sexta-feira, 5 de junho de 2015

Pai Joaquim e o banho de ervas

Fábio tornara-se um adepto da Umbanda há três meses. Cambonava Pai Joaquim de Aruanda.
Quando a gira estava quase no seu término ele perguntou a entidade:
- Pai Joaquim, porque eu estou me coçando todo? Será que peguei alguma carga? Já tem quase vinte minutos que isto começou e só está aumentando de intensidade; se continuar não sei se consigo participar do ritual de encerramento da gira.
- Senta aqui na frente de Véio, zifio!!!
Pai Joaquim deu várias baforadas com seu cachimbo em direção ao cambone e, após, estalando os dedos, fez a limpeza energética necessária. Com o fim dos procedimentos disse-lhe:
- Zifio, nóis conversa mais pra frente, pois a gira já tá no finzinho, mas este nêgo só pede uma coisa a suncê: tome seu banho de descarrego antes de cada reunião!!!
Fábio voltou para casa surpreso em como a entidade descobrira que ele, de fato, não tomara o banho de descarrego. Ele achava tal procedimento não muito relevante, pois já havia participado de algumas reuniões sem tomá-lo e nada demais acontecera.
Os dias se passaram e foi numa noite de quarta-feira que, ao deitar-se e adormecer, vira seu duplo transportado para fora do corpo físico. Era a primeira vez que ele tinha consciência daquele acontecimento.
Um homem vestindo branco surgiu a sua direita e disse:
- Vamos filho?
- Não lembro de lhe conhecer, mas sinto que já o conheço. Vamos!
Volitaram até uma localidade do plano astral onde existiam alguns prédios.
Entraram no prédio central e caminharam até uma sala.
Fábio foi acomodado em uma cadeira e teve dois fios plugados em suas têmporas. Seu acompanhante massageou a região do terceiro olho e pediu que firmasse o olhar numa espécie de mini-tablado que havia em sua frente.
Aos poucos surgiu a imagem tridimensional do terreiro freqüentado por ele. Pouco tempo se passou e ele notou que observava o andamento da última gira que participara. Foi quando seu acompanhante disse a ele:
- Procure observar a si mesmo durante toda a gira, pois depois conversaremos!
Fábio observou que com o passar da gira seu perispírito passou a acumular larvas astrais. No final da reunião estava praticamente coberto destas criaturas.
As imagens cessaram depois dele assistir o passe magnético que recebera do Pai velho. Ficou impressionado como simples baforadas e estalar de dedos fizeram com que aqueles seres fossem desagregados e dissipados de junto dele.
Olhou para seu acompanhante e disse:
- Por que isto ocorreu comigo? No terreiro não tem proteção?
- O terreiro tem proteção meu irmão! Era você quem estava desguarnecido dela!
- Mas por quê?
- Antes, responda-me você: com que elemento as larvas astrais foram dissipadas de você?
- Com a manipulação da fumaça!
- A fumaça foi produzida com o que?
- Com o calor que aqueceu as folhas.
- Muito bem! O calor aqueceu as folhas e fez com que suas moléculas pudessem acelerar continuamente até que seus princípios vitais pudessem dela ser desprendidos e utilizados em seu favor.
- impressionante!!!
- O que você acha que acontece quando é feito um banho de descarrego?
- Acho que o princípio é parecido: as folhas entram em contato com a água quente, que desprendem sua energia.
- Então uma pessoa que toma banho de descarrego, na verdade está realizando uma profilaxia contra possíveis ataques de criaturas astrais perniciosas, não é verdade?
- É, digo sim senhor, é isto mesmo!!!
- Preciso dizer mais alguma coisa?
- A importância do banho de descarrego então é esta? Profilaxia?
- Também, mas a profilaxia foi a finalidade que me determinaram lhe explanar nesta noite.
- Então quer dizer que se eu tomar o banho isto não acontecerá mais?
- Exatamente!
- Puxa! O senhor me desculpe, viu!? Agora que entendi a importância vou tomar banho de ervas antes de todas as giras.
- A importância do banho você já sabia por participar das reuniões de estudo no terreiro em que freqüenta você só não conseguia acreditar e aceitar como um fato. Ficou sem tomar o banho em algumas giras anteriores e como nada de desagradável lhe ocorrera, você julgou o banho ineficaz. Precisou ver para crer! Espero que isto não se torne uma constante em sua caminhada espiritual, pois senão você vai arranjar muitas coisas para se coçar: coisas piores do que a própria sarna.
- Procurarei não esquecer desta lição em minha vida! Muito obrigado por tudo!!! 
- Luz e força em sua jornada espiritual que, nesta encarnação, está só começando.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Pai Sebastião



