quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Pano branco - o pano da fé ( parte final )



Posteriormente os cunhados de Gonçalo chegaram até o local e, querendo uma segunda opinião, ele contou sobre as características da cobra por ele avistadas. Nenhum de seus cunhados teve dúvidas de que se tratava de duas jararacuçus.
Gonçalo disfarçou, mas perdeu o chão: saiu da água e foi pensar sobre o ocorrido no conforto da sombra amiga das árvores.
O caboclo apareceu no local e perguntou-lhe mentalmente:
− E então filho? Descobriu se as cobras eram peçonhentas?
− Descobri sim. Eram jararacuçus e são cobras muito peçonhentas e com um bote de longo alcance como o senhor disse.
− Mas você está bem, não foi picado, por que está aí amuado no canto?
− Ontem à noite eu poderia ter morrido!
− Se fosse picado por uma destas, com certeza!!! Elas costumam caçar a noite e tomar banho de sol durante o dia.
− Meu Deus, o senhor me desculpe, mas o que o vovô e o senhor fizeram eu considero de uma irresponsabilidade desmedida!
− Ora filho, não era você que hoje pela manhã chegou a pensar que não existiam cobras por estas bandas?
− Então foi por isto que vocês fizeram as duas cobras aparecerem hoje para mim no meio da estrada? Para me dar uma lição?
− Longe de nós filho! É como lhe disse: elas estavam na estrada para tomar banho de sol, mas nós o influenciamos para que passasse no local exatamente neste momento para que possa acreditar mais em Deus, haja vista que você tem o costume de só acreditar naquilo que seus olhos podem ver.
− Então saiba que, de fato, você correria risco de morte se fosse picado por elas ontem à noite, mas nós lhe dissemos que nada de ruim lhe aconteceria durante a trajetória e, graças a Deus, foi o que ocorreu, então onde está a irresponsabilidade? 
− E todo este risco foi para que? Para banhar meu pano branco na cachoeira quando estivesse sem ninguém por perto, me desculpe, mas me parece muito pouco pelo risco que corri!
− Gonçalo o que teus olhos não vêem, só o coração pode sentir.
− Como assim?
− Como você pode menosprezar o cuidado, a energização de um objeto tão sagrado?!?  
− Eu não tenho este menosprezo, só não entendo por que os senhores não me levaram para a cachoeira em outro horário.
−Não o levamos por que aquele era o dia e aquela era a hora, a hora de preto-velho, lembra que lhe dissemos isto no meio do caminho na noite de ontem?
 − Nunca soube que 19:00hrs era horário de preto-velho!
 19:00hrs não filho: eram 18:00hrs, pois no funcionamento do plano espiritual não existe horário de verão!
− Mas no terreiro que freqüento as giras de preto-velho começam as 18:00hrs, inclusive no horário de verão, isto não é um contra-senso?
− Não, pois uma casa religiosa existente no plano terreno funciona pelo horário corrente neste plano e nós também devemos nos enquadrar neste horário de funcionamento se quisermos trabalhar pela Umbanda sagrada nestes templos religiosos.Entretanto, o local onde você esteve ontem a noite em nossa companhia não foi construído por nenhuma mão humana! O próprio Criador foi quem criou aquele templo natural e nós queríamos que você compartilhasse conosco, no nosso tempo, da misericórdia e do amor divinos neste sagrado local.
 − Mas por que banhar aquele pano naquele horário?
− O que seus olhos e sua lógica não conseguirem alcançar, você deve ter humildade e fé suficientes para alcançar com o coração: isto é fé raciocinada na Umbanda sagrada!
− E se não for assim?
− Se não for assim vocês, os umbandistas, começarão a julgar que nós, as entidades, somos doidas e que não falamos coisa com coisa! Duvidarão de si mesmos , de nós e, se não acordarem a tempo, duvidarão da existência do próprio Deus
 − Por que Jesus, no alto de sua glória, aceitou reencarnar se sabia do tanto de sofrimento que passaria durante sua existência terrena? Fé é a resposta! Fé “somente” em Deus? Não somente, mas também fé na humanidade, fé de que seu exemplo, ao longo dos séculos, serviria como uma mola a nos impulsionar rumo a evolução. “ Vós sois deuses”, disse o mestre divino, para complementar “se tiverdes fé do tamanho de um grão de mostarda poderão dizer a qualquer montanha: lança-te daqui para cá e ela assim o fará”  
− Quando o apóstolo, seguindo o exemplo de Jesus, começou a andar sobre as águas primeiramente ficou feliz de sua fé o ter levado a realizar aquela proeza posteriormente, quando o raciocínio começou a afugentar a fé, também pela distância a que estava do barco, o apóstolo do Cristo passou a afundar. Isto é fé raciocinada na Umbanda sagrada: o equilíbrio entre a emoção e a razão! Só a razão ou só a emoção pode fazê-los afundar no mar do desespero e da desesperança!
− Toda vez que sentir Deus falando contigo por qualquer um de seus meios insondáveis ( intuição, premonição, sonhos, etc ) inclusive por meio de nós que vocês umbandistas denominam entidades é muito importante que passem tal fala pelo crivo da razão, do bom senso, da lógica e do conhecimento: isto é fé raciocinada na Umbanda sagrada! Fé não é só acreditar, fé é ter certeza! Mesmo que os conhecimentos terrenos, a lógica terrena e o bom senso terreno queira empurrá-los para a descrença ,a emoção equilibrada, divina, amiga e benfazeja, irmanada com a razão,deve empurrá-los para a crença em Deus Pai Todo-Poderoso e em toda a misericórdia e justiça que ele representa. Entende filho?
 − Sim senhor!
− Então vá meu filho! Pois já é hora de retornar ao seu lazer uma vez que já lhe chamam! Fique na paz de Deus!
− Que assim seja!
− Hein? O que você disse?
Era seu cunhado que o havia chamado para retornar para a água e obtivera um “ que assim seja!” como resposta. Gonçalo respondeu-lhe:
− Só se for agora e o último que chegar à água é mulher do padre!
E foi-se Gonçalo a correr com o cunhado sem ao menos suspeitar que na noite anterior houvesse sido instrumento da misericórdia e da justiça divina no encaminhamento de três espíritos desencarnados  para seus lugares de merecimento. O pano branco, o tal pano de cabeceira, houvera sido um meio para que os desígnios do divino Criador pudessem ser cumpridos na vida daqueles três espíritos.
Mas as entidades não necessariamente deveriam abrir tal informação para Gonçalo, pois o seu livre-arbítrio seria influenciado e a sua fé, a fé raciocinada que deve guiar os passos de todo umbandista, não seria fortalecida. Para Gonçalo tudo não havia passado de um teste de fé o que, aliás, também não deixa de ser verdade.

