sábado, 4 de julho de 2020

A VOZ DO SILÊNCIO



Certa vez, assim que consegui dormir, senti meu duplo desprender-se do corpo físico e, numa vontade irrefreável, olhei para meu lado direito para, desta forma, ver um homem com vestes brancas, olhar sério e uma espécie de pequeno turbante na cabeça aplicando algum tipo de passe energético ao longo do meu corpo.
Passado algum tempo senti-me extremamente leve e levantei-me; ele então pôs a destra em minha nuca e fui automaticamente transportado para uma casa de umbanda.
Este homem não dirigiu uma palavra para mim, mas tinha extrema confiança nele e deve ter sido por isto que continuei calmo, mesmo sem saber o que fazia por ali. Observei que os trabalhos no terreiro estavam quase para terminar. O homem então aproximou-se de um médium que entrou em transe mediúnico por meio da incorporação. O homem, já incorporado no médium pela roupagem de um preto-velho, olhou em minha direção e mentalmente solicitou que me colocasse a sua direita e ficasse em espírito de oração pelo consulente que atenderia a seguir.
A pessoa em questão encontrava-se extremamente ditosa e agradecida à Deus pela oportunidade de, mais uma vez, poder dialogar com a entidade amiga.
Sentado no banco da assistência, concentrado no que necessitava dizer ao amigo espiritual no momento da consulta e em prece, nosso amigo mantinha os olhos cerrados em oração até que um membro da corrente mediúnica chamou-lhe pelo nome e solicitou que sentasse em frente à entidade, visando o início de seu atendimento.
Já sentado em frente ao Pai-velho, ele observava atentamente todos os procedimentos que a entidade realizava para que sua consulta pudesse iniciar-se. Após alguns minutos o preto-velho a ele perguntou:
— Como vai suncê, zifio Félix?
— Bem melhor agora, vovô, graças a Deus!
Mentalmente fui informado de que Félix encontrava-se em tratamento espiritual a fim de, pela misericórdia divina, conseguir alcançar a bendita convalescença para a enfermidade psicoemocional que o limitava a vivenciar uma existência plena em fé e humildade e, pensando nesta situação, foi que a entidade indagou a seu consulente:
— Suncê continua a realizar os procedimentos que lhe passamos?
— Sim vovô! Nunca pensei que defumação e culto no lar, uma vez por semana, poderiam trazer diferença tão significativa no ambiente do meu lar e em minha vida.
— Também continua a fazer uso do banho de ervas, meu filho?
— Sim, vovô!
— Graças a Deus, né zifio, por isso que Nêgo véio tá percebendo suncê com energia formosa, mas junto com esta formosura este Nêgo também observa reflexos de uma energia de preocupação a fazer com que a rotação de seu chacra cardíaco esteja um pouquinho alterada.
— Pois é vovô, são àqueles problemas, sabe? É difícil lidar com eles. O senhor poderia aplicar um passe energético em mim para melhorar esta situação energética que observou em meu chacra?
— Nêgo inté pode e vai fazer zifio, mas este problema está sendo provocado pelo que está afligindo suncê, então é melhor primeiro tratar a causa, num é mesmo? Por isso primeiro Nêgo vai escutar o que está lhe fazendo sofrer para depois aplicar o passe, entende?
— Entendo sim vovô e é por isto que estava tão ansioso para falar com o senhor.
— Então fala zifio, Nego está aqui só para escutar suncê!
Ao escutar o amigo espiritual proferir estas palavras em uma vibração de intensa ternura e afeto, sem que conseguisse explicar por quê, Félix desabou em incontido pranto; então, aproveitando a divina oportunidade de trabalho, o Pai Velho pegou seu cachimbo, fechou os olhos em oração e aplicou-lhe um passe energético para posteriormente cruzar-lhe com uma vela.
Instantes após a realização de tais procedimentos o pranto de Félix cessou, sua respiração voltou à normalidade e ele conseguiu abrir os olhos. Foi então que ele disse à entidade:
— Nossa vovô, estou sentindo-me bem melhor!
— Graças a Zambi, nosso pai, né zifio?
— Isso! Graças a Deus vovô!
— Sabe zifio,enquanto suncê deixava escoar o seu sofrer em forma de lágrimas, Nêgo véio, com a força de Deus, conseguiu aplicar um passe em suncê.
— Minha respiração está até melhor, vovô!
— Graças a Deus zifio, mas para que, com a força de Zambi, suncê continue em vibração de bem-estar é vital que o filho fale sobre o que tem provocado tal sofrimento, entende?
— Entendo sim vovô. Sabe, tenho até vergonha de falar, mas é que são os mesmos problemas que já falei com o senhor em oportunidades anteriores: a inveja cerca minha vida de maneira imperiosa, mas o pior são as faces em que ela se manifesta tais como maledicência e fofoca. Tento fazer tudo que o senhor passa para mim, mas as pessoas continuam a agir vibrando estas energias para comigo.
— E é bem provável que continuem mesmo, zifio.
— Como assim vovô!?! Todos os procedimentos que o senhor solicitou que eu fizesse, não foram para esta situação melhorar?
— Os procedimentos que este Velho passou para suncê são para o filho melhorar.
— E eu até melhoro, mas de que isto adianta se o comportamento das pessoas torna a adoecer-me?
— Mas é isso que Nêgo tá falando zifio, o tratamento é para estes comportamentos das pessoas não adoecerem mais suncê.
— Tipo uma vacina?
— Isto zifio! O tratamento que estamos realizando com suncê é de imunização.
— O senhor acha possível que eu consiga?
— Claro zifio! Suncê nasceu pra isso e é por isso que teus mentores espirituais disponibilizaram a suncê esta tarefa, quando de sua programação reencarnatória.
— Sério vovô? O senhor nunca havia falado sobre isto antes.
— Sério zifio! Nêgo fala agora, por que agora suncê tem condições de escutar.
— Mas por que uma prova tão difícil, vovô?
— Os filhos que querem fazer uma cirurgia, primeiro devem conhecer o corpo humano; os filhos que querem ensinar, primeiro devem aprender; assim como os filhos que desejam sabedoria, necessitam primeiramente entender sobre as dificuldades da vida.
— Mas tinham que ser dificuldades tão penosas?
— Jesus ensinou que para segui-lo devemos tomar a nossa cruz, não foi zifio?
— Mas esta cruz é muito pesada vovô!
