quarta-feira, 19 de julho de 2017

Caboclo Urubatão da Guia



O Caboclo Urubatão da Guia bateu no peito e saudou a toda assistência que se encontrava no local.
Abaixou-se no chão para traçar alguns pontos riscados, levantou-se e começou sua prédica dizendo:
- Saravá filhados meus ! Tupã que abençoe e proteja o caminhar de cada um de suncês!!!
- Palavra de Caboclo no dia de hoje é muito curta, mas é importante que seja dita.
- Caboclo hoje vai falar sobre aquilo que suncês chamam de injustiça,mas que Caboclo chama da Lei de ação e reação.
A assistência estranhou a comparação, mas o Sr. Urubatão continuou:                
- Quando um filhado é alvo de magia negativa suncês chamam de que?
- Injustiça!!!
- Quando um filhado fica muito tempo desempregado suncês chamam de que?
- Injustiça!
- Quando um filhado passa por insucessos nos relacionamentos amorosos, os filhados dizem que é o que?
- Injustiça!
- Só que esses exemplos que Caboclo deu, entre muitos possíveis, não são injustiça; suncês sabem por quê?
A assistência sinalizou negativamente e a entidade, então, disse:
- Por que injustiça não existe! Tudo que existe é a justiça de Deus!
A assistência remexeu-se nos bancos demonstrando perplexidade com a informação.
- Tupã é justo ou injusto?
- Justo!
- Sua criação é justa ou injusta?
- Justa!
- Tupã espera que suncês andem no mundo de forma justa! Que se relacionem com o próximo de forma justa, que se relacionem com o dinheiro de forma justa, enfim que sejam justos com tudo e com todos, pois só a justiça leva ao equilíbrio.
- Urubatão não fala do equilíbrio na balança não, mas do equilíbrio que leva a paz interior e ao bem agir.
Uma senhora de óculos e de aparência bem simpática levantou a mão e pediu a palavra:
- Sr. Caboclo, escuto tudo que está dizendo, mas como o Sr. explicaria alguém que procurou levar sua vida de maneira correta, mas que passou toda vida sem sorte no amor?
- Ação e reação, filhada! Suncês não estão passando pela primeira encarnação. Quem poderá afirmar, com cem por cento de certeza, que suas encarnações pretéritas tenham sido pautadas pela mesma conduta justa que suncê esclarece desenvolver na atual existência corpórea?  
- No grande Livro da vida Tupã tem registrado o caminhar de todos suncês neste mundo de terra. Onde há necessidade de reparação Tupã sabe e oportuniza tal possibilidade a cada encarnação.
- Tudo aquilo que suncê, filhada, chama de falta de sorte no amor, Caboclo chama de oportunidade de resgate cármico. Se suncê tiver humildade, resignação e entendimento de que tal experiência não é para seu mal, mas para seu crescimento espiritual, então terá aprendido a amar a Deus acima de todas as coisas, de qualquer circunstância e, talvez, quem sabe não tenha também a chance de experienciar de Sua misericórdia nesta área de sua vida? Porque o amor, filhada, cobre uma multidão de pecados!
- Além disto, filha, se suncê continuar procurando conviver com o próximo e consigo mesma de forma justa, estará semeando condições de colher uma próxima encarnação de grandes possibilidades para sua evolução espiritual.
Outra pessoa da assistência ergueu a mão solicitando consentimento para falar:
- Mas se os casos de magia negra não são uma injustiça, como é que são tratados no terreiro? O tratamento destes casos não seria uma forma de reparação da injustiça cuja vítima destas práticas estaria sofrendo?
- Filhado, todos os casos de magia negra que este Cabloco conhece começam, invariavelmente, da seguinte forma: os filhados sentem necessidade de obterem alguma coisa que, naquele momento, não são merecedores de alcançar.
- O tempo passa e como não alcançam aquilo que julgam ter direito de receber, passam a desenvolver internamente pensamentos de desamor, revolta, melancolia e descrença de que foram criados por Deus para serem felizes em toda sua plenitude. Tal atitude íntima faz com que atraiam psíquica e eletromagneticamente para sua aura e centros de força miasmas, bacilos e larvas astrais.
- A reverberação de tais sentimentos e pensamentos no campo íntimo cria condições ideais para a aproximação de espíritos descompromissados com a ética do Cristo. Pronto! Criada está a oportunidade para que seja vitimizado por uma magia negativa, uma vez que se apresenta psíquica, energética e eletromagneticamente sem suas defesas.  
- Quando uma pessoa que está magiada é tratada no terreiro, não se trata de caso de reparação da injustiça, mas de tratamento e trabalho para que ocorra a reforma íntima do outrora magiado.
- O que Caboclo quer dizer é que o magiado não é um injustiçado, uma vez que ele mesmo criou as condições para ser vitimado pela magia negra.
- Toda vez que Caboclo, com a permissão de Tupã, termina o desmanche de uma magia negra ele, seguindo o exemplo de Jesus, diz para o outrora magiado: “ Vá e não peques mais! “
- Tupã, filhados, a cada dia oferece condições para suncês serem felizes, mesmo que não sejam àquelas que, muitas vezes, suncês desejam.
- Revoltar-se contra os desígnios do Pai para a vida de suncês, isto sim é que Caboclo vê como uma grande injustiça!
- Procurem se apegar com Deus a cada dia de suas vidas meus filhados! Procurem honrar a vida que Ele deu a suncês!  Procurem enfim, como disse um grande sábio, “desenvolver coragem para modificar as coisas que podem ser mudadas, serenidade para aceitar àquelas que não podem ser modificadas e sabedoria para distinguirem umas das outras”.
- Tenham fé filhados!!! Procurem esperar em Deus!!!
Outra pessoa da assistência levantou a destra e disse:
- O Senhor que me desculpe, Sr. Caboclo, mas minha situação de desemprego não pode mais esperar!
- Esperar em Deus não é ficar num canto, sentado e esperando o emprego!
- Mas eu sei disto Sr. Caboclo!!! Já espalhei currículo para tudo quanto e lugar e, até agora, nada.
- Filhado, no Livro sagrado está escrito: “ Ganharás o pão com o suor do teu rosto! “ O que isto significa para suncê?
- Que devo para trabalhar para o meu sustento!
- No Livro sagrado especifica qual tipo de trabalho que deve ser realizado para obtenção do pão de cada dia?
- Não. Até mesmo porque qualquer trabalho é trabalho!
- Então por que suncê está esperando um trabalho específico para começar a trabalhar?
- É que acabei de me formar depois de anos e gostaria de enriquecer meu currículo!!!
- Mas será que no momento é isto que Tupã espera de suncê? Será que, no momento isto é de seu merecimento?
- Não saberia dizer!
- Será que suncê, ao dizer que “qualquer trabalho é trabalho”, não estaria sinalizando que não quer qualquer trabalho, mas O trabalho? O trabalho dos seus sonhos?
- Por que o Senhor diz isto?
- Por que para Tupã nenhum trabalho é qualquer! Todo trabalho e todo trabalhador tem o mesmo valor aos olhos do Pai! Caboclo sente em seu íntimo que o trabalho que não for da sua área de formação, então para suncê é qualquer! Não que para suncê não tenha valor, apenas não tem o mesmo valor daquele que suncê almeja! Se não fosse assim suncê diria “ todo trabalho é trabalho”, ao invés de “qualquer trabalho é trabalho”. Reflita sobre isto filhado!
- Que Tupã abençoe e proteja cada um de suncês! Que o manto de sua justiça possa aquecer o coração de suncês com muito amor, paz, humildade, resignação e sabedoria, fazendo com que sejam derretidas todas as más tendências que vem limitando o olhar de suncês para o tamanho da misericórdia de Tupã-Nosso-Pai!