Mensagem recebida por Pedro Rangel

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Pano branco - o pano da fé ( parte 2 )

 

 − Sou eu mesmo que estou aqui filho! Não incorporado, mas irradiando minha energia para que você possa cumprir a tarefa que lhe foi designada pelo preto-velho que lhe assiste nas incorporações
− Por isto estranhei meu pavor de cobras haver sumido, na verdade eu dei foi graças a Deus, pois o que estranhei mesmo foi todo o amor que passei a sentir por elas, como se fossem minhas irmãs, minha família!
− O que você sentiu foi um pouquinho do amor que este caboclo tem por toda a criação e criatura Divina: umas são altas, outras baixinhas, umas magras e peludas, outras escamosas e despenadas, mas todas filhas do mesmo Criador.
− O amor que o senhor tem é tanto que me comove imensamente!
− Chorar é compreensível filho, mas o esperado por nós é que procure guardar dentro de si todo este amor de Deus para que jamais volte a temer a nenhum dos seus irmãos ou irmãs: as divinas criaturas.
A poucos metros do local indicado Gonçalo ainda pôde escutar o Caboclo dizendo ao preto-velho:
− Toma meu mano, este caboclo agradece pela oportunidade do trabalho, mas agora o cavalinho é todo seu. 
Neste exato instante Gonçalo percebeu o afastamento do caboclo e ainda tentou argumentar com o preto-velho pedindo que ele permitisse a presença do caboclo uma vez que, no seu ponto de vista, a mata é lugar de caboclo. 
O preto-velho respondeu ao caboclo, mas permitiu que Gonçalo escutasse:
− Está vendo Mano? No entender de cavalinho a mata é lugar só de caboclo! E o lugar de preto-velho? Será que ainda é nas senzalas?
Ambos sorriram gostosamente e Gonçalo envergonhou-se pela estreiteza de seu raciocínio relativo às coisas espirituais.
O preto-velho retomou o diálogo:
− Não se envergonhe das brincadeiras deste velho não meu filho, é que Deus designou a mim para coordenar este trabalho com você.
− Tudo bem vovô, eu é que peço desculpas!
Chegando ao local indicado Gonçalo espantou-se por ele estar completamente vazio.
O preto-velho determinou que ele subisse em cima de um lajedo as margens do rio e que lá depositasse seu pano de cabeceira. Foi-lhe ordenado que fizesse certas preces enquanto entoasse pontos de vibração nas linhas de Oxósse, Xangô e Oxum.
Gonçalo envolveu-se nestas tarefas do plano físico enquanto no plano espiritual aconteciam outros fenômenos: três espíritos de pessoas que se afogaram naquelas águas e que se encontravam mentalmente pressas àquele local foram alcançados por espíritos socorristas e levadas para próximo de Gonçalo. Neste exato momento, enquanto Gonçalo continuava a entoar os pontos, o preto-velho pediu-lhe que mentalizasse um portal de acesso a um corredor formado por todas as cores do arco-íris que desembocasse no amor de Deus. Mesmo sem entender o por que Gonçalo assim o fez, e isto sem ter a menor noção de que seriam estes três espíritos socorridos que atravessariam tal corredor.
No exato instante em que a travessia estava quase no fim Gonçalo irrompeu-se num pranto incontido, sentido e, para ele inexplicável. Gonçalo naquele exato instante bebia, sem perceber, nas águas do amor mais profundo que existe, ou seja , o amor de Deus e tudo por que aqueles três espíritos lhe endereçaram sentimentos de gratidão como se entendessem que ele colaborou para o seu resgate.  
Foi-lhe determinado que fechasse o portal e que dobrasse o pano e o segurasse pelas duas mãos.
Gonçalo o fez e, então, o preto-velho disse-lhe:
 − Agora é a hora de voltar para sua casa.  
− Sim senhor.
Gonçalo caminhou até o início da subida da ladeira quando cessou o passo. Olhou para o firmamento e viu que a lua e as estrelas fulguravam com todo o seu esplendor; olhou para um lado e para o outro, e foi quando o preto-velho tornou a dizer:
− Vamos filho!
− Sabe o que é vovô?
− Diga filho!
− Sem nenhum desrespeito ao senhor, mas tem como o senhor solicitar que o caboclo “encoste” em mim outra vez?
− Por que filho?
− Por que quando ele irradiava em mim o medo de cobras sumiu completamente, mas agora  está tudo como antes.
− Filho, nós o trouxemos em segurança até aqui e vamos levá-lo de volta da mesma forma. Nada de ruim acontecerá com você, nem formiga irá lhe morder, muito menos cobra.
− Sim senhor, e este pano de cabeceira eu posso guardar?
− Por que filho se será ele, no plano físico, que o livrará de qualquer mal!
− Este paninho de cabeceira?
− Ele mesmo filho! Caminhe com ele aberto e seguro pelas pontas dos dedos de sua mão até atingir a região urbana e somente neste momento guarde-o com você.
− Mas o que este pano de cabeceira tem que o fará levar-me em segurança até o lar?
− Não é o que este pano tem, é o que este pano é!
−E o que este pano é?
−Aquilo que sempre foi!
− ???
− O seu pano é Umbanda! Você é Umbanda! Esta mata é Umbanda tanto quanto os seres que nela habitam! No trajeto de volta ao lar procure recordar-se pelo mental e sentir novamente com o coração todo o amor que sentia pela natureza e pelos animais quando estava irradiado pelo caboclo.
−Sim senhor!
− Entenda que enquanto você estiver andando por esta mata com este pano esticado, todas as plantas, rochas, minerais e animais o verão enquanto um igual, pois verão em ti Umbanda: Você, Deus, a natureza e os seres como uma só banda – Umbanda.  
Gonçalo assim o fez e retornou seguro ao lar.
Na manhã do dia seguinte ao acordar, e por ser sujeito com a fé um tanto quanto enfraquecida, ele passou a desenvolver os seguintes pensamentos: “ Já fui àquela cachoeira dezenas de vezes e nunca, ao menos, vi uma cobra!”, “Será que não fantasiei tudo ontem a noite e que, de fato, não existe cobra nenhuma por lá e que por isto eu nada vi?”, “ Bom, seja como for, pelo menos meu pano de cabeceira foi banhado na cachoeira!”.
No período vespertino deste mesmo dia, Gonçalo foi até a cachoeira mais uma vez onde sua esposa e sua cunhada o aguardavam.
Quando estava na mata que dá acesso ao local ele viu duas cobras negras e de tamanho mediano ao longo da estrada. Estavam eqüidistantes por poucos centímetros. A primeira correu para dentro do mato, mas a segunda ficou imóvel no local como se estivesse morta. Gonçalo achou curioso a imobilidade do réptil e intencionou aproximar-se quando foi advertido mentalmente pelo amigo espiritual da seguinte maneira:
− Afaste-se!
− Mas por que? Ela aparenta estar morta!
− É só aparência e o bote dela é um de maiores alcance entre as cobras.
− Então ela é venenosa?
Gonçalo não obteve resposta e, usando de seu livre-arbítrio, decidiu se afastar e ir para a cachoeira. Entretanto teve certeza que eram apenas duas cobrinhas inofensivas tomando banho de sol.
Ao chegar a seu destino Gonçalo contou para sua cunhada sobre as características da cobra avistada, esta arregalou os olhos de pavor, mas tentou disfarçar o semblante ao dizer que era uma das cobras mais venenosas que existe naquela região: uma jararacuçu. Disse também que sempre que ele avistasse uma cobra com estas características, que era para afastar-se o mais rápido possível, pois o bote dela era um dos mais altos que existe............. ( continua )