— Zifio, à cada qual segundo suas obras. Suncê inté pode, mas num é formoso dizer que sua cruz é mais pesada ou mais leve que a de outra pessoa, já que todos têm a necessidade de evolução espiritual, mas ela acontece segundo ações realizadas em existências pretéritas e em como, com elas, conseguimos aprender e praticar as lições ensinadas pelo divino mestre Jesus.
— Até que não estou comparando vovô, só queria que a minha fosse mais leve!
— Zifio, mas quando suncê diz que sua cruz é pesada, suncê necessariamente não está falando que existem outras mais leves carregadas por outras pessoas?
— É verdade vovô, mas por que isto?
— A verdadeira profundidade e realidade de todas as coisas, só Deus pode dizer, zifio,mas pensa e responde para este Nêgo: o que anula a escuridão?
— A luz.
— O que anula o ódio?
— Amor.
— O que anula a descrença?
— A fé.
— O que anula o maldizer?
— O bem dizer.
— O que anula o mau comportamento?
— O bom comportamento.
— Então zifio tá dizendo pra Nêgo véio que um bom comportamento de sua parte anula o mal comportamento do outro?
— Isto vovô!
— Então para anular o mau comportamento do outro o que suncê deve praticar?
— O bom comportamento, mas entenda que por mais que eu aja da melhor forma, percebo, várias vezes, as pessoas não se comportando eticamente para comigo, então como acabar com este mau comportamento delas?
— Suncê é responsável por suas próprias ações zifio, assim como cada filho é responsável pelas deles.
— O tratamento que estamos realizando com suncê é para anular o efeito do mau comportamento dos outros em você, ainda que ele persista indefinidamente no outro, mas para que isto ocorra, suncê deve ter bons comportamentos para com eles, pois, como suncê mesmo disse prara Véio, só o bom comportamento anula o efeito do mau em ti, assim como só a busca da Luz anula o efeito da escuridão em ti, da mesma forma que só o amor tem potencial para anular o efeito do ódio em ti.
— Meu Deus, é verdade vovô! Agora penso que estou começando a entender.
— Pensa meu filho: o que anula a empáfia daquele que não escuta o seu próximo só por este encontrar-se em condição economicamente inferior?
— A modéstia.
— O que anula o orgulho daquele que tem muito conhecimento, mas que escolhe a quem escutar apenas baseado neste critério?
— A humildade.
— O que anula a inflexibilidade daquele que age de forma implacável para com o próximo devido às suas posses e ao seu conhecimento.
— A benevolência da tolerância.
— E o que anula o arrependimento por haver agido assim com tantas pessoas.
— O desejo de mudança.
— E se o comportamento para alcançar a mudança almejada não for possível em uma encarnação, está tudo acabado?
— Não vovô Deus é bom e por isto é que existe a reencarnação!
— Este Nêgo aprecia suas palavras, meu filho, mas responde para Nêgo véio: àquele que reencarna com desejo de mudança, na busca de sua evolução espiritual, torna à carne para mudar o outro ou a si mesmo?
— A si mesmo.
— Suncê sabe por que?
— Não, vovô.
— Por que Jesus ensinou que para alcançarmos nossa evolução espiritual devemos pegar a nossa cruz e seguí-lo, não a cruz do outro, mas a nossa; assim, meu filho, tenha para com o outro sempre o bom comportamento, independentemente das circunstâncias.
— Entendo vovô, apenas gostaria que fosse mais fácil.
— Então zifio, dando continuidade em seu tratamento, segundo orientação de seus próprios mentores espirituais, Nêgo véio vai passar um procedimento muito formoso para o filho e que é conhecido como: a voz do silêncio.
— Como assim, vovô? Quando alguém praticar um mau comportamento para comigo eu devo calar-me e pronto?
— A voz do silêncio, zifio, é a voz de Deus, nosso pai.
— Quando alguém praticar contigo algo que suncê julgar como mau comportamento, suncê deve silenciar sim, para escutar a voz de Deus; para tanto suncê fará uma oração ao Criador rogando para que àquele mau comportamento não faça reverberar em ti a voz da ira e da tristeza, mas sim a voz do silêncio, àquela que anulará a voz do mau comportamento alheio e a voz do dissabor que tal comportamento provoca em tua alma. Inicialmente será o teu silêncio, um silêncio até mesmo forçado (já que o desejo natural humano é a reação brusca e com potencial para devolver a dor que lhe infringem), mas com fé e permanência na oração, suncê há de alcançar o silêncio que vem de Deus, que é exatamente àquele em que Ele silencia a voz do outro, a voz do mundo e a tua própria voz para que só a Dele se faça presente. Então será neste momento de entronização do Pai contigo que conseguirás praticar o bom comportamento, não por que isto anulará o mau comportamento alheio, mas o efeito deste em você, lembre zifio do ensinamento sagrado: “à cada qual segundo suas obras”.
— Mas vovô, já sendo eu meio quieto, esta ação não poderá fazer com que o mau comportamento do outro para comigo seja reforçado?
— Filho, por que Jesus ensinou é que este Nêgo véio repete: “à cada qual segundo suas obras”. Aja sempre praticando o bem. Se alguém praticar-lhe o mau, pratique a voz do silêncio para que Deus possa abençoar suncê em seu agir. Pratique a voz do silêncio em sua vida ao menos duas vezes ao dia, pois serão nestes momentos de oração que suncê há de alcançar mais contato com Deus e com seus mentores espirituais, conseguirá ouvir a voz Dele e praticará o bom comportamento independente das circunstâncias. O treino fará com que suncê se sinta mais próximo de Deus e, desta forma, zifio, nada te abalará, nem mesmo o que suncê avaliar como mau comportamento alheio, entendeu zifio?
— Puxa vovô, entendi sim, não tenho nem como lhe agradecer.
— E nem precisa, zifio, pois somente à Deus toda honra e toda glória. Vá na força e na luz de Zambi, nosso Pai!
— Que assim seja!
O atendimento acabou, pouquíssimo tempo depois a entidade desincorporou, aproximou-se de mim e tornou a tocar em minha nuca. Foi assim que acordei, de imediato, em cima de minha cama.
Não sei se foi a empatia com o consulente, a energia amiga da entidade benfazeja, ou a oportunidade divina do trabalho (tanto na oração, quanto na escuta), mas levantei-me já numa imensa alegria que se manifestava em forma de lágrimas.
Lágrimas de amor, pranto de reflexão e choro de gratidão por haver aprendido sobre a voz de Deus, audível por meio da oração, alcançável por meio de Seu amor e divinamente representada por três palavras: VOZ DO SILÊNCIO.

