domingo, 14 de abril de 2013

Entendendo o carma: palavras de preto-velho




Dona Isabel caminhava em direção a Pai Antônio. Chegara a hora de seu atendimento e ela estava para comunicar-lhe sua decisão: pediria afastamento do terreiro.
− Oi zifia! Como vai suncê? Ah quanto tempo hein?!?
− Boa noite Pai Antônio! O senhor já sabe o que eu vim fazer aqui hoje, não sabe?
− Filha se este preto-velho tivesse este poder ele não seria Pai Antônio: seria o próprio Deus, pois só Ele sabe de todas as coisas.
− Como assim vovô?
− Nós não somos advinhos zifia! Se suncê veio aqui é por que tem algo a dizer e este nêgo velho aqui se encontra, de coração aberto, só para te escutar!
− Então acho que tenho que dizer de uma vez, não é vovô?
− Da forma que suncê achar melhor, minha filha!
− É que eu vou pedir desligamento do terreiro! O que o senhor acha disto?
− Filha toda decisão sinaliza um caminho que envolve pensamentos e sentimentos. Onde este caminho vai dar, abaixo de Deus, só teu pensar e sentir é que poderão dizer.
− Como assim Pai Antônio?
− Bom senso minha filha! Toda decisão, de todo ser humano, deve ser pautada pelo bom senso!
− O senhor está dizendo que esta minha decisão não está baseada no bom senso?
− Longe de mim zifia, pois este preto-velho não faz julgamento de valor! Só estou tentando explicar para a filha que a ilusão obscurece o bom senso.
− Ilusão? Como assim?
− Só um instantinho minha filha!
A entidade solicitou que seu cambone lhe trouxesse água gelada. Somente quando ele retornou foi que Pai Antônio disse a Isabel:
− Filha, por caridade, estique sua mão direita e diga se este líquido está quente ou frio.
A entidade derramou um pouco de água mineral, que estava em temperatura ambiente, na mão dela que respondeu-lhe:
− Nem quente, nem fria: está em temperatura ambiente!
− Continue com sua mão esticada.
Pai Antônio derramou a água gelada, que seu cambone trouxera, na destra de sua consulente que falou-lhe:
− Este líquido está gelado!
− Permaneça com sua mão esticada!
O preto-velho tornou a derramar a água mineral em temperatura ambiente na mão de Isabel que disse:
− Esta água está quente!
− Suncê viu de onde nêgo tirou esta água que suncê falou que estava quente?
− Vi sim senhor. O senhor a tirou da garrafa de água mineral!
− E como a mesma água que suncê respondeu que estava em temperatura ambiente, de repente ficou quente?
− É que a água que o senhor jogou na minha mão antes dela estava muito gelada.
− Muito bem minha filha! Suncê é muito sabida! Percebe o que a ilusão dos sentidos pode fazer com seu julgamento? Seu pensamento? Seu sentimento?
− Não totalmente.
− Não se preocupe minha filha! Continue a prosear com este velho que Deus, em sua infinita misericórdia, há de fazê-la compreender certas coisas!
− Vovô eu não consigo mais ver sentido em ficar aqui: o senhor sabe que minha filha, que assim como eu era médium desta casa, acabou de desencarnar fulminantemente por conta de uma enfermidade que ninguém pôde diagnosticar a tempo de salvá-la.
− Salvá-la de que zifia?
− Da morte!
− Mas não existe morte zifia: só existe vida, ainda que em outro plano da existência!
− Nenhuma entidade contou nada para mim ou para ela que só foi saber da doença quando passou mal e os médicos a diagnosticaram como enferma após realização de vários exames.
− Suncê se sentiu traída por nós, minha filha?
− Vocês sabiam da doença?
− Sim minha filha!
− Então, eu me senti traída, porque vocês não me alertaram!
− Filha, e de que adiantaria nosso alerta se a doença começara a se desenvolver em sua filha há dez meses? Se a situação da saúde de sua filha era irreversível há cinco meses e se vocês entraram para corrente mediúnica do terreiro há três meses?
− Mas vocês poderiam ter nos alertado, nos preparado!
− Preparar? Desculpe a franqueza zifia, mas a preparação, a ser realizada com sabedoria e humildade, para a verdade imutável que é o desencarne deve acontecer todo dia e a todo o momento, pois só Deus sabe a hora de cada um.
− Eu vou sair por que acho que vocês podiam ter nos preparado!
− Filha há muito tempo, quando suncê tinha dezesseis anos, seu pai faleceu da mesma moléstia que sua filha apresentou!
− É verdade.
− Seu pai lutou contra a moléstia por quase treze meses!
− Isto também é verdade!
− E foi justamente durante estes treze meses que suncê, somatizando todo o sofrimento pela condição de saúde de seu paizinho, desenvolveu uma úlcera gástrica que tanto lhe incomoda até os dias de hoje!
− É verdade!
− Agora minha filha, abrindo seu coração com honestidade, responda:
− Em que lhe ajudou saber sobre a doença do seu pai à época em que ele estava doente?
− Acho que começo a entender o senhor!
