segunda-feira, 2 de agosto de 2010

AMARRAÇÃO???



Josué jamais pisara em um terreiro de umbanda, mas o seu sofrimento estava sendo sentido de uma maneira tão imensa e perturbadora que o desejo de alcançar um alívio para sua dor tornou-se muito maior do que o temor pelo desconhecido.
E é assim que podemos percebê-lo, em uma noite de sexta-feira, a estacionar o seu automóvel em frente daquele pronto-socorro espiritual de nome: CASA DE UMBANDA NOSSA SENHORA DA LUZ.
Josué entrou no terreiro, fez o seu cadastro, pegou sua ficha de atendimento e sentou-se no banco da assistência aguardando sua vez de ser atendido.
Ele ficava a olhar àquelas entidades com semblantes firmes e charuto na mão a realizarem suas tarefas sem nada entender de todo aquele estalar de dedos; ainda assim, a medida que o tempo foi passando ele começou a sentir um que de familiaridade com tudo aquilo que não sabia explicar.
Uma cambone chamou o seu nome: seria a sua vez de ser assistido.
Ao colocar os seus pés na área espiritual daquele terreiro uma emoção incontida tomou conta de todo o ser de Josué de tal forma que quando ele se sentou na frente da entidade esta só lhe disse:
— Dá cá um abraço nessa véia zifio!!! Faz tempo que Nêga tá te esperando!!!
Josué, sem nada entender, mas sentindo todo o seu intimo em comunhão com aquela entidade, abraçou-a emocionadamente. Lágrimas incontidas e fartas desciam da sua face: era como se estivesse matando saudades de uma amiga de longa data.
A entidade aguardou que ele serenasse as emoções e só então lhe disse:
— Suncê veio aqui fazer amarração não é zifio?
— É sim vovó, seria possível?
— Claro que sim zifio! Nêga precisa mesmo fazer uma demonstração de amarração que faça suncê realmente feliz.
— Obrigado vovó!!! Eu preciso mesmo que a minha ex-noiva seja amarrada a mim por que eu tenho que casar-me com ela de qualquer forma!
— Zifio, este é um tipo de amarração que só traz tristezas e aborrecimentos para suncês.
— Não entendi vovó!
— Suncê quer mesmo entender zifio?
— Sim senhora!
— Então feche os olhos e concentre-se por que já está na hora de suncê ver algumas coisas importantes para o seu crescimento interior.
Ele fechou os olhos e a entidade colocou a destra na região correspondente ao terceiro olho. Depois de alguns instantes, e após remover a destra, a entidade perguntou a Josué:
— E então zifio o que suncê viu?
— Eu vi três seres com olhar duro e energia altamente libidinosa.
— Suncê ainda continua a ver eles?
— Continuo, só não sei onde estão.
— Não se preocupe com isto!!! Apenas continue a observá-los e diz pra Nêga se em instantes suncê não ficará terrivelmente excitado.
— Deus do céu que terrível!!!
— São pensamentos poderosíssimos que evocam sensual e fortemente a lembrança de sua ex-noiva, não é verdade zifio?
— É verdade!!! Mas como é possível? Como a senhora poderia adivinhar?
— Zifio, não se preocupe por que neste instante estes três seres acabaram de ser aprisionados pelos manos Exus.
— Exus?
— Sim, são espíritos que trabalham por Deus nas trevas.
— Mas por que os Exus os aprisionaram?
— Para que deixassem de amarrar a sua vida.
— Amarrar a minha vida?
— É zifio! Ou não é verdade que sua ex-noiva terminou o relacionamento com suncê a três semanas?
— É verdade.
— Também não é verdade que desde quando isto aconteceu suncê não consegue ter mais paz de tanto que pensa nela?
— Deus, é verdade!!!
— Também não é verdade que foi toda esta ausência de paz que fez com que suncê viesse até aqui pedir pra Nêga amarrar esta filha a suncê, a fim de suncê ter paz?
— É verdade! Mas penso que toda esta lembrança que eu tenho dela é derivada do amor que devoto a ela.
— Amor???
— É !
— Hahahahahhahahahahaha!!!
— Por que a senhora ri?
— Isto num é amor zifio!
— O que é então?
— Efeito de um forte feitiço que a sua ex-noiva preparou para suncê há três anos, quando suncês fizeram três meses de namoro.
— Ah é?
— Sim zifio!
— Mas se ela chegou a fazer isto é por que ela tem amor por mim!
— Amor???
— É!
— Hahahahahhahahahahaha!!!
— Por que a senhora continua a sorrir vovó?
— O amor que esta filha tinha era por seu dinheiro, seus bens, seu carro do ano!
— Mas se isto é assim, por que então ela resolveu me deixar?
— Por que a filha arranjou alguém com muito mais dinheiro e bens materiais que suncê!
— Nossa, a senhora está sendo tão dura!
— Não zifio!!! Duro é o coração de suncês neste mundo de terra que vive a querer procurar felicidade na matéria perecível!
— Mas minha ex-noiva não é matéria perecível, é um ser humano e eu a amo!
— Quanto suncê a ama zifio?
— Eu a amo tanto que seria incapaz de viver sem ela.
— Então suncê não a ama, suncê foi viciado a ela!!!
— Como?
— Amar é querer bem ao próximo zifio!!! Amar é não fazer ao próximo aquilo que não gostaríamos que ele nos fizesse!!! Amar é torcer incondicionalmente pela felicidade do outro, mesmo que ele não esteja conosco!!! Suncê está é viciado zifio!!! Suncê tá amarrado e seu chacra genésico absurdamente desequilibrado!
— Vovó, mas eu não consigo ter paz! Não consigo parar de pensar nela!
— Isto por que suncê tá magiado zifio!!!
— Vovó eu gostaria tanto de acreditar nisso que a senhora me fala, pois ai seria muito mais fácil para eu esquecê-la! A senhora poderia me dar alguma prova de que o que me diz é verdade?
— Zifio, Nêga vai lhe dar esta prova não por que suncê quer ou pelo querer de Nêga, mas por determinação da Lei Divina.
— Sim senhora.
— A prova é a seguinte: quando suncês fizeram três meses de namoro seus pais ofereceram um almoço para ela lá na casa de suncês, certo?
— É incrível como a senhora sabe destas coisas!
— No dia posterior a este almoço suncê deu por falta de uma das suas peças intimas, não é verdade?
— Meu Deus, eu me lembro, é verdade!!!
— Nêga precisa dizer mais alguma coisa?
— Não senhora!
— Suncê quer ser desamarrado ou quer continuar sofrendo?
— Mas a senhora disse que iria fazer uma amarração para mim e eu pensei....
— ....Um passo de cada vez, né zifio?
— A senhora tem razão!
— Suncê quer ser desamarrado?
— Sim senhora!
— Então feche os seus olhos!
Minutos depois a entidade disse a Josué:
— Pronto zifio, pela graça de Deus suncê tá desamarrado no amor!
— Puxa, obrigado!
— Como é que suncê tá se sentindo?
— Meu pensamento parece que está mais livre, um peso saiu das minhas costas e parece até mentira mas....
—....suncê num tá nem pensado mais em sua ex-noiva com todo aquele ardor terrível, não é?
— É verdade e isto é incrível por que não tem nem três minutos que a senhora me “desamarrou”.
— Zifio,nas forças de Deus, a cada dia suncê há de se sentir cada vez mais livre.
— Se Deus quiser!
— Zifio?
— Diga vovó!
— É que todo este pesar que suncê estava sentindo foi causado por uma amarração que aquela zifia lhe fez.
— É verdade!
— Suncê viu o quanto que suncê sofreu?
— Vi sim senhora!
— E então, mesmo assim, suncê vai querer fazer uma amarração pra ela?
— Não senhora, pensando melhor, eu quero mais é ser feliz!!!
— Nêga fica feliz por suncê zifio!
— Por que vovó?
— Por que se suncê quisesse fazer uma amarração, Nêga não ia poder!
— Ah é? Por quê?
— Por que este templo religioso em que suncê ta na noite de hoje é uma casa de Umbanda.
— Como?
— Umbanda é religião zifio, então num tem como nóis, que suncês chamam de entidades, fazer o mal a quem quer que seja!!!
— Mas assim que eu me sentei de frente a senhora, você disse que iria fazer uma amarração para mim, não estou entendendo!
— Hahahahahhahahahaha!!!
A entidade amiga sorria a valer enquanto piscava o olho para sua cambone e foi quando Josué perguntou:
— Por que a senhora está sorrindo vovó?
— Por que suncê num entendeu Nêga zifio!
— Entendi sim vovó! A senhora disse que faria uma amarração!
— Não zifio, é que Nêga fala tudo embolado! Nêga disse que faria para suncê uma demonstração de “amar é ação”.
— “Amar é ação”???
— É zifio, quem ama deve agir para demonstrar este amor; senão como a outra pessoa vai saber que é amada?
— Mas como na noite de hoje a senhora demonstrou que “amar é ação”?
— Ora zifio, quando nóis trabalhou com suncê para limpar magia negra, não foi demonstração de como colocar o amor ensinado pelo cristo em ação?
— Sim senhora!
— Quando suncê disse que não gostaria de fazer amarração para sua ex-noiva também não colocou em prática este mesmo amor?
— Meu Deus, é verdade!!!
— Inclusive, quando suncê disse que não queria fazer uma amarração para sua ex-noiva um daqueles três espíritos que estavam aprisionados pelos Exus ficou tão surpreso e emocionado pela força do seu perdão após todo este tempo de sofrimento que o protetor espiritual que assiste a ele encontrou condições de libertá-lo e levá-lo para um local espiritualmente mais elevado.
— Meu Deus que lindo!!! Chego a emocionar-me em saber disto!!!
— Lindo é Deus zifio!!! Linda é a Umbanda!!!
— É realmente tão linda que, se a senhora consentir, eu gostaria imensamente de ser um membro desta religião e deste terreiro.
— Continue a freqüentar esta casa de caridade sentando na assistência e se familiarizando mais com a nossa forma de trabalho para que, em breve, suncê esteja de branco aqui dentro junto com nóis, certo zifio?
— Certo vovó, muito obrigado por tudo!!!
— Agradece a Nêga não zifio, pois ela é só mais uma preta-velha quimbandeira que trabalha para que a luz da Umbanda seja cada vez mais reluzente aos olhos e corações daqueles que se permitirem serem tocados pelos seus Sete Raios de Luz . Agradeça tão somente a Deus Nosso Pai!!!
— Sim senhora!
— Fique na força e na luz de Zambi Nosso Pai!!!
— Sempre com “amar é ação”, não é vovó?
— Sempre zifio!!!
— Então que assim seja!!!