Obrigado, senhor Deus! Obrigado, mestre Jesus! Obrigado a toda a falange dos preto-velhos ( ainda que os senhores digam que só devemos agradecer a Deus), por toda a oportunidade de aprendizado!

sábado, 5 de janeiro de 2019




                              A SEMEADURA........


Há pouco mais de um século, em uma cidade do astral superior, um semeador havia sido chamado para executar sua mais nova tarefa. Tanto quanto antes se apresentou ao seu superior que disse-lhe:
- Salve valoroso irmão! Cá estou para prestar esclarecimentos sobre sua tarefa.
- Você está incumbido de plantar uma semente de Oxalá em uma nação da terra.
- E tal semente vingará?
- Na força de Deus, certamente que sim! Sua germinação dará origem a raízes fortes que sustentará o crescimento do tronco e de toda uma estrutura que produzirá muitos frutos e novas sementes.
- Agradeço pela confiança em executar tarefa tão valorosa!
- Mas não se engane companheiro, pois de tudo o farão para que esta semente não vingue e que, se o oposto ocorrer, para que não frutifique.
- Aqueles que descansarão em sua sombra e comerão de seus frutos são exatamente àqueles que, de uma forma ou outra, cuidaram de praticar magias negativas para atentar contra o bem-estar do próximo em existências pretéritas.
- Será uma forma de acelerar-lhes o carma, pela prática da caridade, com a mesma arma com que, antes, tanto mal causaram: o uso desvirtuado da magia.
- Se tudo ocorrer como planejamos, no início, quando tal árvore estiver firme e dando seus primeiros frutos, uma primeira ventania de desconhecimento e intolerância fará de tudo para ceifá-la, mas isto provocará efeito contrário e muito mais frutos ela dará.
- Aquecida pelo calor da mãe Arte e do pai Conhecimento, em sons e imagens, muito mais condições de dar frutos ela terá.
- Em cada canto da nação em que for plantada ela germinará.
- Virá o tempo, porém que alguns usufrutuários desta árvore irão proclamar-se enquanto donos da mesma. Escreverão teses e tratados para justificarem este pretenso direito de posse.
- Mas isto é um erro! Provocará divisão!
- Em um primeiro momento certamente, mas não te esqueças que uma árvore produz muitos galhos, que muitas vezes são exteriormente diferentes entre si, mas genética e estruturalmente vem de uma mesma raiz: a luz divina de Oxalá; e será esta raiz, esta luz que provocará a divina convergência quando for chegada a hora.
- Mas isto poderá prejudicar a árvore na absorção de nutrientes para sua subsistência, provocar o enfraquecimento da árvore.
- Provocará a sensação de enfraquecimento da árvore, mas a árvore sempre estará guarnecida na força de Oxalá.
- Com o passar dos anos os usufrutuários desta árvore despertarão de suas idiossincrasias e verão que admiradores ferrenhos de outras árvores tudo fizeram para que ela fosse arrancada do solo até a raiz, justificando que seus frutos, além de não serem bons, poderiam causar doenças e quiçá a morte!
- Os usufrutuários entenderão que passaram muito tempo sem cuidarem da árvore, sem irrigá-la em épocas de seca e adubá-la na época de poucos nutrientes no solo, tão preocupados que estavam em considerar-se seus donos.
- Verão seus filhos serem alvos de preconceito na escola, não por que fazem mal ao próximo, mas apenas por comerem do fruto desta árvore.
- Ligarão seus dispositivos de imagem e verão, emissora por emissora, programas de admiradores de outras árvores orientando a população que não se alimente do fruto da árvore que tanto saboreiam.
- Sofrerão preconceito velado em seus locais de labor por que brigaram tanto entre si que se esqueceram de cuidar da árvore.
- Puxa! Então creio que a partir daí será o fim da árvore, estou certo?
- Não cai uma folha de uma árvore que não seja da vontade do Divino criador, da mesma forma, nenhuma semente de Oxalá será retirada do solo da Terra, enquanto não for da vontade de Deus!
- Não, não e não nobre companheiro! Quando isto acontecer estará quase perto da hora em que esta árvore produzirá a maior quantidade de frutos que já se viu. Os usufrutuários observarão que mais importante do que dizerem ser donos deste ou daquele galho, é cuidar da árvore para que ela produza os seus frutos, pois aí está a sua força, independente se os frutos estão no galho de cá ou no galho de lá.
- A convergência ocorrerá e a árvore poderá, enfim, realizar sua missão com toda plenitude.
- A missão de levar lenitivo às camadas mais pobres da sociedade, de aceitar em suas sombras todo aquele que nela desejar estar, mesmo quem também se alimente dos frutos de outras árvores.
- A missão de levar alimento para todos aqueles marginalizados pela sociedade a fim de que tenham a chance de se fortalecer e jamais esquecerem daquilo que realmente são: filhos de Deus e dignos de seu amor, independente de gênero, raça, religião ou qualquer escolha pessoal.
- Agora que estou ciente de minha tarefa, agradeço ainda mais pela confiança que me foi dada, mas antes de ir executá-la eu gostaria se possível, de fazer uma última pergunta. Posso chefe?
- Claro!
- Qual será o nome desta semente tão linda?

- O nome, meu irmão, será Umbanda!!!

