domingo, 17 de maio de 2009

A CONDIÇÃO ANÍMICA

Fazia frio naquela noite de inverno em que eu fora convidado, em espírito, a aprender mais um pouquinho sobre a misericórdia divina.
Fora uma belíssima mulher de meia idade quem fizera-me o convite fraterno: tinha os traços orientais; cabelos longos, negros e sedosos; a pele era de um moreno bem claro e as suas vestes assemelhavam-se com as de alguma antiga sacerdotisa do império Maia; a região do coração dela, por sua vez, irradiava uma brilhante e tranqüilizante luz violeta e eu, sem conter a admiração, disse a ela:
— Deus do céu, eu estava morrendo de frio!!!Mas, é impressão minha, ou desde que aproximei-me de você minha temperatura está voltando ao normal???
— Não é impressão sua.
— A senhora poderia dizer-me o porquê?
— Até que sim, mas só se você puder explicar por que não fez a ativação para a falange dos preto-velhos que nós lhe intuímos à tarde.
— Nós? Mas eu só estou vendo você, a senhora é uma preta-velha?
— Você não me respondeu!
— Eu não fiz a ativação por que parecia ser apenas uma idéia "da minha cabeça" e não uma determinação espiritual.
— Amigo, da próxima vez que surgir em sua mente a idéia de acender uma vela para a falange dos preto-velhos, faça!
— Mas, e se for só coisa da minha cabeça?
— Amigo, toda prece sincera feita com sentimento e fé sempre traz as bênçãos do Grande Espírito* na vida de quem a fez.
— Como?
— Se, por acaso, fosse uma coisa da sua cabeça, não seria o seu inconsciente pedindo uma prece?
— Sim, mas seria uma coisa vinda de mim mesmo!
— Exatamente, seria um recado do seu espírito expressado por seu inconsciente, ou você acha que seu espírito não pode dizer a você àquilo que você tanto precisa para ter cada vez mais condição de aproximar-se do amor do Grande Espírito Deus?
— Incrível a lógica!!! Nunca havia parado para pensar desta forma!!!
Ela sorriu para mim e eu resolvi dizer-lhe:
— É por isso que eu estava sentindo frio?
— O frio que você estava sentindo era proveniente da energia de dois espíritos desencarnados que estavam a lhe acompanhar desde hoje à tarde.
— Hoje à tarde? Mas eu procurei ficar a tarde inteira com pensamentos elevados!
— E eu sei que isto é verdade!
— Mas então....
— ...onde você esteve hoje a tarde?
— Fui ao banco fazer um depósito.
— Pois então, você trouxe estes dois espíritos do banco para sua casa.
— Mas como se eu não estava sintonizado com eles?
— Amigo você ainda não entendeu?
— Como?
— Todo médium é uma lâmpada!
— Como?
— Companheiro, se você fosse uma destas lâmpadas que existem no plano físico, qual tipo de compainha você gostaria de trazer para perto de si?
— Bem, penso que gostaria de trazer a mim àquelas pessoas que gostam de claridade, pois não atrairia nada que viesse a incomodar-me para perto de mim.
— Não?
— Penso que não!
— Nem mesmo aqueles insetos que são atraídos pela claridade das lâmpadas?
— É verdade!
— Você, enquanto lâmpada, teria como escapar deles?
— Não, a senhora tem razão!!!
— Entenda meu amigo, que a lei das afinidades é verdadeira, divina e justa! Pensamentos do bem atraem espíritos envolvidos com o bem e pensamentos maus atraem espíritos afins a eles.
— Mas eu procurei...
— ...eu sei amigo, sei que procurou ficar com pensamentos elevados.
— Então!
— Mas, em algum momento do dia de hoje, você sentiu tontura, dor de cabeça, indisposição digestiva ou algum mal deste gênero?
— Não!
— Sabe por quê?
— Por que procurei cultivar pensamentos positivos?
— Exatamente! E justamente por você ter procurado cultivar pensamentos desta qualidade no dia de hoje foi que nós direcionamos estes dois espíritos para que notassem a luz da sua lâmpada.
— Minha lâmpada?
— Isto, sua mediunidade! Você levou, sem saber, estes dois espíritos para sua casa por que na rua nós, através de você, não poderíamos fazer nada para ajudá-los.
— Estou entendendo!
— Ao chegar em casa nós lhe intuímos que você fizesse uma ativação para a falange dos preto-velhos, clamando, primeiramente ao Grande Espírito, que eles abrissem um portal de luz e que encaminhassem para dentro dele todo e qualquer espírito necessitado de auxilio nas moléstias de suas almas, não é verdade?
—Sim é verdade!!!
— Mas você, por não perceber a presença destes dois espíritos lhe acompanhando e, consequentemente, por estar sentindo-se bem, julgou mais prático pensar que era "coisa da sua cabeça" e nada fez do que lhe foi determinado.
— Sim é verdade!
— Assim, ao dormir e ter seu espírito desprendido parcialmente do seu corpo físico você trouxe para cá, mesmo sem saber, os dois espíritos que estavam lhe fazendo compainha.
— Meu Deus, então quer dizer que esta é a explicação para o afamado "frio espiritual"?
— Você, mais uma vez, tentando catalogar os fenômenos da criação divina de uma maneira tão rígida, não é meu amigo?
Confesso que corei de vergonha.
— Não precisa ficar encabulado meu amigo, peça apenas e sempre que o Grande Espírito ajude-o a desenvolver a virtude da sabedoria.
— Sim senhora!
— Você perguntou-me o porquê do frio desta noite e foi isto o que lhe expliquei!
— Sim senhora, mas...
— ...prossiga!
— Por que meu frio passou? A senhora abriu um portal e encaminhou os dois espíritos para o local de merecimento deles?
— Exatamente, mas com esta minha atitude você deixou de trazer mais luz ao seu espírito!
— Como?
— O que traz luz para o espírito?
— A prática da caridade.
— E se você, á tarde, houvesse feito a ativação não teria feito a caridade?
— Meu Deus, é verdade, mas eu não sabia!!!
— Nós sabemos que você não sabia. E o Grande Espírito permitiu que nós, a partir desta sua "ignorância", ofertássemos a você, neste instante, a oportunidade de fazer uma caridade.
— Meu Deus obrigado!!! Desta vez tenho fé que não falharei! O que a senhora deseja que eu faça? Uma ativação?
— Não, apenas dê um recado!
— Recado?
— Sim, diga a todos os seus irmãos de fé que busquem cada vez mais ficarem próximos do Grande Espírito por meio da oração.
— Sim senhora!
— Pois somente assim eles conseguirão alimentar e desenvolver a fé.
— Sim senhora!
— Pois somente com a fé fortalecida vocês conseguirão desenvolver a sabedoria, eliminar a dúvida e praticar mais a Lei de Caridade.
— A senhora me desculpe, mas que dúvida?
— A seguinte dúvida: acabo de ter uma intuição; será que é "da minha cabeça" ou trata-se de alguma determinação espiritual?
— Foi o que aconteceu comigo hoje!
— Na verdade, amigo, é o que acontece com a grande maioria dos médiuns que consciente ou inconscientemente vivem a combater a condição anímica como se esta fosse pedra de tropeço para a vida de um médium.
— Mas esta tal de mediunidade intuitiva é realmente muito complicada de desenvolver, de entender!!!
— Penso que oração e fé são remédios suficientes para curarem qualquer insegurança; de mais a mais, muitas vezes o animismo surge somente para que a consciência do espírito do médium possa manifestar-se e instruí-lo para o bem dele próprio.
— Não entendi muito bem.
— No seu caso de hoje, por exemplo, suponhamos que fosse animismo e que você fizesse a referida ativação para a falange dos preto-velhos pedindo que fosse aberto um portal e que por este fosse encaminhado todo e qualquer espírito necessitado de auxilio nas moléstias de suas almas, está acompanhando o raciocínio?
— Sim senhora!
— Então eu pergunto: o que seu espírito estaria querendo instruir para você?
— A necessidade de oração?
— Exatamente! Não se esqueça que a prece é o alimento do espírito!
— Mas usando o caso ocorrido comigo hoje como exemplo de animismo, seria notório o fato de que não haveria espíritos para serem encaminhados por este portal!
— Quem lhe garante?
— ...............
— Uma prece dirigida com verdade e sentimento para o Grande espírito nunca fica sem resposta. Ainda utilizando o exemplo do caso ocorrido hoje contigo percebe-se que notório é o fato de que estes dois espíritos em questão não seriam encaminhados portal adentro, mas será que são somente estes dois os espíritos desencarnados necessitados e merecedores de auxilio? Será que o Grande Espírito não encaminharia outros espíritos pelo portal aberto por você? Como afirmar que se conhece os desígnios de Deus?
— É verdade!
— Então, meu amigo, por caridade, dê este recado aos seus irmãos de jornada: animismo só faz mal, a priori, se estiverem associados a ele: egoísmo, orgulho, vaidade e fanatismo. Peça a todos que alimentem seus espíritos com a oração, pois só ela faz nascer o bom senso na mediunidade, sem matar a importância do animismo, você compreende?
— Sim senhora!
— Muito se fala de mediunidade e animismo como se uma fosse o trigo e o outro o joio, mas não é assim: ambos são o trigo de onde se pode utilizar o material para produzir o fermento da fé e o pão da sabedoria; joio são, repito: egoísmo, orgulho, vaidade e fanatismo, você entende?
— Sim senhora!
— Então, por caridade, vá e transmita o nosso recado e que o Grande Espírito abençoe a todos vocês, os nossos irmãos umbandistas!!!!!