− Zifia Isabel, este nêgo véio fala a suncê que nós, que suncês chamam de entidades, não somos advinhos! Somos falangeiros que militam pela Lei Maior e pela Justiça Divina!
− Eu entendo.
− Para Deus o bem maior está acima das individualidades dos seus humanos filhos e foi por isso que ao mundo Ele enviou Jesus.
Isabel chorou sentidamente ao lembrar-se do sofrimento a que Jesus fora submetido quando encarnado e reconheceu que o sofrimento de sua filha nada foi em comparação ao dele.
Pai Antônio esperou o estado emocional de Isabel tornar a normalidade e disse-lhe:
− Nêgo-velho gostou da sinceridade do seu coração, mas aqui no dia de hoje nós não estamos trabalhando o sofrimento de sua filha; até mesmo porque ela não sofre mais onde se encontra, já que está disposta em repouso e recebendo tratamento adequado para que venha a despertar em momento oportuno!
− Verdade?
− Sim zifia! No dia de hoje trabalhamos o seu sofrimento!
− É vovô! Cada um com seu karma!
− Filha karma não é sofrimento: é libertação!
− Como assim?
− Karma, zifia Isabel, é ter humildade de clamar sabedoria a Deus diante dos desafios que são apresentados na vida de cada um, pois uma vez aprendido o ensinamento, com fé e resignação, evolui-se  em direção a Deus-Nosso-Pai!
− Como assim?
− A vida é um karma não pelos sofrimentos que surgem na jornada, mas pela possibilidade de libertação que proporciona se tivermos sabedoria para vencer os desafios no caminho.
− Creio que entendi! A morte de um ente querido é um desafio natural da existência humana. O karma não é sofrer com a perda, uma vez que o sofrimento é natural nesses casos, mas sim alcançar a liberdade incondicional ao vencermos tal desafio.
− Filha tempos atrás suncê contou que a entidade que lhe assiste nas incorporações, o Caboclo Araribóia, apareceu duas vezes em sonho para você e pedia-lhe que continuasse a andar numa estrada, não é verdade?
− Isto vovô! Ele aparecia e me mostrava uma estrada em que eu devia voltar a caminhar!
− Pois então zifia saiba que tal estrada não é necessariamente este terreiro, mas sim a Umbanda Sagrada!
− Verdade?
− Certamente zifia! Se suncê quiser sair do terreiro as portas vão estar abertas assim como se encontravam quando você por elas adentrou neste terreiro pela primeira vez. O importante na sua vida não é o terreiro zifia, seja ele qual for, o importante é a Umbanda!
− Isto é verdade mesmo Pai Antônio porque antes de entrar neste terreiro há três meses, eu fiquei cinco anos afastada da umbanda.
− Nêgo velho entende zifia! Foi quando seu esposo faleceu, não foi?
− Foi isto mesmo vovô!
− Após vinte e cinco anos de casados o seu esposo desencarnou pelo câncer e você, como forma de homenagear o amor que sempre houve entre vocês, decidiu prestar trabalho voluntário em alas hospitalares onde se encontram crianças que possuem câncer, não é verdade?
− Como o senhor sabe disto vovô? Eu nunca contei para ninguém!
− Foi o Caboclo Araribóia zifia!
− Ah é? E porque vovô?
− Por que para Deus o bem maior está acima da individualidade do ser humano.
− Como assim? O senhor poderia explicar?
− Filha o câncer em sua história familiar não é sofrimento apenas: é karma! Possibilidade de libertação em direção a Deus!
− Isto eu estou entendendo!
− Karma é cumprimento da Lei Maior e da Justiça Divina na vida de suas humanas criaturas! Quando estas se envolvem consistentemente em labores caritativos o Pai envia sua Misericórdia como um bálsamo na vida na vida destes Seus filhos.
− Entendo!
− O teu trabalho voluntário em favor das criancinhas fez com que você recebesse a oportunidade de ter a tua filha tratada e assistida pelos médicos do astral a fim de que viesse a ter um desencarne sereno e indolor!
− Meu Deus eu jamais poderá imaginar!
− Posso lhe dizer ainda mais zifia: sabendo que você somatiza com muita facilidade o sofrimento dos que lhe são muito próximos, foi que o Caboclo Araribóia providenciou formas para lhe resgatar de volta para a Umbanda, como um modo de evitar que isto ocorresse!
− Meu Pai Deus é muito bom!
− Até mesmo por que se isto ocorresse as crianças assistidas por você voluntariamente ficariam sem ter como receber o lenitivo que você mais consegue lhes proporcionar: o sorriso!
Dona Isabel chorava copiosamente a cada vez que dizia:
− Deus é bom! Obrigada meu Deus! Obrigada!
Pai Antônio aguardou sua consulente serenar as emoções e, para encerrar aquele atendimento, disse-lhe:
− Foi o que este preto-velho lhe disse zifia: Para Deus o bem maior está acima das individualidades dos seus humanos filhos, mas a misericórdia Dele é, de fato, infinita!Suncê não está sozinha minha filha, nunca se esqueça disto! Vá com a força e a luz de Deus-Nosso-Pai!








