sexta-feira, 21 de novembro de 2014

UMA LIÇÃO DE VIDA




cachoeira arco-íris Vetor


Certa noite após fazer minhas orações, e enquanto me deitava para dormir, senti um amigo espiritual solicitando que fizesse preces de agradecimento a Deus firmando o pensamento em uma cachoeira.
Quando dei por mim já estava em frente a uma queda d’água ainda mais bela da que eu imaginara. Estava dentro do rio e em frente dela, que era muito linda e bastante caudalosa.
O tempo foi passando e eu percebi que não conseguia sair de onde estava. Olhei ao redor para verificar se via alguém, mas sem sucesso.
Procurei pensar como tudo começara e tive uma idéia: só havia parado ali porque firmara meu pensamento como pedira o amigo espiritual, assim se continuasse a firmar, talvez fosse possível sair daquela situação.
Fechei os olhos e firmei meu pensamento por tempo indefinido, mas quando descerrei os olhos minhas pernas ainda se encontravam imóveis.
Comecei a ficar preocupado não devido à imobilidade, pois confio nos amigos espirituais servos de Deus, mas por não estar entendendo àquela situação.
Procurei recordar as lições que os amigos espirituais sempre procuram me passar a respeito de tudo que se refere às cachoeiras e assim, lembrei que as águas deste sítio de forças da natureza têm propriedades altamente renovadoras, que renovam tudo aquilo que já não tem mais razão de ser.
Procurei refletir sobre esta minha recordação e entendi que, se ali estava, era por que precisava de renovação em um ou mais aspectos de minha vida. Sem conseguir buscar explicação racional, o que me angustiou muito, senti vontade irrefreável de por as duas mãos nas pedras sob a queda d’água e assim o fiz.
Senti meu corpo astral vibrar com uma energia muito forte, as batidas do meu coração aceleraram e lágrimas incessantes e inexplicáveis passaram a escorrer de meus olhos.
Passei a sentir o meu corpo a pulsar uma energia multicolorida como se eu fosse apenas luz. Intui que deveria permanecer de olhos fechados e em prece e não procurei questionar.
Então senti que meu corpo permanecera na cachoeira do jeito que estava, mas também senti que já não estava mais lá, estava muito, muito leve. Olhei para minha esquerda e vi um arco-íris como a indicar uma direção e procurei segui-la.
Fui parar de frente a outra cachoeira onde várias crianças brincavam silenciosamente. Foi interessante porque lá eu conseguia movimentar-me livremente.
Uma alegria enorme, incomensurável inundou todo o meu ser e, de tão feliz que estava, também me deu vontade de brincar igual uma criança, mas antes que assim eu fizesse uma delas chamou-me.
Aparentava ter uns três anos de idade. Tinha o cabelo todo encaracolado de um castanho-claro, a pele branca e as bochechas eram, por falta de um melhor vocabulário, muito proeminentes, fofas e rosadas.
Não sei como explicar, mas sentia como se estivesse diante de um saudoso amigo e devo confessar que, se no plano físico ele existisse, eu tudo faria para adotá-lo.
- Obrigado tio!!!
Foi o que ela disse a mim.
- Obrigado pelo que?
- Pelo afeto tio! Pelo carinho!
- Você pode escutar meus pensamentos?
- Só aquilo que for importante!
­- Importante para que?
- Pra ajudar você titio!
-Você? Ajudar a mim? Como assim? Você não é uma criança?
- Tio, se hoje sou criança, então um dia eu serei adulto, não é?
- Isto!
- E se hoje você é adulto, um dia tornará a ser criança, não é?
- Isto! Suas observações são muito sábias, você nem parece uma criança!
- Mas você sim tio!
- Eu o que?
- Meu tio tá parecendo uma criança, e daquelas bem birrentas!
- Acho que começo a entender: você é uma criança espiritual!
- Puxa! Demorou, hein tio!?!?!?
Ri bastante daquela observação e senti uma alegria quase incontida. Nisto, algumas lágrimas que julguei inoportunas desprenderam-se dos meus olhos. Procurei disfarçá-las e perguntei:
- De que teimosia você está falando?
- Por quê? São tantas assim meu tio? Credo!!!!
Não tive como conter as gargalhadas outra vez! E observei que novas lágrimas deslizaram, mas só desta vez notei que um peso saía de dentro de mim enquanto escorriam. Tentei disfarçá-las novamente e a escutei dizer:
- Eu tô brincando com você meu tio! Eu to falando só da teimosia que meu tio tem de não querer deixar a vida correr.
- Como assim?
- Tio, o que passou é passado. O que passou só tem utilidade se servir para uma coisa: renovar seu presente de esperanças num futuro melhor!!! Se não for assim, meu tio, o passado só vai paralisar você!!! Como já tem feito!!!