Mensagem recebida por Pedro Rangel

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Pano branco: o pano da fé ( parte 1 )





Gonçalo encontrava-se radiante por haver conseguido tirar suas aguardadas férias do trabalho: iria, juntamente com a esposa e a filha, viajar para a casa dos sogros em região interiorana de estado localizado no sudeste brasileiro.
As malas estavam prontas e a grande viagem aconteceria no inicio da tarde do dia seguinte; Gonçalo já estava fechando a bolsa de viagem quando alguém conhecido disse-lhe mentalmente:
− Falta o pano branco filho!
− Pano branco? Qual?
− O seu paninho de cabeça!
− Meu pano de cabeceira?
− Isto filho!
− É para eu levar meu pano de cabeceira?
− Isto filho! Qual o espanto?
− O pano não é um instrumento para uso no terreiro?
− O pano é um instrumento que viabiliza a conexão dos médiuns com a energia de Deus e de seus mentores independente de onde quer que estejam.
− Verdade?
− Sim, entretanto só existem duas regiões em que este pano é reenergizado: um centro de Umbanda ou um espaço da natureza ( rios, cachoeiras, matas, etc ). Leve o paninho filho, por caridade!
O amigo espiritual retirou-se e Gonçalo foi tomar uma ducha, mas não sem antes pensar: “ será que estou ficando maluco?”, “Isto foi, de fato, uma determinação espiritual ou será que estou endoidando?”, “ Bem, já que não custa nada, eu vou levar”.
O grande dia chegou e a viagem transcorreu tranqüila com todos chegando bem ao local de destino.
Como Gonçalo gostava de estar naquele lugar! Era coisa secreta no coração dele, mas a sensação que tinha era a de que já vivera ali séculos atrás em encarnações pregressas. A estadia de todos no local duraria cerca de duas semanas e Gonçalo não perdeu um segundo no desfrutar de todas as possibilidades de lazer que o mesmo oferecia: era uma região muito rica em matas, rios e cachoeiras – cada uma mais linda que a outra.
Fã de jogos eletrônicos, Gonçalo também não deixou de se divertir juntamente com os familiares de sua esposa neste tipo de lazer. Os dias pareciam que não tinham fim.
Em um dia de quarta-feira pela manhã, assim que acabara de despertar e enquanto cuidava de sua higiene bucal, o mesmo alguém conhecido disse-lhe mentalmente:
− Filho, hoje levar pano de cabeceira na cachoeira quando não houver ninguém!
− Desculpe, mas como é?
− Levar hoje pano de cabeceira na cachoeira quando não houver ninguém!
− Mas como é que eu vou saber quando não haverá ninguém se aquela cachoeira vive cheia de gente não só pelo dia, mas também pela noite quando muitos acampam para pernoitar,pescar, fazer lual ou outras atividades de lazer?
− Não esqueça filho!
A entidade foi embora e Gonçalo tornou a pensar: “ Meu Deus, acho que estou ficando doido mesmo, pois é impossível adivinhar quando aquela cachoeira está vazia, até mesmo porque ela não é tão perto assim de onde estou para que eu fique indo e voltando até ela a todo instante para ver se está vazia”. “Bem, deixa pra lá por que se for coisa de entidade mesmo, Deus que me desculpe, mas elas que arranjem um jeito, pois o que eu quero hoje é jogar até dizer chega!”.
Gonçalo divertiu-se com jogos eletrônicos até o horário do almoço. Após o almoço, novamente na hora da higiene bucal, o amigo espiritual tornou a lembrá-lo, mentalmente, do compromisso.
Gonçalo tornou a achar que era coisa da sua cabeça e voltou a divertir-se com o sobrinho através de jogos eletrônicos. Por volta das 19:00hrs, no intervalo entre um jogo e outro, a entidade disse a ele mentalmente:
− Está na hora filho: levar pano de cabeceira na cachoeira em hora que não tem ninguém!
− Mas como é que eu vou saber a hora que ela estará vazia?
− Agora filho! Na hora que não tem ninguém, levar pano seu pra lá!
− Então o senhor está me dizendo que agora não tem ninguém?
− Está na hora filho! Agora!
− Mas é que estou com fome, o senhor concede permissão para comer alguma coisa rapidamente?
− Sim, mas não demore filho, pois está na hora!
Sentindo a veracidade daquela informação Gonçalo voltou para casa onde estava hospedado, lanchou, pegou o pano de cabeceira e dirigiu-se à cachoeira. Eram aproximadamente 19:00hrs.
A cachoeira ficava a vinte minutos de distância andando a pé. Gonçalo pensou em apertar o passo, mas recebeu a determinação por meio de seu mental:
− Ande naturalmente e não tenha pressa, essa hora é boa por que é hora de preto-velho.
− Hora de preto-velho? Como assim?
Gonçalo não obteve resposta e já estava quase chegando à região de mata quando começou a pensar que estava enlouquecendo, que aquelas vozes que ouvia eram as de si próprio e não de entidade alguma, pois não haveria possibilidades da cachoeira estar vazia naquele horário.
A entidade amiga retomou o diálogo:
− Diga a verdade filho! Fale que está morrendo de medo em entrar na mata porque já está anoitecendo e você tem pavor de cobras!
− Morro de medo mesmo, como o senhor sabe e disse.
− Estou vendo que você não para de pensar nelas desde quando começou a sua trajetória.
− O senhor sabe que sou capaz de sair no braço com a maior onça que houver, se for para defender a vida, mas que paraliso por completo se avistar a menor cobra que existir no mundo.
− Pare de pensar nelas Gonçalo, pois seu temor está as atraindo em sua direção.
− Mas eu não estou pensando nelas, estou pedindo a Deus que não aviste nenhuma ao longo da trajetória.
− A sua oração é fruto do temor.
− Mas o que é que posso fazer?
− Não se preocupe eu vou me afastar um pouco!
− Não, por favor!
Gonçalo passou a pensar: “Meu Deus e agora? Estou perdido!”
Entretanto, sem que notasse, Gonçalo cerrou o punho esquerdo impensadamente e foi levando-o em direção ao peito. A noite havia chegado, mas sem que Gonçalo pudesse explicar, todo o seu temor de cobras havia desaparecido: ele sentia-se perfeitamente integrado a natureza como se ela fizesse parte de todo o seu ser, cantigas indígenas antigas e totalmente desconhecidas eram entoadas mentalmente por ele aumentando a entronização entre o ser e o meio ambiente.
Mais adiante ele passou a sentir todo o seu ser integrado a natureza e vice-versa. Faltava descer à ladeira que dá acesso a cachoeira quando ele notou que sua boca estava torta assim como acontece quando está incorporado com o caboclo que lhe assiste nas incorporações; percebeu também que seu punho esquerdo estava cerrado no peito assim como tal entidade se manifesta quando incorporada. Entretanto Gonçalo não estava incorporado e estranhava aquela situação percebida por ele.......( continua )