- Tupã que ilumine o caminhar e o coração de cada um de suncês!!!!  

terça-feira, 14 de março de 2017

O carma, a caridade e o bem maior


Isabel caminhava em direção a Pai José. Ela estava prestes a comunicar-lhe sua decisão: pediria afastamento do terreiro.
- Boa noite zifia! Como vai suncê?
- Boa noite Pai José! O Senhor já sabe o que vim fazer aqui hoje, não sabe?
- Filha se este nêgo véio tivesse este poder ele não seria Pai José, mas sim o próprio Deus, pois só Ele sabe de todas as coisas.
- Como assim vovô?
- Nós não somos advinhos zifia! Se suncê veio aqui é por que tem algo a dizer e este nêgo tá aqui, de coração aberto, só para te escutar!
- Então acho que tenho que dizer de uma vez só, não é vovô?
- Da forma que for melhor pra suncê.
- É que eu vou pedir desligamento do terreiro. O que o senhor acha disto?
- Zifia toda decisão indica um caminho que é sinalizado por pensamentos e sentimentos. Onde este caminho vai dar, abaixo de Zambi, só teu pensar e sentir que poderão lhe dizer.
- Como assim Pai José?
- Bom senso minha filha! Toda decisão, de todo ser humano, deve ser pautada pelo bom senso.
- O senhor está dizendo que esta minha decisão não está baseada no bom senso?
- De forma alguma! Nêgo véio não faz julgamento de valor! Só estou explicando para a filha que a ilusão obscurece o bom senso.
- Ilusão? Como assim?
- Só um instantinho minha filha.
A entidade pediu que seu cambone trouxesse um copo de água em temperatura ambiente e outro de água gelada. Somente quando ele voltou foi que a entidade disse a Isabel:
- Zifia estique sua mão direita e diga se este líquido está quente ou frio.
O preto-velho derramou um pouco de água em temperatura ambiente na mão dela que respondeu-lhe:
- Nem quente, nem fria: está em temperatura ambiente.
- Continue com a mão estendida.
Pai José derramou a água gelada, que seu cambone trouxera, na destra de sua consulente que falou-lhe:
- Este líquido está gelado!
- Permaneça com sua mão esticada!
O preto-velho tornou a derramar água em temperatura ambiente na mão de Isabel, que disse:
- Esta água parece quente.
- Suncê viu de onde nêgo tirou esta água que suncê falou que parece quente?
- Vi sim senhor. Foi do copo com água em temperatura ambiente!
- E como a mesma água que antes suncê respondeu que estava em temperatura ambiente, de repente pareceu quente?
- É que a água que o senhor derramou na minha mão antes desta estava muito gelada.
- Muito bem zifia! Suncê é muito sabida! Percebe o que a ilusão dos sentidos pode fazer com seu julgamento? Seu pensamento? Seu sentimento?
- Não totalmente!
- Não se preocupe minha filha! Continue a prosear com este véio que Deus, em sua infinita misericórdia, há de fazê-la entender certas coisas.
- Vovô eu não consigo mais ver sentido em ficar aqui: o senhor sabe que minha filha, que assim como eu era médium desta casa, acabou de desencarnar fulminantemente por conta de uma enfermidade que ninguém pôde diagnosticar a tempo de salvá-la!
- Salvá-la de que, zifia?
- Do que? Da morte!
- Mas não existe morte zifia: só existe vida, ainda que em outro plano da existência!
- Nenhuma entidade contou nada para mim ou para ela, que só foi saber da doença quando passou mal e os médicos a diagnosticaram como enferma, após realização de vários exames.
- Suncê se sentiu traída por nós, minha filha?
- Vocês sabiam da doença?
- Era visível a nóis, pelo perispírito!
- Então devo dizer que me senti traída, pois vocês não me alertaram.
- Nóis passamos um tratamento para a zifia!
- Sim e ela o seguiu, mas foi um tratamento que o senhor sabia que não resolveria o problema dela, que não a ajudaria. Vocês não nos alertaram!
- Zifia, e de que adiantaria nosso alerta se a doença começara a se desenvolver em sua filha há dez meses? Se a situação da saúde de sua filha era irreversível há cinco meses e se suncês entraram para a corrente mediúnica do terreiro há três meses?
- Mas vocês poderiam ter nos alertado, nos preparado!
- Preparar? Desculpe a franqueza zifia, mas a preparação para a verdade imutável que é o desencarne deve acontecer todo dia e a todo o momento, e isto não é pensar negativo, mas sim com humildade e sabedoria, pois só Deus sabe a hora de cada um.
- Eu vou sair porque acho que vocês poderiam ter nos preparado!
- Filha há muito tempo, quando suncê tinha dezesseis anos, seu pai faleceu da mesma moléstia que sua filha apresentou!
- É verdade!
- Seu pai lutou contra a moléstia por quase treze meses.
- Isto também é verdade!
- E foi justamente durante estes treze meses que suncê, somatizando todo o sofrimento pela condição de saúde de seu paizinho, desenvolveu uma úlcera gástrica que tanto lhe incomoda até os dias de hoje.
- É verdade.
- Agora minha filha, abrindo seu coração com honestidade, responda:
- Em que lhe ajudou saber sobre a doença de seu pai?
- Acho que começo a entender o senhor.