Mensagem recebida por Pedro Rangel

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Caboclo Urubatão da Guia



O Caboclo Urubatão da Guia bateu no peito e saudou a toda assistência que se encontrava no local.
Abaixou-se no chão para traçar alguns pontos riscados, levantou-se e começou sua prédica dizendo:
- Saravá filhados meus ! Tupã que abençoe e proteja o caminhar de cada um de suncês!!!
- Palavra de Caboclo no dia de hoje é muito curta, mas é importante que seja dita.
- Caboclo hoje vai falar sobre aquilo que suncês chamam de injustiça,mas que Caboclo chama da Lei de ação e reação.
A assistência estranhou a comparação, mas o Sr. Urubatão continuou:                
- Quando um filhado é alvo de magia negativa suncês chamam de que?
- Injustiça!!!
- Quando um filhado fica muito tempo desempregado suncês chamam de que?
- Injustiça!
- Quando um filhado passa por insucessos nos relacionamentos amorosos, os filhados dizem que é o que?
- Injustiça!
- Só que esses exemplos que Caboclo deu, entre muitos possíveis, não são injustiça; suncês sabem por quê?
A assistência sinalizou negativamente e a entidade, então, disse:
- Por que injustiça não existe! Tudo que existe é a justiça de Deus!
A assistência remexeu-se nos bancos demonstrando perplexidade com a informação.
- Tupã é justo ou injusto?
- Justo!
- Sua criação é justa ou injusta?
- Justa!
- Tupã espera que suncês andem no mundo de forma justa! Que se relacionem com o próximo de forma justa, que se relacionem com o dinheiro de forma justa, enfim que sejam justos com tudo e com todos, pois só a justiça leva ao equilíbrio.
- Urubatão não fala do equilíbrio na balança não, mas do equilíbrio que leva a paz interior e ao bem agir.
Uma senhora de óculos e de aparência bem simpática levantou a mão e pediu a palavra:
- Sr. Caboclo, escuto tudo que está dizendo, mas como o Sr. explicaria alguém que procurou levar sua vida de maneira correta, mas que passou toda vida sem sorte no amor?
- Ação e reação, filhada! Suncês não estão passando pela primeira encarnação. Quem poderá afirmar, com cem por cento de certeza, que suas encarnações pretéritas tenham sido pautadas pela mesma conduta justa que suncê esclarece desenvolver na atual existência corpórea?  
- No grande Livro da vida Tupã tem registrado o caminhar de todos suncês neste mundo de terra. Onde há necessidade de reparação Tupã sabe e oportuniza tal possibilidade a cada encarnação.
- Tudo aquilo que suncê, filhada, chama de falta de sorte no amor, Caboclo chama de oportunidade de resgate cármico. Se suncê tiver humildade, resignação e entendimento de que tal experiência não é para seu mal, mas para seu crescimento espiritual, então terá aprendido a amar a Deus acima de todas as coisas, de qualquer circunstância e, talvez, quem sabe não tenha também a chance de experienciar de Sua misericórdia nesta área de sua vida? Porque o amor, filhada, cobre uma multidão de pecados!
- Além disto, filha, se suncê continuar procurando conviver com o próximo e consigo mesma de forma justa, estará semeando condições de colher uma próxima encarnação de grandes possibilidades para sua evolução espiritual.
Outra pessoa da assistência ergueu a mão solicitando consentimento para falar:
- Mas se os casos de magia negra não são uma injustiça, como é que são tratados no terreiro? O tratamento destes casos não seria uma forma de reparação da injustiça cuja vítima destas práticas estaria sofrendo?
- Filhado, todos os casos de magia negra que este Cabloco conhece começam, invariavelmente, da seguinte forma: os filhados sentem necessidade de obterem alguma coisa que, naquele momento, não são merecedores de alcançar.
- O tempo passa e como não alcançam aquilo que julgam ter direito de receber, passam a desenvolver internamente pensamentos de desamor, revolta, melancolia e descrença de que foram criados por Deus para serem felizes em toda sua plenitude. Tal atitude íntima faz com que atraiam psíquica e eletromagneticamente para sua aura e centros de força miasmas, bacilos e larvas astrais.
- A reverberação de tais sentimentos e pensamentos no campo íntimo cria condições ideais para a aproximação de espíritos descompromissados com a ética do Cristo. Pronto! Criada está a oportunidade para que seja vitimizado por uma magia negativa, uma vez que se apresenta psíquica, energética e eletromagneticamente sem suas defesas.  
- Quando uma pessoa que está magiada é tratada no terreiro, não se trata de caso de reparação da injustiça, mas de tratamento e trabalho para que ocorra a reforma íntima do outrora magiado.
- O que Caboclo quer dizer é que o magiado não é um injustiçado, uma vez que ele mesmo criou as condições para ser vitimado pela magia negra.
- Toda vez que Caboclo, com a permissão de Tupã, termina o desmanche de uma magia negra ele, seguindo o exemplo de Jesus, diz para o outrora magiado: “ Vá e não peques mais! “
- Tupã, filhados, a cada dia oferece condições para suncês serem felizes, mesmo que não sejam àquelas que, muitas vezes, suncês desejam.
- Revoltar-se contra os desígnios do Pai para a vida de suncês, isto sim é que Caboclo vê como uma grande injustiça!
- Procurem se apegar com Deus a cada dia de suas vidas meus filhados! Procurem honrar a vida que Ele deu a suncês!  Procurem enfim, como disse um grande sábio, “desenvolver coragem para modificar as coisas que podem ser mudadas, serenidade para aceitar àquelas que não podem ser modificadas e sabedoria para distinguirem umas das outras”.
- Tenham fé filhados!!! Procurem esperar em Deus!!!
Outra pessoa da assistência levantou a destra e disse:
- O Senhor que me desculpe, Sr. Caboclo, mas minha situação de desemprego não pode mais esperar!
- Esperar em Deus não é ficar num canto, sentado e esperando o emprego!
- Mas eu sei disto Sr. Caboclo!!! Já espalhei currículo para tudo quanto e lugar e, até agora, nada.
- Filhado, no Livro sagrado está escrito: “ Ganharás o pão com o suor do teu rosto! “ O que isto significa para suncê?
- Que devo para trabalhar para o meu sustento!
- No Livro sagrado especifica qual tipo de trabalho que deve ser realizado para obtenção do pão de cada dia?
- Não. Até mesmo porque qualquer trabalho é trabalho!
- Então por que suncê está esperando um trabalho específico para começar a trabalhar?
- É que acabei de me formar depois de anos e gostaria de enriquecer meu currículo!!!
- Mas será que no momento é isto que Tupã espera de suncê? Será que, no momento isto é de seu merecimento?
- Não saberia dizer!
- Será que suncê, ao dizer que “qualquer trabalho é trabalho”, não estaria sinalizando que não quer qualquer trabalho, mas O trabalho? O trabalho dos seus sonhos?
- Por que o Senhor diz isto?
- Por que para Tupã nenhum trabalho é qualquer! Todo trabalho e todo trabalhador tem o mesmo valor aos olhos do Pai! Caboclo sente em seu íntimo que o trabalho que não for da sua área de formação, então para suncê é qualquer! Não que para suncê não tenha valor, apenas não tem o mesmo valor daquele que suncê almeja! Se não fosse assim suncê diria “ todo trabalho é trabalho”, ao invés de “qualquer trabalho é trabalho”. Reflita sobre isto filhado!
- Que Tupã abençoe e proteja cada um de suncês! Que o manto de sua justiça possa aquecer o coração de suncês com muito amor, paz, humildade, resignação e sabedoria, fazendo com que sejam derretidas todas as más tendências que vem limitando o olhar de suncês para o tamanho da misericórdia de Tupã-Nosso-Pai!