Nêgo véio lembra até hoje o primeiro dia que conversou com a zifia Carla.
De longe este nêgo já via que o semblante de zifia indicava tremenda tempestade interior.
A zifia chegou na frente de nêgo, pediu licença para sentar e disse:
- Pai Sebastião, a minha vida precisa mudar!
E mais zifia num conseguiu dizer por que começou a soluçar de choro. Então, nêgo pegou as mãos da zifia e disse:
- Se é para começar a mudar zifia, então na força de Deus-nosso-pai, vamos começar agora! Este nêgo pede simplesmente que suncê chore minha filha!!! Chega de prender estas lágrimas! Chega de prender esta dor! Se nóis dois vamos trabalhar com Jesus pra sua vida começar a mudar, então suncê tem que compartilhar sua dor.
Zifia Carla continuava num chororô sem fim e Véio viu sério problema no chacra cardíaco dela. Peguei a vela que tava no ponto, pedi a cambone pra acender meu pito e procurei dar um passe bem butado* na zifia.
Aos poucos os soluços foram parando, as lágrimas diminuíram e, quando finalmente cessaram, disse a ela:
- Com o poder de Zambi*, zifia, não existe tempestade que não cesse!
- É verdade vovô! Parece que tudo ficou mais leve, apesar do problema continuar.
- De qual problema suncê fala, zifia?
- Ah Pai Sebastião nos últimos anos parece que existe um complô de inimigos espirituais para atrapalhar toda minha vida!
- Não só a sua zifia, mas a de todos os zifios criados por Zambi-nosso-pai.
- Sério?
- Mas num tá escrito no livro sagrado que os adversários espirituais andam em derredor, rugindo como leão e procurando a quem possa tragar?
- Também num tá escrito que a luta não é contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra as hostes espirituais da maldade?
- É verdade vovô! Mas por que eles me perseguem?
- Zifia Carla, nêgo veio observa que suncê tem certo conhecimento sobre as coisas do espírito, certo?
- Sim senhor!
- Estes, que suncê diz serem seus inimigos, são adversários de outras eras, outras encarnações zifia.
- Mas o que fazer para me livrar deles?
- Também tá escrito no livro sagrado: “ faça sua parte que o céu te ajudará”.
- Como assim?
- Suncê num deve viver sua vida pautada pelo medo, mas pela fé em Deus!
- Mas eu tenho muita fé! Só que esta fé não está impedindo estes adversários de me atrapalharem a conseguir um emprego.
- Zifia, na verdade, é suncê que tá atrapalhando a si mesma.
- Eu? Mas o senhor não falou que estou sob atuação de adversários espirituais?
- Sim! Mas a pergunta é: Como eles chegaram até suncê? Qual porta suncê abriu pra que o leão pudesse entrar? Tá entendendo zífia?
- Agora sim!  Mas não saberia dizer qual foi a porta que abri! A única porta que está aberta há três meses em minha vida e que não consigo fechar é a porta do desemprego!
- Mas seus adversários não adentraram por esta porta! A porta pela qual eles entraram foi aberta bem antes dessa.
- Ah é?!???
- Zifia a mim tá sendo mostrado, pelos seus próprios mentores espirituais, que há sete meses suncê se frustrou com sua ex-chefe por não haver recebido certa promoção no emprego, não é verdade?
- Sim, mas o que isto teria a ver? Frustração é comum quando você está mais preparada para exercer uma função e a pessoa promovida para exercê-la não tem metade de sua qualificação.
- Zifia, num cai uma folha da árvore se num for da vontade de Deus! Suncê já parou pra pensar que não é possível conhecer os desígnios de Deus? Que aquela não era sua hora não por falta de qualificação, mas, pelo menos naquele momento, por falta de merecimento?
- É duro reconhecer tal possibilidade, mas acho que é isso mesmo! Então esta foi a porta que eu abri?
- Não.
- Não?
- Não zifia. Suncê num é zifia de andar com a crista baixa! Com o ocorrido suncê num ia ficar se lamentando e se auto-depreciando, muito pelo contrário; orgulhosa que suncê é, após o ocorrido suncê passou a querer demonstrar, de todas as formas, que sua chefe tinha promovido a pessoa errada.
- Passou a agir com altivez em relação aos colegas, começou a executar tarefas que estavam acima de seu cargo, até que quatro meses depois um grande negócio não foi fechado e suncê foi responsabilizada! Daí suncê foi demitida, num foi assim?
- Foi Pai Sebastião, foi assim mesmo! Concordo quando o senhor diz que sou orgulhosa. Passei a viver com muita raiva e foi aí que abri a porta não é?
- Não!
- Não?
- Não zifia! Aí foi quando suncê a deixou entreaberta!
- Sério? E quando foi que a abri?
- Por que suncê não contou ao esposo que tá desempregada?
- Por que é um direito meu! Estou ajudando em casa com o dinheiro do seguro! Não tem problema nenhum!
- Todo santo dia suncê sai de casa dizendo ao esposo que tá indo trabalhar enquanto, na verdade, tá procurando emprego.
- E qual o problema vovô? Não estou entendendo?
- Qual dificuldade suncê teria pra dizer ao esposo que tá desempregada? Ele é um mau esposo? Poderia maltratar suncê com algum tipo de violência?
- Não vovô, é muito pelo contrário!
- Suncês não juraram fidelidade um ao outro?
- Pensei que fosse coisa boba.
- Orgulho é coisa muito séria zifia! São três os pilares que mantém suncês em harmonia: religião, família e trabalho. A religião suncê num professa há algum tempo, o trabalho suncê perdeu há alguns meses e o relacionamento com seu esposo também não vai muito bem, logo zifia, suncê chegou aqui hoje em grande desarmonia interior.
- Então quer dizer que se contar ao Paulo sobre o desemprego, eu vou conseguir ser recolocada no mercado de trabalho?
- Zifia, acho que num devo ter conseguido explicar direito: o orgulho zifia é uma enfermidade da alma! Ele corrói as defesas psíquicas, atrai parasitas astrais que corroem a aura, alcançam os centros de força* fazendo suncês padecer no corpo físico e podendo até levar suncês ao desencarne.
- O silêncio de zifia com o marido não é a causa da enfermidade que provocou a abertura da porta, mas um sintoma dela, desta enfermidade tão perniciosa conhecida como orgulho.
- Então falar com ele não vai adiantar de nada?
- Vai atuar como porta de entrada para o tratamento da moléstia.
- E os adversários espirituais?
- Também são sintomas da doença.
- Existe tratamento para esta doença?
- Claro zifia Carla! Suncê veio ao mundo para isto!
- Ah é?
- Claro zifia! Foi sua conduta orgulhosa em vidas pregressas que atraíram tais adversários para sua vida.
- Seu tratamento zifia deve ser realizado com um santo remédio: o amor! O amor é um santo remédio e cobre uma multidão de pecados!
- E onde eu consigo deste remédio?
- Está dentro de você, só que praticamente inerte, é preciso movimentá-lo!
- E como faço isto?
- Amando a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo!
- Como assim?
- Reaproxime-se de Zambi-nosso-pai! Ele vai aquecer seu coração e fazê-la encontrar o amor Dele que habita o seu interior.
- Entendi.
- Também está na hora de retomar sua jornada na Umbanda, fazer a caridade, dar o pouco que se tem aos que tem menos ainda! Fazendo isto a porta tornará a se fechar e os adversários não terão como lhe alcançar.
- Entendi, mas e o emprego?
- Faça sua parte que o céu lhe ajudará!!!
- Tenho fé em Deus que sim!!! Vou fazer como o senhor pediu. Muito obrigada por tudo!!!
- Agradece a Nêgo não zifia, só a Zambi nosso pai!!!
Zifia Carla se foi e demorou um ano pra tornar a conversar com este Nêgo Véio. Estava freqüentando a Umbanda em um Terreiro bem mais próximo da casa dela, e isto já há um ano. Conseguira emprego para exercer função de mais responsabilidade do que aquela que queria antes. Apareceu grávida de sete meses pra conversar com este nêgo.
Disse que tinha vindo ali não para agradecer, já que este Nêgo tinha pedido pra ela agradecer só a Deus quando recebesse alguma benção, mas que tava ali pra dizer que o nome do filho dela seria Sebastião, para homenagear a este preto-velho.
Nêgo tentou de todas as formas tirar esta idéia da cabeça da zifia pedindo que ela colocasse o nome de Jesus no curumim*, a fim de homenagear ao nosso amado mestre; ou então com o nome de Marcos, Mateus ou algum evangelista, pois homenageando a eles aí sim, este Nêgo estaria se sentindo homenageado.
Mas aí a zifia declinou justificando que cada vez que olhasse para o curumim de nome Sebastião se lembraria do compromisso que fizera de ser uma pessoa mais humilde e se sentiria incentivada a continuar se esforçando a amar a Deus e ao próximo com mais ímpeto; enfim, disse que sempre se lembraria de cuidar em educar o curumim para ser um indivíduo mais humilde do que ela, talvez, pudesse ser um dia.
Este nêgo véio nunca deixa de se impressionar com a infinitude do amor de Deus. Uma zifia que reencarnara amiga do orgulho agora se esforçava ao máximo para manter estreitos laços com a companheira humildade e, mais do que isso, teria o compromisso firmado em apresentá-la ao seu curumim desde o seu primeiro sopro de vida!
Salve Zambi-Nosso-Pai!!!
Salve o perdão! Salve o amor! Salve a humildade!!!