- Zifia Isabel este nêgo véio fala a suncê que nóis, que suncês chamam de entidades, não somos advinhos!
- Somos falangeiros que militam pela Lei maior e pela Justiça divina! Para Deus a caridade que se faz a um de Seus filhos é uma caridade feita para toda a humanidade!
- Entendo.
- Deus tem amor enorme por cada uma de suas criaturas, só que para Deus o bem maior está acima das individualidades e foi por isto que ao mundo Ele enviou Jesus.
Isabel chorou copiosamente, ao lembrar-se do sofrimento a que Jesus fora submetido quando encarnado, e reconheceu que o sofrimento de sua filha nada fora em comparação ao dele.
Pai José esperou o estado emocional dela tornar a normalidade e disse-lhe:
- Nêgo véio gostou da sinceridade do seu coração, mas aqui no dia de hoje nóis não estamos trabalhando o sofrimento de sua filha; até mesmo por que ela não sofre mais onde se encontra, já que está disposta em repouso em uma câmara de vitalidade aguardando o despertar em momento oportuno!
- Verdade?
- Sim zifia! No dia de hoje trabalhamos o seu sofrimento!
- É vovô! Cada um com seu carma!
- Filha, carma não é sofrimento, é libertação!!!
- Como assim?
- Carma, zifia Isabel,é ter humildade de clamar sabedoria a Deus diante dos desafios que são apresentados na vida de cada um, pois uma vez aprendido o ensinamento, com fé, humildade e resignação, evolui-se em direção a Deus-Nosso-Pai.
- Como assim?
- Na vida existe o carma não para nos causar sofrimentos, mas para possibilitar libertação, que é possível de acontecer, se tivermos sabedoria para vencer os desafios no caminho.
- Creio que entendi. A morte de um ente querido é um desafio natural da existência humana. O carma não é sofrer com a perda, uma vez que o sofrimento é natural nestes casos, mas sim alcançar a liberdade incondicional ao vencermos tal desafio.
- Zifia, tempos atrás suncê contou que a entidade que lhe assiste nas incorporações, o Caboclo Araribóia, apareceu duas vezes em sonho pra suncê e pedia que suncê continuasse a andar na estrada, não é verdade?
- Isto vovô! Ele aparecia e me mostrava uma estrada em que eu devia voltar a caminhar!
- Pois então zifia saiba que tal estrada não é necessariamente este terreiro, mas sim a Umbanda sagrada.
- Verdade?
- Certamente zifia, se suncê quiser sair do terreiro as portas vão estar abertas assim como se encontravam quando suncê por elas neste terreiro adentrou pela primeira vez. O importante na sua vida não é o terreiro zifia, o importante é a Umbanda!
- Isto é verdade mesmo Pai José por que, antes de eu entrar neste terreiro há três meses, fiquei cinco anos afastada da Umbanda!
- Nêgo véio entede zifia! Foi quando seu esposo faleceu, não foi?
- Foi isto mesmo vovô!
- Após vinte e cinco anos de casados o seu esposo faleceu de câncer e suncê, como forma de homenagear o amor que sempre houve entre suncês, decidiu prestar trabalho voluntário em alas de hospitais onde estão internadas crianças que possuem câncer, não é verdade?
- Como o senhor sabe disto vovô? Eu nunca contei para ninguém?!?
- Foi o Caboclo Araribóia zifia!
- Ah é? Por que vovô?
- Por que para Deus o bem maior tá acima das individualidades.
- Como assim? O senhor poderia explicar?
- Filha o câncer em sua família não é sofrimento, é carma! Possibilidade de libertação em direção a Deus.
- Isto eu entendo.
- Carma é cumprimento da Lei maior e da Justiça divina na vida de seus humanos filhos! Quando estes se envolvem consistentemente em trabalhos caritativos, o Pai envia sua misericórdia como um bálsamo em suas vidas.
- Entendo.
- O teu trabalho voluntário em favor das criancinhas fez com que suncê recebesse a oportunidade de ter a sua filha tratada e assistida pelos médicos do astral para que viesse a ter um desencarne sereno e indolor!
- Meu Deus, eu jamais poderia imaginar! Ela realmente nada sofreu!
- Estou autorizado a dizer mais a suncê zifia: sabendo que suncê somatiza com muita facilidade o sofrimento dos que lhes são próximos, foi que o caboclo Araribóia criou condições de suncê voltar para a Umbanda, como uma forma de evitar que isto ocorresse.
- Meu Pai! Deus é muito bom!
- Até mesmo por que, se isto ocorresse, as crianças assistidas por suncê voluntariamente ficariam sem ter como receber o lenitivo que suncê mais lhes proporciona: o doce remédio do sorriso.
Dona Isabel chorava muito a cada vez que dizia:
- Deus é bom! Obrigada meu Deus! Obrigada!
Pai José esperou sua consulente serenar as emoções e, para encerrar aquele atendimento, disse-lhe:
- Foi o que este nêgo disse a suncê zifia: Zambi-Nosso-Pai enviou Jesus ao mundo para que todos pudessem alcançar a oportunidade de salvarem suas vidas do ódio, do egoísmo, do orgulho e do desamor, pois para Deus o bem maior está acima das individualidades, e é por isto também que a misericórdia Dele é, de fato, infinita! Vá na força e na luz de Deus-Nosso-Senhor!!!!  
- Amem,vovô! Amem!