- Tupã que ilumine o caminhar e o coração de cada um de suncês!!!!  

terça-feira, 14 de março de 2017

O carma, a caridade e o bem maior


Isabel caminhava em direção a Pai José. Ela estava prestes a comunicar-lhe sua decisão: pediria afastamento do terreiro.
- Boa noite zifia! Como vai suncê?
- Boa noite Pai José! O Senhor já sabe o que vim fazer aqui hoje, não sabe?
- Filha se este nêgo véio tivesse este poder ele não seria Pai José, mas sim o próprio Deus, pois só Ele sabe de todas as coisas.
- Como assim vovô?
- Nós não somos advinhos zifia! Se suncê veio aqui é por que tem algo a dizer e este nêgo tá aqui, de coração aberto, só para te escutar!
- Então acho que tenho que dizer de uma vez só, não é vovô?
- Da forma que for melhor pra suncê.
- É que eu vou pedir desligamento do terreiro. O que o senhor acha disto?
- Zifia toda decisão indica um caminho que é sinalizado por pensamentos e sentimentos. Onde este caminho vai dar, abaixo de Zambi, só teu pensar e sentir que poderão lhe dizer.
- Como assim Pai José?
- Bom senso minha filha! Toda decisão, de todo ser humano, deve ser pautada pelo bom senso.
- O senhor está dizendo que esta minha decisão não está baseada no bom senso?
- De forma alguma! Nêgo véio não faz julgamento de valor! Só estou explicando para a filha que a ilusão obscurece o bom senso.
- Ilusão? Como assim?
- Só um instantinho minha filha.
A entidade pediu que seu cambone trouxesse um copo de água em temperatura ambiente e outro de água gelada. Somente quando ele voltou foi que a entidade disse a Isabel:
- Zifia estique sua mão direita e diga se este líquido está quente ou frio.
O preto-velho derramou um pouco de água em temperatura ambiente na mão dela que respondeu-lhe:
- Nem quente, nem fria: está em temperatura ambiente.
- Continue com a mão estendida.
Pai José derramou a água gelada, que seu cambone trouxera, na destra de sua consulente que falou-lhe:
- Este líquido está gelado!
- Permaneça com sua mão esticada!
O preto-velho tornou a derramar água em temperatura ambiente na mão de Isabel, que disse:
- Esta água parece quente.
- Suncê viu de onde nêgo tirou esta água que suncê falou que parece quente?
- Vi sim senhor. Foi do copo com água em temperatura ambiente!
- E como a mesma água que antes suncê respondeu que estava em temperatura ambiente, de repente pareceu quente?
- É que a água que o senhor derramou na minha mão antes desta estava muito gelada.
- Muito bem zifia! Suncê é muito sabida! Percebe o que a ilusão dos sentidos pode fazer com seu julgamento? Seu pensamento? Seu sentimento?
- Não totalmente!
- Não se preocupe minha filha! Continue a prosear com este véio que Deus, em sua infinita misericórdia, há de fazê-la entender certas coisas.
- Vovô eu não consigo mais ver sentido em ficar aqui: o senhor sabe que minha filha, que assim como eu era médium desta casa, acabou de desencarnar fulminantemente por conta de uma enfermidade que ninguém pôde diagnosticar a tempo de salvá-la!
- Salvá-la de que, zifia?
- Do que? Da morte!
- Mas não existe morte zifia: só existe vida, ainda que em outro plano da existência!
- Nenhuma entidade contou nada para mim ou para ela, que só foi saber da doença quando passou mal e os médicos a diagnosticaram como enferma, após realização de vários exames.
- Suncê se sentiu traída por nós, minha filha?
- Vocês sabiam da doença?
- Era visível a nóis, pelo perispírito!
- Então devo dizer que me senti traída, pois vocês não me alertaram.
- Nóis passamos um tratamento para a zifia!
- Sim e ela o seguiu, mas foi um tratamento que o senhor sabia que não resolveria o problema dela, que não a ajudaria. Vocês não nos alertaram!
- Zifia, e de que adiantaria nosso alerta se a doença começara a se desenvolver em sua filha há dez meses? Se a situação da saúde de sua filha era irreversível há cinco meses e se suncês entraram para a corrente mediúnica do terreiro há três meses?
- Mas vocês poderiam ter nos alertado, nos preparado!
- Preparar? Desculpe a franqueza zifia, mas a preparação para a verdade imutável que é o desencarne deve acontecer todo dia e a todo o momento, e isto não é pensar negativo, mas sim com humildade e sabedoria, pois só Deus sabe a hora de cada um.
- Eu vou sair porque acho que vocês poderiam ter nos preparado!
- Filha há muito tempo, quando suncê tinha dezesseis anos, seu pai faleceu da mesma moléstia que sua filha apresentou!
- É verdade!
- Seu pai lutou contra a moléstia por quase treze meses.
- Isto também é verdade!
- E foi justamente durante estes treze meses que suncê, somatizando todo o sofrimento pela condição de saúde de seu paizinho, desenvolveu uma úlcera gástrica que tanto lhe incomoda até os dias de hoje.
- É verdade.
- Agora minha filha, abrindo seu coração com honestidade, responda:
- Em que lhe ajudou saber sobre a doença de seu pai?
- Acho que começo a entender o senhor.