Mensagem de uma Vovó Kimbandeira recebida por Pedro Rangel

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Os desígnios do amor



O que é amor?
Suncê já amou alguma vez?
Como começa o amor?
Estas três perguntas já se passaram na cabeça de muitos zifios com outras roupagens ou outras palavras.
O que é Deus?
Deus suncê não consegue enxergar, não consegue tocar, suncê acredita Nele?
Acontece que suncê pode sentir Deus, pois Ele pode te ver, te tocar e sempre vai te amar por que Deus é o amor mais puro que existe em todo o universo, é a força suprema de todo o mundo, é aquele que está sempre presente até quando suncê não acredita Nele, pois Deus é sabedoria....
Mas suncê deve de estar se perguntando por que não se falou de amor até agora e nem quais são os seus desígnios só que suncê está se esquecendo de uma coisa: se tudo aquilo que existe hoje nós podemos tocar, sentir e ver é por que Deus, de tão supremo que é, deu uma parte da sua essência para criar tudo o que existe, muito mais ofertou Jesus com todos os seus ensinamentos e exemplos para todos aqueles que precisavam se “redimir” dos seus pecados.
Suncê já entendeu o que é amor?
Então, se não entendeu, este preto-velho pode explicar: amor tem quatro letras e Deus tem quatro letras, então Deus é igual amor e amor é igual a Deus.
Agora suncê entendeu?
Se entendeu pode começar a praticar, se não entendeu eleve o seu pensamento a Deus para que possa sentir o que é o amor puro.
Que Deus abençoe todos aqueles que precisam e ainda não conseguiram sentir a magnificência do Seu amor, pois Zambi-Nosso-Pai em toda Sua bondade, sabedoria e amor nunca se esqueceu de nenhum dos seus filhos.
Desde o inicio de todos os tempos Zambi sempre se fez presente em todas as coisas criadas neste mundo de terra: do menor cisco de areia a árvore mais frondosa, do menor animal ao maior, da menor pedra até a maior montanha.
O amor está presente em todos os lugares a demonstrar a beleza da vida em toda sua plenitude.
Suncê já parou pra observar o nascimento de uma borboleta? As várias fases que a lagarta passa dentro do casulo até a abertura deste com a força da frágil asa da borboleta recém-nascida? A natureza é sábia, não é?
E se antes da metamorfose da lagarta em borboleta nós furássemos o casulo para tentar ajudá-la a sair de dentro dele o que aconteceria? Ela sairia com mais facilidade não é? Essa facilidade seria benéfica para a borboleta? Não zifio, esta facilidade não é benéfica para a borboleta!!! Pois a borboleta quando nasce precisa de asas fortes para voar e quando impomos a ela a facilidade do corte no seu casulo pensando que estamos ajudando, na verdade estamos atrapalhando, pois para ter asas fortes a borboleta precisa fazer força para sair de dentro do seu casulo, se não houver o esforço por parte da borboleta as asas dela serão fracas e não agüentarão o peso do próprio corpo impedindo-a de voar e fazendo com que morra de fome, pois ela precisa das asas fortes para poder voar até os lugares mais altos afim de encontrar o seu alimento.
Suncê já parou pra pensar que é igual a uma lagarta em metamorfose para virar borboleta?
A vida de suncês tem várias fases desde o nascimento ao desencarne e é necessário que em cada fase suncês vão quebrando os casulos das dificuldades e problemas que aparecerem na vida de suncês com resignação, sabedoria e humildade por que são estas dificuldades que fortalecerão as asas do espírito de suncês a voar para a próxima fase. E é assim, de fase em fase, que o espírito de suncês vai adquirindo força moral e sabedoria necessárias para fortalecer o par de asas que leva o espírito a angelitude: a asa do amor e a asa da razão.
Zifio,mas talvez até agora suncê deve de estar se perguntando: e o amor?
Suncê ainda não entendeu o que é o amor? Amor é vida, amor é plenitude.
O amor e seus desígnios, zifio, é tudo aquilo que suncê sentado na frente de um preto-velho pode sentir.
Qual é o amor maior? Não é o amor do pai pelo seu filho? Quem é o seu pai zifio?
Se suncê num sabe este preto-velho pede licença para dizer que é Zambi, O pai supremo que tem amor incondicional por todos os seus filhos.
Talvez, ainda assim, suncê até agora deve estar se perguntando: mas quais são os desígnios do amor?
Se suncê ainda não entendeu, então nêgo-véio também pede licença pra responder: é sua vida e tudo aquilo que está presente nela zifio.
Então zifio, agora que suncê sabe o que são os desígnios do amor é só fazer um bom proveito da oportunidade sagrada que é a sua existência.






Mensagem de um espírito amigo.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Oração como instrumento de cura – Parte Final