domingo, 10 de março de 2013

NA OUTRA MARGEM DO RIO





 Séculos e séculos atrás, em território norte-americano próximo ao rio Colorado, viveu um povo de pele vermelha que precedeu a tribo dos Navajos.
Recordo que o inverno preparava-se para encerrar suas atividades e a neve despedia-se do solo e das formações rochosas quando escutei pela primeira vez a história que lhes apresento a seguir. Este povo não veste mais a roupa da carne, o clima e a Mãe-terra também não se encontram da mesma forma de quando eles andaram entre nós. Muita coisa mudou e outras tantas ainda estão para se modificar em meio ao desenvolvimento cíclico com que o Grande Espírito*(Deus) designou para aprimoramento de sua criação e criaturas. Esta história inicia-se com o chefe Pedra-roxa chamando ao seu pupilo para dar início ao aprendizado de uma nova atribuição:



“− Venha filho, pois hoje será o primeiro dia de sua preparação para tornar-se um atravessador. Você ficará aos cuidados de um dos nossos mais experientes atravessadores: o irmão Pedra Branca.
− O grande chefe Pedra Branca?!? Será uma honra!
− Não filho, de inicio é só trabalho mesmo! Se você o desempenhar corretamente teu próprio trabalho será tua honra!
Ao entregar o aprendiz para o atravessador o chefe Pedra Roxa tornou às suas obrigações.
− Chefe Pedra Branca como devo proceder no aprendizado de hoje?
− Sente-se e observe como é o trabalho, as dúvidas serão esclarecidas posteriormente.
− Sim grande chefe, mas...
− Diga!
− É que eu tenho uma dúvida.
− Diga!
− É que entendo a importância da presença do atravessador na Grande Travessia*(desencarne), pois bem poucos estão em condições de realizá-la sozinhos ao deixarem o corpo de carne, mas acredito que o mesmo não acontece na travessia a que serei iniciado a partir de hoje, que é justamente na direção oposta.
− Antes de entender a importância você primeiro tem que entender a necessidade.
− Como assim?
− Observando filho! Sente-se e observe como é a travessia no Grande Rio da Vida!
O chefe entrou no rio e solicitou que a primeira alma a passar para a outra margem fizesse o mesmo.
Quando a jovem pele vermelha entrou o rio, que estava calmo tornou-se tormentoso devido a uma forte e inexplicável correnteza que de repente se formou.
A jovem receou em prosseguir e intencionou retornar, mas o chefe estendeu-lhe a destra com segurança tão intensa que ela seguiu adiante.
As águas estavam real e terrivelmente caudalosas e o aprendiz não entendia como a correnteza não os carregava rio abaixo.
Quando estavam exatamente na metade do rio o grande chefe pediu que ela fechasse os olhos. Confiando na segurança daquele ser ela assim o fez. O chefe a segurava pelo braço esquerdo e levantou o direito aos céus.
Realizou profunda oração, mas o aprendiz observou que o rio continuava caudaloso. Então, de uma só vez, o chefe desceu o braço direito e o mergulhou nas águas. Pegou um pouco da água com a mão, ergueu aos céus mais uma vez e derramou seu conteúdo na cabeça da jovem.
Neste instante, como se fosse mágica, o rio tornou a ficar calmo e o chefe Pedra Branca terminou a travessia da jovem até a outra margem.
Retornando a margem da Grande Pátria*( plano espiritual ) o chefe perguntou ao pupilo:
−  Esta começando a entender sobre necessidade?
− Sobre a necessidade acho que sim, mas estou com muitas dúvidas.
− Acalme-se filho, pois ainda tenho mais uma travessia a realizar. Depois conversaremos.
−Sim senhor!
O chefe Pedra Branca solicitou que a outra alma a ser atravessada entrasse no rio e um jovem pele-vermelha assim o fez. O rio tornou-se caudaloso, mas nem tanto como ocorrera na travessia da jovem. O chefe realizou os mesmos procedimentos que fizera com a jovem, atravessou-o e tornou a margem da Grande Pátria para conversar com seu pupilo.
− Grande chefe eu posso falar?
− Estou aqui só para te escutar filho!
− Chefe por que as águas do Grande Rio da Vida ficam tormentosas quando as almas a serem atravessadas nelas adentram?
− Filho, uma existência humana não deve ser pautada pelo erro, mas pelo acerto. Um erro só tem valor, se for servir como guia ao caminho do acerto, se não é só um erro. É muito importante que o ser humano procure sempre o caminho do acerto, mas acontece que na outra margem do Grande Rio da Vida, não é nada fácil o homem encarnado acertar o caminho da paz, do amor, da solidariedade e da alegria.
− Por que chefe?
− Por que quando o homem está na carne lembra muito de comer bem, vestir bem, morar bem, andar bem e aparentar estar bem, mas se esquece que a vida plena está aqui: na Grande Pátria!
− Bem me recordo disto!
− E para comer bem, vestir bem, morar bem e andar bem eles geralmente olvidam os valores do espírito e, assim, cometem os primeiros erros. Se não se corrigem e se espiritualizam voltam a cometer erros, mas não se engane: os erros que se seguem são apenas para justificar o primeiro! Assim ocorre desde que o Grande Espírito colocou o homem para andar sobre a Mãe-terra.
− Acho que começo a entender Grande chefe: quanto maior for a significação de um erro ou dos erros cometidos por uma alma que fará a travessia para a carne, mais tormentosa torna-se a água do rio.
− Muito bom aprendiz! Fico satisfeito por seu entendimento!
− Na verdade acho que não sou nem eu. O senhor explica com tanta paciência que tudo parece mais fácil de ser entendido!
− Pode não parecer aprendiz, mas tudo que hoje digo já está aí dentro de você. Só estou, aos poucos, reavivando sua memória!
− É mesmo? E para que?
− Para você recordar daquilo que é e sempre foi: um atravessador!
− Eu?!?
− Sim! Por que o espanto? Uma fruta será sempre uma fruta, um animal  será sempre um animal e um atravessador será sempre um atravessador!
− Não recordo de já haver sido um atravessador!
− Então, responda-me àquilo que somente um atravessador pode saber!
− Mas não sou atravess...
− Responda-me filho!
− Mas o senhor nem fez a pergunta!
− Responda-me!
− Na realidade eu tenho é uma dúvida a solucionar, pois se as águas do Grande Rio da Vida ficam tormentosas pela significação que as almas a fazerem a travessia dão aos erros praticados quando estavam na carne, como tornam a ficarem serenas?
− Responda-me e a si próprio, pois a resposta está dentro de você!
− Então era essa a pergunta que o senhor queria que eu respondesse? Àquela que só um atravessador sabe a resposta?
− Pergunte-se como você poderia saber da pergunta a que eu estava solicitando que você respondesse se eu mesmo nem não a fiz!
− Coincidência não pode ser.
− Nem tem como, pois àquele que já foi considerado por seu povo como sábio líder espiritual não tem que acreditar em coincidências!