*Butado = bom
*Zambi = Deus
*Centro de força = chacras
*Curumim = criança

terça-feira, 31 de março de 2015

Na gira de esquerda






Edu estava ansioso em participar de uma gira de esquerda. Seria sua primeira vez e ele estava aflito em pedir auxílio para suas questões.
Foi mostrada a ele a lista de quais entidades prestariam consultas naquela gira. Edu escolheu o nome que para ele mostrava mais força: Exu Tiriri.
Após certo tempo seu nome foi chamado e ele foi conversar com a entidade.
- Boa noite, cabra!
- Boa noite Sr. Exu Tiriri!!! Escolhi consultar com o senhor, por que senti muita força em seu nome.
- Você teve a sensação errada cabra!!! Exu é tudo igual, só muda a forma de atuação!
- É que seu nome me pareceu forte. Parece que tem poder.
- No nome de Deus é que reside todo poder!
- Estou com a sensação que o senhor não gosta de elogios!
- Nem de bajulação!
- Mas não o estou bajulando!
- E nem eu disse que estava! Apenas lhe esclareci em sua própria dedução!
- E por que você não gosta de elogio e nem de bajulação?
- Por que nenhum elogio ou bajulação é capaz de fazer com que alguém receba aquilo que não tenha merecimento para receber. Ou dar aquilo do que não pode oferecer.
- Não entendi!!!
- Não se preocupe, cabra! Faça seu pedido!
- Gostaria de subir de cargo no meu local de trabalho!
- Vejo que você gostaria de outra coisa.
- Outra coisa? E o que seria?
- Na sua linguagem?: “Calar a boca de seu pai e de sua irmã!”
Edu engoliu seco, mas disse:
- É isto mesmo o que eu quero. Eles precisam aprender a não me menosprezar! Fica ele adulando a ela e ela se achando melhor do que eu.
- Pelo que posso perceber você tem uma maneira distorcida de enxergar as coisas.
- Distorcida?
- É cabra! O que seu pai diz é que as atitudes de sua irmã são mais responsáveis que as suas.
- Mas não sou obrigado a ver as coisas como ele! Nós temos profissões diferentes, mas ela é sub-gerente tanto quanto eu! Só por que ela trabalha de carteira assinada e eu não o meu “velho” vive enchendo minha paciência. Só porque ela tem curso superior e eu terminei no ensino médio, ele também me aporrinha. Que saco!!!
- É cabra, somente quando você descobrir sua real força interior conseguirá sentir o amor a sua volta. Quando isto acontecer você vai querer sentar em minha frente só para dizer uma palavra: Obrigado! Mesmo que seja absolutamente desnecessário, uma vez que só o Divino criador é que é digno de toda gratidão!
- Já vi que não vou receber o que vim pedir, então, se você puder me dar licença, gostaria de ir embora.
- É o contrário, cabra! Você, por ter merecimento, receberá o que veio buscar!
- Puxa, que bom! Obrigado por me ajudar!
- Eu não vou lhe ajudar e nem prejudicar, pois sou Exu! Só vou executar aquilo que a Justiça divina me pede e ponto! Espero que faça bom proveito do que lhe disse, pois só assim poderá usufruir com sabedoria de tudo aquilo que receberá.
- Obrigado!
- Não me agradeça ainda! Tome, conserve isto no porta-luvas do seu carro!
- o que é isto?
- Uma semente conhecida como olho de boi. É para sua proteção!
- Muito obrigado!
Edu foi para a casa. O tempo passou e ele recebeu a promoção que esperava: tornara-se gerente. Passou a receber uma maior renumeração. Passou a andar com vários amigos e, como gostava de dizer, arranjou uma “deusa” para namorar. Passou a ingerir bebida alcoólica em muita quantidade e com mais freqüência que o habitual.
O tempo passou e em uma madrugada quando dirigia de volta para a casa, após passar a noite em uma boate, um carro surgiu a sua frente em uma curva bem fechada. Ele tentou desviar-se, mas como seguia em alta velocidade, um leve toque foi suficiente para jogá-lo ribanceira abaixo. O carro capotou diversas vezes e ninguém poderia dizer que, naquele acidente, alguém poderia haver sobrevivido.
Mas foi o que aconteceu com o Edu, contudo não sem deixar seqüelas, pois ele perdera o movimento das pernas e só conseguiria retomá-lo, talvez, com muita fisioterapia.
Foi demitido de seu emprego sem benefícios a que teria direito se tivesse a carteira assinada.
Ficaria sem ter como arcar com despesas para sua recuperação se não fosse o apoio financeiro do pai e da irmã, sendo esta, inclusive que realizou o tratamento fisioterápico, uma vez que tinha formação para tanto.
Seu dinheiro acabou, seus amigos sumiram e sua “deusa” desaparecera.
Edu nunca imaginara que poderia suportar tamanha falta de consideração, mas não se deixou abater. Com o apoio do pai e da irmã, e com o passar dos meses, Edu passou a recuperar lentamente o movimento dos membros inferiores.
Jamais pensou que pudesse receber tanto apoio e afeto de sua família. Refletiu bastante em sua vida e implorou o perdão a eles, que não tiveram nenhuma dificuldade em concedê-lo.
Mais alguns meses correram e Edu já conseguia andar quase que “ normalmente”. Resolveu, assim, buscar sua participação em nova gira de esquerda.
Voltou ao Terreiro e escolheu consultar-se novamente com Exu Tiriri.
Aguardou a sua vez e foi chamado para a consulta.
Diante do Exu ele recordou-se de tudo que vivera até ali e seu olhar mareou. Foi com o brilho de lágrimas em seus olhos que Edu disse a entidade:
- Não sei como, mas eu sei que você sabe tudo que aconteceu comigo nos últimos meses. Quando cheguei no hospital, após haver sido retirado das ferragens, os médicos disseram que tiveram muita dificuldade para tirar alguma coisa que eu segurava com toda a força em meu punho esquerdo: era a semente de olho de boi! Nem sei como ela foi parar comigo, por que ela estava dentro do porta-luvas.
- Hoje entendo o que você me disse quando estivemos juntos da última vez. Sei que meu pai me ama e que minha irmã me tem amor, mas talvez o mais importante de tudo isto é ter a consciência que hoje em dia eu só consigo sentir isto por parte deles, por haver aprendido a amar a mim mesmo.
- Foi meu desamor, meu sentimento de inferioridade, que quase tirou a minha vida.
Edu já não conseguia mais impedir que as lágrimas gotejassem de seus olhos e nem que sua emoção lhe embargasse a voz, na realidade seu pranto já era incontido, mas reunindo todo fôlego que ainda lhe restava, foi que ele disse a entidade:
- Sei que da outra vez o senhor disse que não era necessário, mas eu só vim aqui esta noite para dizer uma coisa:
- Muito obrigado!!!!
  

