconheceu que o sofrimento de sua filha nada foi em comparação ao dele.
Pai Antônio esperou o estado emocional de Isabel tornar a normalidade e disse-lhe:
− Nêgo-velho gostou da sinceridade do seu coração, mas aqui no dia de hoje nós não estamos trabalhando o sofrimento de sua filha; até mesmo porque ela não sofre mais onde se encontra, já que está disposta em repouso e recebendo tratamento adequado para que venha a despertar em momento oportuno!
− Verdade?
− Sim zifia! No dia de hoje trabalhamos o seu sofrimento!
− É vovô! Cada um com seu karma!
− Filha karma não é sofrimento: é libertação!
− Como assim?
− Karma, zifia Isabel, é ter humildade de clamar sabedoria a Deus diante dos desafios que são apresentados na vida de cada um, pois uma vez aprendido o ensinamento, com fé e resignação, evolui-se  em direção a Deus-Nosso-Pai!
− Como assim?
− A vida é um karma não pelos sofrimentos que surgem na jornada, mas pela possibilidade de libertação que proporciona se tivermos sabedoria para vencer os desafios no caminho.
− Creio que entendi! A morte de um ente querido é um desafio natural da existência humana. O karma não é sofrer com a perda, uma vez que o sofrimento é natural nesses casos, mas sim alcançar a liberdade incondicional ao vencermos tal desafio.
− Filha tempos atrás suncê contou que a entidade que lhe assiste nas incorporações, o Caboclo Araribóia, apareceu duas vezes em sonho para você e pedia-lhe que continuasse a andar numa estrada, não é verdade?
− Isto vovô! Ele aparecia e me mostrava uma estrada em que eu devia voltar a caminhar!
− Pois então zifia saiba que tal estrada não é necessariamente este terreiro, mas sim a Umbanda Sagrada!
− Verdade?
− Certamente zifia! Se suncê quiser sair do terreiro as portas vão estar abertas assim como se encontravam quando você por elas adentrou neste terreiro pela primeira vez. O importante na sua vida não é o terreiro zifia, seja ele qual for, o importante é a Umbanda!
− Isto é verdade mesmo Pai Antônio porque antes de entrar neste terreiro há três meses, eu fiquei cinco anos afastada da umbanda.
− Nêgo velho entende zifia! Foi quando seu esposo faleceu, não foi?
− Foi isto mesmo vovô!
− Após vinte e cinco anos de casados o seu esposo desencarnou pelo câncer e você, como forma de homenagear o amor que sempre houve entre vocês, decidiu prestar trabalho voluntário em alas hospitalares onde se encontram crianças que possuem câncer, não é verdade?
− Como o senhor sabe disto vovô? Eu nunca contei para ninguém!
− Foi o Caboclo Araribóia zifia!
− Ah é? E porque vovô?
− Por que para Deus o bem maior está acima da individualidade do ser humano.
− Como assim? O senhor poderia explicar?
− Filha o câncer em sua história familiar não é sofrimento apenas: é karma! Possibilidade de libertação em direção a Deus!
− Isto eu estou entendendo!
− Karma é cumprimento da Lei Maior e da Justiça Divina na vida de suas humanas criaturas! Quando estas se envolvem consistentemente em labores caritativos o Pai envia sua Misericórdia como um bálsamo na vida na vida destes Seus filhos.
− Entendo!
− O teu trabalho voluntário em favor das criancinhas fez com que você recebesse a oportunidade de ter a tua filha tratada e assistida pelos médicos do astral a fim de que viesse a ter um desencarne sereno e indolor!
− Meu Deus eu jamais poderá imaginar!
− Posso lhe dizer ainda mais zifia: sabendo que você somatiza com muita facilidade o sofrimento dos que lhe são muito próximos, foi que o Caboclo Araribóia providenciou formas para lhe resgatar de volta para a Umbanda, como um modo de evitar que isto ocorresse!
− Meu Pai Deus é muito bom!
− Até mesmo por que se isto ocorresse as crianças assistidas por você voluntariamente ficariam sem ter como receber o lenitivo que você mais consegue lhes proporcionar: o sorriso!