* Grande Espírito : Deus



Mensagem de um irmão espiritual ditada a Pedro Rangel em julho de 2008

sábado, 11 de abril de 2009

UM JUREMEIRO





Um senhor muito simpático e com vasta cabeleira branca aguardava o meu desprendimento do corpo físico no momento do sono para que eu viesse a aprender algumas preciosas lições àquela noite.
Não consigo recordar-me de haver conhecido uma pessoa que irradiasse uma energia de simpatia tão grande quanto aquele senhor. Fiquei olhando impressionado em sua direção até quando ele me disse:
— Preparado esta noite?
— O senhor me desculpe, mas preparado para que exatamente?
— Para mais um aprendizado.
— Ah, sim senhor!!!
Foi o que sinceramente respondi, mesmo sem ter ainda a mínima noção de que aprendizado seria aquele.
— Você não está com medo, está?
— Não senhor, pois à medida que o tempo vai passando e eu tenho a divina oportunidade de aprender com os senhores, eu vou adquirindo confiança ainda maior em Deus e nos vossos trabalhos.
— Então, vamos juremar?
— Juremar?
— Sim, entender um pouco sobre o nosso trabalho.
— O senhor está me dizendo que é um juremeiro, é isso?
— Não seria melhor você aprender com os próprios olhos?
— Se o senhor acha que é melhor assim seguirei vossa determinação à risca.
— Então vamos!!!
Aceitei o convite prontamente e assustei-me quando percebi que, ao invés de estarmos nos dirigindo para alguma região de mata, adentrávamos um hospital situado no plano físico; penso que este meu estranhamento deve ter se manifestado em minha face, pois foi quando eu o ouvi dizer:
— Não estranhe companheiro, pois seu aprendizado se dará aqui mesmo dentro deste hospital.
Estávamos em um grande hospital onde, obviamente, pessoas com os mais variados problemas encontravam-se internadas e eu, apesar de não entender qual tipo de aprendizado eu poderia obter com um juremereiro naquele ambiente, respondi:
— Sim senhor, estou as suas ordens!
— Então me diga: se pudesse escolher, quais pacientes você desejaria curar?
Pensei um pouquinho e respondi:
— Pacientes com problemas no aparelho circulatório!
— Pois bem. Então passemos para a ala onde estão os internos cardiopatas!
Havia quarenta quartos neste setor e nós entramos em um deles quando o juremeiro disse a mim:
— Observe!
O juremeiro, primeiramente, aproximou-se do enfermo e passou um olhar perscrutador ao longo de todo o corpo deste, depois ele abriu uma espécie de pequena sacola que estava pendurada em seu ombro e, de dentro dela, retirou com a mão direita uma espécie de gel transparente que ele usou em beneficio do chacra cardíaco do paciente; então, instantes depois, o inacreditável ocorreu: a acompanhante do enfermo foi chamar a enfermeira as pressas por que o seu esposo estava melhorando.
Eu olhei espantado para o juremeiro que, sem pestanejar, levou-me a outro quarto.
Desta vez o juremeiro escolhera uma paciente do sexo feminino só que utilizou um pouco do gel na região da fronte ao invés do coração e o médico que neste mesmo instante, no plano físico, tirava a pulsação da enferma impressionou-se pelo fato de ela ter saído do coma após sete anos.
Saímos do quarto e acho que meu olhar suplicante de esclarecimento deve ter contribuído para o juremeiro dizer-me:
— Pode falar filho!
— Meu Deus, o que o senhor fez com estes dois pacientes?
— Eu não fiz nada!!! Esta paciente que acabamos de assistir só saiu do coma por que já estava na hora dela despertar e o mesmo eu posso dizer do paciente do outro quarto que visitamos anteriormente, ou você se esquece do fato de que não cai uma única folha de uma árvore se não for da vontade de Tupã?
— O senhor tem razão, mas e este gel? O que há neste gel?
— Deus!
— Perdão?
— Quem criou o prana dos vegetais?
— Deus!
— Então penso que você me entendeu.
— Entendi sim senhor, mas que erva tão poderosa é essa que acorda até uma pessoa do coma?
— Já lhe disse que nenhum poder é maior que a vontade de Tupã e que foi Ele quem despertou a paciente do coma.
— Sim senhor, perdão!
— Não há o que perdoar, há o que se entender!!!
— Sim senhor!
— Quanto ao gel desta bolsa, o prana, ele é formado de cada energia que o paciente estiver necessitado de receber.
— Como? O senhor está me dizendo que existem pranas das mais diferentes ervas ai dentro desta pequena sacola que o senhor carrega consigo?
— Não só de plantas, mas também frutas, frutos e legumes.
— Mas então, como eu só vejo o senhor retirar sempre o mesmo gel? Como esta sacola pode conter tantos pranas diferentes se ela me parece tão pequena?
— Filho, antes de ir lhe buscar esta noite eu colhi o prana que fosse suficiente para auxiliar na cura de trinta e cinco pacientes deste hospital e que meus superiores determinaram.
— Trinta e cinco! Mas...
— ...Antes de lhe buscar eu estive neste hospital junto com outros companheiros e auxiliamos trinta e dois enfermos.
— Se o senhor tem a ordem para curar trinta e cinco enfermos, curou trinta e dois deles antes de ir me buscar e mais dois desde que aqui estou com o senhor, isto quer dizer que ainda resta mais um enfermo a ser curado!
— Exatamente!
— Será que antes de auxiliar na cura deste irmão que está faltando o senhor poderia esclarecer-me uma dúvida?
— Bem, não serei eu quem auxiliará a este irmão, mas eu posso lhe esclarecer a dúvida, pergunte!
— É que o primeiro paciente com problemas circulatórios que o senhor auxiliou eu percebi e penso que entendi porque o senhor aplicou o prana na região do chacra cardíaco, mas eu não compreendi por que na paciente que encontrava-se comatosa o senhor passou o gel no chacra frontal, ao invés de aplica-lo no cardíaco.
— Veja bem. Não é por que uma pessoa está com problemas cardíacos que o chacra cardíaco será o único a encontrar-se debilitado.
— Ah é?
— Perfeitamente. Veja o caso da paciente que se encontrava comatosa, por exemplo: descobriu que fora traída pelo marido, mas não estava querendo analisar a situação com clareza para decidir qual a melhor atitude a ser tomada. Ao contrário, colocou toda culpa dentro de si e passou a desejar secretamente a morte. Veio para este hospital realizar uma cirurgia cardíaca onde o corpo dela não reagiu bem e a forma pensamento do desejo de morte auxiliou-a a tornar-se comatosa. Após sete anos sem assumir o corpo físico e tendo a prendido muitas lições faltava o último passo para que ela saísse do coma que é uma expansão na visão sobre a vida espiritual e foi por isso que eu apliquei o prana no chacra frontal.
— Deus, é extraordinário!!! Mas...
— ...Sim?
— O senhor disse que falta o auxilio fraterno para a cura de mais um irmão enfermo e que não será o senhor quem o auxiliará; então, quem será???
— Você!
— Como?Eu?Mas eu não poderia!!!
— Por quê?
— Por que não sei fazer, posso fazer errado!
— Você já amou?
— Já! Já amei e ainda amo muito!
— Pois o teu amor irá lhe guiar, tendo em vista que uma parte do conhecimento de como proceder encontra-se dentro de ti, é só você se permitir o despertar.
— O amor vai me guiar, mas como?
— A pessoa que já se foi do plano físico e que você mais amou no mundo foi o seu pai, não é verdade?
— É sim senhor!
— Quando você era criança o seu pai teve um princípio de enfarte e décadas depois veio a desencarnar por um problema circulatório, não é verdade?
— É sim, meu Deus o senhor sabe!
— Sim e também sei que foi por isso que você escolheu, quando perguntado, o setor de pacientes com problemas circulatórios para praticar a caridade esta noite, não é verdade?
— É sim senhor!
— Diga-me: qual foi uma das lições mais importantes que você aprendeu com o seu pai?
— A dar sempre o meu melhor na realização das tarefas.
— Então, você entende como o amor lhe guiará na tarefa que lhe cabe?
Ao invés de responder deixei que minhas lágrimas falassem por mim. O juremeiro foi extremamente respeitoso e aguardou que eu serenasse as emoções. Instantes depois foi que ele disse a mim:
— Você sabe para onde devemos nos dirigir, correto?
Assenti com a cabeça que sim e caminhei com passos resolutos para o quarto de número vinte e três. Fiquei de pé ao lado direito do paciente e perguntei ao juremeiro:
— E agora, como devo proceder?
— Feche os olhos e faça uma prece a Tupã.
Rezei e, estranhamente, ao abrir os olhos eu entendia claramente o que fazer: como aprendera naquela noite que apesar de um paciente estar com problemas cardíacos o auxilio não deveria ser aplicado necessariamente ou unicamente no chacra cardíaco, então eu deveria ter uma fé muito grande para sentir onde estava o problema no paciente, tendo em vista que eu não possuo a mediunidade de ver com os olhos espirituais.
Cerrei novamente os meus olhos e passei as duas mãos, sem tocar, ao longo do corpo do paciente e comecei a sentir uma energia muito forte na região do plexo solar do irmão enfermo então, involuntariamente, veio a minha mente a imagem de saião e boldo e eu estiquei a mão direita em direção ao juremeiro que, sorrindo, abriu a sacola e despejou um pouco do prana na minha mão.
Após ter ministrado o prana no paciente nós saímos de dentro do hospital e ele me disse:
— Fale meu filho, é importante que eu lhe responda uma última pergunta antes de ir embora.
— Quando o senhor colocou o prana na minha mão eu senti o odor de saião e boldo, quando o senhor ministrou o prana nos outros dois pacientes eu senti o cheiro de outras ervas como pode ser isto?
— Eu já não lhe disse que colhi o prana de certos vegetais antes de vir lhe buscar no sono físico?
— Sim senhor, mas como estes pranas diferentes podem ficar todos misturados dentro desta sacola e serem tirados de forma específica, e não tudo misturado, quando ele vai ser ministrado a alguém em especifico? Esta sacola do senhor é mágica?
— Sim!
— Verdade?
— Sim, este embornal tem a magia do divino mistério de Jurema, a força divina contida no astral vegetal.
— Meu Deus!!!
— Filho, o amor lhe guiou pelos caminhos da fé e este juremeiro fica feliz em pedir a Tupã por todos vocês, os filhos de fé, que encham as vossas vidas do amor excelso Dele, pois só o amor perdoa e só o perdão pode fazer vocês se amarem ainda mais e clarearem os vossos caminhos na estrada que leva em direção ao Pai Criador de todas as coisas. Muitas vezes o que os olhos não vêem só o coração pode sentir, nunca se esqueça disso meu filho!!!