Mensagem recebida por Pedro Rangel

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

INGRATIDÃO





Certa noite, enquanto meu corpo repousava na cama, fui atraído para uma região de mata onde havia um campo coberto por gramíneas tão verdejantes e alinhadas que mais parecia um gramado de campo de futebol. Em todo aquele vasto campo só existia um pé de árvore: era uma jabuticabeira e eu recordei-me que já estivera no local em outra ocasião.
Um preto-velho baforava um cachimbo e estalava os dedos ao redor de uma vela posicionada no chão enquanto analisava uma pequena tela translúcida disposta à sua direita. O sol brilhava forte no céu, mas a entidade amiga trabalhava no aconchego provocado pelas sombras da árvore amiga.
Ele olhou para mim e, mentalmente, pediu-me respeito e oração pelos acontecimentos que ali se sucederiam. Calei minha curiosidade e fui para a esquerda do amigo espiritual, após haver recebido dele a determinação para isto.
Então, como que por um encanto, apareceu um homem que se sentou a frente da entidade depois de já tê-la saudado respeitosamente.
Não posso enganar a ninguém e devo confessar que minha curiosidade ficou aguçada com aquela situação, entretanto, a empatia emanada pelo assistido era tamanha que passei a sentir sua dor e sua angústia como se fossem minhas. Assim, calei minha bisbilhotice e coloquei-me a orar piedosamente por aquele espírito que sabia ser encarnado pelo cordão prateado que trazia junto a si.
O diálogo iniciou-se quando Pai Josué perguntou ao assistido:
− Como vai suncê meu filho?
− Estou muito cansado vovô!!
E, dizendo isto, passou a chorar copiosamente. Chorou tanto e tão sentidamente que, enquanto orava, chorei também junto com ele como se também fossem meus o cansaço e a dor que ele sentia. Pai Josué estalava serenamente os dedos da mão direita em torno da vela enquanto o homem acalmava as emoções. Somente após foi que disse a ele:
− Chorar faz bem pra alma zifio, suncê tá melhor?
− Desde que nasci só faço passar por ingratidão vovô, muita ingratidão!
− Na verdade eu me sinto mesmo é muito sozinho. Sei que é melhor estar só do que mal acompanhado, mas como dói quando a solidão vem de braços dados com a ingratidão! Estou cansado vovô!
− Mas o que tá acontecendo zifio?
− O que sempre acontece desde que nasci vovô: ingratidão em cima de ingratidão.
− Preto-velho sabe zifio, mas conta pra nêgo sobre a última ingratidão, por caridade!
− Eu e meus irmãos estávamos com fome dentro de uma mata e bem distantes do lar. Para tentar aplacá-la todos passamos a procurar algum pé de frutas comestíveis, mas não conseguíamos encontrá-lo.
− Todos se ajoelharam na mata e deram as mãos enquanto faziam orações para que Deus me abençoasse a encontrar as tais frutas, pois já estávamos cansados da procura e indicaram-me para tal tarefa. Enquanto também orava sai a procura e encontrei uma mangueira repleta de frutos maduros.
− Louvado seja Deus zifio!
− Retornei para junto dos irmãos e contei sobre a descoberta. Todos exultaram em alegria, mas observaram que o pé de manga era muito alto e passaram a questionar como fariam para tirar as frutas do pé. Como não chegaram a um consenso sugeri que eu e meus três irmãos passássemos a procurar alguma vara para tirar os frutos uma vez que nenhum de nós tinha condições de subir na árvore que, de fato, era imensa.
− E depois, meu filho?
− Alguns minutos depois cada um de nós trouxe uma vara, mas só uma possuía altura suficiente para atingir as frutas mais próximas ao solo sendo as demais descartadas por nós.
− Como entre todos eu era o mais alto, fui escalado para tirar os frutos com a vara. O sol estava muito forte e cegava minhas vistas, mas consegui atingir um galho que estava repleto de mangas; entretanto atingi junto uma casa de marimbondos que veio ao chão espatifando-se em três pedaços. Os insetos vieram atrás de nós com toda a força e corremos velozmente em direção a um rio que havia ali por perto.
− Suncês conseguiram escapar?
− Dos maribondos sim, mas não sem antes nós todos levarmos algumas ferroadas.
− E depois?
− Após, retornamos a mangueira e degustamos de seus frutos. Tal gesto deu-nos força e sustento para retornarmos ao lar. Entretanto, quando isto se deu,de uma forma que não sei explicar, uma diarréia terrível atacou a cada um de nós.
− Mas graças a Zambi que suncês venceram a fome e conseguiram retornar ao lar!
− Eu também penso assim Pai Josué, mas meus irmãos culparam e ainda me culpam por tudo: pelas ferroadas dos insetos, por quase haverem se afogado no rio, por eu haver encontrado uma mangueira ao invés de outro fruto e por tudo mais que suas fantasias conseguem alcançar.
− E esse é o tal motivo do seu cansaço atualmente zifio?
− Desculpe-me por minha imperfeição vovô, mas é isto mesmo!
− Imperfeitos somos todos nos zifio, só Deus é perfeito!
− Eu sei, mas o senhor é muito mais elevado espiritualmente do que eu vovô, ao senhor este cansaço pode até mesmo parecer coisa pequena!
− Engano seu zifio! Como nêgo pode apequenar algo que está trazendo tanta dor pra suncê?!? Apequenar não ajudará suncê a entender sobre o amor de Deus!
− Amor de Deus?
− É zifio: a caridade! De mais a mais, este nêgo apanhou muito pra conseguir entender uma coisinha ou outra na atualidade.
− Verdade vovô?
− Claro zifio, suncê quer ver?
− Ver vovô, mas como?
− Nesta tela que suncê ta vendo aqui do lado de nêgo!
− Puxa vovô se não for violar sua intimidade e trazer a lembrança antigas dores eu gostaria sim.
− Zifio, se suncê tiver fé e muito amor de Deus no coração acabará entendendo um dia que a verdadeira dor sente mais aquele que inflige o açoite do que aquele que o recebe. E como dói esta dor zifio! Como ela pode durar quase que infinitamente!
− Como assim Pai Josué?
− Vamos assistir as imagens?
− Sim senhor!
O preto-velho estalou os dedos e imagens passaram a suceder-se na tela.
Foram dois episódios aparentemente diferentes com os mesmos personagens:
No primeiro episódio, apareceu um homem muito parecido com Pai Josué que trazia nas mãos uma sacola de pano, de tamanho médio, cheia de moedas. Chegando em frente de um outro homem ele entregou-lhe todas as sua moedas e este, então, deu-lhe um pedaço de tesouro ínfimo.
No segundo episódio, o mesmo homem que se assemelhava a Pai Josué, trazia na mão uma única moeda e entregou-a ao mesmo homem do primeiro episódio que, assim, entregou-lhe um grande e bonito tesouro; após as imagens apagaram-se da tela. Pai Josué perguntou para seu assistido:
− Entendeu zifio?
− As moedas eram de valor diferente vovô?
− Não zifio, eram moedas mágicas que possuíam o mesmo valor.
− Moedas mágicas?!? Como pode ser isto? Como uma porção de moedas mal deu para comprar uma minúscula jóia enquanto que uma só moeda comprou uma jóia fabulosa?
− Suncê observou o nome da unidade monetária cunhada na moeda?