- A vida meu tio é um presente! As experiências, difíceis ou não, são para fazer você mais forte moral, consciencial e emocionalmente. Deixe as águas da renovação banharem você meu tio, pois é sua melhor chance de desempacar e seguir a vida com mais liberdade. Liberte-se meu tio! Deixe o passado para trás!
- Da mesma forma que um dia uma criança vira adulto e este se torna uma criança, um dia seus pais renascerão e você desencarnará.
- Mas é que muitas vezes ainda dói!
- A dor provoca sofrimento, mas quando se busca a força em Papai-do-céu e a força interior que cada um possui, a dor passa e torna-se esperança, mas se isto não ocorre o meu tio entra num ciclo vicioso em que o sofrimento provoca a dor que vai causar mais sofrimento.
- Como assim?
- Meu tio o que acontece se você sofrer um corte profundo na pele?
- Eu vou sangrar!
- Vai ficar sangrando pra sempre!
- Não se eu buscar socorro!
- Meu tio busca o socorro e o que acontece depois?
- Um profissional vai suturar o corte.
- Com o tempo não vai parar de sangrar? Não vai parar de doer?
- Sim
 - Mas a cicatriz permanece, não é assim, meu tio?
- Isto. Exatamente!
- E se você ficar cutucando a ferida antes dela sarar?
- Ai ela não vai sarar nunca!
- Então tio! O corte provoca dor na pele e esta dor leva ao sofrimento, mas se você não ficar cutucando a pereba o sofrimento passa e a dor vai embora. Se você cutucar a ferida o sofrimento vai alimentar sua dor, que lhe causará mais sofrimento. Nada vai sarar, entende tio???
- Estou entendo sim, tudo está ficando mais claro!
- A vida do meu tio tá paralisada no passado, é preciso renovação tio! Renovação verdadeira, sem aprisionar-se ao passado. Vem tio, deixe a gente ajudar você!!! Tudo na sua vida será renovado, menos a falta de cabelos na sua careca, isto aí só na próxima encarnação!!
Não pude mais conter meu riso ao escutar a última observação! Gargalhava sem parar e nem me faltava o fôlego! Lágrimas abundantes deslizavam pelo meu rosto enquanto gargalhava, mas desta vez não tive a mínima vontade de contê-las. Enquanto tudo isto acontecia àquelas crianças, que já formavam um círculo ao meu redor, batiam palmas e cantavam louvores em uma língua desconhecida para mim.
A criança que conversara comigo acenou pedindo que eu fechasse os meus olhos e eu assim o fiz.
Os louvores e palmas continuaram. Por dentro eu explodia de felicidade e gratidão a Deus por toda àquela oportunidade. Os risos que vinham das lágrimas ( ou lágrimas que vinham dos risos ) continuaram insofreáveis, mas observei que àquele canto tinha o poder de provocar nova disposição em mim, novos pensamentos, sentimentos, possibilidades.
A criança com quem dialogara tocou em direção ao chacra cardíaco e olhou-me como quem dissesse:
- Pratique o que conversamos!
E eu, ainda gargalhando com lágrimas incontidas nos olhos, respondi-lhe com todo respeito que aprendi a lhe dedicar:
- Muito obrigado!
Ele gesticulou pedindo que eu tornasse a fechar os olhos.
Com olhos fechados senti novamente toda aquela vibração em meu corpo e voltei numa velocidade inimaginável para àquela cachoeira em que, anteriormente, não conseguia mover as pernas. Era como se minha consciência tivesse retomado meu corpo espiritual.
As lágrimas cessaram de jorrar, mas a alegria incontida ainda permanecia imutável dentro de mim.
Recebi mentalmente a orientação daquela criança espiritual que em outro plano se encontrava:
- Tio esta alegria é um presente que Papai-do-céu mandou que entregássemos a você. Foi nosso dever entregá-la e é seu dever conservá-la! Vá com Deus titio!!!
Quando abri os olhos pude observar que já havia sido transportado para o corpo físico! Olhei para o lado e vi minha esposa que dormia! A cama era a mesma, o colchão era o mesmo e até a coberta era a mesma, quanto a mim, que naquele momento não lembrava nada que vivenciara no plano astral, acordei “inexplicavelmente” com um enorme sentimento de gratidão a Deus,  sentia  e pensava como se fosse uma nova pessoa.
Somente hoje pude recordar de todo o ocorrido e, com um sorriso de alegria nos lábios e lágrimas de gratidão nos olhos, é que assim digo:
Muito obrigado meu Deus!!! Muito obrigado pela Cachoeira divina, pelo Arco-íris sagrado, pela falange das Crianças espirituais e por minha vida!!!
Muito obrigado pela Umbanda sagrada!