A memória do pupilo voltou no tempo em que havia sido líder espiritual de seu povo. Recordou-se de seus atributos e atribuições àquela época e, sem conseguir explicar o porquê, focou nos procedimentos de cura. Assim, resgatou em suas lembranças os mais variados tipos de rituais de cura e lembrou de um complexo, mas que se finalizava de forma simples: dentro de um rio.
Neste instante ele abriu os olhos e viu o Chefe Pedra Branca sentado, de olhos fechados e com discreto sorriso nos lábios. Estranhamente ele entendeu que o Grande Chefe compartilhava de seus pensamentos.
Tornou a fechar os olhos e voltou a lembrar do ritual complexo que se finalizava no rio: após todos os procedimentos realizados com barro, água de rio, cânticos, rezas, encantamentos e defumações que duravam semanas e ás vezes meses, o membro da tribo já curado de seu estado vegetativo, era levado até o rio onde fora colhida a água para trabalhar o barro.
Primeiramente o líder espiritual entrava até a metade do rio e após chamava aquele que recebera tratamento. Após as últimas rezas o líder jogava o barro trabalhado na direção da correnteza do rio para que o mal fosse diluído e a saúde, principalmente mental, emocional e espiritual, fosse renovada na vida do enfermo.
Por último, e talvez o ritual mais importante, o líder espiritual conversava com o enfermo sobre os comportamentos, pensamentos e sentimentos que o levaram àquele deplorável estado de saúde e tornava a perguntar se, enquanto vivesse, ele seria um guerreiro que lutaria para combatê-los dentro de si.
Diante da resposta positiva o líder levantava a destra aos céus e pedia ao grande Espírito que a imantasse com a energia renovadora. Após, e de uma só vez, descia a mão para dentro do rio para também entronizá-la com a energia renovadora das águas.
Com a destra em forma de concha ele colhia a água e tornava a levantá-la aos céus para só depois derrama-la na cabeça do enfermo. Recordou-se que este ritual significava que o enfermo estava deixando não só a sua moléstia, mas também os comportamentos, emoções e pensamentos que a provocaram serem levados pela correnteza do rio. A partir daquele momento o enfermo tornava-se um novo ser, uma nova criatura.
Tornou a abrir os olhos e viu o grande chefe Pedra Branca já de pé e visivelmente emocionado diante dele. Este disse-lhe;    
− Parabéns!
− Por que Grande chefe?
− Por responder-me e, desta forma, começar a recordar-se que, de fato, é aquilo que nunca deixou de ser: um atravessador!
− Acredito que ainda não entendi completamente, mas se este é o começo imagine até o final!
− Um passo de cada vez atravessador-aprendiz, mas agora me responda: em seus tempos de líder espiritual qual sentimento você observava como o maior responsável pelo aparecimento de enfermidades nos membros da tribo? Aquele que se desenvolve silenciosamente?
− Deixe-me ver: o ódio é terrível, mas nada silencioso, com a tristeza sucede a mesma coisa...
− Reflita meu pupilo! Reflita!!!
− Creio que o maior agente de enfermidades na tribo era o neto do orgulho e do egoísmo: o remorso.
− E quais são os pais do remorso, meu aprendiz?
− A culpa e o arrependimento.
− Quando você realizava o ritual no rio, em benefício de um enfermo, notava a imediata mudança de padrão vibracional na vida dele?
− Não. A conquista era gradual desde que a batalha do homem consigo mesmo fosse constante.
− E qual atitude era grande facilitadora da cura?
− O Grande Espírito trabalhou e fez a grande Mãe-terra para nela dispor suas criaturas. Estas trabalham para a sobrevivência de toda a coletividade. Assim deve ser com a criatura humana também filha Dele: ela também deve trabalhar para o sustento e sobrevivência de toda sua coletividade. Trabalho chefe Pedra Branca: quem trabalha não só fisicamente, mas também mental e emocionalmente, tem grandes chances de curar-se do remorso. O trabalho é a resposta: principalmente em favor do outro.
− Muito bom aprendiz-atravessador! Agora percebo germinar em você as condições necessárias para entender o significado do porque das águas do Grande Rio da Vida tornarem ao seu estado natural após o atravessador usá-las para banhar a cabeça da alma que fará a travessia para a carne.   
− Fico grato por sua consideração.
− Quando o atravessador convida uma alma que fará a travessia para a carne a adentrar o Grande Rio da Vida, esta o faz trazendo entre a fé e a esperança de sucesso na nova jornada, o sentimento do medo e do remorso.
− Estou entendendo.
− O atravessador ergue a destra aos céus e clama ao Grande Espírito a imantação dela com energia renovadora, depois a mergulha no rio para entronizá-la com a energia renovadora das águas.
− A água colhida com a destra neste instante já é uma água encantada e encanta a alma que tem a sua cabeça molhada por ela com a benção do esquecimento das existências pretéritas que ela apresentar. Renovar não é criar do zero, mas tornar novo outra vez e isto só é possível com o esquecimento das existências vivenciadas na carne preteritamente.
− Fantástico!
− Como a turbulência da água no rio é causada basicamente pelo medo e pelo remorso, trazidos principalmente pelas lembranças das existências passadas, e como estas são apagadas antes do fim da travessia a turbulência cessa, uma vez que sua causa é eliminada.
− Impressionante! E o que acontece com a alma quando consegue realizar a viagem para a carne?
− Não sei!
− Não sabe? Mas o senhor é um atravessador!
− Exatamente. Assim como você já o foi e tornará a ser: um atravessador! Aquele que atravessa!
− Como assim chefe?
− Quem traz as almas até a margem do Grande Rio da Vida que ladeia nossa terra espiritual para que sejam atravessadas a outra margem são os Grandes Chefes Encaminhadores; quem as recebe na margem que ladeia a terra dos seres de carne, são os Grandes Chefes Concebedores, você já viu tanto a uns quanto a outros?
− Não senhor!
− Já se perguntou por quê?
− Por que sou um atravessador e esta é minha função: atravessar!
− Você aprende rápido jovem aprendiz atravessador! Em breve será um laborioso servidor da Mãe-terra! Aliás, assim como o é todo atravessador: um filho do Grande Espírito e servidor do elemento terra.
O ensinamento terminou, mas o aprendiz solicitou ao grande chefe Pedra Branca que lhe permitisse alguns instantes de reflexão, à beira do rio, sobre a lição aprendida.
Com o consentimento do Chefe o aprendiz sentou-se à beira do Grande Rio da Vida. Enquanto isto, na contraparte física daquele plano etérico e na margem oposta, um índio pele-vermelha encarnado e que acabara de receber sua primeira iniciação para tornar-se futuramente líder espiritual de sua tribo refletia sobre os ensinamentos aprendidos, mas sem conseguir deixar de pensar sobre o que de fato existia lá: na outra margem do rio.”
 