 Mensagem de um preto-velho canalizada por Pedro Rangel



Marineusa caminhava na direção do preto-velho com um sorriso que a fazia parecer a pessoa mais feliz de todo o mundo.
Ela fizera questão de chegar com bastante antecedência ao terreiro naquela noite com o objetivo de ser a primeira consulente com a entidade em questão: é que o tratamento a ela ministrado pelo preto-velho se encerraria ali, naquela noite e Marineusa estava bastante ansiosa para contar os ótimos resultados obtidos.
Após todo o ritual de abertura da gira chegar ao fim os atendimentos iriam começar e Marineusa foi chamada como a primeira assistência do referido preto-velho.
Ela adentrou a parte religiosa do terreiro e caminhou sorridente até a frente da entidade que, também sorrindo, disse-lhe:
— Pode sentar no toco zifia!
— Obrigado vovô!
— Como é bom sorrir, não é zifia?
— Demais!!!
— Mais bom do que sorrir, só quando a pessoa sorri entendendo verdadeiramente o por que do seu sorriso.
— É verdade!
— Graças a Zambi suncê descobriu zifia, e é por isto que este Nêgo está sorrindo junto com suncê, mas deixa esta prosa pra depois e conta pra Nêgo como foi o seu “conversê” com a filha Marineide.
— Sabe vovô, foi inacreditável!!! Eu roguei a Deus que me mostrasse a melhor forma de ter esta conversa com minha irmã e foi uma benção como tudo se resolveu.
Mostrando uma convincente surpresa, como se não fosse ele mesmo que houvesse atuado junto com outras entidades na resolução do problema de sua assistida pelos bastidores, foi que o pai-velho disse:
— Verdade zifia? Então sacia esta curiosidade de Nêgo e conta como foi porque Nêgo adora compartilhar alegrias.
— Foi assim vovô: certo dia, após minhas orações, senti um desejo incompreendido e muito forte de conversar com o esposo da Marineide sobre as dificuldades com minha mãe.
— Que bom zifia!
— Daí então eu fui até ele e perguntei se ele não poderia auxiliar a mamãe. Olha , falando assim parece até que foi fácil eu tomar esta decisão de procurá-lo, mas só que foi dureza vovô!!!
— Num tinha nem como deixar de ser, não é minha filha?
— É vovô por que a Marineide tem cinco anos de casada e sempre pintou o Paulo para mim como se ele fosse avarento, egoísta e mesquinho.
— Só que o que aparentava ser tinta-óleo pintada num quadro, na verdade era só tinta-guache que se desfez como mágica quando entrou em contato com a água cristalina que vem do poder de Deus: água que lava as mentiras, inverdades e incertezas.
— Pois é vovô e daí foi que o Paulo me disse que ele nunca, desde quando eles se casaram, deixou de passar uma boa quantia em dinheiro para que a Marineide me repassasse afim de que eu tivesse mais recursos para cuidar da mamãe, só que a Marineide não me repassava nada.
— E o que aconteceu depois zifia?
— Eu tive medo, mas enchi-me de fé e contei ao Paulo que os recursos financeiros que ele destinava para mamãe lamentavelmente não estavam chegando até ela.
— Suncê agiu certo zifia!
— O Paulo, mesmo sem ter motivos, desculpou-se comigo, pegou o numero da minha conta no banco e disse que mensalmente depositará a quantia citada anteriormente nesta conta.
— E depois zifia?
— Depois eu agradeci e já estava pronta para ir embora quando algo mais forte do que eu determinou que eu pedisse ao Paulo que não se desentendesse com a Marineide por conta do meu descuido.
— Verdade zifia?
— Verdade vovô! Algo mais forte do que eu me fez assumir a culpa pelo erro da Marineide e daí foi que eu disse a ele que houvera sido negligente até demais com toda a situação.
— E o que o zifio fez?
— O Paulo apenas deu um sorriso de muita sinceridade e, como ele não me pareceu uma pessoa desequilibrada eu acreditei na sinceridade daquele sorriso, despedi-me e fui embora.
— Suncê fez o mais correto zifia Marineusa e “coincidentemente”, três dias após este encontro, as suas dores na região estomacal desapareceram, não é?
— Foi sim vovô e este também é o motivo desta minha felicidade, mas vovô?
— Pode falar zifia!
— É que eu tenho uma curiosidade; na verdade é um quebra-cabeça em que eu não consigo encaixar as peças.
— Então mostra estas peças pra Nêgo zifia por que daí quem sabe nóis dois juntos num acaba conseguindo encaixar estas peças?
— Vovô, se eu não tinha nada no meu estômago por que eu sentia dores neste órgão?
— Zifia, primeiramente, este Nêgo Véio só tem a dizer que a dor não é ruim não! A dor, na medida em que é um sinal de alerta, também não é boa: a dor é ótima!
— Credo!!! Por que vovô?
— Por que é sinal de que algum órgão do corpo não está bem. Suncê já imaginou zifia, se suncês fossem incapazes de sentir dor, como suncês fariam para serem avisados não por exames médicos, mas pelos seus próprios órgãos de que eles não estão bem?
— É vovô, faz todo sentido.
— Antes de um órgão ser o porta-voz do desequilíbrio que um ser humano está causando a ele, suncês escutam esta advertência de muitos outros mensageiros de Zambi-Nosso-Pai: anjos da guarda, protetores, entre outros.
— É verdade vovô.
— Daí, quando se esgotam todos os recursos de advertência , o próprio órgão fala com suncês através da dor.
— Vovô, só uma coisa: o senhor falou do órgão como porta-voz da dor em sentido figurado, não foi?
— Filha, o corpo humano é formado por milhões de seres-vivos que são as células, que por sua vez agrupam-se formando tecidos e que formam os órgãos, que se agrupam formando os sistemas que, por sua vez, podem ser didaticamente agrupados para formarem a complexidade orgânica que é o ser humano.
— Ainda não entendi.
— O estômago, por exemplo: quando ele dói é por que está sendo porta-voz das células estomacais, da mucosa gástrica, do suco gástrico, da cárdia, do piloro; enfim, de tudo que é pertinente a este órgão.
— Nossa, que análise incrível de fisiologia!
— Então zifia, quando Nêgo Véio falou com suncê que o órgão é porta-voz da dor foi no sentido real: ele é o porta-voz das células e dos tecidos.
— É verdade vovô.
— Nêgo Véio está falando estas palavras com suncê por que sabe que suncê faz “estudadô” para poder auxiliar aos médicos, não é isso?
— É. Estou no meu último ano do curso de Técnica em Enfermagem.
— Então, suncê devido a estes estudos consegue entender estes termos médicos que Nêgo Véio está falando.
— Entendo sim senhor. Só que o senhor está falando de problemas nos órgãos físicos, o que não era a causa da minha dor como o senhor mesmo me disse anteriormente.
— E suncê acha que o órgão perispiritual tem a fisiologia diferente do órgão carnal?
— Órgão perispiritual?
— Todo espírito encarnado tem uma “cópia espiritual” do corpo físico denominada perispirito.
— Então o meu estômago perispiritual estava com problemas,é isso?
— Exatamente zifia Marineusa. Suncê alimentou ele muito mal, engolindo inadvertidamente todo o descaso que sua irmã lhe ofertava nos cuidados com sua mãezinha.
— Deus do céu!
— Os seus protetores pediram que suncê não aceitasse mais este tipo de alimento tão ácido e prejudicial a saúde dos seus órgãos, mas só que suncê não os escutava.
— É verdade!
— E eis que apareceu a bendita e sagrada dor como porta-voz do seu estômago perispiritual.
— Meu Deus vovô, agora eu compreendi tudo!
— Entendeu mesmo zifia?
— Olha vovô depois das nossas conversas anteriores eu comecei a pensar que se eu estava com dores na região do estômago é por que eu estava com algum problema.
— Isto mesmo zifia.
— Pensei também que se os exames médicos não detectaram nenhum distúrbio no estômago era porque minha alimentação não estava incorreta.
— Raciocínio correto zifia.
— Daí eu conclui que se o problema não estava no plano físico, só poderia estar no espiritual e que eu mesmo o teria provocado.
— Muito boa lógica zifia Marineusa.
— Daí, apartir desta conclusão que tirei, eu comecei a fazer preces pedindo a Deus que me ajudasse a resolver este problema causado por mim, ainda que eu não soubesse qual seria este.
— E foi daí, num é zifia, que suncê descobriu a oração com santo remédio.
— Desculpe, mas como é vovô?
— Oração como santo remédio não é só pedir cura a Deus, mas também pedir a Ele que auxilie suncês a encontrar a razão destas dores terem sido geradas em suncês.
— Deus, que coisa mais linda!!!
— Suncê descobriu a oração como santo remédio e só assim, com o medicamento mais adequado para o tratamento da sua moléstia prescrito por Zambi, foi que suncê pôde tornar-se ótima enfermeira de si mesma,de sua própria dor.
— É verdade vovô!
— E toda esta benção só pôde ser recebida a partir de quando zifia?
— Quando?
— É zifia!
— Não me recordo vovô!
— Então Nêgo ajuda suncê a lembrar: desde quando suncê entendeu que a onisciência, onipresença e onipotência de Zambi não eximia, não exime e jamais eximirá suncê de abrir o seu espírito, o seu coração e a sua consciência para Ele no momento da prece.
— Estou entendendo.
— Suncê agindo assim libertou o seu espírito de pensamentos formatados pelos julgamentos de valor.
— Como assim?
— Suncê desde criança se permitiu ser menosprezada por sua irmã: se achava menos inteligente, menos bonita e menos capaz.
— É verdade.
— Suncê cresceu fisicamente, tornou-se adulta.
— É verdade.
— Mas o seu sentimento em relação a sua irmã continuou o mesmo: inferiorizado.
— É verdade.
— Reconhecer a onipotência, a onisciência e a onipresença de Deus é uma desculpa muito utilizada pelos seres humanos para que não busquem desenvolver a prática das orações enquanto santo remédio, por que se Ele é Todo-Poderoso, pra que rezar?
— É verdade.
— Mas na verdade filha, cada um destes zifios que assim procedem tem o espírito preso na formatação dos julgamentos de valor.
— Entendo.
— No seu caso era o seu sentimento de inferioridade em relação a sua irmã, como se só ela merecesse ser feliz e suncê não, como se Zambi só quisesse pra suncê as dores.
— Meu Deus é verdade! Era assim que eu raciocinava mesmo!!!
— Muitos zifios neste mundo de terra não sabem o quanto seriam abençoados se realizassem a oração como santo remédio: doenças seriam curadas, sofrimentos seriam sanados, lágrimas seriam enxugadas e consciências seriam esclarecidas.
— É verdade vovô!
— Zifia, Nêgo está vendo que suncê não tem mais nada a dizer.
— É verdade vovô.
— Mas antes de liberar suncê Nêgo pode pedir um favor?
— Claro vovô!!! Com certeza!!!
— Zifia, toda vez que uma pessoa que estiver com problemas chegar até suncê para pedir ajuda, suncê pode falar pra esta pessoa sobre os benefícios de se buscar a oração enquanto santo remédio e da importância da busca desta descoberta?
— Com certeza vovô!
— Suncê fez a oração enquanto remédio e a luz do sol banhou o seu espírito, refletindo neste sorriso lindo que está no seu rosto.
Os olhos de Marineusa marejaram de agradecimento a Deus, mas a entidade prosseguiu:
— Nunca permita que nenhuma situação, pessoa ou suncê mesma possa retirar esta luz do seu espírito e este sorriso dos seus lábios!!! Vá na força e na luz de Zambi-Nosso-Pai!!!
— Que assim seja!!!



