quinta-feira, 20 de agosto de 2009

CICLOS

Mensagem de um irmão espiritual recebida por Pedro Rangel






Milênios de anos atrás dois irmãos encontravam-se sentados diante de uma fogueira acesa no interior de uma mata e sendo orientados por um dos mestres ancestrais do seu povo:
— Concentrem-se meus adorados pupilos, pois já é tempo de superarem este trauma em suas vidas!
— Desculpe mestre Athukan, mas eu não entendo como ficar sentado em frente ao fogo poderá nos ajudar a superar a saudade do vovô!
— Você não entende por que ainda não vivenciou Kunyã: é vivendo que se aprende!
— Perdão mestre, emendou Aluthapa, mas mesmo tendo aprendido com o senhor coisas significativas sobre a vida espiritual nos é difícil aceitar a morte de nosso avô! Sabemos que ele continua a viver, mas mesmo assim é difícil para nós!!!
— Então fechem os olhos meus aprendizes, pois eu fui incubido de vos auxiliar com algumas coisas que vocês precisam ver. Concentrem-se em suas visões e só abram os olhos quando escutarem o bater de palmas em minhas mãos.
Os dois irmãos, gêmeos idênticos de doze anos de idade, obedeceram prontamente à determinação de seu líder espiritual e somente depois de vários minutos foi que escutaram o bater de palmas e, assim, abriram os olhos.
Mestre Athukan aguardou alguns instantes e depois solicitou a Aluthapa:
— Conte-nos o que você viu meu pupilo!
— Mestre a visão foi esquisita, mas foi assim: a nossa terra estava afogando em água enquanto o meu avô, encarnado em outro corpo, escapava com os poucos de nosso povo que haviam dado atenção para os seus alertas de que isto aconteceria; na minha visão, inclusive, a nossa terra era rasgada em várias partes diferentes pelo mau uso psíquico e magístico que dávamos aos cristais.
— E qual seria a justificativa para você classificar a tua visão como “esquisita”?
— Perdão mestre, mas isto é óbvio!
— Então diga!
— O nosso povo não se utiliza de cristais!!!
— Ainda!!!
— Como?
— Aluthapa, tudo tem o seu inicio, meio e fim para que um reinicio seja possível e você será o início de um novo ciclo para o nosso povo.
— Mas, como?
— Aluthapa, você bem sabe que viemos das estrelas!
— É verdade mestre!
— Este conhecimento sobre os cristais você traz dentro de si desde quando vivíamos em nossa estrela.
— Mas como vou avivá-los em minha memória? Quem será o meu iniciador?
— O espírito que você chama de avô. Saiba que o ciclo para o qual ele preparou o nosso povo, há muito tempo, chegará ao fim e você, quando for à hora certa, iniciará a nossa gente no último ciclo que eles viverão aqui nessa terra.
— Mas, mestre eu tenho medo!
— Não tema Aluthapa, pois um fruto só despenca naturalmente de uma árvore quando está pronto para ser utilizado como sustento ao próximo; mas, conte-me o motivo de seu temor!
— É que se eu iniciarei o nosso povo no uso dos cristais e se ele se destruirá justamente pelo mau uso destes, então eu serei responsabilizado por esta destruição.
— Aluthapa, para que o fogo foi criado?
— Para nos guardar do frio.
— Mas e se alguém quiser utilizá-lo para a destruição?
— Acho que entendo aonde quer chegar mestre: tudo que o Divino Criador gerou Ele o fez para o nosso bem, mas se alguém quiser utilizar-se do fogo criado por Ele para fazer o mal à culpa não será Dele e nem daquele que primeiro conseguiu manipular este elemento, mas tão somente da pessoa que perverteu o seu uso divino.
— Muito bem meu kerrish*, creio que você percebeu que o mesmo exemplo do fogo aplica-se em tudo gerado pelo Divino Criador, incluindo os cristais, certo?
— Certamente mestre, mas em quantos anos isto acontecerá?
— Anos? Mas podem ser muitas décadas ou também muitos séculos, não é verdade?
— É verdade mestre, o nosso tempo cronológico não é parâmetro para a passagem do tempo presente em vosso plano!
— Só o que posso lhe dizer é que tudo acontecerá na hora exata, certo?
— Certo mestre!
— Mas e você Kunyã? Diga-nos o que você enxergou em sua visão!
— Mestre, a minha visão não foi menos estranha que a de Aluthapa; aliás, parece que a minha visão completa a dele por que eu vi que estava em um outro corpo, junto com o meu avô, como um daqueles poucos que deram atenção às suas advertências de que nossa terra seria submergida pelas águas do mar. Após este grande cataclismo nós andamos por tempos infindáveis até encontrarmos uma nova terra para o nosso povo.
— E qual foi o motivo do estranhamento em sua visão?
— É que com o passar do tempo a estrutura corporal do nosso povo mudou bastante, sendo nossa pele muito, mas muito avermelhada.
— Na realidade não há motivos para estranhamento Kunyã, pois quando o ciclo do nosso povo iniciado por Aluthapa chegar ao fim, o que ainda levará décadas de séculos, você iniciará com eles um novo ciclo em uma nova terra.
— Mestre é incrível!!!