  

 Eu, assim como alguns outros de minha tribo,fui este índio encarnado e devo esclarecer que não entendi muito bem quando escutei tal história pela primeira vez e que me foi narrada como forma de fixar os ensinamentos aprendidos pelo líder espiritual da tribo a que pertencia. Somente a prática e o passar das luas foi que me trouxeram esclarecimento. Passo-a para vocês para que também se tornem atravessadores:
Vocês que têm ódio atravessem o rio do perdão e passem para a margem do amor, vocês que estão aflitos atravessem o rio da paz e encontrem a mansuetude na outra margem, vocês que estão tristes atravessem o rio da alegria e alcancem a margem da felicidade, vocês que estão descrentes atravessem o rio da esperança e cheguem a margem da fé.
 Vocês não precisam de iniciação para realizar tal tarefa, apenas de boa-vontade. Nós precisamos de vocês! Precisamos que vençam seus medos e limitações na tarefa de auxiliar ao próximo e atravessem o rio da sinceridade para alcançarem a confiança. O mundo passa por um grande processo de transformação energética, eletromagnética, psíquica e vibratória e necessitamos que confiem no Grande Espírito e tornem-se atravessadores de si mesmos para que tenham paz de espírito e, assim, alcancem condições de auxiliar ao próximo da melhor forma possível.
Façam isto e, com a permissão do Grande Espírito, nós teremos a honra de os atravessarem quando chegarem vossos momentos de realizar a Grande Travessia no Grande Rio da Vida.

Ao trabalho aprendizes!!!!