Mensagem de um amigo espiritual recebida por Pedro Rangel em julho do ano de 2008.

segunda-feira, 16 de março de 2009

LIÇÕES DE SABEDORIA


Certa vez eu estava incorporado com um preto-velho que, naquele momento, prestava consulta a um jovem casal.
Conversa vai e conversa vem quando ele determinou que a companheira do jovem à frente dele passasse por um determinado tratamento espiritual a fim de resolver os problemas que afligiam o casal.
Acontece que enquanto o pai-velho explicava para a jovem os procedimentos do tratamento espiritual ele mesmo esclarecia-me mentalmente dizendo que o jovem também se encontrava com um problema espiritual que estava atrapalhando a vida afetiva do casal.
Quando perguntei sobre o que ele faria para tentar resolver o problema do jovem em questão, assustei-me quando ele respondeu:
— Nada!
Ainda estupefato ousei repetir a pergunta para ele:
— Desculpe vovô, mas como?
— Nada!
— O senhor por acaso poderia explicar o por quê?
— O que Nêgo véio pode fazer ele já tá fazendo, concentre-se no tratamento espiritual que Nêgo tá prescrevendo pra fia.
— Mas o senhor acabou de me dizer que o cônjuge dela também se encontra com problemas espirituais e eu não entendi o por que.
— Num entendeu o porquê de que, fio?
— O porquê de o senhor dizer-me que o jovem está com problemas se o senhor não vai fazer nada para tentar resolve-lo!
— Suncê quer aprender né fio?
— Com certeza!
— Mas muitas vezes fio, o aprendizado só vem com o tempo e se suncê se diz um eterno aprendiz da umbanda Nêgo num entende o porque da pressa.
— Mas...
—..... Fio, se Nêgo pudesse ele inté se estendia nessa prosa, mas é que os dois “fiados” na sua frente tão precisando muito de sua concentração para que Nêgo possa passar pra eles, através de suncê, um tratamento formoso para ajudar os dois “fiados” a resolver os problemas que os afligem.
— Sim senhor!
— Concentre-se fio, o importante é a caridade!
— Sim senhor!
E assim o preto-velho prescreveu o tratamento e pouco tempo depois ( a gira estava prestes a acabar ) desincorporou.
A gira terminou, os dias foram passando e aquele questionamento não saía de minha mente: por que o preto-velho dissera mentalmente a mim que o jovem atendido possuía problemas espirituais e nada fez para tentar solucioná-los?
Fiquei pensando porque, afinal, umbanda não é caridade? Então por que não exercer esta caridade para auxiliar a um irmão de jornada que necessite? Por que, tratando-se de um casal, só a mulher seria merecedora de caridade, se o homem também estava com problemas?
Os dias foram passando e eu, segundo minha forma de pensar, cheguei a duas conclusões: ou eu estava mistificando, ou os preto-velhos não faziam à caridade do jeito que deveriam, e como esta segunda alternativa é muito improvável conclui que, apesar de meus esforços para ser um bom médium, eu estava mistificando.
Esta conclusão estava deixando-me até mesmo deprimido, mas em certa noite tive um encontro que me emociona profundamente a cada vez que dele me recordo.
Neste encontro eu me vi andando por um campo enorme onde o gramado era tão perfeito que passava a impressão de ser um carpete.
Neste campo havia um único pé de arvore ( uma jabuticabeira ) e junto a ela, desfrutando de sua sombra e sentado em um toco também havia um preto-velho que estava a acenar para mim.
Procurei andar na direção dele e quando estava na sua frente eu o ouvi dizer:
— Pode sentar zifio.
— Obrigado vovô!
Assim eu o respondi procurando atender prontamente sua determinação.
— Suncê nem sabe como foi trazido aqui, né zifio?
— É vovô, como sempre não é?
— Suncê sabe onde está?
— Não senhor!
— Sabe o que veio fazer aqui?
— Não senhor!
— Quem sabe hoje num é o dia de suncê descobrir, né zifio?
— Descobrir o que vovô? O porquê de eu estar aqui?
— Não zifio, descobrir o porquê de suncê ser um eterno aprendiz!
— Desculpe, não entendi!
— Não se preocupe não zifio, imagine só com Nêgo uma determinada situação:
Imagine que suncê é um empregado doméstico responsável pela limpeza de uma residência.
Imagine também que sua patroa é uma fia extremamente rígida e ordenadora em relação ao cumprimento correto de suas funções enquanto doméstico.
Imagine ainda que essa patroa lhe faça uma única exigência em relação a suas atribuições na residência dela, dizendo que suncê nunca deveria varrer debaixo de um imenso tapete que fica na sala de estar.
Imagine por último que esta patroa do fio teria como saber, de uma forma ou de outra, se esta exigência estaria sendo cumprida a risca.
Eu estava com o pensamento firme nas suposições que o vovô passava para mim quando ele perguntou-me:
— Está imaginando zifio?
— Sim senhor!
— Então este Nêgo pergunta: suncê desobedeceria esta exigência?
— Não senhor!
— Por que não zifio?
— Por que ordens foram feitas para serem cumpridas!
— Muito formoso zifio!!! Nêgo gostou desta resposta sua!!!
— Verdade?
—Verdade. Agora continue a imaginar com Nêgo véio zifio:
Imagine que suncê um dia, só por curiosidade, resolva olhar debaixo do tapete e descubra muito lixo sobre ele. Nêgo então pergunta pro fio:
— E nessa condição, suncê desobedeceria à patroa e limparia debaixo do tapete?
— Não senhor!
— Mas imagine zifio: a casa toda limpa por suncê e com sujeira só embaixo do tapete; suncê não limparia a sujeira?
— Não senhor!!!
— Mas qualquer “fiado” que entrar neste casuá e olhar debaixo do tapete vai pensar que suncê num trabaia direito e pode até exigir que a sua patroa demita suncê. Suncê correria este risco?
— Sim senhor!
— E por que zifio?
— Por que a ordem foi dada por minha patroa e, certamente, ela deve saber o que está fazendo.
— Mas mesmo suncê cumprindo esta ordem ela lhe seria incompreensível, né zifio?
— Isto, de fato, eu não posso negar vovô!
— Mas esta incompreensão faria suncê, todos os dias de sua vida, ficar duvidando da capacidade de comando e de trabalho da sua patroa?
— Não senhor!
— E por que zifio?
— Justamente pela confiança que teria nesta capacidade de comando de minha patroa.
— Muito formoso zifio!!! Nêgo também gostou desta resposta sua. Agora Nêgo pede pra suncê imaginar uma última coisa:
Imagine que os únicos residentes desta casa que suncê trabaia como empregado doméstico sejam a patroa do zifio e o “ perna de calça” dela.
Imagine também que esta patroa, vendo toda dedicação e obediência de suncê em desempenhar suas tarefas, um belo dia resolva explicar pro zifio o porquê dela ter determinado a suncê que nunca limpasse sob o tapete.
Então zifio, imagine a patroa explicando a suncê que todo aquele lixo que suncê via debaixo do tapete era ali depositado exclusivamente pelo “perna de calça” dela e que ela sempre pedia a suncê pra nunca limpar ali embaixo por ela não achar justo que nem suncê e nem ela, que não produziram o lixo, limpasse a sujeira dos outros.
— Tá imaginado zifio?
— Sim senhor!
— Então Nêgo pergunta: suncê agora veria lógica na determinação de sua patroa a suncê em relação ao tapete?
— Sim senhor?
— Suncê limparia o casuá da patroa até mais satisfeito por ter entendido a exigência dela em relação ao tapete, né?
— Sim senhor!!!
— Mas entenda zifio que a explicação da patroa em relação a tal determinação só foi possível quando ela viu em suncê dedicação e confiança em relação ao seu trabalho, certo?
— É verdade vovô!!!
— Suncê tá entendendo aonde Nêgo quer chegar?
Penso que sim. Creio que quando o senhor atendeu àquele casal naquele dia e passou um tratamento espiritual apenas para a mulher eu deveria ter tido mais confiança em Deus e na forma de trabalho do senhor.
— Fio, entenda que Nêgo num sabe tudo, mas aquele pouquinho que Nêgo sabe ele sempre há de ir ensinando um bocadinho a suncê à medida que o zifio for evoluindo em moral e disciplina.