− Não vovô!
Então observe mais uma vez!
Dizendo isto o vovô voltou as imagens dos dois episódios em cenas especificas e seu assistido observou que, de fato, as tais moedas mágicas tinham realmente o mesmo valor em ambos.
A entidade perguntou-lhe:
− E agora zifio, suncê observou o nome da moeda?
− Sim senhor: é INGRATIDÃO!
− E o que suncê entendeu?
− Muito pouco: quer dizer que muita ingratidão não compra quase nada e pouca ingratidão compra quase tudo?
− Mais ou menos, mas pense: o que e quem dá valor às moedas?
− Deus?
− Então suncê está dizendo que Deus fornece ingratidão para a vida de seus filhos, é isso?
− Não, Deus é justo!
− Então quem valora as moedas?
− A própria pessoa que recebe?
− Exatamente zifio. Estas moedas são mágicas por que tem a propriedade de fazer o seu portador entender que o verdadeiro lucro vem não por fazê-las render mais, mas sim menos.
− Elas são um exemplo daquela situação em que menos é mais, vovô?
− Exatamente zifio, mas por meio de que suncê acha que o portador das moedas pode e deve desvalorizá-las fazendo com que rendam menos e aumentem a possibilidade de que recebam os mais valorosos tesouros?
− O merecimento e o carma?
− Explica pra nêgo zifio, por caridade!
− No primeiro episódio a pessoa em questão estava com a sacola cheia de ingratidão devido ao seu carma de reencarnações pretéritas, já a pessoa do segundo episódio ( apesar de ser muito parecida com o do primeiro )tinha menos carma a quitar nos campos da ingratidão e assim só era portadora de uma única moeda.
− Zifio, e se nêgo veio contar que as pessoas dos dois episódios são uma só?
− Bem que eu desconfiei Pai Josué!
− São uma só na mesma encarnação!
− Como assim Pai Josué? Como aquela pessoa ficou com uma só moeda ao término de uma encarnação se no inicio da mesma possuía várias?
− Então zifio, é justamente isto que nêgo quer saber!
E, dizendo isto, deu “aquela” risada gostosa como só os preto-velhos sabem fazer. O assistido da entidade riu efusivamente junto com ela.
− Olha vovô anteriormente em nossa conversa o senhor falou no amor de Deus, a caridade, seria isto?
− Uma parte da resposta sim, zifio, mas conta pra este preto-velho como foi que Nosso Senhor Jesus Cristo ensinou à que se resumia a Lei e os profetas?
− Amar ao senhor teu Deus, incondicionalmente, acima de todas as coisas e ao próximo com a si mesmo!
− Nêgo véio gostou de ver meu filho! E o que aquele que ama a Zambi e ao seu próximo faz com a ingratidão que lhe é ofertada?
− Perdoa?
− Não seria aprende a perdoar, zifio?
− É difícil perdoar vovô, só Deus ajudando mesmo!
− Por isso que Nêgo véio disse que suncês tem de aprender a perdoar! Pra suncês num é muito fácil, mas se suncês tiver humildade, é só clamar a Deus que Ele ensina direitinho.
− Agora estou entendendo vovô!
− Quanto mais amor ao próximo, mais suncês vão tendo condição de receber a ingratidão deste como uma preciosa moeda que pode levar suncês a adquirir os tesouros espirituais, e à medida que suncês vão adquirindo tais tesouros estas moedas vão sumindo das suas existências e suncês vão enriquecendo em espírito e verdade. Tendo humildade e amor suficientes, suncês podem chegar ao fim da encarnação até mesmo sem nenhuma destas moedas.
− Incrivel vovô!
− A moeda da ingratidão é mágica também por que é a mais valiosa para se adquirir humildade e sabedoria, tornando-os pobres de suncês mesmos e mais ricos da presença de Deus-Nosso-Pai. É aprendendo e exercitando o amor ao próximo que suncês diminuem a cotação da moeda da ingratidão; quando uma só moeda perde seu valor ela deixa de existir e suncês adquirem um tesouro espiritual. Quanto maior o valor da ingratidão, perante a Lei Maior e à Justiça Divina, maior deve ser o esforço no aprendizado do perdão a esta; uma vez alcançado esta condição o valor de tal moeda é anulado e um tesouro mais valoroso aos olhos do Divino Criador é acrescentado no patrimônio espiritual de suncês.
− Incrível vovô, mas a sensação que tive quando vi os dois episódios na tela era que as moedas estavam sendo trocadas pelos tesouros.
− Não foi sensação zifio,ao longo de uma encarnação a possibilidade de aquisições de tesouros espirituais são imensas, entretanto o que suncê viu representa simbolicamente a troca inicial e a derradeira de toda uma encarnação!
− A hora do reencarne e a do desencarne?
− Exatamente meu filho! A primeira imagem que suncê viu retrata a quantidade de moedas de ingratidão adquiridas por este nêgo véio em encarnações pretéritas e o parco tesouro espiritual recebido por mim no reencarne devido ao grande valor que dava a elas. Já na segunda imagem, o que suncê observou é o símbolo final do quanto conseguimos desvalorizar de ingratidão ao longo de uma existência no plano físico e do tesouro espiritual final que adquirimos por conta desta desvalorização. Como suncê viu, apesar do esforço deste preto-velho, ele não consegui desvalorizar uma última moeda ao longo daquela referida encarnação, na época que o Império Assírio era o mais poderoso na face da terra. Na atualidade tal moeda, graças a Zambi, não é mais propriedade minha!
− Que linda foi tua luta, tua perseverança, tua história vovô!
− Lindo é Deus zifio! Linda é toda a oportunidade que Zambi tem lhe dado de enriquecer dos tesouros do espírito. Se suncê diz pra Nêgo que sua atual existência é só ingratidão, imagine o quanto que Deus-Nosso-Pai considera que suncê é capaz e merecedor de enriquecer numa única encarnação!
− Olhando desta forma, Pai Josué, eu me sinto até mesmo um felizardo!
− Até mesmo não zifio: suncê é um felizardo, assim como os seus irmãos de sangue e aqueles por paternidade divina também o são. Quanto menos suncês sentirem ingratidão, mais condições terão de adquirir os mais belos tesouros do espírito. Perdoe seus irmãos e todos aqueles que suncê julgou haverem sido ingratos com suncê.
− Assim farei vovô, muito obrigado por tudo!
− Agradece a Nêgo véio não zifio, agradece a Zambi-Nosso-Pai!
− Que assim seja!
− O assistido da entidade amiga desaparecera da mesma forma que chegara até ali e ela, assim, virou a cabeça para onde eu estava posicionado, em prece, e perguntou-me:
− Aprendeu filho?
Eu chorava muito de gratidão a Deus e aquela entidade tão, simples, tão humilde, mas tão rica em sabedoria pelo aprendizado daquela noite, mas respondi-lhe:
− Sim senhor!
  E ela, com semblante amável,mas também sério disse-me:
− Então faça! Faça acontecer, seja realmente rico, você é capaz e Zambi julga-lhe merecedor que enriqueça espiritualmente pela mesma moeda evolutiva que ofertou ao assistido que até pouco se encontrava sentado neste banquinho; é a mesma moeda que serviu de evolução espiritual para todos os preto-velhos que militam nesta Umbanda Sagrada e de Todos Nós, a mesma que está presente nas Sete lágrimas de Pai Preto: a ingratidão!