Mensagem do Chefe Águia Branca

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Sr Exu e a fé






− Desculpe-me irmão, mas ainda não consegui entender a questão relacionada à fé que você vem tentando esclarecer para mim!
− Acompanhe-me!
E, levando-o pelo braço, transportou-o até o interior de uma gruta absolutamente escura, perguntando-o:
− Onde estamos?
− Parece uma gruta.
− Aqui está claro ou escuro?
− Mas a resposta é obvia!
− Ela está clara ou escura!
− Escura. Totalmente escura!
− Então, você está dizendo para mim que aqui dentro só existe escuridão?
− Aos meus olhos sim!
− E aos seus sentimentos?
− Como?
− Tuas sensações companheiro! Você sente que este local está escuro?
− Não sei!
− Onde estamos existe água?
− Sim! Não posso ver, mas escuto o gotejar de gotas de água numa espécie de lago.
− Onde estamos existe morcegos?
− Pelo leve odor de guano acredito que sim.
− Nós dois estamos sozinhos neste local?
− Não! Sinto a presença de dois seres guardando a entrada da gruta.
− O que mais você consegue sentir?
− Sinto que dentro do lago existe a presença de seres femininos.
− Muito bem agora abra os seus olhos!
− Como você sabe que eles estão fechados?
− Abra-os companheiro!
Ele abriu os olhos e a caverna iluminou-se por completo.
− Como isto pode ser possível?
− E agora companheiro? Esta gruta está clara ou escura?
− Está clara!
− Tem certeza?
− Certamente! Posso até mesmo enxergar o lago que lhe falei antes!
− E os seres femininos?
− Não consigo vê-los ali dentro, mas sinto que continuam no mesmo local.
− E os guardiões da gruta?
− A mesma coisa!
− Então, você está vendo ou não está vendo? Esta gruta está clara ou escura? Ah!ah!ah!ah!ah!ah!ah!ah!ah!ah!ah!ah!ah!
Aquela risada arrepiou-lhe até a alma.
−Responda-me companheiro! A caverna está clara ou totalmente escura?
− Sinceramente? Não sei de mais nada!
− Mas isto é bom cabra! Desconstruir falsas certezas, transmutar vãs sabedorias: tudo isto é muito bom! Mas, então devo perguntar: esta gruta não lhe parece simultaneamente clara e escura?
− Penso que sim, pois antes na aparente escuridão eu conseguia sentir os seres femininos e os guardiões de tal forma que, praticamente, eu poderia dizer que conseguia enxergá-los, mas agora neste clarão eu não os vejo mais!
− Neste clarão o que você consegue ver?
Ele fechou os olhos por alguns instantes, depois os abriu e disse:
− Existem três espíritos de luz aqui dentro e que antes, na escuridão, não conseguia ver. 
− Nesta claridade companheiro, aqui neste campo de forças da natureza, você consegue enxergar os espíritos divinos da criação que trabalham na luz.
− Sei.
− Na escuridão, por sua vez o que você conseguiu ver são espíritos divinos da criação que trabalham nas trevas. Luz e trevas, cabra, são as duas faces do Criador; não há monte mais alto ou vale mais profundo que possa escapar da Sua santa presença.
− Este aqui é um ponto de força natural que serve como campo de atuação para os seres da esquerda, não é isto?
− Sim, e por isto na escuridão você pôde observar mais riquezas de detalhes neste espaço.
− Compreendo!
−Quando a noite chega o sol não desaparece do orbe terrestre: ele está no firmamento celeste apenas cedendo sua vez para que a lua e as estrelas também venham a brilhar. No amanhecer do dia a lua e as estrelas também não desaparecem, apenas cedem o seu brilho para o reinar do sol.
− Agora entendo o que diz, mas o que isto tem a ver com a questão da fé?
− Tudo companheiro! Dentro de você, também criatura divina, existe luz e trevas! Fé é deixar sua luz clarear as trevas, mas também é entender  que suas trevas também são instrumento para que possas alcançar a luz.
− Sei.
− Deus é único, mas o ser humano é dual, e se dentro do ser humano há luz e treva é porque o Divino Criador considerou tal condição como a mais adequada para a evolução espiritual de suas criaturas.
− Entendo.
−  Assim, um ser humano não deve julgar a treva de outro ser humano por que dentro do “juiz” também há treva. Da mesma forma, um ser humano não deve julgar a sua luz própria como mais luminosa, por que dentro de seus irmãos de jornada também existe esta mesma luz divina. Esta luz é única a cada criatura, mas também indiferenciada.
− Fé, cabra, é saber que dentro de tu há luz e trevas, mas que tanto na treva quanto na luz há a presença de Deus! Sendo assim, cabra, fé é querer ser “apenas” mais um! Fazer brilhar vossa luz divina e combater tua escuridão interior não lhe torna melhor do que ninguém, pois tal é o dever da criatura humana.
− Compreendo.
− Mas fazê-lo e, de forma altruísta, auxiliar teus irmãos mais necessitados a fazerem brilhar a luz divina afugentando as trevas das drogas, do ódio, da indiferença, do preconceito, da injustiça, do egoísmo, do orgulho e do desamor, isto sim é ser umbandista! É ter consciência da qualidade e não da quantidade!
− Sei.
− As almas que você auxiliar a brilhar, trarão brilho a sua: o brilho do merecimento.
− Entendo.
− A fé também é isto companheiro: acreditar no “nós” tanto quanto no “eu”!
− Entendo.
− Você veio até mim querendo saber quais procedimentos deveria realizar para, aos olhos de Deus, ser um autêntico umbandista filho de fé!
− É verdade! Foi isto mesmo!
− Acontece que só o saber não leva a nada se não houver a prática, e é isto que espero de ti: pratique com disciplina militar! Pratique, pratique e pratique! Queira sempre ser “apenas” mais um, mas com humildade e abnegação, busque fazer a diferença na vida dos mais necessitados e, assim, faça brilhar a vossa luz; por que Umbanda, cabra, é ser um na banda: Umbanda!!
− Entendas que tu não és melhor do que ninguém, mas não esqueças que ninguém também lhe é superior. Quantidade somente em números é só quantidade, mas quantidade em amor é caridade. Não te assoberbes da tua luz ou cairás na escuridão, mas não te envergonhes de tua escuridão para que venhas a alcançar a luz. Não seja sempre você mesmo por que tu não te bastas e porque a mesmice é o lodo da ignorância.
− Transmutação companheiro: transmute teu medo e alcance a fé, mas a vivencie e pratique para que sejas sempre um filho de fé.
− Que assim seja sr. exu!!!