                            







                               

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

UMA LIÇÃO DE VIDA
Certa noite após fazer minhas orações, e enquanto me deitava para dormir, senti um amigo espiritual solicitando que fizesse preces de agradecimento a Deus firmando o pensamento em uma cachoeira.
Quando dei por mim já estava em frente a uma queda d’água ainda mais bela da que eu imaginara. Estava dentro do rio e em frente dela, que era muito linda e bastante caudalosa.
O tempo foi passando e eu percebi que não conseguia sair de onde estava. Olhei ao redor para verificar se via alguém, mas sem sucesso.
Procurei pensar como tudo começara e tive uma idéia: só havia parado ali porque firmara meu pensamento como pedira o amigo espiritual, assim se continuasse a firmar, talvez fosse possível sair daquela situação.
Fechei os olhos e firmei meu pensamento por tempo indefinido, mas quando descerrei os olhos minhas pernas ainda se encontravam imóveis.
Comecei a ficar preocupado não devido à imobilidade, pois confio nos amigos espirituais servos de Deus, mas por não estar entendendo àquela situação.
Procurei recordar as lições que os amigos espirituais sempre procuram me passar a respeito de tudo que se refere às cachoeiras e assim, lembrei que as águas deste sítio de forças da natureza têm propriedades altamente renovadoras, que renovam tudo aquilo que já não tem mais razão de ser.
Procurei refletir sobre esta minha recordação e entendi que, se ali estava, era por que precisava de renovação em um ou mais aspectos de minha vida. Sem conseguir buscar explicação racional, o que me angustiou muito, senti vontade irrefreável de por as duas mãos nas pedras sob a queda d’água e assim o fiz.
Senti meu corpo astral vibrar com uma energia muito forte, as batidas do meu coração aceleraram e lágrimas incessantes e inexplicáveis passaram a escorrer de meus olhos.
Passei a sentir o meu corpo a pulsar uma energia multicolorida como se eu fosse apenas luz. Intui que deveria permanecer de olhos fechados e em prece e não procurei questionar.
Então senti que meu corpo permanecera na cachoeira do jeito que estava, mas também senti que já não estava mais lá, estava muito, muito leve. Olhei para minha esquerda e vi um arco-íris como a indicar uma direção e procurei segui-la.
Fui parar de frente a outra cachoeira onde várias crianças brincavam silenciosamente. Foi interessante porque lá eu conseguia movimentar-me livremente.
Uma alegria enorme, incomensurável inundou todo o meu ser e, de tão feliz que estava, também me deu vontade de brincar igual uma criança, mas antes que assim eu fizesse uma delas chamou-me.
Aparentava ter uns três anos de idade. Tinha o cabelo todo encaracolado de um castanho-claro, a pele branca e as bochechas eram, por falta de um melhor vocabulário, muito proeminentes, fofas e rosadas.
Não sei como explicar, mas sentia como se estivesse diante de um saudoso amigo e devo confessar que, se no plano físico ele existisse, eu tudo faria para adotá-lo.
- Obrigado tio!!!
Foi o que ela disse a mim.
- Obrigado pelo que?
- Pelo afeto tio! Pelo carinho!
- Você pode escutar meus pensamentos?
- Só aquilo que for importante!
­- Importante para que?
- Pra ajudar você titio!
-Você? Ajudar a mim? Como assim? Você não é uma criança?
- Tio, se hoje sou criança, então um dia eu serei adulto, não é?
- Isto!
- E se hoje você é adulto, um dia tornará a ser criança, não é?
- Isto! Suas observações são muito sábias, você nem parece uma criança!
- Mas você sim tio!
- Eu o que?
- Meu tio tá parecendo uma criança, e daquelas bem birrentas!
- Acho que começo a entender: você é uma criança espiritual!
- Puxa! Demorou, hein tio!?!?!?
Ri bastante daquela observação e senti uma alegria quase incontida. Nisto, algumas lágrimas que julguei inoportunas desprenderam-se dos meus olhos. Procurei disfarçá-las e perguntei:
- De que teimosia você está falando?
- Por quê? São tantas assim meu tio? Credo!!!!
Não tive como conter as gargalhadas outra vez! E observei que novas lágrimas deslizaram, mas só desta vez notei que um peso saía de dentro de mim enquanto escorriam. Tentei disfarçá-las novamente e a escutei dizer:
- Eu tô brincando com você meu tio! Eu to falando só da teimosia que meu tio tem de não querer deixar a vida correr.
- Como assim?
- Tio, o que passou é passado. O que passou só tem utilidade se servir para uma coisa: renovar seu presente de esperanças num futuro melhor!!! Se não for assim, meu tio, o passado só vai paralisar você!!! Como já tem feito!!!
- A vida meu tio é um presente! As experiências, difíceis ou não, são para fazer você mais forte moral, consciencial e emocionalmente. Deixe as águas da renovação banharem você meu tio, pois é sua melhor chance de desempacar e seguir a vida com mais liberdade. Liberte-se meu tio! Deixe o passado para trás!
- Da mesma forma que um dia uma criança vira adulto e este se torna uma criança, um dia seus pais renascerão e você desencarnará.
- Mas é que muitas vezes ainda dói!
- A dor provoca sofrimento, mas quando se busca a força em Papai-do-céu e na força interior que cada um possui, a dor passa e torna-se esperança, mas se isto não ocorre o meu tio entra num ciclo vicioso em que o sofrimento provoca a dor que vai causar mais sofrimento.
- Como assim?
- Meu tio o que acontece se você sofrer um corte profundo na pele?
- Eu vou sangrar!
- Vai ficar sangrando pra sempre!
- Não se eu buscar socorro!
- Meu tio busca o socorro e o que acontece depois?
- Um profissional vai suturar o corte.
- Com o tempo não vai parar de sangrar? Não vai parar de doer?
- Sim
 - Mas a cicatriz permanece, não é assim, meu tio?
- Isto. Exatamente!
- E se você ficar cutucando a ferida antes dela sarar?
- Ai ela não vai sarar nunca!
- Então tio! O corte provoca dor na pele e esta dor leva ao sofrimento, mas se você não ficar cutucando a pereba o sofrimento passa e a dor vai embora. Se você cutucar a ferida o sofrimento vai alimentar sua dor, que lhe causará mais sofrimento. Nada vai sarar, entende tio???
- Estou entendo sim, tudo está ficando mais claro!
- A vida do meu tio tá paralisada no passado, é preciso renovação tio! Renovação verdadeira, sem aprisionar-se ao passado. Vem tio, deixe a gente ajudar você!!! Tudo na sua vida será renovado, menos a falta de cabelos na sua careca, isto aí só na próxima encarnação!!
Não pude mais conter meu riso ao escutar a última observação! Gargalhava sem parar e nem me faltava o fôlego! Lágrimas abundantes deslizavam pelo meu rosto enquanto gargalhava, mas desta vez não tive a mínima vontade de contê-las. Enquanto tudo isto acontecia àquelas crianças, que já formavam um círculo ao meu redor, batiam palmas e cantavam louvores em uma língua desconhecida para mim.
A criança que conversara comigo acenou pedindo que eu fechasse os meus olhos e eu assim o fiz.
Os louvores e palmas continuaram. Por dentro eu explodia de felicidade e gratidão a Deus por toda àquela oportunidade. Os risos que vinham das lágrimas ( ou lágrimas que vinham dos risos ) continuaram insofreáveis, mas observei que àquele canto tinha o poder de provocar nova disposição em mim, novos pensamentos, sentimentos, possibilidades.
A criança com quem dialogara tocou em direção ao chacra cardíaco e olhou-me como quem dissesse:
- Pratique o que conversamos!
E eu, ainda gargalhando com lágrimas incontidas nos olhos, respondi-lhe com todo respeito que aprendi a lhe dedicar:
- Muito obrigado!
Ele gesticulou pedindo que eu tornasse a fechar os olhos.
Com olhos fechados senti novamente toda aquela vibração em meu corpo e voltei numa velocidade inimaginável para àquela cachoeira em que, anteriormente, não conseguia mover as pernas. Era como se minha consciência tivesse retomado meu corpo espiritual.
As lágrimas cessaram de jorrar, mas a alegria incontida ainda permanecia imutável dentro de mim.
Recebi mentalmente a orientação daquela criança espiritual que em outro plano se encontrava:
- Tio esta alegria é um presente que Papai-do-céu mandou que entregássemos a você. Foi nosso dever entregá-la e é seu dever conservá-la! Vá com Deus titio!!!
Quando abri os olhos pude observar que já havia sido transportado para o corpo físico! Olhei para o lado e vi minha esposa que dormia! A cama era a mesma, o colchão era o mesmo e até a coberta era a mesma, quanto a mim, que naquele momento não lembrava nada que vivenciara no plano astral, acordei “inexplicavelmente” com um enorme sentimento de gratidão a Deus,  sentia  e pensava como se fosse uma nova pessoa.
Somente hoje pude recordar de todo o ocorrido e, com um sorriso de alegria nos lábios e lágrimas de gratidão nos olhos, é que assim digo:
Muito obrigado meu Deus!!! Muito obrigado pela Cachoeira divina, pelo Arco-íris sagrado, pela falange das Crianças espirituais e por minha vida!!!
Muito obrigado pela Umbanda sagrada!