— Sim senhor!!!
— Entenda que muitas vezes nós, que suncês chamam de entidades, dá o peixe, mas o que nós prefere mesmo é ensinar suncê a pescar.
— Estou entendendo!
— Quando Nêgo passou o tratamento espiritual pra fia e não passou pro “perna de calça” dela, mas disse mentalmente a suncê que ele também precisava de tratamento, Nêgo só queria que suncê orasse por este “perna de calça” em todos os momentos que suncê fosse fazer uma prece a Zambi- Nosso-Pai.
— Acho que estou entendendo vovô!
— Este Nêgo tava tentando ensinar suncê a pescar, tentando ensinar pro fio que antes, durante e depois dos nossos atendimentos aos consulentes, suncês também devem ter responsabilidades para com eles, suncês também devem rezar por eles, suncês também devem exercer a tarefa de suncês na prática de fazer a caridade e ajudar os zifios que foram atendidos por nóis a encontrar o equilíbrio e a paz.
— O senhor tem razão vovô!!
— Nêgo pergunta com todo carinho: suncê fez isso alguma vez?
— O que vovô? Orar por aquele rapaz necessitado de auxilio espiritual?
— Isto zifio!
E eu, de olhos marejados, respondi:
— Não senhor!
— Não precisa chorar de tristeza por não ter entendido Nêgo antes, zifio. Se suncê tiver que chorar que sejam lágrimas que enquanto deslizam por seu rosto possam fazer subir a Zambi o seu desejo sincero de sempre crescer em sabedoria e humildade.
E eu, já transbordando emoção, respondi àquela entidade tão carinhosa e humilde:
— Sim senhor, vovô!!!
— Agora que suncê entendeu Nêgo véio, Nêgo pergunta pra suncê: suncê ainda quer saber por que Nêgo não prescreveu nenhum tratamento espiritual pro “perna de calça” daquela filha?
— Não senhor!
— Olha zifio, Nêgo inté que ia acreditar em suncê se não conhecesse um bichinho que vive no coração do zifio e que, algumas vezes, tanto dodói causa a suncê.
— Bichinho?
Perguntei eu preocupado e já pensando em alguma doença física.
— É zifio, um bichinho!
— Que bichinho vovô?
— O bichinho da curiosidade.
Deus do céu, como eu sorri neste momento!!! Engraçado é que o sorriso saia de meus lábios enquanto lágrimas de gratidão ainda caiam de meus olhos. Mas eu, é claro, não tive como negar e respondi ao preto-velho:
— É verdade vovô! Para ser sincero, sou mesmo bastante curioso!!!
— Nêgo sabe zifio, e é também por isso que Nêgo vai explicar pra suncê por que não passou tratamento espiritual pro “perna de calça” daquela fia.
— Sou todo ouvidos vovô!!
— Fio, voltando praquela história da patroa que Nêgo pediu a suncê pra imaginar é que Nêgo pergunta: que mérito o “perna de calça” da suposta patroa do fio teria se ela ou então suncê retirasse o lixo que ele acumulou debaixo do tapete?
— Nenhum!
— E com o passar do tempo o “perna de calça” da patroa do fio ia colocar mais lixo debaixo do tapete, né?
— É verdade!!!
— Ou seja, ele não ia aprender o valor da limpeza, né?
— Sim senhor!
—E ficaria a repetir o mesmo erro, certo?
— Certo!!!
— Então zifio, é por isso que Nêgo não passou tratamento espiritual pro “perna de calça” daquela fia que Nêgo atendeu: tratamento espiritual é para a limpeza dos fios que precisam e dele se façam merecedores. O “perna de calça” daquela fia ainda não entende o valor da limpeza espiritual e vive a empurrar pra debaixo do tapete do próprio coração dele as impurezas da infidelidade conjugal.
— Meu Deus!!!!
— O tratamento espiritual que Nêgo passou praquela zifia foi no sentido de estar isolando do espírito dela e do espírito do curumim que está no ventre dela ( e que ela ainda não sabe) as energias deletérias que o “perna de calça” dela constantemente traz pra elas e pro lar deles devido a essas companhias femininas nada edificantes.
— Deus do céu!!!!
— Este “lixo” da infidelidade é um lixo que nem suncê e nem este Nêgo pode tirar debaixo do tapete do coração daquele zifio.
— Compreendo!
— Aquele zifio tá precisando de tratamento espiritual não por que é infiel, mas sim por que esta infidelidade está trazendo companhias espirituais indesejáveis para o equilíbrio energético do zifio. Agora enquanto o zifio não desejar e procurar mudar, de fato, este comportamento espiritualmente inadequado de nada ia adiantar nóis passar tratamento espiritual, por que este ia restabelecer o equilíbrio energético do zifio, mas o zifio logo ia tratar de trazer mais sujeira pra debaixo do coração dele justamente por não valorizar a limpeza espiritual.
— Meu Deus, é impressionante!!!
— Então zifio, como Nêgo já disse antes, quando ele falou pra suncê que o “perna de calça” daquela fia que Nêgo atendeu tava precisando de ajuda espiritual, mas que não podia fazer nada, era simplesmente pra suncê orar pedindo as bênçãos de Zambi praquele fio, suncê não precisava saber necessariamente o porquê daquele fio estar precisando de ajuda, suncê só precisava fazer prece sincera a Zambi-Nosso-Pai pedindo por aquele fio e deixar a espiritualidade agir.
— Entendi.
— Então também entenda que serão as suas preces um, entre vários fatores, que ajudará àquele zifio a desejar limpar a sujeira do espírito dele.
— Sério?
— Claro zifio! Obrigação de rezar suncê num tem nenhuma, mas saiba que se suncê assim desejar agir acabará beneficiando por demais a vida daquele fio e a suncê mesmo, pois suncês só podem receber de volta apenas daquilo que ofertarem; além do mais zifio suncê não deve desprezar a força e o poder de alcance de uma prece equilibrada realizada com o coração.
E eu, boquiaberto, respondi:
— É verdade!!!
— Pois é zifio, Nêgo agradece a presença sua aqui neste dia tão lindo e neste campo tão formoso que inté parece um tapete.
— Vovô, eu é que lhe agradeço do fundo do meu coração, mas como o senhor tocou no assunto eu pergunto: que campo é este em que estamos?
— Essa será a última coisa que Nêgo vai responder pro fio, antes Nêgo precisa saber que pergunta é essa que tá fomentando aí na cabeça do fio.
E eu, mais uma vez boquiaberto pelo fato do meu íntimo ser tão aberto para aquela entidade, perguntei:
— O senhor tem algum recado?
— Nêgo tem sim zifio! Diga a todos os umbandistas que já trabalham com a mediunidade de incorporação que os “manos” são responsáveis pelos trabalhos pertinentes a eles, mas que suncês, os “cavalinhos”, também são responsáveis pelo bom andamento dos trabalhos que são realizados com todos os consulentes atendidos por esses manos!!!
— Sim senhor!!!
— Responsáveis não só pela concentração na hora em que os “manos” tão realizando estes trabalhos, mas também pelas orações em favor de todos os assistidos pela espiritualidade maior após o encerramento das giras.
— Sim senhor!!! Fique certo que transmitirei o vosso recado!!!
— Quanto a este campo em que nóis estamos zifio, Nêgo véio tem a dizer que não é suncê que tá visitando Nêgo em alguma esfera distante da terra, é Nêgo véio que veio ter com o fio numa localidade próxima a suncê.
— Como?
— Na verdade zifio, Nêgo véio fala que este campo pertence a suncê.
— O que? Este campo que parece um carpete pertence a mim?
— Claro zifio, Nêgo véio num ia mentir pra suncê!!! Nêgo só pede que pra debaixo deste “tapete” suncê nunca esconda nenhum tipo de lixo, certo zifio?
E eu, meio atônito, respondi apenas:
— Sim senhor!
— Então Nêgo já vai zifio, mas não sem antes esclarecer que este toco de carvalho e esta jabuticabeira são presentes que Zambi deu a Nêgo e que, portanto, são de Nêgo já este campo em que estamos é o campo que religiosamente representa o seu coração. Fique na força e na luz de Zambi-Nosso-Pai!!!!!
— Que assim seja!!!
Acordei, aos prantos, repetindo está última frase em cima do meu leito
.