Fim

sábado, 3 de abril de 2010

Oração como instrumento de cura – 2º parte

Mensagem de um preto-velho canalizada por Pedro Rangel




Marineusa escutou a cambone chamar o seu nome e levantou-se feliz do banco da assistência daquele terreiro tomando a direção onde o Pai-velho prestava suas consultas.
Fazia uma semana que acontecera a última consulta e ela estava ansiosa para contar-lhe as novidades.
Sentou-se frente ao preto-velho e por ele foi saudada da seguinte maneira:
— Salve Zambi-Nosso-Pai, minha filha!
— Salve vovô!
— E como é que vai suncê?
— Eu tomei o chá e o sumo que o senhor me prescreveu.
— Que bom minha filha! E as orações suncê têm feito?
— Com certeza vovô! Penso que, de alguma forma, as orações amenizaram um pouco a minha dor no estômago por que antes doía até quando eu respirava mais profundamente e agora já estou conseguindo respirar com maior naturalidade.
— Que bom não é minha filha?
— É sim vovô! Eu estou rezando para Deus com muito mais sinceridade depois da última conversa que tive com o senhor.
— Sinceridade zifia?
— É vovô, por que pouco adianta fazer preces a Deus querendo nos enganar a nós mesmos a respeito de quem verdadeiramente somos. Então eu passei a fazer assim em minhas orações: coloco-me diante do Pai imperfeita como sou, mas com a atitude de quem busca a perfeição.
— Foi mesmo zifia?
— Foi vovô! Daí eu me entregava a Deus em minhas preces: orava como se Ele estivesse em minha frente e entregava-O todo o meu sofrer.
— Muito formoso o que suncê fez zifia, mas como nóis conversou na gira passada: cada ser humano é enfermeiro no tratamento de sua própria dor.
— Como assim vovô?
— Zambi é grande médico filha e prescreve medicamentos para os seus filhos mediante o merecimento de cada um, mas acontece que são suncês que devem cuidar de tomar o medicamento prescrito na posologia divina se quiserem encontrar lenitivo para os seus sofrimentos.
— Acho que entendi em parte o que o senhor disse.
— Zifia, como vai a sua irmã?
— Minha irmã? O senhor me desculpe, mas o que ela tem a ver com esta minha enigmática dor estomacal?
— Esta semana suncê fez preces e o Criador a dotou de forças para tomar certa atitude, não foi assim minha filha?
— Isto até que foi, mas o que é que minha dor física tem a ver com conflitos emocionais relacionados à minha irmã?
— A tua dor não está no plano físico filha, ela apenas é sentida neste referido plano.
— Não?
— Não, se não os exames médicos feitos por você acusariam alguma disfunção gástrica, não é verdade?
— Meu Deus!!! É verdade!!!!
A entidade sorriu discretamente para sua consulente e esta continuou:
— Mas então o que eu devo fazer para melhorar vovô?
— Parar de fazer o que suncê tem feito há anos.
— Mas o que é vovô?
— Uma má alimentação.
— Má alimentação? Mas minha alimentação é nutritivamente balanceada, eu pratico atividades físicas e o senhor também me disse que o meu problema não está no plano físico, então eu não consigo entender.
— Má alimentação emocional, minha filha!
— Emocional?
— Zifia este Nêgo Véio consegue ver que já faz quase cinco anos que suncê cuida de sua mãe acamada, não é assim?
— Sim ,mas minha mãe não me provoca problemas emocionais e...
— ... Zifia?
— Sim vovô?
— Este Nêgo pode continuar a nossa prosa?
— Pode sim vovô, desculpe-me!
— Não há o que desculpar zifia, pois este Nêgo sabe do amor incondicional que suncê sente por sua mãe. Este Nêgo está falando é da sua irmã!
— A Marineide?
— Sim filha, sua aura chega a mudar de cor quando suncê fala nela.
Marineusa desandou a chorar na frente da entidade que, em respeito a este sincero pranto, baixou a cabeça e começou a estalar os dedos em torno da vela acesa firmada em seu ponto enquanto aguardava a serenidade chegar novamente no coração de sua consulente.
Não levou muito tempo, pois alguns minutos após a entidade disse a Marineusa:
— Este Nêgo precisa ser sincero com suncê minha filha: sua irmã ainda é um espírito muito arraigado na materialidade.
— Infelizmente é verdade vovô!
— Há quanto tempo suncê vem engolindo os desaforos que ela lhe oferta como se fosse um apetitoso prato de um jantar faustoso?
— Ela casou-se por dinheiro e vive na mansão dela...
— ...Suncê desculpe, mas Nêgo não está falando disso, pois estas foram opções que ela desejou seguir na atual existência, não cabe a este Nêgo e nem a suncê julgá-la.
— Entendo.
— Nêgo Véio está falando é do fato desta sua irmã permitir que suncê cuide sozinha da sua mãe sem lhe ofertar nenhum tipo de auxilio: emocional ou material.
— É verdade vovô!
— Este “prato” ofertado por sua irmã é saboroso?
— Não vovô: é indigesto!
— Pois então pare de se alimentar dele.
— Mas como é que eu vou pedir apoio a ela se ela só costuma pensar nela mesma?
— Suncê não sabe, mas Zambi é onisciente, não é minha filha?
— Meu Deus, é verdade!!!
— Onde a mão do homem não alcança só Deus pode tocar!
— Vovô, então quer dizer que agindo deste jeito que o senhor me fala esta minha dor acabará?
— Só Zambi é onisciente, não é minha filha?
— É verdade!
— Suncê, esta semana todinha que fez preces, rogou ao Divino Criador que lhe fornecesse o medicamento que sanasse as suas dores, não foi?
— Foi sim, vovô!
— E, após realizar estas preces, sentia uma vontade muito forte de resolver este problema com sua irmã; isto também não é verdade?
— Também é, sim senhor!
— Só que, por estar tão concentrada em sua dor gástrica, suncê não pôde relacionar este desejo de resolver o problema familiar como uma resposta de Deus a sua oração: Deus é o médico dos médicos, agora cabe a suncê cuidar de fazer o uso correto do medicamento prescrito por Ele, cabe a suncê ser boa enfermeira!
— Farei de tudo para ser esta enfermeira, vovô!
— Nêgo fica feliz de ouvir isto zifia!
— Continuarei tomando o sumo, o chá e fazendo as minhas preces e na próxima gira, se Deus quiser, sentarei na frente do senhor já curada destas dores.
— Então este Nêgo fica aguardando suncê na semana que vem, já em relação ao que suncê acabou de dizer Nêgo só tem a falar uma coisa.
— O que vovô?
— Que assim seja!!!