Saravá!!!!!!

















































































quinta-feira, 30 de maio de 2013

SEMENTES DA UMBANDA



Em uma cidade interiorana localizada na região sudeste do Brasil e bastante freqüentada por turistas que praticam a pesca vivia, já há dois anos, um sujeito de 42 anos e cujo nome era Antônio.

Apesar do seu modo de vida pacato Antônio não era bem visto pela comunidade local. Nada era falado abertamente, mas Antônio sabia que isto acontecia pelo fato dele e da esposa professarem a fé umbandista.

Toda quarta-feira a noite, das 20:00 as 22:30 horas, o Caboclo Urubatão da Guia incorporava em seu médium e realizava os trabalhos pertinentes a cada reunião.

Apesar dos convites de Antônio e de sua esposa Neusa nenhum morador jamais participara das reuniões que aconteciam em cômodo amplo e localizado nos fundos da residência.

Antônio recebera uma promoção em seu trabalho e mudaria daquela cidade com sua companheira em quinze dias.

O tempo correu célere e no dia anterior a mudança Antônio, ao despertar e após a refeição matinal, preparou juntamente à esposa o cômodo para manifestação espiritual que ocorreria e da qual fora alertado durante o sono físico.

Após toda a ritualística eis que a entidade incorporou em Antônio dizendo a Neusa, sua cambone:

− Quando vocês se mudaram para cá nós dissemos que iríamos plantar sementes!

− É verdade Sr. Urubatão mas, com todo o respeito, acho que esta “terra” não deve ser muito fértil.

− Engano seu filha! Foram dois anos de arado, mas hoje é o dia da semeadura!

− Hoje? Como assim? Nós vamos embora amanhã!

− Vocês vão, mas as sementes, na força de deus, aqui permanecerão e germinarão.

− Não entendo Sr. Urubatão! Assim como não entendo porque hoje o senhor incorporou tão cedo no Antônio.

− O bom semeador é aquele que respeita o tempo da semente! O tempo filha é agora!

− O senhor poderia explicar?

− Filha prepare minhas folhas e meu terço! Temos que preparar tudo porque logo os convidados vão chegar!

− Convidados? Ninguém nunca veio aqui!

− Mas as portas sempre estiveram abertas, certo?

− Sim, certamente!

− Então hoje alguém virá!

− Quem senhor Urubatão?

− A família do curumim Manoela!

− A famíla da Manu? Como? Eles estão há mais de mês em São Paulo em busca de cuidados médicos para aquela menina que mal tem dois anos de idade.

− Os doutor de jaleco branco não acharam nada filha e nenhum médico jamais poderia achar por que a doença da criança nada mais é do que fruto de feitiçaria.

− Creio em deus pai!

− Eu também creio filha, vamos trabalhar?

E durante muito tempo ela cambonou a entidade na realização de todos os procedimentos necessários para a prática da caridade.

A família de Manoela era vista como a mais rica daquela localidade; eram pessoas simples e corretas, mas que devido à condição social ainda se deixavam iludir pelo poder do dinheiro. Chegavam de viagem, desesperançados e desesperados, pois sentiam o fôlego de vida de sua primogênita se esvair a cada dia.