Mensagem de Pai Josué, recebida por Pedro Rangel.

domingo, 25 de dezembro de 2011

BENÇÃOS DE DEUS




O filho de um rico comerciante romano encontrava-se terrivelmente enfermo.
Tratava-se de moléstia desconhecida aos médicos da época e que parecia incurável. O mancebo encontrava-se em estado de prostração terrível, não sentia fome e perdia muito peso em ritmo acelerado; sendo que por vezes era acometido por estranho estado febril que o fazia entrar em delírio.
O pai aflito, então, determinou ao funcionário em que depositava maior confiança que trouxesse a sua moradia os melhores médicos do império.
Tempos depois o fiel escudeiro retornou com os quatro melhores médicos de Roma.
O primeiro deles possuía a alcunha de “ médico do Norte”, pois em toda região norte raríssimos foram os doentes que não encontraram a cura por meio do exercício de sua profissão. O segundo era denominado “médico do Sul” por que os casos de restauração de saúde dos enfermos em sua região beirava os 100%.
O terceiro era conhecido como “médico do Leste” e o quarto como “médico do Oeste” por motivos similares aos de seus outros dois colegas de profissão.
O primeiro médico não conseguiu curar o filho do comerciante. O mesmo deu-se com o segundo e terceiro médicos.
O comerciante já estava aflito com a situação e o pranto escorria incontido de seus olhos quando o quarto médico saiu do quarto de seu filho. Este também não conseguiu curá-lo, após semanas de tentativas, e ainda disse-lhe que a cura seria impossível.
Muitos dias se passaram após e, junto com eles, aproximava-se o momento possível de desencarne do jovem que,assim,pediu ao pai que realizasse o seu último desejo: passear pelas ruas de Roma.
O desejo foi atendido prontamente e já nas ruas o sol, em pouco tempo, começou a fazer mal ao filho do comerciante que passou a orar que os deuses cuidassem bem de sua alma.
E foi neste exato instante de desespero que uma figura de semblante sereno aproximou-se da liteira onde se encontrava o moribundo. Estava acompanhado por três homens: todos com sandálias gastas e roupas sujas com bastante pó, como se houvessem andado bastante tempo a pé de uma região para outra.
Pensando tratar-se de malfeitores um soldado fez intenção de desembainhar a espada, mas uma candura inexplicável e tamanha brotava do líder daqueles homens, o que não permitiu a conclusão do ato.
Pressentindo que estava em momento crucial de sua existência o jovem pediu que abaixassem sua liteira. O pai contrariou-se com a situação, mas o mancebo pediu para conversar com o tal homem em particular; então, vociferando palavras de ameaça àqueles homens, o genitor andou poucos metros a frente de onde se encontravam e levou o soldado consigo.
O líder dos homens maltrapilhos também solicitou que seus companheiros de jornada o deixassem a sós com o jovem e, no instante que isto ocorreu disse a ele:
− Venho aqui por parte do Alto do Altíssimo!
− É estranho! Você está imundo, pelas vestimentas parece apenas mais um no meio da plebe, entretanto não sei se estou mais uma vez em febre delirante, mas o vejo rodeado por seres luminosos com halos dourados, não sei quem você é ,mas sei que não é mais um na multidão, você poderia ajudar-me, pois sinto a morte bem próxima?
−Você quer a cura?
−Sim!
−Só você pode curar a si próprio!
− Mas como vou curar a mim mesmo se os melhores médicos não conseguiram?
−Não humilhando mais sua esposa, sendo um pai mais presente ao seu filho, não usurpando mais as economias do seu pai sob hipótese alguma, nem mesmo para ostentar aos amigos levianos um poder que não possui.
−Agora estou certo que não és mais um na multidão, pois como poderia saber sobre particularidades da minha vida?
−Eu, por mim, nada sei! É o Pai que habita em mim Quem tem a ciência de todas as coisas!
−Qual o nome do seu deus de devoção?
−Deus, simplesmente Deus! Deus é um só!
−Eu tenho devoção a Júpiter!
−Júpiter é uma divindade de Deus, é o fogo equilibrador de toda a criação, mas não é o próprio Deus!
−Homem estranho e de fala estranha eu lhe digo: em todo este tempo que me encontro adoentado tenho, de fato, repensado bastante em toda minha vida e sei que não tenho sido bom pai, esposo e nem filho, mas do jeito que me encontro como poderia curar a mim mesmo?
−Deus irá curá-lo, você somente se esforçará para manter a cura.
−Mas você disse que não poderia curar-me!
−E não posso, mas Deus em mim pode e assim o fará! A tua hora ainda não chegou, mas para mim já é chegada a hora!
−Você está para morrer? Não entendo do que fala!
−Não falo de morte, pois morte não existe, falo de fé!
− Não o entendo!
−Depois que eu me for você será chamado a dar testemunho de sua fé. Poucos o entenderão, mas Deus estará contigo.
−Homem estranho saiba que cuidarei de ser um homem melhor para mim mesmo e para os meus, e se você realmente conseguir me curar passarei a seguir o teu Deus com todo o meu ser.
−Você não seguirá o meu Deus, pois Deus é um só e, além disto, só dará testemunho de sua fé quando for chegada a minha hora e entenda que o poder do Altíssimo é tão grandioso que você passará a desejar ser um homem melhor não somente para sua família, mas para todo ser vivente, pois verá a todos como irmãos e filhos de um mesmo Pai:Deus.
−Sinto tudo o que me diz como real, mas não sei como será possível!
− Não te preocupes, pois assim como já é chegada a minha hora, a tua também virá: pés de árvores que geram frutas diferentes fazem com que amadureçam em tempos diferentes, mas uma pêra é irmã de uma maçã assim como um único homem o é de toda a humanidade. De repente ele se calou. Baixou a cabeça, fechou os olhos e levantou os braços aos céus como se fizesse uma oração. Um vento muito forte passou brevemente pelo local e ele,então, clamou: Pai, seja feita a vossa vontade!
Instantes após o homem já estava curado e, desta forma, aquela terna figura tomou a direção dos seus companheiros para continuarem a prosseguir jornada, entretanto o ex-enfermo aproximou-se daquele homem e perguntou-lhe:
−Bom homem, antes de prosseguir em sua viagem eu gostaria que você dissesse qual moléstia era esta que obstruía meu coração, minha mente e que nem os melhores médicos conseguiram diagnosticar, é possível?
Aquela figura, que tanto amor e paz transmitia, virou-se calmamente e respondeu à pergunta com apenas uma palavra:
− Egoísmo!
Em seguida irmanou-se com os companheiros de jornada e continuaram a seguir em direção ao norte onde um indivíduo de nome Nicodemos também esperava pelas bênçãos de Deus!