Continua...

domingo, 21 de março de 2010

Oração como instrumento de cura
Mensagem de um preto-velho canalizada por Pedro Rangel




Marineusa sentou-se diante do preto-velho esperançosa em receber um lenitivo para as suas dores.
O Pai-velho, por sua vez, estava cabisbaixo a estalar os dedos enquanto fitava uma vela firmada em seu ponto riscado e pronunciava certas palavras ininteligíveis para a linguagem e fonética humana.
Apenas uns poucos minutos depois foi que a entidade ergueu a cabeça e disse a sua consulente:
— Nêgo Véio pede desculpa por ter feito suncê esperar um bocadinho, mas é que ele tava tratando do seu próprio caso.
— Verdade? Meu Deus, que bom, pois já não agüento mais estas dores!
— Como é o nome seu minha filha?
— Marineusa.
— Pois então filha Marineusa, os seus próprios mentores espirituais acabaram de comentar com este Nêgo que o seu problema não é tão difícil assim de ser resolvido.
— Fico feliz em ouvir isto vovô, pois eu já fiz todos os exames possíveis para ver se algum médico descobria o porquê destas dores estomacais tão lancinantes, mas em todos os exames realizados os médicos não observaram nenhuma anomalia no estômago, como pode ser isto?
— Filha, Nêgo vai passar para suncê um tratamento de duas semanas com o sumo de saião e boldo tomado em jejum.
— Pode deixar que eu vou seguir o tratamento direitinho.
— Suncê também deve tomar três copos pequenos de chá de agrião por dia durante este mesmo período.
— E estas ervas vão me curar vovô?
— Vão ajudar filha, pois o remédio principal para o seu tratamento é outro.
— Verdade? E o senhor poderia me dizer que outro remédio seria este?
— Oração!
— Hein! Eu ouvi direito vovô?
— Suncê ouviu Nêgo Véio dizer “oração”?
— Isto.
— Então suncê escutou direito filha Marineusa.
— Mas quem ouve o senhor falar assim pode até pensar que eu não sou uma pessoa de fé.
— Engano seu filha! Nêgo não está aqui fazendo julgamento de valor! Nêgo está prescrevendo a suncê o remédio da oração como um santo remédio, suncê já tomou deste remédio para aliviar estas suas dores?
— ???
— Nêgo Véio tenta explicar melhor: suncê já tentou se beneficiar da oração enquanto um santo remédio para o seu espírito?
— Mas eu faço preces todos os dias!
— Suncê tem feito preces a Deus simplesmente pedindo que ele a cure de suas dores?
— Com certeza e com muita dedicação!
— Então, deste jeito suncê só demonstra que ainda não descobriu a oração enquanto um santo remédio.
— Por que vovô?
— Filha Deus é o maior médico de todos, mas até mesmo Ele não pode prescindir de uma leal enfermeira que possa aplicar a medicação ministrada por ele.
— Enfermeira?
— Sim filha! Enfermeira esta que, no seu caso, é suncê mesma!
— Vovô, está difícil entender o que o senhor quer dizer!
— Abra o seu coração e deixe o amor de Deus adentrá-lo minha filha, pois cada espírito gerado pelo Divino Criador é o agente causador, o paciente e o enfermeiro de sua própria dor.
— Ainda não consegui compreender por que do jeito que o senhor está falando parece até que só existe uma forma de se fazer preces a Deus!
— Filha, formas existem várias e é importante que assim seja o sentimento é que deve ser um só.
— Vovô Deus é onisciente! Sabe tudo sobre todos e, portanto sobre mim!
— Suncê chegou justamente no ponto que este Nêgo estava esperando.
— Verdade?
— Certamente! Filha, suncê acha que só por que Zambi é onisciente torna-se desnecessário suncê fazer uma explicação minuciosa, carinhosa e racional sobre tudo aquilo que suncê está rogando a Ele em uma oração?
— Carinho eu tenho e até que procuro utilizá-lo com razão em minhas preces, mas não entendi a ênfase na necessidade de uma explicação minuciosa sobre o que é pedido em uma oração a Deus, sendo que Ele, além de onisciente, é onipotente e onipresente.
— Filha, por caridade, responda para Nêgo: se suncê desejar aproveitar a benevolência dos raios solares para bronzear o corpo qual seria o local mais adequado? Seria dentro dos cômodos de uma residência onde até mesmo são refletidos parte dos raios solares ou no lado externo desta casa?
— Certamente que seria do lado de fora da casa!
— Pois então minha filha: fazer uma prece a Deus com todo o carinho do seu coração e sobre o crivo da razão é a base de uma boa comunicação em toda oração direcionada ao Criador, mas ainda é banhar-se com os raios do sol dentro de casa.
— Como assim?
— Zambi está em tudo e em todas as coisas, inclusive dentro de suncê, não é minha filha?
— Exato.
— Então filha, é justamente esta essência divina dentro de suncê que está necessitada de receber os raios de sol: o seu espírito.
— Acho que começo a entender.
— Só que para ele receber as bênçãos destes raios suncê precisa permitir que ele saia de dentro de casa.
— Casa? O senhor está falando do corpo físico?
— Não filha!
— Ah vovô, acho que complicou tudo de novo!
— Esta casa que Nêgo Véio está falando é a casa dos pensamentos formatados no meio humano onde existem os cômodos dos julgamentos de valor.
— Julgamentos de valor?
— Sim filha! Quantas e quantas vezes suncês deixam de pedir algo a Zambi em uma oração por considerar este algo como muito grande ou imerecido para suncês?
— É verdade!
— A prece ideal filha é aquela realizada sem o julgamento de valor. Só Deus é juiz e, portanto, só Ele pode julgar com isenção.
— Teria como o senhor explicar como isto se aplica ao meu problema estomacal?
— Filha isto Nêgo inté poderia fazer, mas tal ação por parte de Nêgo retiraria de suncê a oportunidade de desenvolver os seus níveis de sabedoria.
— Como assim vovô?
— Filha, por caridade, Nêgo pede que suncê faça assim: como este Nêgo disse antes, nós faremos um tratamento de duas semanas com suncê e, antes que este prazo se encerre, suncê ainda vai conversar com este Nêgo por mais duas giras, então Nêgo pede que suncê tome o chá e o sumo receitados e que continue a fazer suas rogativas a Zambi só que com um diferencial.
— Qual?
— Em suas orações comece a pedir ao Divino Criador que lhe mostre, da forma que for a mais adequada para o seu crescimento espiritual, onde estão os julgamentos de valor que fazem com que seu espírito não consiga receber os raios de sol, qual seja, a cura para o seu problema de saúde.
— Eu farei isto vovô!
— Faça isto e venha na próxima gira contar pra Nêgo as observações decorrentes das ações que peço, encarecidamente, que suncê pratique, tudo bem?
— Sim senhor!
— Então este Nêgo vai liberar suncê por hoje: Vá na força e na luz de Zambi-Nosso-Pai.
E Marineusa respondeu:
— Que assim seja!


Continua.....

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Simples charuto de caboclo

Ligia segurava o charuto do caboclo que estava a cambonar enquanto a entidade em questão participava dos trabalhos em uma roda de descarrego.