Mensagem ditada por um amigo espiritual e recebida por Pedro Rangel em 08/01/2008

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A VITÓRIA





Guilherme estava indo para o centro umbandista que freqüentava há pouco mais de seis meses e onde ocorreria, naquela noite, uma gira de preto-velho em que ele teria a gratificante oportunidade de cambonar mais uma vez a Pai Guiné do Congo.
Guilherme era um jovem universitário que procurava desenvolver as atividades do centro com a maior boa-vontade possível.
Auxiliava àqueles que eram atendidos pelo preto-velho e sempre, após o último atendimento, Pai Guiné solicitava ao jovem que sentasse a sua frente para trocarem alguns “dedos de prosa”. Eram nestes momentos que Guilherme mostrava à entidade o sentimento e a idéia de que ser umbandista é ser sempre um vitorioso, como podemos observar no diálogo que se segue:
— Salve Zambi, menino Guilherme! Como vai suncê?
— Salve Deus, Pai Guiné!!! Melhor do que estou seria impossível!!!
— E, por que, zifio?
— Desde que entrei na umbanda só conheci vitórias: minhas notas melhoraram, parei de farrear e encontrei uma menina incrível pra namorar que é médium da corrente deste terreiro.
— Olha zifio, Nêgo fica feliz com sua alegria no desabrochar de sua descoberta de qual é a real felicidade de ser umbandista.
— Olha meu pai-velho, para mim, ser umbandista é ser vitorioso sempre e, se Deus quiser, eu vou vencer ainda mais nesta vida!!!
— Zifio, de fato, ser umbandista é ser vitorioso sempre, desde que se saiba o que é vitória!
— Como?
— O que é vitória pra suncê, meu filho?
— Para mim vitória é vencer, alcançar aquilo que se quer!!!
— Suncê inté que ta certo, mas como se vai saber se aquilo que suncês quer, é aquilo que vai fazer suncês vencer???
— Não entendi!!!
— A sabedoria meu menino!!! É ela o instrumento com que Deus dotou cada ser humano afim de que ele, ao exercê-la, seja sempre um vitorioso em qualquer situação que enfrente na vida.
— Ainda não consegui entender, Pai Guiné!!! O senhor está meio enigmático hoje!!!
— Num se preocupe não zifio, pois nas forças de zambi no tempo certo suncê há de entender!!! Agora Nêgo deve dizer que tá muito ditoso com o namoro entre suncê e a “cavalinha” Gabrielle!
— Mesmo?
— Sim meu fio, pois ela é uma fia tão formosa que é capaz de fazer os zifios crescer moralmente só pelo fato de estarem juntos dela e aprenderem com seus exemplos práticos de amor, bondade e caridade!!!
— Para mim ela é quase uma santa!!!
— É por que suncê só tá vendo ela, nestes três meses de relacionamento, com os olhos do amor, mas em breve o tempo o fará vê-la como é: imperfeita, mas portadora de virtudes morais e edificantes!!!
— Se o senhor diz, eu acredito, mas será que eu poderia tocar em um outro assunto?
— Fique a vontade zifio!!!”
— É que eu gostaria de uma ajuda para alcançar mais uma vitória através da umbanda!
— Qual ajuda?
— É que eu estou muito interessado em uma vaga de estágio numa grande firma de advocacia!
— Vamos ver né zifio, pois só Zambi Nosso Pai é que pode todas as coisas!!!
Guilherme continuou cambonando a entidade e três semanas após o diálogo em questão podemos vê-lo travar uma nova conversa com Pai Guiné do Congo:
—Puxa vovô, eu estou muito feliz por ter obtido minha vitória!!!
— Conseguiu a vaga zifio?
— Graças a Deus, alcancei minha vitória!!!
— Peça sempre sabedoria a Zambi para que esta vitória não seja uma derrota na sua vida!
— Pode deixar vovô, pode deixar!!!
Um ano após esta conversa, encontraremos Guilherme a ter uma nova conversa com o preto-velho:
— Pai Guiné, continuo vencendo na umbanda, alcancei nova vitória!!!
— Como assim, zifio?
— Comprei um carro usado, mas que está tão bonito e ajeitado que parece novo, agora a vida vai ficar mais fácil com esta minha conquista!
— Zifio, peça sempre sabedoria a Zambi para que esta vitória não seja uma derrota na sua vida!!!
— Pode deixar vovô, pode deixar!!!
Três meses após esta prosa lá estava o jovem guilherme em mais um “bate-papo” com Pai Guiné:
— Vovô, é capaz até de o senhor ficar triste, mas eu consegui vencer de novo por meio da umbanda!!! Terminei com a Gabrielle e estou namorando com uma menina da minha turma na faculdade e que me entende melhor; o nome dela é Valquíria.
— Zifio, peça sempre sabedoria a Zambi para que essa vitória não seja uma derrota na sua vida!!!
— Pode deixar vovô, pode deixar!!!
Quatro meses depois Guilherme, abatido, estava novamente a dialogar com o pai-velho:
— Pai Guiné, tive minha primeira derrota desde que sou umbandista!
— Conta pra Nêgo o que aconteceu, meu menino!!!
— Olha, sem eu dar motivo algum, fui dispensado do meu estágio!!!
— Zifio, peça a Zambi nosso pai que faça você ver a vitória que esta derrota é na sua vida!!!
— Como?
— O umbandista é sempre vitorioso zifio!!! Lembra quando nóis conversou sobre isso?
— Lembro sim vovô! Pode deixar que eu vou fazer isto vovô, pode deixar!!!
Três semanas após, Guilherme está outra vez em frente a Pai Guiné a dizer-lhe:
— Pai Guiné, apesar das minhas rogativas a Deus o meu pai desenvolveu uma grave doença e não tem muitas chances de cura!!!
— E na visão de suncê isto é uma vitória ou uma derrota?
Guilherme pensou profundamente antes de responder a entidade, mas só conseguiu dizer:
— Desculpa Pai Guiné, mas para mim é uma derrota!
— Num precisa se desculpar zifio, Nêgo gostou da sinceridade!!! Mas peça a Zambi nosso pai que faça você ver a vitória que esta derrota é na sua vida!!!
— Eu vou fazer!!! Pode deixar vovô, pode deixar!!!
Cinco meses depois Guilherme está de frente a Pai Guiné para ter com ele aquela que, na opinião do jovem, seria a última conversa que teria com a entidade:
— Vovô, graças a Deus, o meu pai já está praticamente curado, mas é que eu acabo de sofrer a maior derrota da minha vida e vim até aqui comunicar ao senhor que vou pedir desligamento do terreiro hoje!!!
Guilherme chorava muito e o pranto era copioso. Pai guiné estalava os dedos enquanto aguardava as emoções do seu pupilo serenarem. Poucos minutos depois a entidade retomou o diálogo:
— Suncê pode dizer pra Nêgo que derrota foi essa meu fio?
— Para que vovô? Para o senhor dizer que a minha derrota é vitória?
— Se o zifio tá zangado e for pra aliviar a dor do seu coração, suncê ta autorizado a fazer malcriação com Nêgo até ficar aliviado, mas depois que suncê tiver falado tudo; Nêgo vai pedir silêncio para que suncê possa escutar tudo o que ele tem a dizer, tudo bem?
— Desculpe Pai Guiné, o senhor pode falar agora que eu escutarei!!!
— Suncê tem certeza?
— Sim senhor!!!
— Então Nêgo vai conversar com suncê, meu menino!!! O zifio tá zangado por que a “rabo-de-saia” Valquiria, vendo que não tinha mais o que sugar de suncê, terminou o namoro, não é?
Boquiaberto, Guilherme respondeu:
— Sim senhor!
— Suncê num tem mais o carro porque teve que vender para ajudar no tratamento do seu pai, não tem mais dinheiro por que está sem emprego; e sem carro e sem dinheiro ela não te quis mais, não é verdade?
— Sim senhor!
— E isto foi uma derrota ou uma vitória em sua vida?
— Agora com o senhor falando assim deste jeito eu, sinceramente, não sei!!!
— Então vamos começar do inicio, certo???
— Certo!
— Um tempo atrás suncê procurou Nêgo pra dizer que tinha conseguido uma vitória que Nêgo sentia que poderia ser uma derrota em sua vida, lembra???
— A vaga de estágio na firma conceituada de advocacia?
— Exatamente!!! Esta vitória não deveria, mas foi uma derrota na sua vida pelo que o motivou prioritariamente a alcançá-la!!!
— Como?
— Comprar um carro, não era o que suncê mais queria?
— Mas isso é ruim?
— Depende do que motiva prioritariamente uma pessoa a adquirir um carro, o que nos leva a segunda vitória que não deveria, mas foi uma derrota em sua vida!!!
— Como?
— Não foi o desejo ardente de impressionar Valquiria e tê-la apenas para si que o motivou prioritariamente a comprar o carro?
— Sim, mas isto é ruim???
— Zifio, isso levou suncê a terceira vitória que não deveria, mas foi uma derrota em sua vida!
— Como assim?
— O desejo de impressionar e ter para si uma mulher de beleza rara e extasiante foi o que fez você abrir mão do relacionamento com a fia Gabrielle, certo?
Boquiaberto, novamente, Guilherme respondeu:
— Sim senhor!
— Suncê abandonou uma fia que só fazia compartilhar para ficar com outra que só queria tudo pra si, isso foi derrota ou vitória?
— Meu Deus!!! Foi por isso que fui mandado embora do estágio: por estar fazendo tudo errado!!! Por isso eu tive minha primeira derrota!!!
— Menino Guilherme, aquilo que suncê chama de primeira derrota foi, na realidade, sua primeira vitória!
— Mas, por quê?
— Por que você estar desempregado proporcionou-lhe a oportunidade de assistir melhor e por mais tempo ao seu pai na ocasião do adoecimento dele!
— Meu Deus!!! Olhando por este lado eu vejo que o senhor tem razão!!!
— E, quando seu pai adoeceu, aconteceu aquilo que suncê chamou de segunda derrota, mas que foi, na verdade, sua segunda vitória.
— Vitória? A doença do meu pai foi vitória?
— Não, mas proporcionou-lhe uma sensibilização na sua vida que o ajudou a sentir e pensar a vida e o amor de uma forma moralmente mais elevada, ou não é verdade que você quase terminou o relacionamento com a Valquiria por três vezes, devido ao excesso de materialismo por parte dela?
— É verdade vovô, é verdade!!!!
— Suncê foi intuído por seus mentores para terminar o relacionamento com ela, mas como a beleza e o envolvimento carnal foram maiores que o seu bom senso, eis que suncê obteve a sua terceira vitória que foi o término da relação só que por iniciativa dela; e logo agora que suncê tá tão perto de conseguir uma vitória crucial pra sua evolução, suncê pensa em largar a sua fé? Nêgo num entende!!!!
— Vitória? Vitória sobre o que? Sobre o desemprego? Sobre o desamor?
— Não meu menino, nas forças de Zambi, há de ser uma vitória sobre suncê mesmo: sobre suas más tendências, sobre a ilusão da matéria e sobre sua ignorância acerca da beleza do espírito. Vitória não é só conseguir o que se deseja, pois se suncê pedir a Zambi e desenvolver a sabedoria, suncê verá a real vitória em todas as situações de sua vida: até mesmo nas derrotas aparentes, suncê entende meu fio?
— Estou entendendo vovô!!!
— Sem sabedoria vencer é só alcançar aquilo que suncês quer, já com sabedoria vencer é encarar as dificuldades da vida como oportunidades sagradas de Deus para a evolução de suncês, pois se isto for alcançado a vitória é certeira, mesmo que aos olhos do mundo seja a mais flagrante derrota, suncê entende?
— Estou entendendo, sim senhor!!!
— Por isso o verdadeiro umbandista vence sempre: por que pede sempre a Zambi que o faça enxergar todas as situações da vida com a visão espiritual da sabedoria!
— É verdade vovô!!!
— Neste mundo tão materializado e ilusório somente o olhar da sabedoria espiritual pode vislumbrar os caminhos que levam suncês a real vitória que, por sua vez, não é aquela sobre o próximo ou sobre a carne, mas sobre suncês mesmos, suncê entende meu menino?
— Sim senhor!!!
— Suncê ainda quer sair do terreiro pelo que lhe parece uma derrota? Ou quer continuar na sua fé aprendendo, a cada gira, a enxergar os fatos com a visão espiritual através dos “óculos” que vem da sabedoria infinita de Zambi nosso pai?
E com o coração e a mente transformados pela misericórdia de Deus foi que Guilherme respondeu:
— Eu fico com Deus, fico com o senhor, fico com Jesus, fico com os orixás, fico com a Umbanda e tudo com muita felicidade!!!!!
E talvez para trazer um pouquinho mais de paz para o coração de Guilherme, foi que Pai Guiné do Congo lhe disse:
— Vamos aprender a vencer sempre?
— Vamos, mas como?
— Fazendo aquilo que Nêgo explicou pra suncê: pedindo a Zambi nosso pai o desenvolvimento da sabedoria!
— Mas como é que se faz isso?
— Tem um jeito muito simples, que foi ensinado pelo próprio mestre Jesus!
— É uma prece?
— É!
— O senhor me ensina?
— A prece fio já conhece, agora o fio deve começar a fazê-la direcionando-a não mais apenas pela memória, mas pelo pensar e pelo coração. Suncê ta pronto?
— Sim senhor!!!
— Então vamos: feche os olhos, relaxe o corpo, esvazie sua mente, concentre-se nas batidas de seu coração e chame Deus para junto de si conectando-se a Ele através da seguinte prece:
“ Pai nosso que estais no céu,
santificado seja Vosso nome,
venha a nós o vosso reino,
seja feita a Vossa vontade,
assim na terra como nos céus....”