A tarde estava prestes a iniciar quando a mãe de Manoela, vencendo todo o preconceito presente no local, adentrou o terreiro. Ela estava transtornada quando falou a entidade:

− Disse ao meu esposo que traria minha filha até aqui, mas ele deu de ombros e disse que aqui não poria os pés.Não sei bem que tipo de trabalho vocês fazem por aqui, mas a saúde de minha filha vem em primeiro lugar, por favor ajude-a por que eu já não agüento mais....

− Calma filha! Primeiro dê um abraço neste Caboclo e ponha o seu pranto pra fora. Entendo o seu sofrer, mas a paz deve reinar em seu coração para que o poder de Deus possa afugentar as nuvens de desespero e fazer brilhar o sol da esperança.

Abraçada a entidade ela disse:

− Estivemos em São Paulo, com os melhores médicos, e eles desenganaram nossa garotinha, não conseguiram descobrir o que ela tem! Temos a nossa fé e por meio dela também tentamos a cura de nossa filha, mas também sem sucesso! Os médicos disseram que ela não tem mais do que dois meses de vida.

Todos choravam copiosamente, incluindo a cambone da entidade.

O Caboclo Urubatão clamou por fé e oração a todos os presentes e disse a mãezinha da criança:

− Filha percebo que você está um pouquinho mais calma, mas antes que eu possa realizar qualquer procedimento eu devo lhe dizer que aqui é uma casa de oração que realiza ações em favor do próximo sem cobrar coisa alguma em troca. Somos uma casa de Umbanda, sou falangeiro de Deus, da Justiça, do amor e da verdade: sou o Caboclo Urubatão da Guia. Trabalhamos respeitando a lei do livre arbítrio e por isto devo esclarecer que só poderemos tratar de seu curumim se você estiver certa disto, entende?

− Entendo sim senhor! Este local vibra a paz e sinto que muito deste sentimento é irradiado por você. Que seja feita a vontade de Deus!!!

A entidade esboçou um leve sorriso de emoção nos lábios quando escutou esta última frase e disse a ela:

− Então filha, por caridade, entregue-me a criança!

Após a realização de todos os procedimentos necessários a entidade colocou a criança deitada no chão em local onde estavam forradas várias folhas de mamona.

Assim que fora disposta no local a criança adormeceu.

A genitora contou que a filha mal conseguia se alimentar, pois regurgitava a maior parte dos alimentos que ingeria independente de sua consistência.

Contou ainda muitos outros fatos pertinentes ao caso e receberam a orientação necessária da entidade amiga.

O Caboclo Urubatão evocou a Deus e realizou a purificação de energias perniciosas que provocavam a enfermidade na criança, além de outros procedimentos necessários para sua convalescença.

Por volta das 15:00horas ela despertou pedindo biscoitos a mãe. Manoela parecia outra criança, pois sua pele voltara à coloração normal e ela possuía outro ânimo.

A entidade disse a mãe:

− Seu curumim está curado pelo poder de Deus! Agora é só você iniciar o tratamento com as ervas que passamos para ela.

− O que ela tinha?

− Não se preocupe! Preocupe-se apenas em ter uma vida mais harmoniosa com todos ao seu redor! Classe social, raça e dinheiro não tornam ninguém melhor que o outro, pois tudo que é matéria se iguala na hora da Grande travessia!

− Grande travessia?

− Sim! Aquilo que vocês chamam de morte!

− Entendo! Não tenho nem como lhe agradecer!

− E nem precisa! Só agradeça a Deus! Somente Ele merece toda a honra!

A família foi embora, mas não a entidade. Neusa estava preocupada, pois Antônio se alimentara pela última vez as 09:00 horas da manhã. Ela externou sua preocupação a entidade que disse-lhe:

− Não se preocupe filha Neusa, pois o cavalinho está bem! Para a segurança dele nós só subiremos após pitar o último charuto!

− Mas nós vamos nos mudar amanhã! O senhor trabalhou o dia inteiro! Os charutos acabaram!

− Charuto de Caboclo está na cachoeira filha! Está na cachoeira!

Somente por volta das 17:00 horas a entidade disse a sua cambone;

− Vamos filha! Este caboclo precisa buscar o pito dele!

− Mas Senhor Urubatão a cachoeira fica a dez minutos de distância daqui e isto andando a pé!

− Qual a dificuldade filha?

− A cidade inteira vai ver o senhor, o senhor vai chamar a atenção!

− Está tudo nos planos de Deus filha, vamos?