Dona Isabel chorava copiosamente a cada vez que dizia:
− Deus é bom! Obrigada meu Deus! Obrigada!
Pai Antônio aguardou sua consulente serenar as emoções e, para encerrar aquele atendimento, disse-lhe:
− Foi o que este preto-velho lhe disse zifia: Para Deus o bem maior está acima das individualidades dos seus humanos filhos, mas a misericórdia Dele é, de fato, infinita!Suncê não está sozinha minha filha, nunca se esqueça disto! Vá com a força e a luz de Deus-Nosso-Pai!








domingo, 10 de março de 2013

NA OUTRA MARGEM DO RIO





 Séculos e séculos atrás, em território norte-americano próximo ao rio Colorado, viveu um povo de pele vermelha que precedeu a tribo dos Navajos.
Recordo que o inverno preparava-se para encerrar suas atividades e a neve despedia-se do solo e das formações rochosas quando escutei pela primeira vez a história que lhes apresento a seguir. Este povo não veste mais a roupa da carne, o clima e a Mãe-terra também não se encontram da mesma forma de quando eles andaram entre nós. Muita coisa mudou e outras tantas ainda estão para se modificar em meio ao desenvolvimento cíclico com que o Grande Espírito*(Deus) designou para aprimoramento de sua criação e criaturas. Esta história inicia-se com o chefe Pedra-roxa chamando ao seu pupilo para dar início ao aprendizado de uma nova atribuição:



“− Venha filho, pois hoje será o primeiro dia de sua preparação para tornar-se um atravessador. Você ficará aos cuidados de um dos nossos mais experientes atravessadores: o irmão Pedra Branca.
− O grande chefe Pedra Branca?!? Será uma honra!
− Não filho, de inicio é só trabalho mesmo! Se você o desempenhar corretamente teu próprio trabalho será tua honra!
Ao entregar o aprendiz para o atravessador o chefe Pedra Roxa tornou às suas obrigações.
− Chefe Pedra Branca como devo proceder no aprendizado de hoje?
− Sente-se e observe como é o trabalho, as dúvidas serão esclarecidas posteriormente.
− Sim grande chefe, mas...
− Diga!
− É que eu tenho uma dúvida.
− Diga!
− É que entendo a importância da presença do atravessador na Grande Travessia*(desencarne), pois bem poucos estão em condições de realizá-la sozinhos ao deixarem o corpo de carne, mas acredito que o mesmo não acontece na travessia a que serei iniciado a partir de hoje, que é justamente na direção oposta.
− Antes de entender a importância você primeiro tem que entender a necessidade.
− Como assim?
− Observando filho! Sente-se e observe como é a travessia no Grande Rio da Vida!
O chefe entrou no rio e solicitou que a primeira alma a passar para a outra margem fizesse o mesmo.
Quando a jovem pele vermelha entrou o rio, que estava calmo tornou-se tormentoso devido a uma forte e inexplicável correnteza que de repente se formou.
A jovem receou em prosseguir e intencionou retornar, mas o chefe estendeu-lhe a destra com segurança tão intensa que ela seguiu adiante.
As águas estavam real e terrivelmente caudalosas e o aprendiz não entendia como a correnteza não os carregava rio abaixo.
Quando estavam exatamente na metade do rio o grande chefe pediu que ela fechasse os olhos. Confiando na segurança daquele ser ela assim o fez. O chefe a segurava pelo braço esquerdo e levantou o direito aos céus.
Realizou profunda oração, mas o aprendiz observou que o rio continuava caudaloso. Então, de uma só vez, o chefe desceu o braço direito e o mergulhou nas águas. Pegou um pouco da água com a mão, ergueu aos céus mais uma vez e derramou seu conteúdo na cabeça da jovem.
Neste instante, como se fosse mágica, o rio tornou a ficar calmo e o chefe Pedra Branca terminou a travessia da jovem até a outra margem.