Saravá!!!!!!



Mensagem recebida por Pedro Rangel

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Pai Joaquim e o banho de ervas

Fábio tornara-se um adepto da Umbanda há três meses. Cambonava Pai Joaquim de Aruanda.
Quando a gira estava quase no seu término ele perguntou a entidade:
- Pai Joaquim, porque eu estou me coçando todo? Será que peguei alguma carga? Já tem quase vinte minutos que isto começou e só está aumentando de intensidade; se continuar não sei se consigo participar do ritual de encerramento da gira.
- Senta aqui na frente de Véio, zifio!!!
Pai Joaquim deu várias baforadas com seu cachimbo em direção ao cambone e, após, estalando os dedos, fez a limpeza energética necessária. Com o fim dos procedimentos disse-lhe:
- Zifio, nóis conversa mais pra frente, pois a gira já tá no finzinho, mas este nêgo só pede uma coisa a suncê: tome seu banho de descarrego antes de cada reunião!!!
Fábio voltou para casa surpreso em como a entidade descobrira que ele, de fato, não tomara o banho de descarrego. Ele achava tal procedimento não muito relevante, pois já havia participado de algumas reuniões sem tomá-lo e nada demais acontecera.
Os dias se passaram e foi numa noite de quarta-feira que, ao deitar-se e adormecer, vira seu duplo transportado para fora do corpo físico. Era a primeira vez que ele tinha consciência daquele acontecimento.
Um homem vestindo branco surgiu a sua direita e disse:
- Vamos filho?
- Não lembro de lhe conhecer, mas sinto que já o conheço. Vamos!
Volitaram até uma localidade do plano astral onde existiam alguns prédios.
Entraram no prédio central e caminharam até uma sala.
Fábio foi acomodado em uma cadeira e teve dois fios plugados em suas têmporas. Seu acompanhante massageou a região do terceiro olho e pediu que firmasse o olhar numa espécie de mini-tablado que havia em sua frente.
Aos poucos surgiu a imagem tridimensional do terreiro freqüentado por ele. Pouco tempo se passou e ele notou que observava o andamento da última gira que participara. Foi quando seu acompanhante disse a ele:
- Procure observar a si mesmo durante toda a gira, pois depois conversaremos!
Fábio observou que com o passar da gira seu perispírito passou a acumular larvas astrais. No final da reunião estava praticamente coberto destas criaturas.
As imagens cessaram depois dele assistir o passe magnético que recebera do Pai velho. Ficou impressionado como simples baforadas e estalar de dedos fizeram com que aqueles seres fossem desagregados e dissipados de junto dele.
Olhou para seu acompanhante e disse:
- Por que isto ocorreu comigo? No terreiro não tem proteção?
- O terreiro tem proteção meu irmão! Era você quem estava desguarnecido dela!
- Mas por quê?
- Antes, responda-me você: com que elemento as larvas astrais foram dissipadas de você?
- Com a manipulação da fumaça!
- A fumaça foi produzida com o que?
- Com o calor que aqueceu as folhas.
- Muito bem! O calor aqueceu as folhas e fez com que suas moléculas pudessem acelerar continuamente até que seus princípios vitais pudessem dela ser desprendidos e utilizados em seu favor.
- impressionante!!!
- O que você acha que acontece quando é feito um banho de descarrego?
- Acho que o princípio é parecido: as folhas entram em contato com a água quente, que desprendem sua energia.
- Então uma pessoa que toma banho de descarrego, na verdade está realizando uma profilaxia contra possíveis ataques de criaturas astrais perniciosas, não é verdade?
- É, digo sim senhor, é isto mesmo!!!
- Preciso dizer mais alguma coisa?
- A importância do banho de descarrego então é esta? Profilaxia?
- Também, mas a profilaxia foi a finalidade que me determinaram lhe explanar nesta noite.
- Então quer dizer que se eu tomar o banho isto não acontecerá mais?
- Exatamente!
- Puxa! O senhor me desculpe, viu!? Agora que entendi a importância vou tomar banho de ervas antes de todas as giras.
- A importância do banho você já sabia por participar das reuniões de estudo no terreiro em que freqüenta você só não conseguia acreditar e aceitar como um fato. Ficou sem tomar o banho em algumas giras anteriores e como nada de desagradável lhe ocorrera, você julgou o banho ineficaz. Precisou ver para crer! Espero que isto não se torne uma constante em sua caminhada espiritual, pois senão você vai arranjar muitas coisas para se coçar: coisas piores do que a própria sarna.
- Procurarei não esquecer desta lição em minha vida! Muito obrigado por tudo!!! 
- Luz e força em sua jornada espiritual que, nesta encarnação, está só começando.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Pai Sebastião