- Zifia Isabel este nêgo véio fala a suncê que nóis, que suncês chamam de entidades, não somos advinhos!
- Somos falangeiros que militam pela Lei maior e pela Justiça divina! Para Deus a caridade que se faz a um de Seus filhos é uma caridade feita para toda a humanidade!
- Entendo.
- Deus tem amor enorme por cada uma de suas criaturas, só que para Deus o bem maior está acima das individualidades e foi por isto que ao mundo Ele enviou Jesus.
Isabel chorou copiosamente, ao lembrar-se do sofrimento a que Jesus fora submetido quando encarnado, e reconheceu que o sofrimento de sua filha nada fora em comparação ao dele.
Pai José esperou o estado emocional dela tornar a normalidade e disse-lhe:
- Nêgo véio gostou da sinceridade do seu coração, mas aqui no dia de hoje nóis não estamos trabalhando o sofrimento de sua filha; até mesmo por que ela não sofre mais onde se encontra, já que está disposta em repouso em uma câmara de vitalidade aguardando o despertar em momento oportuno!
- Verdade?
- Sim zifia! No dia de hoje trabalhamos o seu sofrimento!
- É vovô! Cada um com seu carma!
- Filha, carma não é sofrimento, é libertação!!!
- Como assim?
- Carma, zifia Isabel,é ter humildade de clamar sabedoria a Deus diante dos desafios que são apresentados na vida de cada um, pois uma vez aprendido o ensinamento, com fé, humildade e resignação, evolui-se em direção a Deus-Nosso-Pai.
- Como assim?
- Na vida existe o carma não para nos causar sofrimentos, mas para possibilitar libertação, que é possível de acontecer, se tivermos sabedoria para vencer os desafios no caminho.
- Creio que entendi. A morte de um ente querido é um desafio natural da existência humana. O carma não é sofrer com a perda, uma vez que o sofrimento é natural nestes casos, mas sim alcançar a liberdade incondicional ao vencermos tal desafio.
- Zifia, tempos atrás suncê contou que a entidade que lhe assiste nas incorporações, o Caboclo Araribóia, apareceu duas vezes em sonho pra suncê e pedia que suncê continuasse a andar na estrada, não é verdade?
- Isto vovô! Ele aparecia e me mostrava uma estrada em que eu devia voltar a caminhar!
- Pois então zifia saiba que tal estrada não é necessariamente este terreiro, mas sim a Umbanda sagrada.
- Verdade?
- Certamente zifia, se suncê quiser sair do terreiro as portas vão estar abertas assim como se encontravam quando suncê por elas neste terreiro adentrou pela primeira vez. O importante na sua vida não é o terreiro zifia, o importante é a Umbanda!
- Isto é verdade mesmo Pai José por que, antes de eu entrar neste terreiro há três meses, fiquei cinco anos afastada da Umbanda!
- Nêgo véio entede zifia! Foi quando seu esposo faleceu, não foi?
- Foi isto mesmo vovô!
- Após vinte e cinco anos de casados o seu esposo faleceu de câncer e suncê, como forma de homenagear o amor que sempre houve entre suncês, decidiu prestar trabalho voluntário em alas de hospitais onde estão internadas crianças que possuem câncer, não é verdade?
- Como o senhor sabe disto vovô? Eu nunca contei para ninguém?!?
- Foi o Caboclo Araribóia zifia!
- Ah é? Por que vovô?
- Por que para Deus o bem maior tá acima das individualidades.
- Como assim? O senhor poderia explicar?
- Filha o câncer em sua família não é sofrimento, é carma! Possibilidade de libertação em direção a Deus.
- Isto eu entendo.
- Carma é cumprimento da Lei maior e da Justiça divina na vida de seus humanos filhos! Quando estes se envolvem consistentemente em trabalhos caritativos, o Pai envia sua misericórdia como um bálsamo em suas vidas.
- Entendo.
- O teu trabalho voluntário em favor das criancinhas fez com que suncê recebesse a oportunidade de ter a sua filha tratada e assistida pelos médicos do astral para que viesse a ter um desencarne sereno e indolor!
- Meu Deus, eu jamais poderia imaginar! Ela realmente nada sofreu!
- Estou autorizado a dizer mais a suncê zifia: sabendo que suncê somatiza com muita facilidade o sofrimento dos que lhes são próximos, foi que o caboclo Araribóia criou condições de suncê voltar para a Umbanda, como uma forma de evitar que isto ocorresse.
- Meu Pai! Deus é muito bom!
- Até mesmo por que, se isto ocorresse, as crianças assistidas por suncê voluntariamente ficariam sem ter como receber o lenitivo que suncê mais lhes proporciona: o doce remédio do sorriso.
Dona Isabel chorava muito a cada vez que dizia:
- Deus é bom! Obrigada meu Deus! Obrigada!
Pai José esperou sua consulente serenar as emoções e, para encerrar aquele atendimento, disse-lhe:
- Foi o que este nêgo disse a suncê zifia: Zambi-Nosso-Pai enviou Jesus ao mundo para que todos pudessem alcançar a oportunidade de salvarem suas vidas do ódio, do egoísmo, do orgulho e do desamor, pois para Deus o bem maior está acima das individualidades, e é por isto também que a misericórdia Dele é, de fato, infinita! Vá na força e na luz de Deus-Nosso-Senhor!!!!  
- Amem,vovô! Amem!