− Sim senhor!

Ainda no início da caminhada alguns vizinhos aproximaram-se de Neusa e perguntaram:

− Aonde vocês vão?

Procurando calar o espanto com o inusitado da pergunta, ela respondeu:

− Até a cachoeira!

− Mas, por quê?

− O Senhor Urubatão precisa do charuto dele e disse que estará lá.

− Na cachoeira!?!

− Isto!

A incredulidade os fez perguntar:

− Podemos ir com vocês?

Neusa olhou para a entidade que consentiu.

Outros moradores juntaram-se àqueles e quando todos chegaram ao local contava-se por volta de quarenta pessoas. A cachoeira encontrava-se vazia.

A entidade chamou Neusa e disse-lhe:

− Filha, este Caboclo vai trabalhar nas matas e perto das 18:00 horas volta para pegar o pito dele.

A entidade embrenhou-se na mata e os moradores incrédulos aguardavam seu retorno.

Exatamente por volta das 18:00 horas o caboclo Urubatão deu um forte brado que ecoou nas matas e saiu do local, mas ninguém ali tinha charuto algum.

A entidade deu mais alguns passos para fora da mata e eis que no local surgiram três turistas que iriam praticar a pesca noturna. Aproximaram-se curiosos com a aglomeração de pessoas presentes. Um deles era umbandista e achegou-se da entidade. Esta disse-lhe;

− Este Caboclo estava aguardando você filho!

O turista, sem conseguir explicar o porquê, mas emocionado, tirou um dos charutos do bolso da jaqueta e ofertou a entidade sem que esta nada precisasse lhe dizer.

A entidade o reverenciou e foi pitar o seu último charuto.

Havia muitos tipos de pessoas que estavam ali naquele momento: os céticos disseram que o ocorrido foi fruto da coincidência; os preconceituosos que era obra do demônio, mas muitos e muitos mansos de coração sentiram naquele fim de tarde a brotarem em seu intimo a inigualável sensação de paz de uma semente que Deus, por meio do caboclo Urubatão da Guia, plantara em seus corações: a simpatia pela simples, mágica e linda religião de Umbanda sagrada.

Hoje, quarenta e cinco anos após o ocorrido, Antônio e Neusa já se encontram desencarnados.

Manoela é sacerdotisa do único terreiro de Umbanda no local. A corrente mediúnica é composta por dezesseis médiuns, mas todos são filhos de fé, incluindo seus dois filhos e esposo. A caridade é o fruto mais doce e suculento que nasceu da semente plantada pelo caboclo Urubatão da Guia ao respeitar o tempo certo da semeadura: o tempo de Deus.