Nêgo véio lembra até hoje o primeiro dia que conversou com a zifia Carla.
De longe este nêgo já via que o semblante de zifia indicava tremenda tempestade interior.
A zifia chegou na frente de nêgo, pediu licença para sentar e disse:
- Pai Sebastião, a minha vida precisa mudar!
E mais zifia num conseguiu dizer por que começou a soluçar de choro. Então, nêgo pegou as mãos da zifia e disse:
- Se é para começar a mudar zifia, então na força de Deus-nosso-pai, vamos começar agora! Este nêgo pede simplesmente que suncê chore minha filha!!! Chega de prender estas lágrimas! Chega de prender esta dor! Se nóis dois vamos trabalhar com Jesus pra sua vida começar a mudar, então suncê tem que compartilhar sua dor.
Zifia Carla continuava num chororô sem fim e Véio viu sério problema no chacra cardíaco dela. Peguei a vela que tava no ponto, pedi a cambone pra acender meu pito e procurei dar um passe bem butado* na zifia.
Aos poucos os soluços foram parando, as lágrimas diminuíram e, quando finalmente cessaram, disse a ela:
- Com o poder de Zambi*, zifia, não existe tempestade que não cesse!
- É verdade vovô! Parece que tudo ficou mais leve, apesar do problema continuar.
- De qual problema suncê fala, zifia?
- Ah Pai Sebastião nos últimos anos parece que existe um complô de inimigos espirituais para atrapalhar toda minha vida!
- Não só a sua zifia, mas a de todos os zifios criados por Zambi-nosso-pai.
- Sério?
- Mas num tá escrito no livro sagrado que os adversários espirituais andam em derredor, rugindo como leão e procurando a quem possa tragar?
- Também num tá escrito que a luta não é contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra as hostes espirituais da maldade?
- É verdade vovô! Mas por que eles me perseguem?
- Zifia Carla, nêgo veio observa que suncê tem certo conhecimento sobre as coisas do espírito, certo?
- Sim senhor!
- Estes, que suncê diz serem seus inimigos, são adversários de outras eras, outras encarnações zifia.
- Mas o que fazer para me livrar deles?
- Também tá escrito no livro sagrado: “ faça sua parte que o céu te ajudará”.
- Como assim?
- Suncê num deve viver sua vida pautada pelo medo, mas pela fé em Deus!
- Mas eu tenho muita fé! Só que esta fé não está impedindo estes adversários de me atrapalharem a conseguir um emprego.
- Zifia, na verdade, é suncê que tá atrapalhando a si mesma.
- Eu? Mas o senhor não falou que estou sob atuação de adversários espirituais?
- Sim! Mas a pergunta é: Como eles chegaram até suncê? Qual porta suncê abriu pra que o leão pudesse entrar? Tá entendendo zífia?
- Agora sim!  Mas não saberia dizer qual foi a porta que abri! A única porta que está aberta há três meses em minha vida e que não consigo fechar é a porta do desemprego!
- Mas seus adversários não adentraram por esta porta! A porta pela qual eles entraram foi aberta bem antes dessa.
- Ah é?!???
- Zifia a mim tá sendo mostrado, pelos seus próprios mentores espirituais, que há sete meses suncê se frustrou com sua ex-chefe por não haver recebido certa promoção no emprego, não é verdade?
- Sim, mas o que isto teria a ver? Frustração é comum quando você está mais preparada para exercer uma função e a pessoa promovida para exercê-la não tem metade de sua qualificação.
- Zifia, num cai uma folha da árvore se num for da vontade de Deus! Suncê já parou pra pensar que não é possível conhecer os desígnios de Deus? Que aquela não era sua hora não por falta de qualificação, mas, pelo menos naquele momento, por falta de merecimento?
- É duro reconhecer tal possibilidade, mas acho que é isso mesmo! Então esta foi a porta que eu abri?
- Não.
- Não?
- Não zifia. Suncê num é zifia de andar com a crista baixa! Com o ocorrido suncê num ia ficar se lamentando e se auto-depreciando, muito pelo contrário; orgulhosa que suncê é, após o ocorrido suncê passou a querer demonstrar, de todas as formas, que sua chefe tinha promovido a pessoa errada.
- Passou a agir com altivez em relação aos colegas, começou a executar tarefas que estavam acima de seu cargo, até que quatro meses depois um grande negócio não foi fechado e suncê foi responsabilizada! Daí suncê foi demitida, num foi assim?
- Foi Pai Sebastião, foi assim mesmo! Concordo quando o senhor diz que sou orgulhosa. Passei a viver com muita raiva e foi aí que abri a porta não é?
- Não!
- Não?
- Não zifia! Aí foi quando suncê a deixou entreaberta!
- Sério? E quando foi que a abri?
- Por que suncê não contou ao esposo que tá desempregada?