                            







                               

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

UMA LIÇÃO DE VIDA
Certa noite após fazer minhas orações, e enquanto me deitava para dormir, senti um amigo espiritual solicitando que fizesse preces de agradecimento a Deus firmando o pensamento em uma cachoeira.
Quando dei por mim já estava em frente a uma queda d’água ainda mais bela da que eu imaginara. Estava dentro do rio e em frente dela, que era muito linda e bastante caudalosa.
O tempo foi passando e eu percebi que não conseguia sair de onde estava. Olhei ao redor para verificar se via alguém, mas sem sucesso.
Procurei pensar como tudo começara e tive uma idéia: só havia parado ali porque firmara meu pensamento como pedira o amigo espiritual, assim se continuasse a firmar, talvez fosse possível sair daquela situação.
Fechei os olhos e firmei meu pensamento por tempo indefinido, mas quando descerrei os olhos minhas pernas ainda se encontravam imóveis.
Comecei a ficar preocupado não devido à imobilidade, pois confio nos amigos espirituais servos de Deus, mas por não estar entendendo àquela situação.
Procurei recordar as lições que os amigos espirituais sempre procuram me passar a respeito de tudo que se refere às cachoeiras e assim, lembrei que as águas deste sítio de forças da natureza têm propriedades altamente renovadoras, que renovam tudo aquilo que já não tem mais razão de ser.
Procurei refletir sobre esta minha recordação e entendi que, se ali estava, era por que precisava de renovação em um ou mais aspectos de minha vida. Sem conseguir buscar explicação racional, o que me angustiou muito, senti vontade irrefreável de por as duas mãos nas pedras sob a queda d’água e assim o fiz.
Senti meu corpo astral vibrar com uma energia muito forte, as batidas do meu coração aceleraram e lágrimas incessantes e inexplicáveis passaram a escorrer de meus olhos.
Passei a sentir o meu corpo a pulsar uma energia multicolorida como se eu fosse apenas luz. Intui que deveria permanecer de olhos fechados e em prece e não procurei questionar.
Então senti que meu corpo permanecera na cachoeira do jeito que estava, mas também senti que já não estava mais lá, estava muito, muito leve. Olhei para minha esquerda e vi um arco-íris como a indicar uma direção e procurei segui-la.
Fui parar de frente a outra cachoeira onde várias crianças brincavam silenciosamente. Foi interessante porque lá eu conseguia movimentar-me livremente.
Uma alegria enorme, incomensurável inundou todo o meu ser e, de tão feliz que estava, também me deu vontade de brincar igual uma criança, mas antes que assim eu fizesse uma delas chamou-me.
Aparentava ter uns três anos de idade. Tinha o cabelo todo encaracolado de um castanho-claro, a pele branca e as bochechas eram, por falta de um melhor vocabulário, muito proeminentes, fofas e rosadas.
Não sei como explicar, mas sentia como se estivesse diante de um saudoso amigo e devo confessar que, se no plano físico ele existisse, eu tudo faria para adotá-lo.
- Obrigado tio!!!
Foi o que ela disse a mim.
- Obrigado pelo que?
- Pelo afeto tio! Pelo carinho!
- Você pode escutar meus pensamentos?
- Só aquilo que for importante!
­- Importante para que?
- Pra ajudar você titio!
-Você? Ajudar a mim? Como assim? Você não é uma criança?
- Tio, se hoje sou criança, então um dia eu serei adulto, não é?
- Isto!
- E se hoje você é adulto, um dia tornará a ser criança, não é?
- Isto! Suas observações são muito sábias, você nem parece uma criança!
- Mas você sim tio!
- Eu o que?
- Meu tio tá parecendo uma criança, e daquelas bem birrentas!
- Acho que começo a entender: você é uma criança espiritual!
- Puxa! Demorou, hein tio!?!?!?
Ri bastante daquela observação e senti uma alegria quase incontida. Nisto, algumas lágrimas que julguei inoportunas desprenderam-se dos meus olhos. Procurei disfarçá-las e perguntei:
- De que teimosia você está falando?
- Por quê? São tantas assim meu tio? Credo!!!!
Não tive como conter as gargalhadas outra vez! E observei que novas lágrimas deslizaram, mas só desta vez notei que um peso saía de dentro de mim enquanto escorriam. Tentei disfarçá-las novamente e a escutei dizer:
- Eu tô brincando com você meu tio! Eu to falando só da teimosia que meu tio tem de não querer deixar a vida correr.
- Como assim?
- Tio, o que passou é passado. O que passou só tem utilidade se servir para uma coisa: renovar seu presente de esperanças num futuro melhor!!! Se não for assim, meu tio, o passado só vai paralisar você!!! Como já tem feito!!!
- A vida meu tio é um presente! As experiências, difíceis ou não, são para fazer você mais forte moral, consciencial e emocionalmente. Deixe as águas da renovação banharem você meu tio, pois é sua melhor chance de desempacar e seguir a vida com mais liberdade. Liberte-se meu tio! Deixe o passado para trás!
- Da mesma forma que um dia uma criança vira adulto e este se torna uma criança, um dia seus pais renascerão e você desencarnará.
- Mas é que muitas vezes ainda dói!
- A dor provoca sofrimento, mas quando se busca a força em Papai-do-céu e na força interior que cada um possui, a dor passa e torna-se esperança, mas se isto não ocorre o meu tio entra num ciclo vicioso em que o sofrimento provoca a dor que vai causar mais sofrimento.
- Como assim?
- Meu tio o que acontece se você sofrer um corte profundo na pele?
- Eu vou sangrar!
- Vai ficar sangrando pra sempre!
- Não se eu buscar socorro!
- Meu tio busca o socorro e o que acontece depois?
- Um profissional vai suturar o corte.
- Com o tempo não vai parar de sangrar? Não vai parar de doer?
- Sim
 - Mas a cicatriz permanece, não é assim, meu tio?
- Isto. Exatamente!
- E se você ficar cutucando a ferida antes dela sarar?
- Ai ela não vai sarar nunca!
- Então tio! O corte provoca dor na pele e esta dor leva ao sofrimento, mas se você não ficar cutucando a pereba o sofrimento passa e a dor vai embora. Se você cutucar a ferida o sofrimento vai alimentar sua dor, que lhe causará mais sofrimento. Nada vai sarar, entende tio???
- Estou entendo sim, tudo está ficando mais claro!
- A vida do meu tio tá paralisada no passado, é preciso renovação tio! Renovação verdadeira, sem aprisionar-se ao passado. Vem tio, deixe a gente ajudar você!!! Tudo na sua vida será renovado, menos a falta de cabelos na sua careca, isto aí só na próxima encarnação!!
Não pude mais conter meu riso ao escutar a última observação! Gargalhava sem parar e nem me faltava o fôlego! Lágrimas abundantes deslizavam pelo meu rosto enquanto gargalhava, mas desta vez não tive a mínima vontade de contê-las. Enquanto tudo isto acontecia àquelas crianças, que já formavam um círculo ao meu redor, batiam palmas e cantavam louvores em uma língua desconhecida para mim.
A criança que conversara comigo acenou pedindo que eu fechasse os meus olhos e eu assim o fiz.
Os louvores e palmas continuaram. Por dentro eu explodia de felicidade e gratidão a Deus por toda àquela oportunidade. Os risos que vinham das lágrimas ( ou lágrimas que vinham dos risos ) continuaram insofreáveis, mas observei que àquele canto tinha o poder de provocar nova disposição em mim, novos pensamentos, sentimentos, possibilidades.
A criança com quem dialogara tocou em direção ao chacra cardíaco e olhou-me como quem dissesse:
- Pratique o que conversamos!
E eu, ainda gargalhando com lágrimas incontidas nos olhos, respondi-lhe com todo respeito que aprendi a lhe dedicar:
- Muito obrigado!
Ele gesticulou pedindo que eu tornasse a fechar os olhos.
Com olhos fechados senti novamente toda aquela vibração em meu corpo e voltei numa velocidade inimaginável para àquela cachoeira em que, anteriormente, não conseguia mover as pernas. Era como se minha consciência tivesse retomado meu corpo espiritual.
As lágrimas cessaram de jorrar, mas a alegria incontida ainda permanecia imutável dentro de mim.
Recebi mentalmente a orientação daquela criança espiritual que em outro plano se encontrava:
- Tio esta alegria é um presente que Papai-do-céu mandou que entregássemos a você. Foi nosso dever entregá-la e é seu dever conservá-la! Vá com Deus titio!!!
Quando abri os olhos pude observar que já havia sido transportado para o corpo físico! Olhei para o lado e vi minha esposa que dormia! A cama era a mesma, o colchão era o mesmo e até a coberta era a mesma, quanto a mim, que naquele momento não lembrava nada que vivenciara no plano astral, acordei “inexplicavelmente” com um enorme sentimento de gratidão a Deus,  sentia  e pensava como se fosse uma nova pessoa.
Somente hoje pude recordar de todo o ocorrido e, com um sorriso de alegria nos lábios e lágrimas de gratidão nos olhos, é que assim digo:
Muito obrigado meu Deus!!! Muito obrigado pela Cachoeira divina, pelo Arco-íris sagrado, pela falange das Crianças espirituais e por minha vida!!!
Muito obrigado pela Umbanda sagrada!