Terminada a tarefa o caboclo dirigiu-se em direção a sua cambone e pediu o charuto de volta agradecendo-a por haver segurado o seu instrumento de trabalho, mas Ligia, não se contendo de sadia curiosidade, perguntou a entidade:
— Senhor caboclo?
— Pois não fia?
— O senhor poderia esclarecer-me uma dúvida?
— Pode fazer pergunta fia!
— O que eu gostaria de saber é o seguinte: por que o senhor sempre me agradece a cada vez que eu entrego o charuto que estou segurando de volta para as suas mãos?
— Suncê quer saber fia?
— Se for possível, gostaria sim.
— Fia, antes de caboclo responder, observe a atuação da nossa linha de trabalho nesta próxima roda de descarrego, sim?
— Sim senhor!
Após trabalhar com todas as pessoas que estavam naquela roda de descarrego a entidade estendeu sua destra a fim de que sua cambone segurasse o seu charuto enquanto ele e as demais entidades que participavam dos trabalhos na roda pudessem finalizar o trabalho.
Ao término daquela roda de descarga a entidade, então, tornou junto à Ligia dizendo:
— Entrega o pito de volta para Caboclo fia!
Ligia devolveu o charuto à entidade que, então, disse-lhe:
— Este caboclo agradece por toda sua atenção.
Ligia sorriu meio que ainda sem entender o porquê daquele agradecimento e o caboclo perguntou a ela:
— E então fia? O que suncê observou do nosso trabalho junto à roda de descarrego?
— Bem, eu observei algumas coisas, mas fica difícil de dizer algo, no aspecto geral, sobre o trabalho dos caboclos em uma roda de descarrego por que cada um trabalha de um jeito diferente em cada assistência.
— Isto até que é verdade, mas o que suncê observou de semelhante no trabalho de qualquer mano caboclo lá na roda?
 — A fumaça do charuto! Nenhum dos senhores trabalha sem ela!
— Muito bem observado fia!
A entidade soltava umas baforadas do seu charuto enquanto fitava o semblante de Ligia e, após alguns instantes, perguntou a ela:
— Suncê ainda não entendeu porque que caboclo lhe agradece por segurar o pito dele, não é?
— Não senhor!
— Fia suncê tem o dom para isso e é por esse motivo que caboclo vai dilatar um pouco de sua percepção sensorial.
— Sim senhor!
A entidade estalava os dedos e soltavas algumas baforadas do seu charuto por toda a cabeça de Ligia. O processo durou poucos segundos e quando terminou a entidade solicitou a Ligia que abrisse os olhos.
— Nossa senhor caboclo!
— O que foi fia?
— É que eu fiquei com um pouco de tontura.
— Não se preocupe que já, já ela passa.
— Sim senhor, na verdade ela já está passando.
— Fia este caboclo vai participar de outra roda de descarrego e pede a suncê que continue a observar pra ver se descobre o porquê do nosso agradecimento, sim?
— Sim senhor.
Quando o caboclo terminou de realizar o seu trabalho com o charuto naquela roda ele, então, estendeu o braço para Ligia que, prontamente, segurou o charuto em suas mãos.
Minutos depois de terminada mais uma roda de descarrego a entidade pediu a Ligia:
— Entrega de volta o pito pra Caboclo fia!
Ligia assim o fez e ele novamente agradeceu-a para depois perguntar:
— E agora fia? O que suncê observou do nosso trabalho na roda?
— Nossa senhor caboclo! Parecia que eu estava ficando louca!
— Por que isso fia?
— Parecia que a fumaça do charuto dos senhores funcionava perispiritualmente para os assistidos na roda como se fosse uma espécie de chuveiro que tira todas as sujeiras do corpo físico.
A entidade sorriu com a comparação de Lígia e ela prosseguiu:
— É sério Sr. Caboclo! Quando a roda de descarrego terminou alguma coisa nelas parecia que estava muito mais limpo do que antes: algumas pessoas respiravam melhor, outras estavam como se tivessem retirado um peso do coração, enfim foi muito bonito de se ver.
— Fia antes de ir para a próxima roda de descarrego este caboclo pede que suncê segure o pito dele.
E, estendendo-lhe a destra, o caboclo entregou o charuto a sua cambone solicitando:
— Fia, agora feche os seus olhos e faça uma prece ao Criador pedindo bênçãos por todos aqueles que ainda passarão pelas rodas de descarga na gira de hoje!
— Sim senhor!
Ligia fez a prece com todo o fervor de sua mente e do seu coração e, então, abriu os olhos.
A entidade, assim, disse-lhe:
— Fia este caboclo agradece por suncê ter segurado o pito dele mais uma vez e pede que suncê observe o trabalho de nós em mais uma roda de descarga para ver se agora descobre o porquê dele agradecer a suncê por segurar o pito, tudo bem?
— Sim senhor!
Quando o caboclo terminou de realizar o seu trabalho com o charuto naquela roda ele, então, estendeu o braço e Ligia, prontamente, segurou em suas mãos o charuto da entidade.
O trabalho naquela roda foi finalizado e quando a entidade aproximou-se de Lígia esta estendeu-lhe as mãos na intenção de devolver o charuto para o caboclo, mas este lhe disse:
— Deixe o pito por mais um tempo em suas mãos que na hora certa este caboclo pede de volta a suncê, sim fia?
— Sim senhor!
— Este caboclo agradece por toda sua dedicação fia e pergunta: o que suncê observou nos trabalhos da última roda que caboclo acabou de participar?
— Senhor caboclo eu realmente observei algumas coisas, mas eu peço ao senhor que, se eu houver visto demais, que o senhor fale francamente comigo como sempre o fez.
— Nossa fia Ligia! Mas por que todo este alvoroço?
— Por que se na penúltima roda que o senhor participou eu percebi que a fumaça dos charutos funciona como a água de um chuveiro, nesta última roda parece que eu vi o que funciona como uma espécie de sabão ou sabonete.
A entidade deu um discreto sorriso para sua cambone e esta tornou a dizer-lhe:
— E então Senhor caboclo? Eu vi coisa onde não existia?
— De forma alguma fia! Suncê só viu o que havia para ver!
— Nossa, mas o senhor fala isto de uma maneira tão calma!
— E qual é o espanto nisto fia?
— Por que o desconhecido assusta um pouco e eu não sei nem um pouco do que eu vi.
— Fia, mas é como suncê mesma disse antes: o que tem de assustador em se tomar uma boa ducha?
— Ducha?
— É fia ou, como suncês encarnados mesmo dizem uma boa chuveirada!
— ?????
— Fia conte pra este caboclo o que foi que suncê viu!
— Bem, enquanto o senhor dava umas baforadas em uma pessoa da roda de descarrego milhares de minúsculos seres ficavam a rodear esta assistência em questão sempre na direção da cabeça para os pés. Estas espécies de seres giravam numa velocidade absurdamente alta e direcionada como se estivessem sendo controlados por alguém a distância. Eles apareciam e sumiam como que por encanto quando o senhor terminava o trabalho em uma pessoa participante da roda de descarga e passava para outra. Bom, foi isto que eu vi.
— A fia só está se esquecendo de um detalhe fundamental em tudo que observou da participação deste caboclo na última roda de descarrego!
— Verdade?
— Fia, fale uma coisa pra este caboclo!
— Sim senhor!
— Segundo a sua observação, participar desta última roda de descarrego foi mais fácil ou mais difícil do que a penúltima em que este caboclo participou?
— Ah, é verdade! Bom quem estava na dinâmica do trabalho lá na roda é o senhor, mas para mim que observava dava a nítida impressão que o senhor conseguia realizar o trabalho com muito mais facilidade, tendo em vista que na penúltima roda parecia que o senhor se concentrava muito mais para poder fazer o seu trabalho do que nesta última.