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Amando com Preta-véia

Saravá zifia! Preta-véia aqui chegou não para julgar, mas para entender a sua dor, aquilo que lhe faz chorar.
Seu relacionamento acabou e suncê diz que tá incompleta, que sua vida acabou e que a alegria é incerta.
Suncê sofre, chora, se culpa e não entende o que pode ter feito de errado.
Diz que daria tudo que possui só para tê-lo de novo ao seu lado.
Não chore tanto assim zifia, na vida tudo é aprendizado!
Suncê deve aprender não só com o que dá certo, mas principalmente com o que dá errado.
Aprender não para errar novamente, mas para não errar de novo.
Buscar entender os padrões repetitivos que tem te levado ao malogro.
Renovar-se vibratoriamente, transcender a si mesmo, transmutar.
Serenar, refletir e entender a origem de suas lágrimas.
Mergulhar fundo em si mesma para que esta fonte possa secar.
Suncê não foi feita pela metade! Zambi lhe fez completa!
Suncê não precisa de um companheiro para se sentir inteira, basta amar verdadeira e profundamente a si mesma.
Descobrir-se enquanto criatura, mulher e uma força da natureza,
auxiliará suncê a entender o amor e toda a sua beleza.
O verdadeiro amor não está fora, mas dentro de suncê,
busque tão somente encontrá-lo e descobrirás um novo sentido em viver.
Cada um só dá daquilo que tem e sempre é tempo de refletir e descobrir o que se tem pra dar,
Por que suncês só conseguirão receber daquilo que conseguirem doar.
Tire do amor o véu da ilusão para suncê conseguir ser feliz na realidade,
pois só quem ama a si mesma consegue amar de verdade.
Fique na paz de Zambi zifia e sempre, sempre com o amor de Jesus!
Que mamãe Oxum lhe abençoe e agregue ao seu amor muita luz!!!!