Retornando a margem da Grande Pátria*( plano espiritual ) o chefe perguntou ao pupilo:
  Esta começando a entender sobre necessidade?
− Sobre a necessidade acho que sim, mas estou com muitas dúvidas.
− Acalme-se filho, pois ainda tenho mais uma travessia a realizar. Depois conversaremos.
−Sim senhor!
O chefe Pedra Branca solicitou que a outra alma a ser atravessada entrasse no rio e um jovem pele-vermelha assim o fez. O rio tornou-se caudaloso, mas nem tanto como ocorrera na travessia da jovem. O chefe realizou os mesmos procedimentos que fizera com a jovem, atravessou-o e tornou a margem da Grande Pátria para conversar com seu pupilo.
− Grande chefe eu posso falar?
− Estou aqui só para te escutar filho!
− Chefe por que as águas do Grande Rio da Vida ficam tormentosas quando as almas a serem atravessadas nelas adentram?
− Filho, uma existência humana não deve ser pautada pelo erro, mas pelo acerto. Um erro só tem valor, se for servir como guia ao caminho do acerto, se não é só um erro. É muito importante que o ser humano procure sempre o caminho do acerto, mas acontece que na outra margem do Grande Rio da Vida, não é nada fácil o homem encarnado acertar o caminho da paz, do amor, da solidariedade e da alegria.
− Por que chefe?
− Por que quando o homem está na carne lembra muito de comer bem, vestir bem, morar bem, andar bem e aparentar estar bem, mas se esquece que a vida plena está aqui: na Grande Pátria!
− Bem me recordo disto!
− E para comer bem, vestir bem, morar bem e andar bem eles geralmente olvidam os valores do espírito e, assim, cometem os primeiros erros. Se não se corrigem e se espiritualizam voltam a cometer erros, mas não se engane: os erros que se seguem são apenas para justificar o primeiro! Assim ocorre desde que o Grande Espírito colocou o homem para andar sobre a Mãe-terra.
− Acho que começo a entender Grande chefe: quanto maior for a significação de um erro ou dos erros cometidos por uma alma que fará a travessia para a carne, mais tormentosa torna-se a água do rio.
− Muito bom aprendiz! Fico satisfeito por seu entendimento!
− Na verdade acho que não sou nem eu. O senhor explica com tanta paciência que tudo parece mais fácil de ser entendido!
− Pode não parecer aprendiz, mas tudo que hoje digo já está aí dentro de você. Só estou, aos poucos, reavivando sua memória!
− É mesmo? E para que?
− Para você recordar daquilo que é e sempre foi: um atravessador!
− Eu?!?
− Sim! Por que o espanto? Uma fruta será sempre uma fruta, um animal  será sempre um animal e um atravessador será sempre um atravessador!
− Não recordo de já haver sido um atravessador!
− Então, responda-me àquilo que somente um atravessador pode saber!
− Mas não sou atravess...
− Responda-me filho!
− Mas o senhor nem fez a pergunta!
− Responda-me!
− Na realidade eu tenho é uma dúvida a solucionar, pois se as águas do Grande Rio da Vida ficam tormentosas pela significação que as almas a fazerem a travessia dão aos erros praticados quando estavam na carne, como tornam a ficarem serenas?
− Responda-me e a si próprio, pois a resposta está dentro de você!
− Então era essa a pergunta que o senhor queria que eu respondesse? Àquela que só um atravessador sabe a resposta?
− Pergunte-se como você poderia saber da pergunta a que eu estava solicitando que você respondesse se eu mesmo nem não a fiz!
− Coincidência não pode ser.
− Nem tem como, pois àquele que já foi considerado por seu povo como sábio líder espiritual não tem que acreditar em coincidências!
A memória do pupilo voltou no tempo em que havia sido líder espiritual de seu povo. Recordou-se de seus atributos e atribuições àquela época e, sem conseguir explicar o porquê, focou nos procedimentos de cura. Assim, resgatou em suas lembranças os mais variados tipos de rituais de cura e lembrou de um complexo, mas que se finalizava de forma simples: dentro de um rio.