— Não foi impressão sua fia: para este caboclo, trabalhar nesta ultima roda, foi muito mais fácil que na penúltima e você fia teve uma grande parcela de responsabilidade para que caboclo obtivesse esta facilidade.
— Eu?
— Claro fia, não é suncê que é a cambone deste caboclo?
— Sou eu sim senhor, mas não sei dizer qual foi minha contribuição!
— Pense um pouco minha filha! Qual foi a grande diferença entre a penúltima e a última vez que suncê entregou o pito para este caboclo antes dele participar das rodas?
— Na ultima vez, diferentemente da penúltima, eu fiz uma prece ao Criador pedindo bênçãos para todas as assistências que participariam das rodas. Foi isto senhor caboclo? A prece que fiz a Deus?
— Fia toda prece a Tupã é sempre muito válida em nosso trabalho de fazer a caridade, mas suncê pode relembrar para este caboclo o que suncê possuía em mãos quando proferiu a referida prece?
— Meu Deus é verdade! Em minhas mãos estava o charuto do senhor!
— Exatamente fia! E então, suncê descobriu por que caboclo agradece suncê a cada vez que pede o pito dele?
— O senhor me desculpe, mas é que eu ainda não consegui chegar lá!
— Então este caboclo não vai mais fazer mistério fia: Caboclo agradece a suncê por que a cada vez que sunce entrega o pito de volta pra ele, acaba entregando junto boa parte de sua firmeza, de sua vibração, de sua energia.
— Eu???
— Não só suncê, mas cada cambone que trabalha junto a cada mano caboclo que milita em cada terreiro de Umbanda neste mundo de Tupã Nosso Pai.
— Isto é surpreendente!
— Antes da última roda que caboclo participou suncê fez prece sentida a Tupã e entregou o pito pra caboclo trabalhar cheio destas sutilíssimas e importantíssimas vibrações do desejo de caridade ao próximo.
— Sim, mas eu devo ser sincera e dizer que só fiz isto da última vez.
— Este caboclo sabe.
— Mas se das outras vezes que eu segurava o charuto do senhor eu não fazia prece alguma por que o senhor, mesmo assim, me agradecia?
— Independente de suncê fazer preces ou não, a cada vez que suncê entrega o pito para caboclo, suncê passa muito de sua energia para ele.
— Mas e se eu não estiver com energia boa no dia da gira? Eu vou acabar passando o pito para o senhor impregnado com minhas energias não muito positivas, mesmo assim o senhor me agradeceria?
— Já houve alguma gira que suncê entregou o pito pra Caboclo e ele não lhe agradeceu?
— Não senhor!
— Mas já houve giras em que suncê veio trabalhar com uma energia não muito boa, não é verdade?
— Isto é verdade, mas então por que o senhor sempre agradece?
— Fia, na verdade, o que caboclo agradece é a oportunidade de trabalho no bem que suncês dá pra nós. Umbanda é parceria fia!
— Desculpe, mas como é?
— Parceria fia: estar juntos por um objetivo em comum. Quando suncês cambones estão bem, então suncês fazem preces ou não as fazem, mas entregam o pito para nós com as energias boas que suncês estão naquele dia para nós trabalhar em favor do próximo, não é assim?
— É sim senhor!
— Já quando é suncês que não estão bem, daí somos nós que fazemos preces ao Criador, enquanto seguramos o nosso pito, rogando que suncês possam encontrar melhoras para as dificuldades de suncês e ajudar nós a trabalhar em nome da caridade cada vez mais e melhor e daí, somente após esta prece fervorosa, é que nós entregamos o pito de volta pra suncês segurar a fim de que, captando um pouco de nossa energia que deixamos no pito, suncês consigam encontrar um pouco de lenitivo que o merecimento de suncês lhes facultar.
— Meu Deus, mas isto é lindo!
Assim exclamou Ligia com a voz embargada de emoção pungente e sincera.
— Isto é Umbanda fia e Umbanda, como caboclo disse, é parceria: quando suncê não está bem e entrega o pito impregnado de energias não muito positivas para caboclo, ele então, quando pega este pito das suas mãos, agradece a suncê pela oportunidade que suncê está dando a ele de trabalhar junto a Tupã objetivando a sua melhora energética, vibracional.
— Nossa pelo que o senhor me diz a Umbanda é parceria mesmo, hein?
— Com certeza fia e é por isso que cada vez que um mano caboclo pede o pito de volta para seus cambone ele só tem a agradecer a este.
— Mas o ideal, quando o cambone não está bem, é fazer sempre preces, pedir auxílio a alguma entidade e ficar vigilante para sua vibração não cair e, assim, dificultar o trabalho das entidades, não é assim?
— Certamente não é fia!?! Mas este caboclo sabe que a filha põe em prática aqui no terreiro muito do que acabou de perguntar pra caboclo, não é verdade?
— Infelizmente não é sempre, mas graças a Deus acaba sendo a maioria das vezes, mas...
A voz de Lígia mal conseguia sair dos seus lábios tamanha era a emoção de estar aprendendo coisas tão básicas e importantes para o bom andamento de uma gira, mas de uma forma simples e prática. Mesmo percebendo a dificuldade de Lígia em falar, devido à emotividade, o caboclo incentivou-a dizendo:
— Pode falar fia.
E, fazendo um esforço grandioso para não embargar a sua voz com uma honesta emoção, foi que Lígia disse:
— Sabe o que eu acho mais lindo na Umbanda em relação a tudo isto que o senhor acabou de revelar para mim?
— A voz de suncê está embargada não é fia? Embargada de singela emoção por contemplar a prova do que disse Jesus sobre a simplicidade da misericórdia e benevolência das coisas de Deus materializada na religião de Umbanda pela presença de um simples charuto de caboclo, não é verdade fia?
As lágrimas de agradecimento por estar tendo aquela preciosa conversa com o caboclo deslizavam aos borbotões pela face de Ligia e esta emoção tão bonita e sincera a impedia de proferir qualquer resposta em relação à indagação feita pela entidade e ela, assim, só pôde respondê-lo positivamente acenando com a cabeça.
O caboclo então continuou a conversa dizendo:
— Caboclo agradece a Tupã pela parceria entre suncê e este caboclo e respeita cada lágrima de gratidão ao Criador que está deslizando pelo seu rosto, mas deve solicitar licença por um breve instante neste seu processo de agradecimento para pedir a suncê que devolva o pito deste caboclo para que ele possa participar de mais uma roda de descarrego em nome da caridade ao próximo.
As lágrimas continuavam a escorrer pelo rosto de Ligia e ela, assim, só pôde estender as mãos para devolver o charuto sem nada conseguir dizer a entidade.
A entidade pegou o charuto nas mãos, deu as costas para Ligia, andou um passo a frente e ficou parado de costas para sua cambone.
Talvez fosse para substituir um pouco daquelas lágrimas de alegria por um sorriso singelo feito da mesma emoção, talvez não, o fato foi que o caboclo novamente virou-se de frente para Ligia e disse:
— Pensou que caboclo houvesse se esquecido desta vez não é fia Ligia? Mas este caboclo não esquece nunca de agradecer a suncê por haver segurado por mais uma vez o pito dele. Que Tupã abençoe em dobro toda a atenção que suncê dispensa a este caboclo nesta nossa parceria e que seja abençoada também a parceria que Tupã tem com todos nós através da nossa sagrada e amada religião de Umbanda.
Ao que Lígia, já um tanto refeita em suas emoções, respondeu:
— Que assim seja!!!!!