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O valor da ação



Reginaldo é conceituado advogado trabalhista que cambonava o caboclo Araribóia há quase um ano, em um terreiro de Umbanda do nosso Brasil. Era casado e pai de um adolescente com quem vinha se relacionando de maneira bem conflituosa. Na realidade o relacionamento dos dois estava quase insustentável.
A gira seguia naturalmente com a entidade prestando consultas a toda assistência que a ela acorria.
Reginaldo estava bastante ansioso para ter a oportunidade de conversar com a entidade, quando as consultas com a assistência terminassem.
Percebeu que não adiantaria ficar olhando para o relógio ou torcer que as consultas pudessem ser aceleradas. Já que estava em uma casa de Deus para a prática da caridade, então agiria neste sentido da melhor forma possível.
Procurou desligar-se de todos os problemas exteriores e firmar o pensamento nos trabalhos que aconteciam. Entoava os pontos cantados com muita firmeza e mantinha o coração em prece em todas as atividades. A cada oportunidade que tinha não se esquecia de pedir a Deus  que o abençoasse em seus pedidos, firmando especialmente no relacionamento com seu filho.
O tempo passou de forma que ele nem pôde perceber. O Sr. Araribóia já havia consultado toda a assistência e não haveria como consultar muitos médiuns, pois a gira já estava quase encerrando.
Um casal de médiuns da casa solicitou que ele, enquanto cambone da entidade, perguntasse ao Caboclo se poderia atendê-los. Ele, de bom grado, assim o fez, mesmo sentindo necessidade urgente de uma conversa fraterna com o Sr. Araribóia.
A consulta foi feita e a gira já estava para terminar quando a entidade disse a ele:
- Caboclo tinha até necessidade de trocar um dedinho de prosa com você, mas como não foi preciso, vamos ao encerramento!
- Antes, contudo Araribóia fala com você que muitas vezes não é falando e nem perguntando, mas sim dando que se recebe!!!
Sete dias depois Reginaldo participava de outra gira. Já quase em seu fim o caboclo Araribóia disse a ele:
- Sua vez de sentar no toco filho!
Reginaldo assim o fez e disse a entidade:
- Sr. Araribóia, teria como saber por que você me disse àquelas palavras ao término da última reunião?
- Filho na última gira foi quando percebi você mais concentrado nas atividades do terreiro. Como disse a você, naquela oportunidade, eu tinha até uma coisinha ou outra para lhe dizer, mas sua vibração e firmeza estavam tão formosas que não foi preciso.
- Entendi.
- Como o filho sabe, Caboclo não é de falar muito; então seria só um dedinho de prosa mesmo.
- Entendi.
- Afinal filho, quem deve falar e perguntar muito, se quiser crescer na profissão, são vocês advogados! Onde já se viu um advogado ganhar uma causa sem falar nem perguntar nada a quem de direito, não é meu filho?
- É verdade Sr. Araribóia!
- Caboclo está falando isto com certo conhecimento de causa por que nós, entidades, também fazemos uso constante de advogados!
- Advogados? Vocês?
- Sim! Porque o espanto?
- Mas qual a necessidade de advogados?
- Deus é o grande juiz! Só ele pode dar aquilo que vocês nos pedem! Somos apenas facilitadores!
- Então, quais são os advogados?
- Os divinos orixás que a tudo sustentam na criação divina.
- Como assim?
- Um filho chega até Caboclo com problemas espirituais provocados por fechamento de caminhos, devido a existência de magia negra. Ogum é quem abre os caminhos e, neste caso, seria o advogado deste Caboclo. Com a autorização de Deus Caboclo fornecerá subsídios para que a atuação de Ogum se faça na vida deste filho.
- Impressionante!
- Mas vamos deixar estes assuntos sobre direito e advocacia espiritual para outro momento, afinal você perguntou a este caboclo o que ele queria falar com você no fim da última gira, mas que não houve necessidade, não é ?
- Isto.
- Caboclo viu que você estava passando por momentos de dificuldade no relacionamento com seu filho, não é isto?
- É verdade.
- Mas àquele casal de médiuns da casa, seus irmãos de fé, necessitavam de um pouco mais de urgência no atendimento para o caso que apresentavam.
- É verdade, magia negra é mesmo o fim da picada, Sr. Araribóia.
- Caboclo iria pedir a você que cedesse a vez no atendimento para àquele casal, mas graças a Deus não foi necessário, pois você sentiu tal necessidade com a generosidade do seu coração.
- Muito obrigado, Sr. Caboclo, por estas palavras que até me emocionam, mas acho que a generosidade foi toda sua quando me disse estas palavras.
- Você observou filho Reginaldo, que mesmo sem se consultar para pedir auxílio no relacionamento com seu filho, como houve uma sensível melhora neste aspecto?
- Era o que eu mais queria Sr. Araribóia!
- E você nem precisou de consulta, apenas cantar os pontos com firmeza, auxiliar nos trabalhos que aconteciam, realizar preces e, por último, mas não menos importante, exercer a caridade e dar a sua vez para que pessoas mais necessitadas pudessem ser consultadas por Caboclo; e foi  nesta hora filho que Deus o abraçou e deu o que lhe era merecido, por que como dizem vocês encarnados: “ Uma ação vale mais do que mil palavras”!