domingo, 18 de janeiro de 2009

Lágrimas do sol


Sentado na orla marítima eu pude ver uma tensa jovem praguejando contra o intenso calor. Ela estava acompanhada de um rapaz que, provavelmente, deveria ser seu companheiro.
Passaram por mim e prosseguiram a caminhada pela beira-mar; eu continuei sentado na areia no mesmo lugar em que estava.
É interessante por que eles passaram por mim, mas as palavras da jovem ficaram reverberando em meu íntimo.
Coloquei meus óculos escuros e deitei-me a pensar nas épocas de minha infância e juventude e em quanto, a esta época, o sol podia ser, por nós, aproveitado por um espaço de tempo bem maior e, mais importante, com menos malefícios a saúde.
Fiquei pensando em como as coisas esquentaram com o passar do tempo em conseqüência de desmatamentos, poluições de toda e qualquer espécie e tantas outras barbáries cometidas por mãos humanas.
Estava refletindo sobre estas questões quando algo espantoso chamou minha atenção: alguma coisa como um que desconhecido fez com que eu fixasse minha visão no astro solar.
Mesmo com óculos de sol fiquei preocupado com o estado de saúde de minhas vistas devido a uma longa exposição às radiações solares.
Apesar do temor escutei algo impreciso pedindo que me acalmasse e firmasse ainda mais a minha atenção no sol.
Depois de um tempo que não sei precisar vislumbrei algo que só poderia ser incrível: várias lágrimas caiam da face do astro-rei e vinham deslizando do mais alto ponto da atmosfera até tocarem a superfície da terra.
Achei que estava ficando louco e fiz menção de fechar os olhos quando algo ainda mais inacreditável ocorreu: o sol olhou para mim e pediu-me que desse um recado à espécie humana.
Porém, antes que ele pudesse dizer qualquer sílaba, pedi licença e perguntei se estava enlouquecendo ou se realmente de seus olhos estavam gotejando pesadas lágrimas.
Ele, por sua vez, fixou o seu majestoso olhar sobre mim e disse que eu não estava louco, disse também que eram aquelas lágrimas que eu via descer de seus olhos a grande causa do aumento do calor e da sensação térmica por todas as partes do globo terrestre.
Disse também o astro solar que toda e qualquer lágrima gerada por todo e qualquer ser capaz de gerá-la tem a mesma temperatura do ser que a produziu e que ele, por ter a natureza incandescente, só poderia gerar lágrimas desta natureza.
Fiz então a pergunta mais óbvia possível: perguntei se as lágrimas eram derivadas da tristeza provocada pelo desmatamento e poluição humana.
Qual não foi minha surpresa ao ouvi-lo dizer que o motivo do seu pranto era maior que este; e começou a explicar o sol que todos os seres humanos têm em sua constituição básica, infinitas substâncias que são encontradas em todas as partes da natureza desde plantas e animais até substâncias como pedras e cristais.
Explicou o astro-rei que quando um ser humano destrói um pedaço da natureza, na realidade, está cometendo suicídio por que, com essas atitudes, está esgotando estoques naturais de substâncias que deve recompor diariamente se quiser continuar vivendo.
Disse o sol que ver este nosso suicídio constante sem nada poder fazer para evitar era o único motivo para ele verter suas lágrimas incandescentes; já a explicação de suas lágrimas deslizarem pesadas ele esclareceu que isto se dá não pelo desmatamento em si, mas pelas motivações e sentimentos que levam o homem a cometer este suicídio que são; o egoísmo, a ganância, a vaidade, o orgulho e a intolerância.
E, após todas estas coisas explicar, o sol pediu que eu passasse o seu recado à raça humana e foi logo pedindo, com toda seriedade, que desenvolvêssemos atitudes ecológicas equilibradas a fim de que, desta forma, pudéssemos, tanto estancar o seu pranto que, segundo ele próprio, já dura mais de um milênio, quanto, e principalmente, sobrevivermos harmoniosamente com todas as espécies.
E, após passar sua mensagem, a visão se foi e eu só pude enxergar o sol com as vistas do senso comum; eu ainda queria perguntar a ele como um ser incandescente poderia gerar lágrimas, mas não houve tempo.
Então, levantei-me de onde estava e prometi a Deus e a mim mesmo que a cada dia de minha vida tudo eu faria, no que me coubesse, pela manutenção de todo ser vivo, pela preservação da natureza e pelo estancamento das já plurisseculares lágrimas do sol.
Ah, já ia me esquecendo!!! O sol disse a mim que suas lágrimas eram conhecidas aqui no planeta Terra como radiações ultravioletas.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