- Por que é um direito meu! Estou ajudando em casa com o dinheiro do seguro! Não tem problema nenhum!
- Todo santo dia suncê sai de casa dizendo ao esposo que tá indo trabalhar enquanto, na verdade, tá procurando emprego.
- E qual o problema vovô? Não estou entendendo?
- Qual dificuldade suncê teria pra dizer ao esposo que tá desempregada? Ele é um mau esposo? Poderia maltratar suncê com algum tipo de violência?
- Não vovô, é muito pelo contrário!
- Suncês não juraram fidelidade um ao outro?
- Pensei que fosse coisa boba.
- Orgulho é coisa muito séria zifia! São três os pilares que mantém suncês em harmonia: religião, família e trabalho. A religião suncê num professa há algum tempo, o trabalho suncê perdeu há alguns meses e o relacionamento com seu esposo também não vai muito bem, logo zifia, suncê chegou aqui hoje em grande desarmonia interior.
- Então quer dizer que se contar ao Paulo sobre o desemprego, eu vou conseguir ser recolocada no mercado de trabalho?
- Zifia, acho que num devo ter conseguido explicar direito: o orgulho zifia é uma enfermidade da alma! Ele corrói as defesas psíquicas, atrai parasitas astrais que corroem a aura, alcançam os centros de força* fazendo suncês padecer no corpo físico e podendo até levar suncês ao desencarne.
- O silêncio de zifia com o marido não é a causa da enfermidade que provocou a abertura da porta, mas um sintoma dela, desta enfermidade tão perniciosa conhecida como orgulho.
- Então falar com ele não vai adiantar de nada?
- Vai atuar como porta de entrada para o tratamento da moléstia.
- E os adversários espirituais?
- Também são sintomas da doença.
- Existe tratamento para esta doença?
- Claro zifia Carla! Suncê veio ao mundo para isto!
- Ah é?
- Claro zifia! Foi sua conduta orgulhosa em vidas pregressas que atraíram tais adversários para sua vida.
- Seu tratamento zifia deve ser realizado com um santo remédio: o amor! O amor é um santo remédio e cobre uma multidão de pecados!
- E onde eu consigo deste remédio?
- Está dentro de você, só que praticamente inerte, é preciso movimentá-lo!
- E como faço isto?
- Amando a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo!
- Como assim?
- Reaproxime-se de Zambi-nosso-pai! Ele vai aquecer seu coração e fazê-la encontrar o amor Dele que habita o seu interior.
- Entendi.
- Também está na hora de retomar sua jornada na Umbanda, fazer a caridade, dar o pouco que se tem aos que tem menos ainda! Fazendo isto a porta tornará a se fechar e os adversários não terão como lhe alcançar.
- Entendi, mas e o emprego?
- Faça sua parte que o céu lhe ajudará!!!
- Tenho fé em Deus que sim!!! Vou fazer como o senhor pediu. Muito obrigada por tudo!!!
- Agradece a Nêgo não zifia, só a Zambi nosso pai!!!
Zifia Carla se foi e demorou um ano pra tornar a conversar com este Nêgo Véio. Estava freqüentando a Umbanda em um Terreiro bem mais próximo da casa dela, e isto já há um ano. Conseguira emprego para exercer função de mais responsabilidade do que aquela que queria antes. Apareceu grávida de sete meses pra conversar com este nêgo.
Disse que tinha vindo ali não para agradecer, já que este Nêgo tinha pedido pra ela agradecer só a Deus quando recebesse alguma benção, mas que tava ali pra dizer que o nome do filho dela seria Sebastião, para homenagear a este preto-velho.
Nêgo tentou de todas as formas tirar esta idéia da cabeça da zifia pedindo que ela colocasse o nome de Jesus no curumim*, a fim de homenagear ao nosso amado mestre; ou então com o nome de Marcos, Mateus ou algum evangelista, pois homenageando a eles aí sim, este Nêgo estaria se sentindo homenageado.
Mas aí a zifia declinou justificando que cada vez que olhasse para o curumim de nome Sebastião se lembraria do compromisso que fizera de ser uma pessoa mais humilde e se sentiria incentivada a continuar se esforçando a amar a Deus e ao próximo com mais ímpeto; enfim, disse que sempre se lembraria de cuidar em educar o curumim para ser um indivíduo mais humilde do que ela, talvez, pudesse ser um dia.
Este nêgo véio nunca deixa de se impressionar com a infinitude do amor de Deus. Uma zifia que reencarnara amiga do orgulho agora se esforçava ao máximo para manter estreitos laços com a companheira humildade e, mais do que isso, teria o compromisso firmado em apresentá-la ao seu curumim desde o seu primeiro sopro de vida!
Salve Zambi-Nosso-Pai!!!
Salve o perdão! Salve o amor! Salve a humildade!!!