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

UMA LIÇÃO DE VIDA




cachoeira arco-íris Vetor


Certa noite após fazer minhas orações, e enquanto me deitava para dormir, senti um amigo espiritual solicitando que fizesse preces de agradecimento a Deus firmando o pensamento em uma cachoeira.
Quando dei por mim já estava em frente a uma queda d’água ainda mais bela da que eu imaginara. Estava dentro do rio e em frente dela, que era muito linda e bastante caudalosa.
O tempo foi passando e eu percebi que não conseguia sair de onde estava. Olhei ao redor para verificar se via alguém, mas sem sucesso.
Procurei pensar como tudo começara e tive uma idéia: só havia parado ali porque firmara meu pensamento como pedira o amigo espiritual, assim se continuasse a firmar, talvez fosse possível sair daquela situação.
Fechei os olhos e firmei meu pensamento por tempo indefinido, mas quando descerrei os olhos minhas pernas ainda se encontravam imóveis.
Comecei a ficar preocupado não devido à imobilidade, pois confio nos amigos espirituais servos de Deus, mas por não estar entendendo àquela situação.
Procurei recordar as lições que os amigos espirituais sempre procuram me passar a respeito de tudo que se refere às cachoeiras e assim, lembrei que as águas deste sítio de forças da natureza têm propriedades altamente renovadoras, que renovam tudo aquilo que já não tem mais razão de ser.
Procurei refletir sobre esta minha recordação e entendi que, se ali estava, era por que precisava de renovação em um ou mais aspectos de minha vida. Sem conseguir buscar explicação racional, o que me angustiou muito, senti vontade irrefreável de por as duas mãos nas pedras sob a queda d’água e assim o fiz.
Senti meu corpo astral vibrar com uma energia muito forte, as batidas do meu coração aceleraram e lágrimas incessantes e inexplicáveis passaram a escorrer de meus olhos.
Passei a sentir o meu corpo a pulsar uma energia multicolorida como se eu fosse apenas luz. Intui que deveria permanecer de olhos fechados e em prece e não procurei questionar.
Então senti que meu corpo permanecera na cachoeira do jeito que estava, mas também senti que já não estava mais lá, estava muito, muito leve. Olhei para minha esquerda e vi um arco-íris como a indicar uma direção e procurei segui-la.
Fui parar de frente a outra cachoeira onde várias crianças brincavam silenciosamente. Foi interessante porque lá eu conseguia movimentar-me livremente.
Uma alegria enorme, incomensurável inundou todo o meu ser e, de tão feliz que estava, também me deu vontade de brincar igual uma criança, mas antes que assim eu fizesse uma delas chamou-me.
Aparentava ter uns três anos de idade. Tinha o cabelo todo encaracolado de um castanho-claro, a pele branca e as bochechas eram, por falta de um melhor vocabulário, muito proeminentes, fofas e rosadas.
Não sei como explicar, mas sentia como se estivesse diante de um saudoso amigo e devo confessar que, se no plano físico ele existisse, eu tudo faria para adotá-lo.
- Obrigado tio!!!
Foi o que ela disse a mim.
- Obrigado pelo que?
- Pelo afeto tio! Pelo carinho!
- Você pode escutar meus pensamentos?
- Só aquilo que for importante!
­- Importante para que?
- Pra ajudar você titio!
-Você? Ajudar a mim? Como assim? Você não é uma criança?
- Tio, se hoje sou criança, então um dia eu serei adulto, não é?
- Isto!
- E se hoje você é adulto, um dia tornará a ser criança, não é?
- Isto! Suas observações são muito sábias, você nem parece uma criança!
- Mas você sim tio!
- Eu o que?
- Meu tio tá parecendo uma criança, e daquelas bem birrentas!
- Acho que começo a entender: você é uma criança espiritual!
- Puxa! Demorou, hein tio!?!?!?
Ri bastante daquela observação e senti uma alegria quase incontida. Nisto, algumas lágrimas que julguei inoportunas desprenderam-se dos meus olhos. Procurei disfarçá-las e perguntei:
- De que teimosia você está falando?
- Por quê? São tantas assim meu tio? Credo!!!!
Não tive como conter as gargalhadas outra vez! E observei que novas lágrimas deslizaram, mas só desta vez notei que um peso saía de dentro de mim enquanto escorriam. Tentei disfarçá-las novamente e a escutei dizer:
- Eu tô brincando com você meu tio! Eu to falando só da teimosia que meu tio tem de não querer deixar a vida correr.
- Como assim?
- Tio, o que passou é passado. O que passou só tem utilidade se servir para uma coisa: renovar seu presente de esperanças num futuro melhor!!! Se não for assim, meu tio, o passado só vai paralisar você!!! Como já tem feito!!!
- A vida meu tio é um presente! As experiências, difíceis ou não, são para fazer você mais forte moral, consciencial e emocionalmente. Deixe as águas da renovação banharem você meu tio, pois é sua melhor chance de desempacar e seguir a vida com mais liberdade. Liberte-se meu tio! Deixe o passado para trás!
- Da mesma forma que um dia uma criança vira adulto e este se torna uma criança, um dia seus pais renascerão e você desencarnará.
- Mas é que muitas vezes ainda dói!
- A dor provoca sofrimento, mas quando se busca a força em Papai-do-céu e a força interior que cada um possui, a dor passa e torna-se esperança, mas se isto não ocorre o meu tio entra num ciclo vicioso em que o sofrimento provoca a dor que vai causar mais sofrimento.
- Como assim?
- Meu tio o que acontece se você sofrer um corte profundo na pele?
- Eu vou sangrar!
- Vai ficar sangrando pra sempre!
- Não se eu buscar socorro!
- Meu tio busca o socorro e o que acontece depois?
- Um profissional vai suturar o corte.
- Com o tempo não vai parar de sangrar? Não vai parar de doer?
- Sim
 - Mas a cicatriz permanece, não é assim, meu tio?
- Isto. Exatamente!
- E se você ficar cutucando a ferida antes dela sarar?
- Ai ela não vai sarar nunca!
- Então tio! O corte provoca dor na pele e esta dor leva ao sofrimento, mas se você não ficar cutucando a pereba o sofrimento passa e a dor vai embora. Se você cutucar a ferida o sofrimento vai alimentar sua dor, que lhe causará mais sofrimento. Nada vai sarar, entende tio???
- Estou entendo sim, tudo está ficando mais claro!
- A vida do meu tio tá paralisada no passado, é preciso renovação tio! Renovação verdadeira, sem aprisionar-se ao passado. Vem tio, deixe a gente ajudar você!!! Tudo na sua vida será renovado, menos a falta de cabelos na sua careca, isto aí só na próxima encarnação!!
Não pude mais conter meu riso ao escutar a última observação! Gargalhava sem parar e nem me faltava o fôlego! Lágrimas abundantes deslizavam pelo meu rosto enquanto gargalhava, mas desta vez não tive a mínima vontade de contê-las. Enquanto tudo isto acontecia àquelas crianças, que já formavam um círculo ao meu redor, batiam palmas e cantavam louvores em uma língua desconhecida para mim.
A criança que conversara comigo acenou pedindo que eu fechasse os meus olhos e eu assim o fiz.
Os louvores e palmas continuaram. Por dentro eu explodia de felicidade e gratidão a Deus por toda àquela oportunidade. Os risos que vinham das lágrimas ( ou lágrimas que vinham dos risos ) continuaram insofreáveis, mas observei que àquele canto tinha o poder de provocar nova disposição em mim, novos pensamentos, sentimentos, possibilidades.
A criança com quem dialogara tocou em direção ao chacra cardíaco e olhou-me como quem dissesse:
- Pratique o que conversamos!
E eu, ainda gargalhando com lágrimas incontidas nos olhos, respondi-lhe com todo respeito que aprendi a lhe dedicar:
- Muito obrigado!
Ele gesticulou pedindo que eu tornasse a fechar os olhos.
Com olhos fechados senti novamente toda aquela vibração em meu corpo e voltei numa velocidade inimaginável para àquela cachoeira em que, anteriormente, não conseguia mover as pernas. Era como se minha consciência tivesse retomado meu corpo espiritual.
As lágrimas cessaram de jorrar, mas a alegria incontida ainda permanecia imutável dentro de mim.
Recebi mentalmente a orientação daquela criança espiritual que em outro plano se encontrava:
- Tio esta alegria é um presente que Papai-do-céu mandou que entregássemos a você. Foi nosso dever entregá-la e é seu dever conservá-la! Vá com Deus titio!!!
Quando abri os olhos pude observar que já havia sido transportado para o corpo físico! Olhei para o lado e vi minha esposa que dormia! A cama era a mesma, o colchão era o mesmo e até a coberta era a mesma, quanto a mim, que naquele momento não lembrava nada que vivenciara no plano astral, acordei “inexplicavelmente” com um enorme sentimento de gratidão a Deus,  sentia  e pensava como se fosse uma nova pessoa.
Somente hoje pude recordar de todo o ocorrido e, com um sorriso de alegria nos lábios e lágrimas de gratidão nos olhos, é que assim digo:
Muito obrigado meu Deus!!! Muito obrigado pela Cachoeira divina, pelo Arco-íris sagrado, pela falange das Crianças espirituais e por minha vida!!!
Muito obrigado pela Umbanda sagrada!