domingo, 14 de abril de 2013

Entendendo o carma: palavras de preto-velho




Dona Isabel caminhava em direção a Pai Antônio. Chegara a hora de seu atendimento e ela estava para comunicar-lhe sua decisão: pediria afastamento do terreiro.
− Oi zifia! Como vai suncê? Ah quanto tempo hein?!?
− Boa noite Pai Antônio! O senhor já sabe o que eu vim fazer aqui hoje, não sabe?
− Filha se este preto-velho tivesse este poder ele não seria Pai Antônio: seria o próprio Deus, pois só Ele sabe de todas as coisas.
− Como assim vovô?
− Nós não somos advinhos zifia! Se suncê veio aqui é por que tem algo a dizer e este nêgo velho aqui se encontra, de coração aberto, só para te escutar!
− Então acho que tenho que dizer de uma vez, não é vovô?
− Da forma que suncê achar melhor, minha filha!
− É que eu vou pedir desligamento do terreiro! O que o senhor acha disto?
− Filha toda decisão sinaliza um caminho que envolve pensamentos e sentimentos. Onde este caminho vai dar, abaixo de Deus, só teu pensar e sentir é que poderão dizer.
− Como assim Pai Antônio?
− Bom senso minha filha! Toda decisão, de todo ser humano, deve ser pautada pelo bom senso!
− O senhor está dizendo que esta minha decisão não está baseada no bom senso?
− Longe de mim zifia, pois este preto-velho não faz julgamento de valor! Só estou tentando explicar para a filha que a ilusão obscurece o bom senso.
− Ilusão? Como assim?
− Só um instantinho minha filha!
A entidade solicitou que seu cambone lhe trouxesse água gelada. Somente quando ele retornou foi que Pai Antônio disse a Isabel:
− Filha, por caridade, estique sua mão direita e diga se este líquido está quente ou frio.
A entidade derramou um pouco de água mineral, que estava em temperatura ambiente, na mão dela que respondeu-lhe:
− Nem quente, nem fria: está em temperatura ambiente!
− Continue com sua mão esticada.
Pai Antônio derramou a água gelada, que seu cambone trouxera, na destra de sua consulente que falou-lhe:
− Este líquido está gelado!
− Permaneça com sua mão esticada!
O preto-velho tornou a derramar a água mineral em temperatura ambiente na mão de Isabel que disse:
− Esta água está quente!
− Suncê viu de onde nêgo tirou esta água que suncê falou que estava quente?
− Vi sim senhor. O senhor a tirou da garrafa de água mineral!
− E como a mesma água que suncê respondeu que estava em temperatura ambiente, de repente ficou quente?
− É que a água que o senhor jogou na minha mão antes dela estava muito gelada.
− Muito bem minha filha! Suncê é muito sabida! Percebe o que a ilusão dos sentidos pode fazer com seu julgamento? Seu pensamento? Seu sentimento?
− Não totalmente.
− Não se preocupe minha filha! Continue a prosear com este velho que Deus, em sua infinita misericórdia, há de fazê-la compreender certas coisas!
− Vovô eu não consigo mais ver sentido em ficar aqui: o senhor sabe que minha filha, que assim como eu era médium desta casa, acabou de desencarnar fulminantemente por conta de uma enfermidade que ninguém pôde diagnosticar a tempo de salvá-la.
− Salvá-la de que zifia?
− Da morte!
− Mas não existe morte zifia: só existe vida, ainda que em outro plano da existência!
− Nenhuma entidade contou nada para mim ou para ela que só foi saber da doença quando passou mal e os médicos a diagnosticaram como enferma após realização de vários exames.
− Suncê se sentiu traída por nós, minha filha?
− Vocês sabiam da doença?
− Sim minha filha!
− Então, eu me senti traída, porque vocês não me alertaram!
− Filha, e de que adiantaria nosso alerta se a doença começara a se desenvolver em sua filha há dez meses? Se a situação da saúde de sua filha era irreversível há cinco meses e se vocês entraram para corrente mediúnica do terreiro há três meses?
− Mas vocês poderiam ter nos alertado, nos preparado!
− Preparar? Desculpe a franqueza zifia, mas a preparação, a ser realizada com sabedoria e humildade, para a verdade imutável que é o desencarne deve acontecer todo dia e a todo o momento, pois só Deus sabe a hora de cada um.
− Eu vou sair por que acho que vocês podiam ter nos preparado!
− Filha há muito tempo, quando suncê tinha dezesseis anos, seu pai faleceu da mesma moléstia que sua filha apresentou!
− É verdade.
− Seu pai lutou contra a moléstia por quase treze meses!
− Isto também é verdade!
− E foi justamente durante estes treze meses que suncê, somatizando todo o sofrimento pela condição de saúde de seu paizinho, desenvolveu uma úlcera gástrica que tanto lhe incomoda até os dias de hoje!
− É verdade!
− Agora minha filha, abrindo seu coração com honestidade, responda:
− Em que lhe ajudou saber sobre a doença do seu pai à época em que ele estava doente?
− Acho que começo a entender o senhor!