Mensagem do Sr. Exu do Lodo.





sexta-feira, 20 de abril de 2012

CARIDADE É AÇÃO




Reginaldo era um promissor advogado trabalhista que praticava a caridade em um centro de umbanda como cambone há onze meses, entretanto aquela gira estava sendo a primeira oportunidade dele cambonar um preto-velho conhecido como Pai Antônio.
No final da reunião, quando estava defronte ao gongá e prestes a desincorporar de seu médium, a entidade amiga disse a Reginaldo:
− Filho. Não é falando e nem perguntando, mas sim dando que recebe. Nêgo agradece por todo seu auxilio ao próximo através dos trabalhos nesta casa de caridade. Que Deus dê em dobro na sua vida por toda boa ação praticada! Fique na força e na luz de Deus Nosso Pai!
− Que assim seja!
No final de semana seguinte podemos encontrar Reginaldo cambonando a mesma entidade em mais uma gira de umbanda. Ele não entendera claramente qual a mensagem que Pai Antônio quis lhe passar no fim da última reunião e, meio sem jeito, disse a ele:
− Vovô, eu poderia perguntar uma coisa?
− Claro zifio, os trabalhos ainda estão longe de começar!
− É que gostaria de entender melhor o motivo do senhor ter me falado na última gira que não é falando e nem perguntando, mas sim dando que se recebe.
− Filho, faz quanto tempo que suncê botou o branco?
− Quase um ano!
− Na gira passada foi quando te vi mais concentrado neste terreiro, sem o pensamento fixo em suas dificuldades particulares, mas sim em auxiliar e aliviar o sofrimento do próximo. Eu até que tinha algumas coisas a falar com suncê, mas suncê estava tão formoso que não foi preciso!
− Estou entendendo vovô. De fato eu costumo mesmo ficar perguntando as coisas para as entidades durante as giras.
− Então deixa Nêgo velho explicar melhor por que suncê ainda não está entendendo!
− Não?
− Não zifio! As dúvidas foram feitas para serem esclarecidas na medida do entendimento e do merecimento daquele que pergunta. Entenda meu filho, que é felicidade muito grande quando este Nêgo pode contribuir no esclarecimento das dúvidas e questionamentos de suncês médiuns, mas um terreiro de umbanda é prioritariamente um hospital.
− Como?
− Um hospital zifio! Um hospital para os que aqui vêm buscar ajuda, para o corpo mediúnico e mesmo para nós, que suncês chamam de entidades. Em um hospital deve-se buscar prioritariamente a cura, já em uma escola a prioridade é a promoção do conhecimento.
− A assistência está em primeiro lugar não é vovô?
− O enfermo está em primeiro lugar zifio e às vezes quem está dodói são suncês mesmos: os cavalinhos de umbanda, já em outras são os filhos da assistência. Quando a enfermidade está companheira de suncês a prioridade de atendimento deve ser para suncês, quando o enfermo é um assistido da casa a prioridade do atendimento deve ser fornecida a ele e não aos problemas pessoais dos cavalinhos, pois numa gira de umbanda atende-se primeiro o que é mais urgente.
− Uma casa de umbanda, zifio Reginaldo, é uma casa de oração. O silêncio respeitoso, que vibra prece e amor ao próximo, deve ser prática constante. A firmeza na vibração harmônica dos pontos cantados deve ser realizada sempre que solicitada, mas sem gritos estridentes.
− É verdade vovô!
− Se as pessoas não quiserem ser reconhecidas como excêntricas ou inadequadas devem saber se comportar em adequação ao local e as regras de onde se encontram. Suncê já pensou se dentro das escolas os professores falassem palavrões com seus alunos? Ou se os funcionários de uma instituição bancária só trabalhassem quando sentissem vontade? Ou, ainda, se um estudante de direito, muito tímido e sem oratória, não corresse atrás de meios que o fizesse vencer suas limitações, haveria possibilidades deste ser um advogado tão promissor?
− O senhor está falando de mim, não é vovô?
− Suncê foi um estudante tímido entre milhares que existem no planeta. Nêgo velho está falando de forma geral e suncê se identificou com um dos meus exemplos, por tê-lo vivenciado mais intimamente.
− Entendi.
− Conta pra Nêgo zifio: existe forma de um advogado ganhar o seu pão de cada dia e crescer na carreira se não for de falar e nem perguntar nada as pessoas? Se não desenvolver sua capacidade argumentativa? Se não souber escrever direito ao fazer suas petições?