Neste instante ele abriu os olhos e viu o Chefe Pedra Branca sentado, de olhos fechados e com discreto sorriso nos lábios. Estranhamente ele entendeu que o Grande Chefe compartilhava de seus pensamentos.
Tornou a fechar os olhos e voltou a lembrar do ritual complexo que se finalizava no rio: após todos os procedimentos realizados com barro, água de rio, cânticos, rezas, encantamentos e defumações que duravam semanas e ás vezes meses, o membro da tribo já curado de seu estado vegetativo, era levado até o rio onde fora colhida a água para trabalhar o barro.
Primeiramente o líder espiritual entrava até a metade do rio e após chamava aquele que recebera tratamento. Após as últimas rezas o líder jogava o barro trabalhado na direção da correnteza do rio para que o mal fosse diluído e a saúde, principalmente mental, emocional e espiritual, fosse renovada na vida do enfermo.
Por último, e talvez o ritual mais importante, o líder espiritual conversava com o enfermo sobre os comportamentos, pensamentos e sentimentos que o levaram àquele deplorável estado de saúde e tornava a perguntar se, enquanto vivesse, ele seria um guerreiro que lutaria para combatê-los dentro de si.
Diante da resposta positiva o líder levantava a destra aos céus e pedia ao grande Espírito que a imantasse com a energia renovadora. Após, e de uma só vez, descia a mão para dentro do rio para também entronizá-la com a energia renovadora das águas.
Com a destra em forma de concha ele colhia a água e tornava a levantá-la aos céus para só depois derrama-la na cabeça do enfermo. Recordou-se que este ritual significava que o enfermo estava deixando não só a sua moléstia, mas também os comportamentos, emoções e pensamentos que a provocaram serem levados pela correnteza do rio. A partir daquele momento o enfermo tornava-se um novo ser, uma nova criatura.
Tornou a abrir os olhos e viu o grande chefe Pedra Branca já de pé e visivelmente emocionado diante dele. Este disse-lhe;    
− Parabéns!
− Por que Grande chefe?
− Por responder-me e, desta forma, começar a recordar-se que, de fato, é aquilo que nunca deixou de ser: um atravessador!
− Acredito que ainda não entendi completamente, mas se este é o começo imagine até o final!
− Um passo de cada vez atravessador-aprendiz, mas agora me responda: em seus tempos de líder espiritual qual sentimento você observava como o maior responsável pelo aparecimento de enfermidades nos membros da tribo? Aquele que se desenvolve silenciosamente?
− Deixe-me ver: o ódio é terrível, mas nada silencioso, com a tristeza sucede a mesma coisa...
− Reflita meu pupilo! Reflita!!!
− Creio que o maior agente de enfermidades na tribo era o neto do orgulho e do egoísmo: o remorso.
− E quais são os pais do remorso, meu aprendiz?
− A culpa e o arrependimento.
− Quando você realizava o ritual no rio, em benefício de um enfermo, notava a imediata mudança de padrão vibracional na vida dele?
− Não. A conquista era gradual desde que a batalha do homem consigo mesmo fosse constante.
− E qual atitude era grande facilitadora da cura?
− O Grande Espírito trabalhou e fez a grande Mãe-terra para nela dispor suas criaturas. Estas trabalham para a sobrevivência de toda a coletividade. Assim deve ser com a criatura humana também filha Dele: ela também deve trabalhar para o sustento e sobrevivência de toda sua coletividade. Trabalho chefe Pedra Branca: quem trabalha não só fisicamente, mas também mental e emocionalmente, tem grandes chances de curar-se do remorso. O trabalho é a resposta: principalmente em favor do outro.
− Muito bom aprendiz-atravessador! Agora percebo germinar em você as condições necessárias para entender o significado do porque das águas do Grande Rio da Vida tornarem ao seu estado natural após o atravessador usá-las para banhar a cabeça da alma que fará a travessia para a carne.   
− Fico grato por sua consideração.
− Quando o atravessador convida uma alma que fará a travessia para a carne a adentrar o Grande Rio da Vida, esta o faz trazendo entre a fé e a esperança de sucesso na nova jornada, o sentimento do medo e do remorso.