− Zifia Isabel, este nêgo véio fala a suncê que nós, que suncês chamam de entidades, não somos advinhos! Somos falangeiros que militam pela Lei Maior e pela Justiça Divina!
− Eu entendo.
− Para Deus o bem maior está acima das individualidades dos seus humanos filhos e foi por isso que ao mundo Ele enviou Jesus.
Isabel chorou sentidamente ao lembrar-se do sofrimento a que Jesus fora submetido quando encarnado e reconheceu que o sofrimento de sua filha nada foi em comparação ao dele.
Pai Antônio esperou o estado emocional de Isabel tornar a normalidade e disse-lhe:
− Nêgo-velho gostou da sinceridade do seu coração, mas aqui no dia de hoje nós não estamos trabalhando o sofrimento de sua filha; até mesmo porque ela não sofre mais onde se encontra, já que está disposta em repouso e recebendo tratamento adequado para que venha a despertar em momento oportuno!
− Verdade?
− Sim zifia! No dia de hoje trabalhamos o seu sofrimento!
− É vovô! Cada um com seu karma!
− Filha karma não é sofrimento: é libertação!
− Como assim?
− Karma, zifia Isabel, é ter humildade de clamar sabedoria a Deus diante dos desafios que são apresentados na vida de cada um, pois uma vez aprendido o ensinamento, com fé e resignação, evolui-se  em direção a Deus-Nosso-Pai!
− Como assim?
− A vida é um karma não pelos sofrimentos que surgem na jornada, mas pela possibilidade de libertação que proporciona se tivermos sabedoria para vencer os desafios no caminho.
− Creio que entendi! A morte de um ente querido é um desafio natural da existência humana. O karma não é sofrer com a perda, uma vez que o sofrimento é natural nesses casos, mas sim alcançar a liberdade incondicional ao vencermos tal desafio.
− Filha tempos atrás suncê contou que a entidade que lhe assiste nas incorporações, o Caboclo Araribóia, apareceu duas vezes em sonho para você e pedia-lhe que continuasse a andar numa estrada, não é verdade?
− Isto vovô! Ele aparecia e me mostrava uma estrada em que eu devia voltar a caminhar!
− Pois então zifia saiba que tal estrada não é necessariamente este terreiro, mas sim a Umbanda Sagrada!
− Verdade?
− Certamente zifia! Se suncê quiser sair do terreiro as portas vão estar abertas assim como se encontravam quando você por elas adentrou neste terreiro pela primeira vez. O importante na sua vida não é o terreiro zifia, seja ele qual for, o importante é a Umbanda!
− Isto é verdade mesmo Pai Antônio porque antes de entrar neste terreiro há três meses, eu fiquei cinco anos afastada da umbanda.
− Nêgo velho entende zifia! Foi quando seu esposo faleceu, não foi?
− Foi isto mesmo vovô!
− Após vinte e cinco anos de casados o seu esposo desencarnou pelo câncer e você, como forma de homenagear o amor que sempre houve entre vocês, decidiu prestar trabalho voluntário em alas hospitalares onde se encontram crianças que possuem câncer, não é verdade?
− Como o senhor sabe disto vovô? Eu nunca contei para ninguém!
− Foi o Caboclo Araribóia zifia!
− Ah é? E porque vovô?
− Por que para Deus o bem maior está acima da individualidade do ser humano.
− Como assim? O senhor poderia explicar?
− Filha o câncer em sua história familiar não é sofrimento apenas: é karma! Possibilidade de libertação em direção a Deus!
− Isto eu estou entendendo!
− Karma é cumprimento da Lei Maior e da Justiça Divina na vida de suas humanas criaturas! Quando estas se envolvem consistentemente em labores caritativos o Pai envia sua Misericórdia como um bálsamo na vida na vida destes Seus filhos.
− Entendo!
− O teu trabalho voluntário em favor das criancinhas fez com que você recebesse a oportunidade de ter a tua filha tratada e assistida pelos médicos do astral a fim de que viesse a ter um desencarne sereno e indolor!
− Meu Deus eu jamais poderá imaginar!
− Posso lhe dizer ainda mais zifia: sabendo que você somatiza com muita facilidade o sofrimento dos que lhe são muito próximos, foi que o Caboclo Araribóia providenciou formas para lhe resgatar de volta para a Umbanda, como um modo de evitar que isto ocorresse!
− Meu Pai Deus é muito bom!
− Até mesmo por que se isto ocorresse as crianças assistidas por você voluntariamente ficariam sem ter como receber o lenitivo que você mais consegue lhes proporcionar: o sorriso!
Dona Isabel chorava copiosamente a cada vez que dizia:
− Deus é bom! Obrigada meu Deus! Obrigada!
Pai Antônio aguardou sua consulente serenar as emoções e, para encerrar aquele atendimento, disse-lhe:
− Foi o que este preto-velho lhe disse zifia: Para Deus o bem maior está acima das individualidades dos seus humanos filhos, mas a misericórdia Dele é, de fato, infinita!Suncê não está sozinha minha filha, nunca se esqueça disto! Vá com a força e a luz de Deus-Nosso-Pai!