— Um dia este ciclo iniciado por você também chegará ao fim para que um outro ciclo possa ser iniciado.
— Verdade?
— Certamente. Quando o ciclo iniciado por você chegar ao fim muitos pensarão que o nosso povo foi extinto, mas isto não será verdade: eles só terão retornado para o seio de nossa estrela, isto é, aqueles que não ficarem presos à prática do mal a cada novo corpo de carne que receberem, pois estes continuarão na carne até que expiem suas práticas nefastas e seus remorsos conscienciais.
— Nossa mestre!!!
— Não há do que se espantar meu kerrish. Uma gota de água quando está no estado físico de vapor juntamente de suas irmãs formando uma nuvem muitas vezes não quer descer da seguridade do firmamento para caírem na terra, você entende?
— Sim senhor.
— Muitas morrem de medo de caírem e se sujarem na terra, outras de caírem no mar e tornarem-se salobras.
Os discípulos sorriam com a estória de Athukan e este continuou a contá-la:
— Já outras gotinhas da nuvem muito abnegadamente esquecem de si e procuram descer ao solo com um sorriso de satisfação no seu rosto molhado justamente por saberem da sua importância na continuidade da existência da água no planeta e que se explica por um fenômeno conhecido como ciclo da água.
— Maravilhoso mestre!
— Na verdade Kunyã maravilhosa mesmo é a sabedoria do Divino Criador que faz o mundo evoluir independente da vontade de suas criaturas que nele habitam. Evolução é mudança meus discípulos e a vida há que estar sempre mudando para que possa evoluir!!! A gota que não quer despencar dos céus desce das nuvens a despeito deste fato e descobre novas formas de existir e estar no mundo aprendendo, por exemplo, que tornar-se salgada por cair no mar não é só pesar ao sentir também a delícia que é ter todo o seu corpo mais leve devido à salinidade do mar, não é verdade?
— Sim mestre!
— E não tenham dúvida que esta mesma gotinha d’água quando tiver voltado a ser nuvem não terá mais medo de despencar dos céus e cair no mar outra vez e por que isto aconteceu? Por que o mundo evolui independente da vontade de seus habitantes ou, no caso da gotinha, por que o fenômeno da chuva ocorre independente da vontade da água.
— Incrível mestre!
— E assim como acontece com uma gota de água isto também ocorre em toda a criação divina e você, seu irmão, seu povo e seu avô não poderiam se furtar ao processo da evolução que a sabedoria infinita do Divino Criador fez para existir em ciclos, onde o fim de um não elimina o anterior, mas o aperfeiçoa.
— É verdade mestre!
— Na natureza as criaturas irracionais respeitam e obedecem à determinação cíclica da vida ofertada pelo Divino Criador; já o ser humano, devido ao mau uso da racionalidade, muitas vezes se rebela contra os ciclos da vida e muita dor proporciona aos seus semelhantes.
— E, a esta observação, os pupilos de Athukan responderam em uníssono:
— É verdade mestre!
— Nunca se esqueçam meus queridos aprendizes de que viemos banidos das estrelas principalmente por não aceitarmos a evolução natural e cíclica da vida e, com isto, tentarmos burlar a divina Lei da reencarnação.
— Nós não esquecemos mestre Athukan!!!
— Então porque estavam a tanto lamentar a perda do avô de vocês antes de terem as vossas visões? Não pensem vocês que eu não entendo o estreito laço entre vós e o espírito que chamam de avô, pois eu bem sei que ele se perde no tempo ao longo das inúmeras reencarnações que vocês já tiveram juntos; mas se eu vos falo com esta severidade é por que bem sei quanto o inconformismo pode avolumar-se até transformar-se em rebeldia e destruição, vocês me entenderam?
— Sim mestre Athukan!
— Então fechem novamente os olhos e concentrem-se, pois neste exato momento um ciclo diário da vida de vocês precisa chegar ao fim para que um outro possa ser iniciado.
Com os olhos arregalados e assustados os irmãos perguntaram a Athukan em uma só voz:
— Mestre, o senhor está dizendo que vamos desencarnar já?
Esboçando um sorriso incontido na face, o mestre respondeu aos seus discípulos:
— Não estou falando de desencarne e sim do ciclo do sono físico de vocês que está pertíssimo do fim.
Tanto Kunyã quanto Aluthapa, sentindo-se aliviados com aquela resposta, responderam simultaneamente:
— Graças ao Divino Criador!!!
— Entendam que quando vocês despertarem se esquecerão de quase tudo que hoje foi vivenciado, mas viverão bem com as emoções que forem provocadas no corpo físico ocasionadas pela saudade do avô de vocês devido, tanto ao esclarecimento obtido quanto pelo fato de seus corpos astrais terem sido banhados com a energia equilibradora do fogo.
— Obrigado por tudo mestre!
— Não me agradeçam meus Kerrish e fechem os olhos para que possam despertar!
— Sim senhor!!!
— Fiquem na paz!!!
— Estejamos todos na paz mestre!!!