Mensagem do espírito M.M. canalizada por Pedro Rangel

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

VIDA




Enquanto aguardava a chegada da namorada em sua casa Bruno, cansado pelo dia de trabalho intenso que tivera, cochilou no sofá.
Enquanto isso Júlia embarcava em condução que tinha como destino a casa do seu namorado Bruno.
Ela estava muito ansiosa para chegar ao encontro que combinara com ele, entretanto sua ansiedade não era maior do que a notícia que daria a ele: ela estava grávida.
Só o que Júlia não sabia é que seu namorado intuitivamente já tinha uma noção de qual conversa ela queria ter com ele e, apesar de freqüentar um terreiro de umbanda há nove meses, Bruno estava decidido que se sua intuição estivesse correta ele a pediria que interrompesse o desenvolvimento da gestação.
Bruno a amava verdadeiramente, mas era filho de uma família da alta sociedade paulistana; tinha vinte e três anos de idade e um enorme potencial para fazer o bem dentro de si, mas era muito inseguro e preocupado com o que sua família faria se descobrisse a gravidez de sua amada.
Ele era descendente de uma família de médicos, mas trabalhava como advogado havia dois anos. Era um moço esforçado mesmo, que nunca quis utilizar o nome e o prestigio da família para obter qualquer tipo de vantagem em seu ramo de profissão.
Havia quatro meses que o caboclo a quem Bruno cambona dissera-lhe que se preparasse para tomar uma nova direção em sua vida, por que em breve um vento bom logo iria soprar no caminho dele para indicar novos rumos.
Inclusive na época do ocorrido Bruno não entendera muito bem o recado e levou sua vida calmamente até ali naquele dia em que sua amada Eliana solicitara o encontro na casa dos pais dele.
Pelo vidro da janela do seu quarto Bruno via que caia uma chuva torrencial, mas mesmo com todos os raios e trovões ele sentia que a tempestade climática não era maior do que aquela que desabava em seu íntimo.
Aflito pela intensidade de suas emoções ele resolveu sair de dentro da fazenda dos seus pais e respirar um pouco de ar puro. O relógio marcava quinze horas de um dia de novembro do ano de 1910, mas as nuvens estavam tão carregadas e enegrecidas que já aparentava ser quase noite naquele horário; justamente por este fato foi que ele acendeu a lamparina antes de sentar-se na rede.
Algo como um que desconhecido hipnotizava-o fazendo com que olhasse incessantemente para os raios que rasgavam o céu. A cada relâmpago que clareava o firmamento ele sentia como se um peso enorme saísse de seu peito.
Fascinado pelos raios ele levantou-se da rede e foi tomar um banho de chuva. Os pingos da chuva desciam grossos e pesados, mas em seu corpo não causavam nenhum tipo de dor ou incômodo: só um grande alivio em sua ansiedade.
Encantado que estava pela chuva ele foi atraído até um pequeno bambuzal existente no local e lá, inexplicavelmente, ajoelhou-se ao solo; de repente, como se viesse de dentro do bambuzal, apareceu uma linda mulher com cabelos ruivos como fogo e vestes estranhas que disse a ele:
  Nós pedimos que você se preparasse antecipadamente a este evento.    
─ É verdade!   
  Você se preparou? 
  Racionalmente sim,mas não de forma emocional. 
  Em você vejo dúvidas, o que deseja tanto perguntar-me?!? 
  Será que eu enlouqueci?  
  Por que você diz isto?  
  Ora, mas isto é óbvio! Parece que estou louco, em alguma espécie de pesadelo.  
  Mas por que você diz isto? 
  Estamos no ano de 1997 e, no entanto, aqui nesta localidade é 1910, isto não é loucura? Outra coisa estranha é que eu moro no Rio de Janeiro, mas aqui estou em São Paulo, como pode ser isto?
  Atualmente encontramo-nos no ano de 1997 e você efetivamente reside no estado do Rio de Janeiro.  
─ Aqui onde estamos os meus pais moram neste fazendão e, na realidade, eu moro mesmo no meu barraquinho no Vidigal, como é que pode?     
Você não deve preocupar-se com estes fatos que você vê como discrepância, mas sim com aquilo que é principal em sua vida.  
  Como assim? 
  O que você vê em comum tanto na sua vida no Rio quanto aqui em São Paulo? 
Deus do céu, parece papo de doido, não parece?  
Responda-me, por favor!  
Tudo bem, desculpe! Bom, a única coisa igualzinha no Rio e aqui em Sampa é o fato de que eu vou ser pai.  
Exatamente!  
Só que na “real”, no Rio de Janeiro, a minha namorada não se chama Eliana: o nome dela é Júlia!  
O nome também é algo secundário, procure focar no que deve ficar guardado em ti nesta experiência.  
Mas eu estou focado!  
Será que está mesmo?  
Claro!  
Mas você não está esperando a Júlia chegar à tua casa para um encontro que ela mesma solicitou?  
Estou.  
Você, intuitivamente, sabe que ela lhe dirá neste encontro que está grávida, certo?  
Correto!  
E você hoje, como há oitenta e sete anos atrás, não está pensando em pedir que ela aborte?    
Deus, como a senhora pode saber disto!??!  
Você é umbandista Bruno, você sabe!  