− Estou entendendo.
− O atravessador ergue a destra aos céus e clama ao Grande Espírito a imantação dela com energia renovadora, depois a mergulha no rio para entronizá-la com a energia renovadora das águas.
− A água colhida com a destra neste instante já é uma água encantada e encanta a alma que tem a sua cabeça molhada por ela com a benção do esquecimento das existências pretéritas que ela apresentar. Renovar não é criar do zero, mas tornar novo outra vez e isto só é possível com o esquecimento das existências vivenciadas na carne preteritamente.
− Fantástico!
− Como a turbulência da água no rio é causada basicamente pelo medo e pelo remorso, trazidos principalmente pelas lembranças das existências passadas, e como estas são apagadas antes do fim da travessia a turbulência cessa, uma vez que sua causa é eliminada.
− Impressionante! E o que acontece com a alma quando consegue realizar a viagem para a carne?
− Não sei!
− Não sabe? Mas o senhor é um atravessador!
− Exatamente. Assim como você já o foi e tornará a ser: um atravessador! Aquele que atravessa!
− Como assim chefe?
− Quem traz as almas até a margem do Grande Rio da Vida que ladeia nossa terra espiritual para que sejam atravessadas a outra margem são os Grandes Chefes Encaminhadores; quem as recebe na margem que ladeia a terra dos seres de carne, são os Grandes Chefes Concebedores, você já viu tanto a uns quanto a outros?
− Não senhor!
− Já se perguntou por quê?
− Por que sou um atravessador e esta é minha função: atravessar!
− Você aprende rápido jovem aprendiz atravessador! Em breve será um laborioso servidor da Mãe-terra! Aliás, assim como o é todo atravessador: um filho do Grande Espírito e servidor do elemento terra.
O ensinamento terminou, mas o aprendiz solicitou ao grande chefe Pedra Branca que lhe permitisse alguns instantes de reflexão, à beira do rio, sobre a lição aprendida.
Com o consentimento do Chefe o aprendiz sentou-se à beira do Grande Rio da Vida. Enquanto isto, na contraparte física daquele plano etérico e na margem oposta, um índio pele-vermelha encarnado e que acabara de receber sua primeira iniciação para tornar-se futuramente líder espiritual de sua tribo refletia sobre os ensinamentos aprendidos, mas sem conseguir deixar de pensar sobre o que de fato existia lá: na outra margem do rio.”
 

  

 Eu, assim como alguns outros de minha tribo,fui este índio encarnado e devo esclarecer que não entendi muito bem quando escutei tal história pela primeira vez e que me foi narrada como forma de fixar os ensinamentos aprendidos pelo líder espiritual da tribo a que pertencia. Somente a prática e o passar das luas foi que me trouxeram esclarecimento. Passo-a para vocês para que também se tornem atravessadores:
Vocês que têm ódio atravessem o rio do perdão e passem para a margem do amor, vocês que estão aflitos atravessem o rio da paz e encontrem a mansuetude na outra margem, vocês que estão tristes atravessem o rio da alegria e alcancem a margem da felicidade, vocês que estão descrentes atravessem o rio da esperança e cheguem a margem da fé.
 Vocês não precisam de iniciação para realizar tal tarefa, apenas de boa-vontade. Nós precisamos de vocês! Precisamos que vençam seus medos e limitações na tarefa de auxiliar ao próximo e atravessem o rio da sinceridade para alcançarem a confiança. O mundo passa por um grande processo de transformação energética, eletromagnética, psíquica e vibratória e necessitamos que confiem no Grande Espírito e tornem-se atravessadores de si mesmos para que tenham paz de espírito e, assim, alcancem condições de auxiliar ao próximo da melhor forma possível.
Façam isto e, com a permissão do Grande Espírito, nós teremos a honra de os atravessarem quando chegarem vossos momentos de realizar a Grande Travessia no Grande Rio da Vida.

Ao trabalho aprendizes!!!!



Mensagem do Chefe Águia Branca