Saravá!!!!!!

















































































quinta-feira, 30 de maio de 2013

SEMENTES DA UMBANDA



Em uma cidade interiorana localizada na região sudeste do Brasil e bastante freqüentada por turistas que praticam a pesca vivia, já há dois anos, um sujeito de 42 anos e cujo nome era Antônio.

Apesar do seu modo de vida pacato Antônio não era bem visto pela comunidade local. Nada era falado abertamente, mas Antônio sabia que isto acontecia pelo fato dele e da esposa professarem a fé umbandista.

Toda quarta-feira a noite, das 20:00 as 22:30 horas, o Caboclo Urubatão da Guia incorporava em seu médium e realizava os trabalhos pertinentes a cada reunião.

Apesar dos convites de Antônio e de sua esposa Neusa nenhum morador jamais participara das reuniões que aconteciam em cômodo amplo e localizado nos fundos da residência.

Antônio recebera uma promoção em seu trabalho e mudaria daquela cidade com sua companheira em quinze dias.

O tempo correu célere e no dia anterior a mudança Antônio, ao despertar e após a refeição matinal, preparou juntamente à esposa o cômodo para manifestação espiritual que ocorreria e da qual fora alertado durante o sono físico.

Após toda a ritualística eis que a entidade incorporou em Antônio dizendo a Neusa, sua cambone:

− Quando vocês se mudaram para cá nós dissemos que iríamos plantar sementes!

− É verdade Sr. Urubatão mas, com todo o respeito, acho que esta “terra” não deve ser muito fértil.

− Engano seu filha! Foram dois anos de arado, mas hoje é o dia da semeadura!

− Hoje? Como assim? Nós vamos embora amanhã!

− Vocês vão, mas as sementes, na força de deus, aqui permanecerão e germinarão.

− Não entendo Sr. Urubatão! Assim como não entendo porque hoje o senhor incorporou tão cedo no Antônio.

− O bom semeador é aquele que respeita o tempo da semente! O tempo filha é agora!

− O senhor poderia explicar?

− Filha prepare minhas folhas e meu terço! Temos que preparar tudo porque logo os convidados vão chegar!

− Convidados? Ninguém nunca veio aqui!

− Mas as portas sempre estiveram abertas, certo?

− Sim, certamente!

− Então hoje alguém virá!

− Quem senhor Urubatão?

− A família do curumim Manoela!

− A famíla da Manu? Como? Eles estão há mais de mês em São Paulo em busca de cuidados médicos para aquela menina que mal tem dois anos de idade.

− Os doutor de jaleco branco não acharam nada filha e nenhum médico jamais poderia achar por que a doença da criança nada mais é do que fruto de feitiçaria.

− Creio em deus pai!

− Eu também creio filha, vamos trabalhar?

E durante muito tempo ela cambonou a entidade na realização de todos os procedimentos necessários para a prática da caridade.

A família de Manoela era vista como a mais rica daquela localidade; eram pessoas simples e corretas, mas que devido à condição social ainda se deixavam iludir pelo poder do dinheiro. Chegavam de viagem, desesperançados e desesperados, pois sentiam o fôlego de vida de sua primogênita se esvair a cada dia.

A tarde estava prestes a iniciar quando a mãe de Manoela, vencendo todo o preconceito presente no local, adentrou o terreiro. Ela estava transtornada quando falou a entidade:

− Disse ao meu esposo que traria minha filha até aqui, mas ele deu de ombros e disse que aqui não poria os pés.Não sei bem que tipo de trabalho vocês fazem por aqui, mas a saúde de minha filha vem em primeiro lugar, por favor ajude-a por que eu já não agüento mais....

− Calma filha! Primeiro dê um abraço neste Caboclo e ponha o seu pranto pra fora. Entendo o seu sofrer, mas a paz deve reinar em seu coração para que o poder de Deus possa afugentar as nuvens de desespero e fazer brilhar o sol da esperança.

Abraçada a entidade ela disse:

− Estivemos em São Paulo, com os melhores médicos, e eles desenganaram nossa garotinha, não conseguiram descobrir o que ela tem! Temos a nossa fé e por meio dela também tentamos a cura de nossa filha, mas também sem sucesso! Os médicos disseram que ela não tem mais do que dois meses de vida.