Espere ai, então quer dizer que a senhora é uma entidade que milita na umbanda! É isto?  
Exatamente!  
Agora entendo porque os meus joelhos se dobraram diante da senhora antes mesmo que eu soubesse deste fato, não é isto?  
Exatamente!  
Bem, se nós na realidade estamos em 1997 e aqui estamos em 1910, então isto quer dizer que este tal bruno ricaço de 1910 sou eu mesmo, o pobretão de 1997, não é isto?  
Exatamente!  
E este tal Bruno era mesmo umbandista?  
Não, o umbandista há nove meses é você Bruno! O fato de você vê-lo como umbandista se deve pela necessidade da prática da caridade para a evolução do seu espírito.  
Como assim?  
Você enquanto o Bruno do passado deveria ter advogado também gratuitamente em favor do próximo; atualmente você não é o advogado abastado de outrora, mas deve buscar a evolução do teu espírito pela prática da caridade através da religião de umbanda.  
E esta Eliana de 1910 é a minha Júlia de 1997, não é isto?  
Exato, assim como o seu filho abortado há oitenta e sete anos é o mesmo que agora pede oportunidade para reencarnar.  
Meu Deus, quanto tempo perdido!!!  
Hoje você, umbandista, vê como tempo perdido, já em outra época você não pensava desta maneira.  
É verdade, graças a Deus que hoje eu sou umbandista!!!  
Então, por caridade, haja como umbandista e faça como o Caboclo Ventania lhe determinou há quatro meses lá no terreiro que você freqüenta: prepare-se para sua vida mudar de direção!!!  
Deus, é incrível como a senhora sabe até do que o Caboclo Ventania disse para mim!  
Nossos campos de atuação são diferentes, mas nós servimos a mesma senhora.  
A divina mãe Yansã.  
Exatamente.  
Puxa, seria errado pensar que, pelo fato de a senhora estar aqui conversando comigo sobre aborto, o nascimento do meu filho é importante?  
Sim, mas não somente por que será teu filho, mas principalmente pelo fato de que todo ser concebido merece ter a divina oportunidade de ser gestado e parido.
Entendo.  
Eu sou uma Cabocla Sete Ventos que atua no direcionamento de um dos aspectos do sentido da geração, então o trabalho que realizo em benefício do seu vindouro filho é o mesmo que faço pelo direcionamento no desenvolvimento de espíritos encarnados que se encontram na condição biológica fetal.  
Deus, o trabalho da senhora é lindo!  
Linda é a vida Bruno! Lindo é fazer o que for possível pela continuação da manifestação da vida!  
É verdade.  
Então faça Bruno! Quando você acordar pouco se lembrará deste “sonho”, mas terá material suficiente para não só permitir a manifestação da vida do seu filho, mas para direcioná-lo pelos caminhos do bem.  
Assim eu farei senhora Cabocla dos Sete Ventos, assim eu farei!!!
Bruno acordou do seu “sonho” com o som de pancadas na porta: era Júlia que vinha lhe trazer a boa nova.
Júlia entrou com passos inseguros e sentou-se no sofá da sala, próxima a Bruno. Ela já amava aquele ser em seu ventre que possuía apenas dois meses de vida com muita intensidade, mas também amava fortemente e de forma recíproca a Bruno e se este lhe pedisse que abortasse ela, mesmo sofrendo muito, não hesitaria em atender ao pedido do seu amado, entretanto ela não queria isto, ela desejava demais aquela criança.
Assim, pôs as mãos de Bruno entre as suas e já iria dar a noticia quando notou grossas e pesadas lágrimas deslizando pelo rosto dele de forma insistente. Sem entender o porquê daquela atitude Júlia perguntou-lhe:  
O que foi amor?  
Você veio me contar que está grávida não é?   
Sim, mas quem lhe disse?  
Eu já estava com uma intuição que foi confirmada pela senhora Cabocla dos Sete Ventos.  
E você está chorando por que não quer este filho, é isto?  
Não, eu estou chorando de alegria por que já estamos esperando esta criança há muito tempo e é tudo que consigo lembrar de um sonho muito maluco que acabei de ter.    
Sério?  
Sério. Na minha mente só tem uma mensagem bem imperativa, mas de forma direcionadora, que diz bem assim: “ Você será pai! Cuide bem do seu filho! Cuide dele!”
Atualmente Luciano, filho do casal, tem quatorze anos de idade, mora no Rio de Janeiro, é umbandista como seus pais e tem tudo para tornar-se um homem de bem.
Mais sobre este ocorrido eu não posso dizer tanto para não ferir a intimidade da família, quanto por que a Lei Divina não me permite.
E é só isto que esta Cabocla pode contar e contou não em nome da curiosidade ou da fofoca, mas em nome da vida.
Você que conseguiu aprender algum tipo de ensinamento com esta história não agradeça a mim e nem ao médium que inspirei para passar esta mensagem: agradeça somente a Deus!!!
Agradeça-O lutando com as armas da paz, do amor e da sabedoria pelo direito de preservação e manutenção de toda a forma de vida!!!
Que Tupã abençoe a todo vocês!!!!  


Sra. Cabocla dos Sete Ventos.







Obs: o nome das pessoas envolvidas nesta história foram trocados para que fossem preservadas suas identidades.


Mensagem recebida por Pedro Rangel