Saravá!!!!!!



Mensagem recebida por Pedro Rangel

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Pai Joaquim e o banho de ervas

Fábio tornara-se um adepto da Umbanda há três meses. Cambonava Pai Joaquim de Aruanda.
Quando a gira estava quase no seu término ele perguntou a entidade:
- Pai Joaquim, porque eu estou me coçando todo? Será que peguei alguma carga? Já tem quase vinte minutos que isto começou e só está aumentando de intensidade; se continuar não sei se consigo participar do ritual de encerramento da gira.
- Senta aqui na frente de Véio, zifio!!!
Pai Joaquim deu várias baforadas com seu cachimbo em direção ao cambone e, após, estalando os dedos, fez a limpeza energética necessária. Com o fim dos procedimentos disse-lhe:
- Zifio, nóis conversa mais pra frente, pois a gira já tá no finzinho, mas este nêgo só pede uma coisa a suncê: tome seu banho de descarrego antes de cada reunião!!!
Fábio voltou para casa surpreso em como a entidade descobrira que ele, de fato, não tomara o banho de descarrego. Ele achava tal procedimento não muito relevante, pois já havia participado de algumas reuniões sem tomá-lo e nada demais acontecera.
Os dias se passaram e foi numa noite de quarta-feira que, ao deitar-se e adormecer, vira seu duplo transportado para fora do corpo físico. Era a primeira vez que ele tinha consciência daquele acontecimento.
Um homem vestindo branco surgiu a sua direita e disse:
- Vamos filho?
- Não lembro de lhe conhecer, mas sinto que já o conheço. Vamos!
Volitaram até uma localidade do plano astral onde existiam alguns prédios.
Entraram no prédio central e caminharam até uma sala.
Fábio foi acomodado em uma cadeira e teve dois fios plugados em suas têmporas. Seu acompanhante massageou a região do terceiro olho e pediu que firmasse o olhar numa espécie de mini-tablado que havia em sua frente.
Aos poucos surgiu a imagem tridimensional do terreiro freqüentado por ele. Pouco tempo se passou e ele notou que observava o andamento da última gira que participara. Foi quando seu acompanhante disse a ele:
- Procure observar a si mesmo durante toda a gira, pois depois conversaremos!
Fábio observou que com o passar da gira seu perispírito passou a acumular larvas astrais. No final da reunião estava praticamente coberto destas criaturas.
As imagens cessaram depois dele assistir o passe magnético que recebera do Pai velho. Ficou impressionado como simples baforadas e estalar de dedos fizeram com que aqueles seres fossem desagregados e dissipados de junto dele.
Olhou para seu acompanhante e disse:
- Por que isto ocorreu comigo? No terreiro não tem proteção?
- O terreiro tem proteção meu irmão! Era você quem estava desguarnecido dela!
- Mas por quê?
- Antes, responda-me você: com que elemento as larvas astrais foram dissipadas de você?
- Com a manipulação da fumaça!
- A fumaça foi produzida com o que?
- Com o calor que aqueceu as folhas.
- Muito bem! O calor aqueceu as folhas e fez com que suas moléculas pudessem acelerar continuamente até que seus princípios vitais pudessem dela ser desprendidos e utilizados em seu favor.
- impressionante!!!
- O que você acha que acontece quando é feito um banho de descarrego?
- Acho que o princípio é parecido: as folhas entram em contato com a água quente, que desprendem sua energia.
- Então uma pessoa que toma banho de descarrego, na verdade está realizando uma profilaxia contra possíveis ataques de criaturas astrais perniciosas, não é verdade?
- É, digo sim senhor, é isto mesmo!!!
- Preciso dizer mais alguma coisa?
- A importância do banho de descarrego então é esta? Profilaxia?
- Também, mas a profilaxia foi a finalidade que me determinaram lhe explanar nesta noite.
- Então quer dizer que se eu tomar o banho isto não acontecerá mais?
- Exatamente!
- Puxa! O senhor me desculpe, viu!? Agora que entendi a importância vou tomar banho de ervas antes de todas as giras.
- A importância do banho você já sabia por participar das reuniões de estudo no terreiro em que freqüenta você só não conseguia acreditar e aceitar como um fato. Ficou sem tomar o banho em algumas giras anteriores e como nada de desagradável lhe ocorrera, você julgou o banho ineficaz. Precisou ver para crer! Espero que isto não se torne uma constante em sua caminhada espiritual, pois senão você vai arranjar muitas coisas para se coçar: coisas piores do que a própria sarna.
- Procurarei não esquecer desta lição em minha vida! Muito obrigado por tudo!!! 
- Luz e força em sua jornada espiritual que, nesta encarnação, está só começando.