INESQUECÍVEL APRENDIZADO

Estava sendo guiado pelo Caboclo Sete Estrelas para alguma localidade no astral. Dissera-me ele que eu deveria aprender valorosas lições relacionadas aos psicoterapeutas do astral superior.
Entramos no que parecia ser o prédio principal daquela cidade. O Caboclo guiou-me com passos resolutos até uma sala com uma mesa redonda de mármore onde haviam nove pessoas sentadas ao redor e, pedindo licença a todos, disse àquele que se encontrava na posição central:
— Salve irmão Joaquim!!!
— Salve vossa força irmão Sete Estrelas!!! Então, este é o aprendiz de que você me falou?
— Exatamente!!!
— Obrigado por trazê-lo até aqui irmão e, se julgar melhor, sinta-se à vontade para continuar a desempenhar as vossas tarefas da noite e deixar o seu aprendiz sob os meus cuidados.
— Sendo assim, deixe-me ir para junto dos meus. Salve Deus!!!
— Salve!!!
O irmão Joaquim despediu-se dos irmãos que estavam a acompanhá-lo à mesa e retirou-se da sala levando-me junto. Já do lado de fora ele me disse:
— Tudo bem companheiro?
— Sim, irmão Joaquim!
— Está ansioso? Curioso?
— Olha, por incrível que pareça, desta vez eu estou calmo até demais!!!
— E você sabe o porquê disto?
— Não senhor!!!
— Então eu posso lhe dizer que foi solicitado a alguns amigos espirituais que lhe ministrassem passes energéticos assim que você se desprendesse parcialmente do corpo carnal através do sono físico.
— Mesmo?
— Certamente. Não duvide de que seu aprendizado esta noite será muito importante.
— Verdade?
— Sim. Esta noite você conhecerá um pouquinho do nosso trabalho: os psicoterapeutas espirituais.
— Psicoterapeutas? Então quer dizer que os senhores atuam como: psicólogos, psicanalistas e psiquiatras? É isso?
— Quase. Nós realizamos um trabalho parecido com o que estes profissionais fazem na terra. A diferença é que o nosso trabalho tem um alcance bem mais profundo no espírito dos assistidos, fazendo com que os resultados sejam mais sensíveis para eles.
— Mas, como?
—Você verá uma mínima parte do nosso trabalho com os seus próprios olhos: nesta noite terminarão os atendimentos com o Renato.
— Renato?
— Sim. Um antigo companheiro que caminhou conosco na carne há milhares de anos e que hoje se encontra encarnado.
— Mas, se ele está encarnado, por que não busca os serviços de um psicoterapeuta de vidas passadas lá na terra?
— O Renato, altruisticamente na atual encarnação, escolheu professar a fé protestante!!!
— Entendo.
— Agora vamos, porque ele já está nos aguardando em minha sala!
— O senhor me desculpe irmão Joaquim, mas será que minha presença não assustará o Renato?
— Não se preocupe, ele será incapaz de lhe ver!
— Entendi.
— Agora, o que lhe peço é que fique em permanente espírito de oração em beneficio deste nosso irmão, pois foi por isso que você também foi trazido até aqui esta noite.
— Sim senhor!
— Evite a curiosidade desenfreada na noite de hoje. Exerça-a apenas até o limite que não atrapalhe a irradiação de vossas vibrações positivas em favor do irmão Renato!
— Sim senhor!
— Então vamos!!!
E foi com esta recomendação que entrei na sala do irmão Joaquim. Renato sorriu satisfeito ao vê-lo e disse:
— Olá doutor Joaquim!!!
— Olá Renato, como tem andado?
— Olha, toda vez que eu me consulto com o senhor eu fico dias e mais dias sem sentir problema algum. Mas depois que se passam de duas a três semanas parece um tormento: as crises voltam dez vezes piores e, como você sabe, eu volto a sentir uma depressão tão profunda que chegaria a dizer que é infernal.
Meu Deus, eu pensei, que depressão tão séria seria essa? Mas imediatamente o doutor Joaquim respondeu-me mentalmente:
— Transtorno bipolar hipomaniaco depressivo, agora, por favor, continue a fazer vossas preces em favor do assistido!!!!!
Voltei a elevar os pensamentos e foi quando eu pude ouvi-lo dizer à Renato:
— Já são quase quarenta anos de sofrimento, mas não se preocupe por que hoje você será submetido a uma terapia maravilhosa!
— Verdade? Graças a Deus!!!
— Verdade! Está vendo aquela máquina à sua direita?
Devo confessar que nem uma máquina aquela estrutura parecia, de tão simples: era um tipo de divã onde existiam três fios conectores a serem acoplados na região do crânio e só!!! Percebi que Renato tivera a mesma percepção que eu, pois respondeu ao doutor Joaquim nestes termos:
— Qual máquina? Aquele divã com três pinos conectores?
— Exatamente!!!
— E o que esta máquina faz?
— Ela realiza uma varredura no cérebro do paciente e cura a área afetada.
— De que forma?
— Através de estimulação mnemônica.
— O senhor já usou esta máquina antes?
— Centenas de vezes.
— E porque o senhor nunca tentou esta terapia anteriormente comigo?
— Por que somente agora o seu cérebro esta maduro.
— Entendo.
— Vamos à terapia?
— Vamos doutor.
Renato deitou-se na máquina e fechou os olhos. Foi quando o doutor Joaquim aplicou um passe energético em sua fronte fazendo-o dormir imediatamente. Sorrindo com o resultado obtido o doutor Joaquim conectou dois pinos na região acima da orelha em cada lado do crânio de Renato; já o terceiro pino ele conectou em um fio que estava diretamente ligado a um tipo de monitor de 32 polegadas que estava fixado à parede do lado da máquina.
Entretanto, antes de ligar o monitor, o doutor Joaquim alertou-me:
— Respeite as lembranças do irmão que aparecerão em breve no monitor, não julgue e permaneça em espírito de oração!!!!!
— Sim senhor!!!
O doutor Joaquim, após a advertência, ligou o monitor e as imagens que nele se sucediam eram maravilhosamente espantosas:
Primeiramente apareceu o cérebro de Renato em posição transversal. Posteriormente eu vi que a região da memória, de fato, estava recebendo alguma espécie de estimulação e, então, a hipófise começou a brilhar como se fosse um pequeno sol dentro do cérebro dele. Instantes após a imagem do monitor fixou-se na hipófise e começou a ampliá-la até que tomasse todas as dimensões da tela. O doutor Joaquim proferiu algumas palavras estranhas e, então, uma série de imagens começou a surgir no monitor.
Não sei o porquê, mas quando apareceram às primeiras imagens eu sentia que Renato estava se vendo na longínqua Era Cristalina.
Seu nome era Silfar e ele era o mais brilhante cientista do Templo das Esmeraldas e, quiçá, de toda Era Cristalina.
Perdeu-se no sentido divino do conhecimento enquanto auxiliava outros colegas de profissão a encontrar o elixir da vida eterna.
Olvidou os cuidados com o Templo das Esmeraldas e foi assim que no dia do grande cataclismo ele viu este templo ser inundado e tragado pelas forças vigorosas do mar: centenas de milhares de vidas foram ceifadas também por imprudência dele.
Algumas outras encarnações de Renato eu vi passarem pela tela do monitor e não posso e nem devo comentar sobre nenhuma delas, a não ser o fato de que era um tipo de “corrida contra o tempo” para ele recuperar a paz na consciência através da prática da caridade.
Descobri, assim, que Renato era um espírito venturoso, pois na maioria das reencarnações ele fora bem sucedido em fazer o bem ao próximo; sendo que esta encarnação atual, inclusive, seria a última dele aqui em nosso planeta. Porém, a fim de sanar de vez toda sua culpa espírito-psicológica pretérita ele pedira para reencarnar com distúrbio bipolar hipomaniaco depressivo ( caracterizado pelo paciente não alternar períodos depressivos com períodos de uma euforia excessiva conhecida como mania: ele apresenta apenas a depressão ) e também para permanecer com este mal até a idade aproximada de 55 anos.
As imagens cessaram de passar no monitor e a imagem da hipófise voltou a tomá-lo como um todo.
Doutor Joaquim, antes de despertar Renato, disse a mim:
— O que você aprendeu com as visões no monitor?
— Aprendi?
— Sim! Você bem sabe que em toda tarefa existe um aprendizado, certo?
— Sim senhor!!!
— E então?
— Que em tudo, tudo e tudo em nossas vidas está operando a mão de Deus?
— E em que este fato implica?
— Que devemos sempre orar, vigiar e procurar fazer o bem esperando que o bem sempre venha nas nossas vidas em decorrência destas ações, entretanto...
— ... não se deve esperar que em nossas vidas surjam apenas flores, deve-se entender que nem só as flores são exemplos da misericórdia divina, pois os espinhos também nos ensinam muito sobre a misericórdia Dele.
— É verdade irmão Joaquim!!!
— Veja nosso companheiro Renato, por exemplo, ele deveria reencarnar mais duas vezes na Terra para que completasse o ciclo de suas provações; entretanto, sua ficha cármica facultou-lhe o direito de eliminar estas encarnações futuras, desde que nesta, ele viesse a desenvolver a humildade, a paciência e a tolerância através de sua convivência por cerca de quarenta anos com o distúrbio bipolar hipomaniaco depressivo.
— E ele está conseguindo cumprir sua missão?
— Perfeitamente. Não só pela convivência perfeitamente equilibrada com seu problema de saúde, mas também por ter escolhido nesta encarnação, de forma extremamente abnegada e altruísta, ser sacerdote de um templo protestante tão somente para dar uma última oportunidade ( pelo menos com ele encarnado ) de antigos companheiros seus conseguirem caminhar pelos caminhos retos da Lei Maior e da Justiça Divina.
— Verdade?
— Sim. O irmão Renato é sacerdote de um templo protestante por excelência, onde ensina ao seu rebanho que o mal não está na liturgia, teologia e rituais de outras religiões, mas dentro de cada um. Cada ser humano pode alcançar a Deus, pois Deus está dentro de cada um. É orando e vigiando a si mesmos que conseguirão evoluir em direção ao Pai Maior e não vigiando e agredindo, de tantas formas, irmãos por paternidade divina, mas praticante de outras denominações religiosas.
— Puxa, isto tudo é ótimo, mas será que o senhor poderia esclarecer uma duvida minha?
— Sim!
— É que eu pensava que o transtorno bipolar hipomaniaco depressivo era ocasionado pelos ataques de obsessores ferozes.
— Em sua quase totalidade sim, mas existem raras exceções, como o irmão Renato, capazes de programar as crises de depressão não por ataques de obsessores, mas por ativações programadas no cérebro perispiritual na área da memória no período pré-reencarnatório.
— Então quer dizer que no caso do transtorno bipolar hipomaniaco depressivo os obsessores atacam a memória do enfermo?
— Exatamente. Os obsessores atuam na memória inconsciente do espírito encarnado ( onde estão as memórias de encarnações pregressas que ele conscientemente não se recorda ) e fazem com que este se sinta fortemente depressivo por uma sensação de algo que ele não consegue explicar, mas que é a sensação de culpa inconsciente por erros do passado atiçada superlativamente por eles.
— Impressionante a explicação, mas será que o senhor poderia esclarecer pelo menos mais uma dúvida?
— Se eu lhe respondesse somente mais uma pergunta, ao invés destas duas que você pensa em me fazer, creio que você ficaria bastante frustrado ao término desta tarefa, correto?
Fiquei impressionado de como o doutor Joaquim conseguia ler minha alma de maneira tão clara e lhe respondi:
— Sim senhor, é verdade!!!
— Gostei da sinceridade e, como tenho permissão do alto, poderei esclarecer estas duas dúvidas onde me for possível.
— A primeira pergunta é: se Renato auto-programara o cérebro para sofrer desta forma de manifestação de distúrbio bipolar apenas até a idade aproximada que ele já possui ( 55 anos ) por que o senhor fez com que ele recordasse várias encarnações pretéritas na noite de hoje?
— Companheiro, ficou acertado antes de Renato reencarnar que ele ativaria o cérebro para desenvolver o distúrbio bipolar hipomaniaco e que nós, quando chegasse a hora, auxiliaríamos a desativar o problema na área da memória em seu cérebro para que ele voltasse a ter uma vida normal. Acontece que para isto ocorrer Renato deveria lembrar-se de erros de algumas encarnações pretéritas e de como trabalhou arduamente ao longo dos séculos para corrigi-los até a presente encarnação, verificando, por si só, que não é mais devedor da Lei Maior e da Justiça Divina e adquirindo a pureza da consciência.
— Entendo.
— Renato não lembrará de nada que recordou esta noite quando despertar, mas assim que abrir os olhos, por ter o “peso da sua consciência” aliviado, não sofrerá mais de transtorno bipolar hipomaniaco depressivo.
— Impressionate!!!!!
— Agora me diga qual é sua última pergunta?
— Enquanto as imagens passavam no monitor, mesmo não sendo minhas, eu sentia toda a verdade e realidade inerentes a elas, mas mesmo assim devo respeitosamente lhe perguntar: aquele templo cristalino, lindo existiu mesmo? Se existiu, onde está?
— Sim. Esta Era Cristalina, como você bem sente dentro de si próprio, de fato existiu. O Templo das Esmeraldas que você pôde ver no monitor, hoje em dia está espalhado nos fundos do oceano mais profundo da face da terra. Agora vá companheiro, pois muito já foi dito esta noite; só não esqueça e nem permita que esqueçam: a misericórdia divina não está somente nas rosas, mas também entre os espinhos!!!
— Jamais esquecerei o aprendizado desta noite, muitíssimo obrigado por tudo doutor Joaquim!!!
— Doutor???
— É! Não é assim que o Renato lhe chama?
— Perfeitamente, pois esta é a única forma que ele, enquanto protestante na atual encarnação, consegue me ver.
— Não entendi, por acaso o senhor quer dizer que pelo fato de eu ser umbandista eu não posso chamá-lo de doutor?
— Companheiro poder você pode, mas por que se você me conhece de outra forma?
Penso que foi ao verificar a acentuada expressão de estranheza presente em meu rosto que o doutor disse a mim:
— Zifio, de uma outra vez que suncê ver este nêgo véio num precisa tratar ele de doutor. Trate-me como suncê tá acostumado nos terreiros de umbanda, chama-me: Pai Joaquim.
Ainda fiquei olhando muitíssimo emocionado e impressionado para aquele ser que brilhava dourado na minha frente, já transfigurado na forma de um preto- velho. Chorava de soluçar, mas não conseguia lhe dizer nada, então foi ele, sorrindo, que se despediu de mim dizendo:
— Vá com Deus meu filho!!!! Salve Jesus!!!!
Acordei chorando na minha cama pensando até que estava enlouquecendo, pois eu não me lembrava de nada e não entendia porque chorava. Foi somente hoje, ao receber este texto, que pude recordar-me dos psicoterapeutas espirituais, do “Dr. Pai Joaquim” e do inesquecível aprendizado: “ A misericórdia divina não está somente nas rosas, mas também entre os espinhos”.





