Mensagem de um caboclo canalizada por Pedro Rangel em 27/01/2010

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Sobre a certeza




— Márcia você me desculpe lhe falar mais uma vez amiga, mas é que eu realmente penso que você deveria ir comigo lá no terreiro.
— Bobagem Vera, isto é coisa de ignorante!
— Ignorante amiga? Então quer dizer que você julga-me como tal?
— Não Vera! Apenas digo que as pessoas que fazem parte destes centros são ignorantes.
— Os médiuns?
— Exatamente!
— Mas lá na corrente do terreiro que eu freqüento como assistência existem médicos, professores, entre outros.
— Então, eles são doutos na profissão que exercem, mas ignorantes por acreditarem em contos de fadas.
— Desculpe pela insistência minha amiga, mas é que eu estou muito preocupada com esta sua tontura que nenhum dos médicos que você visitou encontrou explicação plausível.
— Eu sei Vera, eu sei!
— Então amiga, o que lhe custa dar uma chance para que as entidades que militam na umbanda possam lhe auxiliar? Você não quer acabar com esta tontura?
— Puxa, já perdi as contas de quantas vezes você abordou este assunto comigo!!!
— Perdão! Eu não mais lhe aborrecerei!
— Não Vera, eu vou contigo! Está na hora de acabar com esta história de uma vez!
— Então você vai?
— Vou!
— Graças a Deus!
— Quando é a sessão?
— Hoje a noite, às 20;00 horas.
— Pode deixar que eu não faltarei.
Naquela sexta-feira à noite, precisamente às 20h45min, Márcia sentou-se em um toco para receber a consulta do caboclo Rompe-mato que disse-lhe:
— Salve Tupã filha!
Ao que ela respondeu:
— Salve!
— Este caboclo ignorante só gostaria de saber em que poderia auxiliá-la.
Márcia pensou: “ será que esta entidade sabe o que eu penso a respeito desta seita?”
— Religião filha!
— Como?
— A umbanda não é uma seita, é uma religião!
— Então você pode ler meus pensamentos?
— Posso ver somente aquilo que Tupã julgar que seja importante para auxiliá-la.
— Então por que você... caboclo Rompe-mato, não é isso?
— Exatamente!
— Por que você não me diz o que vim fazer aqui nesta noite? Será que Deus permitiria que você visse?
— Já vi!
— Viu?
— Você pode até não saber, mas veio até aqui para acabar com uma certeza dentro de você!
— Acho que você não viu direito!
— Filha eu não devo tentar convence-la de nada. Eu só posso dizer aquilo que a Lei me permita revelar.
— Mas de que certeza você está falando?
— Da mesma certeza que o vosso pai explicou-lhe aos cinco anos de idade!
— Meu falecido pai?
— Exatamente, lá no circo.
— Não me recordo.
— Filha você se lembra quando seu pai lhe explicou como é possível um animal robusto como o elefante ficar preso em um pequenino toco de madeira?
Os olhos de Márcia marejaram com as recordações do pai saudoso e ela respondeu ao caboclo:
— Lembro.
— Então, o seu pai lhe explicou que o elefante desde pequenino tem uma corda amarrada em seu corpo que o prende a um fortíssimo tronco de árvore, não foi?
— Exatamente!
— E como o elefante tenta inúmeras vezes se libertar daquela corda e não consegue um dia ele acaba desistindo de tentar fazer isto justamente por ter a certeza de que isto seria impossível.
— Meu Deus, mas como o senhor pode saber disto?
— Filha não precisa chamar-me de senhor, continue a tratar-me de você.
— Acho impressionante como o senhor pode saber de uma coisa tão antiga, entretanto devo lhe dizer que se enganou quanto ao motivo que me trouxe até aqui esta noite.
— Verdade filha?
— Sim. Vim até aqui por que estou com uma tontura terrível.
— A tontura é conseqüência e a certeza é a causa dela!
— Como é?
Uma certeza que você possui está provocando esta tontura.
— É incrível como o senhor consegue ver tão bem o meu passado, mas não enxerga o momento presente!
— Fale mais filha!
— Na verdade o meu esposo vem cobrando certa coisa há seis anos e eu tenho um medo muito grande de “quebrar a cara” com a decisão que eu tomar. Eu tenho medo e não certeza!
— Você não está indecisa pelo medo, mas devido à certeza!
— Certeza?
— É! Certeza de que vai “quebrar a cara” se concordar com o seu marido.
— E qual é a diferença?
— Aquele que tem medo procura se precaver e se preparar para depois escolher um caminho. Após a escolha ele até teme pelo pior, mas não tem receios de viver um dia após o outro. Já aquele que tem a certeza de que vai “quebrar a cara” acabará “quebrando-a” por que será incapaz de enxergar o aprendizado da caminhada em sua decisão.
— Nisto você tem razão.
— Você entende que é a certeza que a vem impedindo de agir tal qual um pequenino tronco de madeira que consegue prender o mais potente elefante?
Neste instante, ao misturar imagens do presente com recordações do seu saudoso pai, Márcia chorou um copioso pranto.
O caboclo Rompe-mato deixou que a tempestade passasse e somente quando chegou a bonança emotiva no coração de Márcia foi que ele disse:
— Toda escolha envolve perdas e ganhos: o importante é saber o que se quer perder e o que se deseja ganhar com uma determinada escolha.
— Você sabe de qual escolha eu estou falando, não sabe?
— Você, até sentar na frente deste caboclo, tinha a certeza de que engravidar iria acabar com a paz em sua vida. Agora, depois da conversa que estamos tendo, esta certeza já não está tão clara em seu coração.
— É verdade!!! Mas...
— Fale filha!
— Qual é a relação desta certeza com a tontura que venho sentindo?
— Filha, esta gravidez foi programa no plano espiritual antes de seu reencarne e este caboclo só pode dizer que é uma oportunidade que você vem esperando há muitas encarnações.
— É mesmo?
— Sim. E o seu espírito sabendo que a hora é chegada vem lhe fazendo recordar do compromisso assumido há tanto tempo.
— E isto vem causando a tontura?
— Não. A sua teimosia em não querer assumir o compromisso vem atraindo compainhas espirituais indesejadas e grande desequilíbrio energético para você.
— Nossa, caboclo Rompe-mato, eu não entendo muito do que você está falando, mas sinto a força da verdade em suas palavras dentro do meu coração!
— Que bom filha, pois este caboclo só pode lhe dizer o que Tupã permite que seja dito.
— Eu entendo!
— Reflita no que caboclo lhe disse e use o seu livre-arbítrio com sabedoria! Peça a Deus que lhe dê entendimento para discernir verdadeiramente o que é ganhar e o que é perder de acordo com as decisões que você tomar, entende?
— Sim senhor, mas...
— Solta língua seu filha!
— Será que o sonho que tenho desde criança, mas que vem se repetindo intensamente nos últimos seis meses, está relacionado com este meu compromisso pré-reencarnatório?
— Filha este caboclo, no momento, só está autorizado a lhe dizer que assim que o seu filho nascer este sonho não mais se repetirá.
— Sim senhor, obrigada por tudo!
— Não agradeça a este caboclo, agradeça a Tupã.
Dois anos depois deste atendimento Márcia senta-se com o seu filho na frente do caboclo Rompe-mato e lhe diz:
— Senhor caboclo eu vim aqui hoje por dois motivos, sendo que o primeiro é lhe agradecer pela vida do meu filho, Henrique.
— O caboclo cruzou a testa da criança, olhou para Márcia e disse sorrindo:
— O seu curumim é lindo, mas caboclo lembra de ter pedido a você que só agradecesse a Tupã, não é verdade?
— É verdade!
— Mas diga filha Márcia: qual foi o outro motivo que trouxe você para conversar com este caboclo?
— É que eu tenho uma dúvida que para esclarecê-la eu teria que lhe contar aquele sonho que eu tinha desde criança e que, como o senhor mesmo me disse, parou de ocorrer desde o nascimento do Henrique.
— Pode falar filha!
— É que em meu sonho eu me via como esposa de um governante de um dos povos do antigo império babilônico. Eu via também que estava grávida, mas que o filho não era do meu esposo e sim de um escravo de nossa residência que tinha o nome de Josias.
Caboclo Rompe-mato recordava junto com Márcia quando lhe disse:
— Prossiga filha!
— Bom daí, de uma forma que eu não sei dizer como, o meu marido descobriu este fato e chicoteou.....
O caboclo Rompe-mato prosseguiu:
... chicoteou o escravo até mata-lo.
— Isto! Mas o que mais me impressiona foram as palavras ditas pelo escravo antes de morrer e que foram: ........
O caboclo Rompe-mato prosseguiu:
— “...............não se preocupe , pois um dia eu a auxiliarei a trazer a criança de volta a vida”.
— Isto! Mas, como o senhor sabe?
— Continue a contar o sonho filha!
— Naquele momento eu não entendi o porquê do escravo haver dito aquelas palavras a mim; somente dois dias depois do seu óbito foi que descobri: meu marido obrigou-me a escolher entre ter a criança e ser vendida como escrava ou abortar e continuar como a amante dele. Visando apenas o meu conforto eu tive a certeza de que era melhor abortar, mas o meu marido, mesmo assim, vendeu-me como escrava, do resto não me lembro.
— E qual é a sua dúvida filha?
— É que o meu bebê, o Henrique aqui no meu colo, eu sinto como se ele fosse aquele escravo reencarnado, eu estou certa?
— Isto é coisa que caboclo Rompe-mato não está autorizado a dizer só o seu próprio coração.
— Então está bem, agradeço a Deus por tudo, mas também não tem como deixar de agradecê-lo!
E, com um esboço de sorriso no canto dos lábios, o caboclo disse a ela:
— Agradeça somente a Tupã filha! Este caboclo é só um espírito ignorante!
Márcia sorriu ao recordar-se do quanto era pedante e preconceituosa com as práticas umbandistas há dois anos até o momento que conversou pela primeira vez com o caboclo Rompe-mato.
O caboclo despediu-se de Márcia e ela bateu ritualisticamente a cabeça no gongá em reverência e agradecimento a Deus.
A cambone do caboclo Rompe-mato olhou para ele de forma quase suplicante ao solicitar:
— Posso falar com o senhor?
— Pode falar filha!
— É que eu gostaria muito de agradecer o aprendizado que obtive com o senhor neste atendimento: muitas vezes deixamos de agir, de optar, de escolher nem tanto por medo, mas pela certeza de que o caminho que escolhermos nos levará ao arrependimento. Jamais devemos agir com o intuito de errar, mas se errarmos devemos entender que isto só nos aproxima do jeito correto de se fazer as coisas.
— Caboclo está vendo que filha aprendeu mesmo, hein?
— Muitas vezes deixamos de agir não por medo de errar, mas pela prepotência de querermos sempre ser infalíveis e pela triste certeza de que é melhor não agir do que errarmos.
— Caboclo fica feliz com seu aprendizado, mas agradeça somente a Tupã por ele.
— Sabe senhor caboclo foi incrível, quase inacreditável, como o senhor sabia descrever com minúcias o multissecular sonho da Márcia.
— Multissecular?
— É por que, como o senhor sabe, o império babilônico existiu há muitos séculos.
— Entenda, filha cambone, que você não deveria se espantar com este caboclo por isto!
— Ah eu sei que não deveria mesmo, pois eu sei como o senhor é poderoso e..........
— ...............Filha cambone?
— Sim senhor caboclo?
— Nunca mais repita que este caboclo é poderoso!!!
— Desculpe!
— Este caboclo sabe que você exerce há pouco tempo a tarefa de cambonar, mas nunca se esqueça que só Tupã é poderoso aliás, Todo Poderoso!
— Sim senhor!
— Não precisa ficar assustada, porque caboclo não está brigando, mas tentando esclarecer você.
— Sim senhor!
— Caboclo sabia do sonho da filha Márcia não porque é poderoso, a justificativa é muito, mas muito mais simples!
— E o senhor poderia contar qual é?
— É que este caboclo é contemporâneo da época em que ocorreu a história contada pela filha Márcia e é por isso que tem conhecimento do sonho narrado por ela, entendeu?
— Sim senhor!
— Então, por caridade, vá chamar a próxima assistência para este caboclo atender por que a prática da caridade não pode parar, não é filha?
— É sim senhor! Deixa eu ir lá chamar a assistência!
E enquanto a cambone se afastava do caboclo ele agradecia intimamente a Deus pela oportunidade de ter auxiliado na tarefa que há muito aguardava.
A cambone trazia uma senhora de aproximadamente sessenta e cinco anos de idade que seria o próximo atendimento da entidade e, enquanto isto acontecia, o Caboclo Rompe-mato passou a recordar dos tempos em que fora líder religioso de um povo que posteriormente foi feito escravo pelos caldeus. Na religião que ele professava eram ensinadas as verdades sobre a reencarnação, mas também a existência em um único Deus.
Lembrou-se de que era casado e que, quando o seu povo foi feito escravo, o governante maior dos caldeus tomou a sua mulher para amante, sem saber que ela estava grávida do esposo há poucas semanas.
A entidade se recordava destes momentos referentes a esta encarnação com um profundo sentimento de respeito e gratidão ao Divino Criador pelo fato de tanto haver evoluído por meio do sofrimento, e, enquanto a próxima pessoa a ser assistida pela entidade sorria para ele e já se sentava no toco o caboclo Rompe-mato terminava de agradecer a Deus por todo o crescimento espiritual que adquirira quando fora a encarnação do escravo caldeu que possuía, nesta referida época, o nome de Josias.