− Seria praticamente impossível vovô!
− Nêgo véio sabe disto meu filho!
− Como Pai Antônio, o senhor foi advogado em alguma encarnação passada?
− Não zifio, mas é por que nós, entidades, temos um advogado a trabalhar por nós!
Espantado com a revelação Reginaldo perguntou:
− Os senhores têm um advogado? Mas por quê?
− Precisa ficar espantado não zifio, pois Nêgo explica. De forma geral, o advogado não é um intercessor entre o cliente e uma autoridade, um juiz?
− Sim.
− Pois então zifio, quando nós vemos que um cavalinho de umbanda está fraquejando na fé recorremos a este advogado, quando um cavalinho está com dificuldades para engravidar a ponto de estremecer o sagrado matrimônio também é a ele que recorremos, assim como em muitos outros casos.
− E o que este advogado faz, o senhor poderia esclarecer?
− Posso sim meu filho, o advogado leva o nosso pedido até o juiz e este, por meio da análise do merecimento despacha uma sentença que é direcionada a uma ou mais das sete linhas de umbanda.
− Nossa que interessante todo este trâmite jurídico-religioso! Mas de que merecimento o senhor está falando?
− Do merecimento marcado na ficha cármica do encarnado em questão, mas como este Nêgo véio estava dizendo, quando a sentença chega à linha ou linhas de umbanda o Trono ou os Tronos que as regem se encarregam do cumprimento desta sentença juntamente com os espíritos e entidades que estão ligadas ao encarnado em questão.
−Pai Antônio se o juiz determinar que a moça citada como exemplo pelo senhor não deve engravidar nesta encarnação, isto significa uma decisão em última instância?
− Filho, o grande apóstolo Pedro ensinou: “ o amor cobre uma multidão de pecados”. Este preto-velho só complementa: a caridade também!
− E em quanto tempo o encarnado tem atendido o seu pedido, se a sentença do juiz lhe for favorável?
− O tempo do merecimento de cada um zifio, pois só o tempo é o senhor da razão.
− É verdade vovô, mas....
− Pode perguntar meu filho!
− Eu estou percebendo que o senhor está falando por meio de parábolas em que o juiz é Deus e os Tronos são os Orixás, mas ainda não consegui descobrir quem é este advogado, o senhor poderia esclarecer?
− Posso sim zifio é Jesus, mestre, irmão, amigo e maior advogado do mundo.
Reginaldo vibrou emoção e disse:
− É verdade mesmo, não é Pai Antônio? Não esqueço nunca de como, com pouquíssimas palavras e vasto amor no coração, conseguiu interceder pela mulher adúltera livrando-a de morte por apedrejamento.
− Zifio?
− Pode falar vovô!
− Não precisa ficar acanhado não! Faça a última pergunta que suncê está ai matutando pra este Nêgo véio!
− Bem vovô eu só gostaria de saber o que o senhor disse que gostaria de conversar comigo na última gira, seria possível?
− Claro zifio! Na última gira suncê observou que tinha três cavalinhos querendo conversar com Nêgo, não é?
− Isto, exatamente.
− Então zifio, Nêgo véio só ia pedir a suncê pra deixar nóis conversar primeiro com aqueles três filhos que estavam muito esculhambados antes de prosear com suncê, mas graças a Deus não foi necessário, pois suncê sentiu tal necessidade com o tamanho da generosidade do seu coração.
Reginado segurou a emoção para responder a entidade:
− Somente o senhor vovô para fazer com que eu me sinta um ser humano melhor do que realmente sou.
− Somente Deus meu filho! Somente sua fé em Deus para fazê-lo endereçar seus pedidos prioritariamente a Ele antes de qualquer entidade. E como suncê percebeu na última gira que não haveria tempo hábil para conversar com este Nêgo sobre as dificuldades de relacionamento com seu filho adolescente, suncê acabou por endereçar seus pedidos tão somente a Ele.
− É verdade. Não sei como o senhor poderia saber disto, mas é verdade!
− Suncê observou como o relacionamento de suncês melhorou na última semana?
− Era o que eu mais queria vovô!
− E suncê nem precisou falar com este Nêgo, nem precisou pedir, só precisou usar a caridade e ceder a sua vez para outros mais necessitados conversarem com este véio e foi neste instante que Zambi abençoou suncê meu filho, pois como reza ditado famoso entre suncês encarnados: “ Uma ação vale mais do que mil palavras”!





Mensagem recebida por Pedro Rangel