terça-feira, 2 de dezembro de 2008

INFINITA MISERICÓRDIA DE DEUS




Certa vez um zifio entrou no terreiro
e, então, foi logo pedindo a este nêgo:
“ Nêgo véio, o senhor me dá um amor?”
e nêgo, sorrindo,respondeu que o real amor não vem de nêgo,
mas de Deus, nosso senhor!!!

e o filho tornou a dizer pra nêgo:
“Mas eu estou sofrendo muito,
por que o senhor não me ajuda?”
E nêgo explicou que só recebe o amor
àqueles a quem o merecimento faculta.

Então o zifio respondeu que era uma boa pessoa,
que nunca fizera o mal a ninguém
e que não entendia o fato dele não ser merecedor;
e este nêgo, mesmo sem jeito, respondeu pro fio
que o amor só se recebe fazendo o bem:
pois só aquele que dá pode receber também.

E o zifio disse pra nêgo:
“Mas o senhor está falando de religião,
está falando de fazer a caridade,
por que ela nos leva a luz;
já eu falo do amor entre duas pessoas,
àquele que alegra o coração e que se divide à dois”.

Zifio, suncê é que ainda não entendeu nêgo,
pois nóis tamos falando da mesma coisa:
Pra alguns zifios que têm certos Karmas,
só mesmo fazendo a caridade para se merecer uma esposa.

“Pai velho perdoe-me, mas preciso perguntar-lhe algo:
o senhor diz estas coisas para que eu coloque o branco?
o senhor deseja que eu entre na corrente do terreiro?”
Zifio o branco não se veste, ele se conquista a cada dia;
Ele não é só uma cor, mas luz que ilumina a vida!!!

“Como assim Pai velho? Não entendi o que quer dizer!
Por acaso o senhor diz que eu não posso entrar no terreiro?”
Não zifio. Nêgo diz que branco é caridade;
É a luz da vida e do amor verdadeiro:
branco é reforma intima, é amar por inteiro!

Amar intensamente o parceiro, zifio
é ter um pouco de amor,
pois o amor pleno e incondicional,
só pode vir de Deus, nosso senhor!

Se suncê quiser botar o branco,
nêgo libera, não se acanhe e fique a vontade,
mas jamais o faça por interesses ligeiros,
junto com o branco zifio, vista a humildade.

“Pôxa Pai velho, que coisa!
O senhor quer dizer que não sou humilde?”
Longe de nêgo véio zifio!
Nêgo só explica que todo amor vem de Deus
e que Ele, como ensinou Jesus, é simples!!!

Ponha o branco se desejar,
entre pro terreiro se quiser,
mas não pra arranjar rabo-de-saia e casar:
apenas por que evoluir você quer!

Por o branco, necessariamente, não permite
que um filho de fé alcance tudo o que almeja,
pois a justa e sábia Lei do Karma
só o permite receber aquilo que realmente mereça.

E como só a caridade pode atenuar esta lei sagrada,
por meio da Lei Maior e da Justiça Divina,
é que nêgo pede que suncê ponha o branco na alma
e que não tenha pressa de encontrar o “amor da sua vida”.

Até porque o amor pleno não está na carne,
visto que nenhum ser humano comporta totalmente esta essência divina;
então, procurai primeiro o reino de Deus
para que as demais coisas possam vir a entrar na sua vida.

Neste dia, depois de escutar nêgo véio, esse zifio chorou,
mas teve fé e vestiu o branco verdadeiro:
àquele branco que se deve usar no dia-a-dia
e não somente em dia de gira no terreiro!!!

Esse zifio tá casado há quinze anos
e faz trinta anos que esta história aconteceu.
Agora suncê que tá lendo essas letras, por caridade, responda pra nêgo:
é ou não é muito linda, a infinita misericórdia de Deus?

Mensagem de um amigo espiritual recebida em 25/11/2208