Todos choravam copiosamente, incluindo a cambone da entidade.

O Caboclo Urubatão clamou por fé e oração a todos os presentes e disse a mãezinha da criança:

− Filha percebo que você está um pouquinho mais calma, mas antes que eu possa realizar qualquer procedimento eu devo lhe dizer que aqui é uma casa de oração que realiza ações em favor do próximo sem cobrar coisa alguma em troca. Somos uma casa de Umbanda, sou falangeiro de Deus, da Justiça, do amor e da verdade: sou o Caboclo Urubatão da Guia. Trabalhamos respeitando a lei do livre arbítrio e por isto devo esclarecer que só poderemos tratar de seu curumim se você estiver certa disto, entende?

− Entendo sim senhor! Este local vibra a paz e sinto que muito deste sentimento é irradiado por você. Que seja feita a vontade de Deus!!!

A entidade esboçou um leve sorriso de emoção nos lábios quando escutou esta última frase e disse a ela:

− Então filha, por caridade, entregue-me a criança!

Após a realização de todos os procedimentos necessários a entidade colocou a criança deitada no chão em local onde estavam forradas várias folhas de mamona.

Assim que fora disposta no local a criança adormeceu.

A genitora contou que a filha mal conseguia se alimentar, pois regurgitava a maior parte dos alimentos que ingeria independente de sua consistência.

Contou ainda muitos outros fatos pertinentes ao caso e receberam a orientação necessária da entidade amiga.

O Caboclo Urubatão evocou a Deus e realizou a purificação de energias perniciosas que provocavam a enfermidade na criança, além de outros procedimentos necessários para sua convalescença.

Por volta das 15:00horas ela despertou pedindo biscoitos a mãe. Manoela parecia outra criança, pois sua pele voltara à coloração normal e ela possuía outro ânimo.

A entidade disse a mãe:

− Seu curumim está curado pelo poder de Deus! Agora é só você iniciar o tratamento com as ervas que passamos para ela.

− O que ela tinha?

− Não se preocupe! Preocupe-se apenas em ter uma vida mais harmoniosa com todos ao seu redor! Classe social, raça e dinheiro não tornam ninguém melhor que o outro, pois tudo que é matéria se iguala na hora da Grande travessia!

− Grande travessia?

− Sim! Aquilo que vocês chamam de morte!

− Entendo! Não tenho nem como lhe agradecer!

− E nem precisa! Só agradeça a Deus! Somente Ele merece toda a honra!

A família foi embora, mas não a entidade. Neusa estava preocupada, pois Antônio se alimentara pela última vez as 09:00 horas da manhã. Ela externou sua preocupação a entidade que disse-lhe:

− Não se preocupe filha Neusa, pois o cavalinho está bem! Para a segurança dele nós só subiremos após pitar o último charuto!

− Mas nós vamos nos mudar amanhã! O senhor trabalhou o dia inteiro! Os charutos acabaram!

− Charuto de Caboclo está na cachoeira filha! Está na cachoeira!

Somente por volta das 17:00 horas a entidade disse a sua cambone;

− Vamos filha! Este caboclo precisa buscar o pito dele!

− Mas Senhor Urubatão a cachoeira fica a dez minutos de distância daqui e isto andando a pé!

− Qual a dificuldade filha?

− A cidade inteira vai ver o senhor, o senhor vai chamar a atenção!

− Está tudo nos planos de Deus filha, vamos?

− Sim senhor!

Ainda no início da caminhada alguns vizinhos aproximaram-se de Neusa e perguntaram:

− Aonde vocês vão?

Procurando calar o espanto com o inusitado da pergunta, ela respondeu:

− Até a cachoeira!

− Mas, por quê?

− O Senhor Urubatão precisa do charuto dele e disse que estará lá.

− Na cachoeira!?!

− Isto!

A incredulidade os fez perguntar:

− Podemos ir com vocês?

Neusa olhou para a entidade que consentiu.

Outros moradores juntaram-se àqueles e quando todos chegaram ao local contava-se por volta de quarenta pessoas. A cachoeira encontrava-se vazia.

A entidade chamou Neusa e disse-lhe:

− Filha, este Caboclo vai trabalhar nas matas e perto das 18:00 horas volta para pegar o pito dele.

A entidade embrenhou-se na mata e os moradores incrédulos aguardavam seu retorno.

Exatamente por volta das 18:00 horas o caboclo Urubatão deu um forte brado que ecoou nas matas e saiu do local, mas ninguém ali tinha charuto algum.

A entidade deu mais alguns passos para fora da mata e eis que no local surgiram três turistas que iriam praticar a pesca noturna. Aproximaram-se curiosos com a aglomeração de pessoas presentes. Um deles era umbandista e achegou-se da entidade. Esta disse-lhe;

− Este Caboclo estava aguardando você filho!

O turista, sem conseguir explicar o porquê, mas emocionado, tirou um dos charutos do bolso da jaqueta e ofertou a entidade sem que esta nada precisasse lhe dizer.

A entidade o reverenciou e foi pitar o seu último charuto.

Havia muitos tipos de pessoas que estavam ali naquele momento: os céticos disseram que o ocorrido foi fruto da coincidência; os preconceituosos que era obra do demônio, mas muitos e muitos mansos de coração sentiram naquele fim de tarde a brotarem em seu intimo a inigualável sensação de paz de uma semente que Deus, por meio do caboclo Urubatão da Guia, plantara em seus corações: a simpatia pela simples, mágica e linda religião de Umbanda sagrada.

Hoje, quarenta e cinco anos após o ocorrido, Antônio e Neusa já se encontram desencarnados.

Manoela é sacerdotisa do único terreiro de Umbanda no local. A corrente mediúnica é composta por dezesseis médiuns, mas todos são filhos de fé, incluindo seus dois filhos e esposo. A caridade é o fruto mais doce e suculento que nasceu da semente plantada pelo caboclo Urubatão da Guia ao respeitar o tempo certo da semeadura: o tempo de Deus.