*Butado = bom
*Zambi = Deus
*Centro de força = chacras
*Curumim = criança

terça-feira, 31 de março de 2015

Na gira de esquerda






Edu estava ansioso em participar de uma gira de esquerda. Seria sua primeira vez e ele estava aflito em pedir auxílio para suas questões.
Foi mostrada a ele a lista de quais entidades prestariam consultas naquela gira. Edu escolheu o nome que para ele mostrava mais força: Exu Tiriri.
Após certo tempo seu nome foi chamado e ele foi conversar com a entidade.
- Boa noite, cabra!
- Boa noite Sr. Exu Tiriri!!! Escolhi consultar com o senhor, por que senti muita força em seu nome.
- Você teve a sensação errada cabra!!! Exu é tudo igual, só muda a forma de atuação!
- É que seu nome me pareceu forte. Parece que tem poder.
- No nome de Deus é que reside todo poder!
- Estou com a sensação que o senhor não gosta de elogios!
- Nem de bajulação!
- Mas não o estou bajulando!
- E nem eu disse que estava! Apenas lhe esclareci em sua própria dedução!
- E por que você não gosta de elogio e nem de bajulação?
- Por que nenhum elogio ou bajulação é capaz de fazer com que alguém receba aquilo que não tenha merecimento para receber. Ou dar aquilo do que não pode oferecer.
- Não entendi!!!
- Não se preocupe, cabra! Faça seu pedido!
- Gostaria de subir de cargo no meu local de trabalho!
- Vejo que você gostaria de outra coisa.
- Outra coisa? E o que seria?
- Na sua linguagem?: “Calar a boca de seu pai e de sua irmã!”
Edu engoliu seco, mas disse:
- É isto mesmo o que eu quero. Eles precisam aprender a não me menosprezar! Fica ele adulando a ela e ela se achando melhor do que eu.
- Pelo que posso perceber você tem uma maneira distorcida de enxergar as coisas.
- Distorcida?
- É cabra! O que seu pai diz é que as atitudes de sua irmã são mais responsáveis que as suas.
- Mas não sou obrigado a ver as coisas como ele! Nós temos profissões diferentes, mas ela é sub-gerente tanto quanto eu! Só por que ela trabalha de carteira assinada e eu não o meu “velho” vive enchendo minha paciência. Só porque ela tem curso superior e eu terminei no ensino médio, ele também me aporrinha. Que saco!!!
- É cabra, somente quando você descobrir sua real força interior conseguirá sentir o amor a sua volta. Quando isto acontecer você vai querer sentar em minha frente só para dizer uma palavra: Obrigado! Mesmo que seja absolutamente desnecessário, uma vez que só o Divino criador é que é digno de toda gratidão!
- Já vi que não vou receber o que vim pedir, então, se você puder me dar licença, gostaria de ir embora.
- É o contrário, cabra! Você, por ter merecimento, receberá o que veio buscar!
- Puxa, que bom! Obrigado por me ajudar!
- Eu não vou lhe ajudar e nem prejudicar, pois sou Exu! Só vou executar aquilo que a Justiça divina me pede e ponto! Espero que faça bom proveito do que lhe disse, pois só assim poderá usufruir com sabedoria de tudo aquilo que receberá.
- Obrigado!
- Não me agradeça ainda! Tome, conserve isto no porta-luvas do seu carro!
- o que é isto?
- Uma semente conhecida como olho de boi. É para sua proteção!
- Muito obrigado!
Edu foi para a casa. O tempo passou e ele recebeu a promoção que esperava: tornara-se gerente. Passou a receber uma maior renumeração. Passou a andar com vários amigos e, como gostava de dizer, arranjou uma “deusa” para namorar. Passou a ingerir bebida alcoólica em muita quantidade e com mais freqüência que o habitual.
O tempo passou e em uma madrugada quando dirigia de volta para a casa, após passar a noite em uma boate, um carro surgiu a sua frente em uma curva bem fechada. Ele tentou desviar-se, mas como seguia em alta velocidade, um leve toque foi suficiente para jogá-lo ribanceira abaixo. O carro capotou diversas vezes e ninguém poderia dizer que, naquele acidente, alguém poderia haver sobrevivido.
Mas foi o que aconteceu com o Edu, contudo não sem deixar seqüelas, pois ele perdera o movimento das pernas e só conseguiria retomá-lo, talvez, com muita fisioterapia.
Foi demitido de seu emprego sem benefícios a que teria direito se tivesse a carteira assinada.
Ficaria sem ter como arcar com despesas para sua recuperação se não fosse o apoio financeiro do pai e da irmã, sendo esta, inclusive que realizou o tratamento fisioterápico, uma vez que tinha formação para tanto.
Seu dinheiro acabou, seus amigos sumiram e sua “deusa” desaparecera.
Edu nunca imaginara que poderia suportar tamanha falta de consideração, mas não se deixou abater. Com o apoio do pai e da irmã, e com o passar dos meses, Edu passou a recuperar lentamente o movimento dos membros inferiores.
Jamais pensou que pudesse receber tanto apoio e afeto de sua família. Refletiu bastante em sua vida e implorou o perdão a eles, que não tiveram nenhuma dificuldade em concedê-lo.
Mais alguns meses correram e Edu já conseguia andar quase que “ normalmente”. Resolveu, assim, buscar sua participação em nova gira de esquerda.
Voltou ao Terreiro e escolheu consultar-se novamente com Exu Tiriri.
Aguardou a sua vez e foi chamado para a consulta.
Diante do Exu ele recordou-se de tudo que vivera até ali e seu olhar mareou. Foi com o brilho de lágrimas em seus olhos que Edu disse a entidade:
- Não sei como, mas eu sei que você sabe tudo que aconteceu comigo nos últimos meses. Quando cheguei no hospital, após haver sido retirado das ferragens, os médicos disseram que tiveram muita dificuldade para tirar alguma coisa que eu segurava com toda a força em meu punho esquerdo: era a semente de olho de boi! Nem sei como ela foi parar comigo, por que ela estava dentro do porta-luvas.
- Hoje entendo o que você me disse quando estivemos juntos da última vez. Sei que meu pai me ama e que minha irmã me tem amor, mas talvez o mais importante de tudo isto é ter a consciência que hoje em dia eu só consigo sentir isto por parte deles, por haver aprendido a amar a mim mesmo.
- Foi meu desamor, meu sentimento de inferioridade, que quase tirou a minha vida.
Edu já não conseguia mais impedir que as lágrimas gotejassem de seus olhos e nem que sua emoção lhe embargasse a voz, na realidade seu pranto já era incontido, mas reunindo todo fôlego que ainda lhe restava, foi que ele disse a entidade:
- Sei que da outra vez o senhor disse que não era necessário, mas eu só vim aqui esta noite para dizer uma coisa:
- Muito obrigado!!!!