* KERRISH = o mesmo que discípulo, aprendiz, aluno, etc.

sábado, 18 de julho de 2009

NÊGA SALU

Alguns séculos atrás,na região norte do estado de Alagoas, Nêga Salustiana revirava os olhos na senzala e respirava ofegante tentando entender o que acontecia com ela; uma dor aguda apertava o canto esquerdo do seu peito enquanto ela recordava momentos de sua encarnação presente:
Vivera boa parte da vida na senzala, mas trabalhara na casa grande dos vinte aos cinqüenta anos de idade.
A única coisa que a entristecia era o fato de não ser chamada pelo nome, mas de aberração devido ao fato de ter nascido com uma deficiência que lhe deformava a face.
Entretanto, provavelmente, o mais impressionante na Nêga Salu era o fato dela sempre procurar servir com um sorriso no rosto. Por conta desta característica, inclusive, era muito ofendida: " do que você ri, negrume do inferno?", "Já que você está tão feliz eu vou dobrar os seus trabalhos"; só que nem a própria Salustiana entendia o porque daquele sorriso teimar tanto em brotar de seus lábios constantemente, mas também ela pensava: "se eu não me sinto triste, por que não posso sorrir?"
Quando estava com trinta anos a vida de Salustiana mudou: um certo dia ela foi até a horta retirar algumas folhas de boldo para fazer um chá para a filha mais nova da sua sinhá quando teve uma visão: foi um homem alto, com vestes estranhas e um olhar profundo, duro e penetrante que lhe disse:
— Sua missão deve começar agora!
— Missão?
— Sim. Colocar em prática todo o conhecimento com ervas que você aprendeu do lado de cá.
— Como assim? Suncê é o novo sinhô de Nêga Salu?
— Não Salu. Você é que é minha senhora! Durante muito tempo atrás teus erros passados fizeram-te servir-me no embaixo, mas, mesmo assim, nunca deixei de ser-lhe um servo.
— Suncê fala umas coisa muito difícil pra Nêga entender.
— Você não me entende com a mente, mas sente a verdade do que lhe digo com o seu coração, não é assim?
— Isso inté que é!!!
— Então, isto que é importante: seu coração sentir a presença do Divino Criador e manifesta-la através de seus gestos e sorrisos.
— Nêga tem evitado de sorrir!
— Mas, por que?
— Pra num ser chamada de nêga do inferno.
— Mas, qual o problema nisso?
— Isso num tem problema nenhum porque Nêga sabe que o inferno não tá fora, mas dentro do coração do homem; mas é que toda vez que Nêga é tratada de aberração ela lembra do defeito no rosto e sente tristeza.
— Pois a partir de agora toda vez que você for tratada como aberração, você dará um sorriso de agradecimento pela misericórdia de Deus, sabe por quê?
— Não sinhô!
— Por que seu reencarne pedia este disfarce para afastá-la dos seus inimigos espirituais, entenda esta deformidade como um disfarce proporcionado pela sabedoria divina, entende?
— Sim sinhô!!!
— Esta tua atual reencarnação é importante oportunidade que tens de trabalhar com afinco na caridade para que venha, no momento certo, assumir o seu grau na luz.
— Mas, o que é caridade meu sinhô?
— Caridade é procurar fazer o bem sem olhar a quem, sem interesse algum e, se possível, com um sorriso no rosto como você bem sabe dar.
— Bondade sua, meu sinhô.
— Preciso ser breve Salustiana, pois a sua sinhaninha precisa das ervas para restabelecer a saúde.
— É verdade! Deixa eu pegar meus boldo!
— Não Salustiana, não toque no boldo!!!
— Mas, como Nêga vai fazer o chá sem folhas?
— A resposta está dentro de ti Salu.
— Mas, Nêga num conhece ervas!
— Conhece sim Salu e muito e, a partir de agora, será a hora em que você disto se recordará, feche os olhos!!!
Nêga Salustiana fechou os olhos e viu em sua mente a erva comumente conhecida como chapéu-de-couro e foi quando ela respondeu a seu interlocutor:
— Eu vi, eu vi, meu sinhô!!!
— Então pegue as folhas e faça o chá!!!
— Mas a sinhá vai brigar por que ela mandou Nêga trazer boldo.
— E o que é mais importante: satisfazer o seu orgulho em nunca ter levado uma reprimenda dos seus senhores, ou ter paz no espírito em se ver que se está cumprindo uma missão?
— Você tem razão meu sinhô: é preferível eu ter paz no meu sorriso do que viver com um sorriso amarelo, por isso é que Nêga vai pegar o chapéu-de-couro!
— Nunca se esqueça Salustiana: Deus é contigo! Confie em si mesma! Confie no conhecimento armazenado em seu espírito e use as ervas em favor do próximo, pois são elas que, um dia, te levarão de volta ao seu grau.
— Sim meu sinhô, Nêga vai trabalhar!
Assim respondeu Salustiana, mas aquele ser misterioso já havia ido embora.
Salustiana não desviava da sua missão um segundo sequer: "aprendeu" a benzer, curar, fazer chás, poções e tudo o mais que fosse relacionado aos vegetais; sendo que a primeira destas curas foi com a filha de sua sinhá. Inclusive, esta, vendo o resultado fabuloso que sua filha obteve com a prescrição fitoterápica de sua escrava Salu, passou a testá-la com o trabalho de ervas nos escravos debilitados organicamente da sua fazenda e, depois do resultado positivo de tantos testes, a sinhá de Salu concluiu que ela era praticamente infalível.
Após esta constatação a sua sinhá proibiu-a de colocar os pés outra vez na senzala sendo que Salustiana só atendia àqueles que seus senhores ordenavam.
Uma certa noite, no inicio de sua tarefa fitoterápica, Salu estava colhendo algumas ervas quando um irmão de sina e cor pediu sua presença para auxiliar um velho negro que se encontrava doente na senzala, mas foi impedida de fazê-lo por um capataz que tinha a missão exclusiva de vigiá-la.
Este velho escravo morreu poucos dias depois e nenhum negro daquela fazenda jamais olhou outra vez nos olhos de Salustiana sendo que muitos até cuspiam no chão discretamente quando passavam perto dela: pensavam nela como uma traidora.
Mas Salustiana não tinha tempo para ficar triste tamanha era a quantidade de trabalho a que era submetida, pois se das seis as dezoito horas ela trabalhava normalmente na Casa Grande, a partir das vinte horas ele devia sempre estar disponivel para atender aqueles que lhe fossem encaminhados por seus senhores, sendo que quase a totalidade destes eram escravos de outras fazendas encaminhados até ali por seus senhores. Salustiana, enquanto escrava, nada ganhava economicamente para exercer esta tarefa, mas os senhores dela ganharam um bom dinheiro explorando esta habilidade dela com as ervas.
Tanto era o trabalho de Salustiana que no dia em que completou quarenta e três anos de idade sua aparência era de mais de sessenta.
Aos quarenta e cinco anos ela começou a manifestar um sério problema no coração e sua sinhá resolveu diminuir consideravelmente as suas tarefas na Casa Grande: só o que não diminuía era o seu trabalho com as ervas.
Poucos anos depois o senhor de Salustiana manifestou uma grave enfermidade na estrutura óssea do corpo físico.
Salu era convocada a intervir e muito minorou o sofrimento de seu senhor, mas não houve jeito e alguns meses depois ele veio a falecer.
A sinhá acusou Salu de incompetente, ineficiente e a devolveu, aos cinqüenta anos de idade, para a senzala.
A sinhá também aumentou consideravelmente a carga de trabalho de Salu; fato que agravou ainda mais os problemas em seu coração e, para completar, o desprezo dos escravos por ela não diminuira em nada com o tempo.
Nem é preciso muito esforço para se prever que poucas semanas após estes infortúnios encontraríamos Salustiana a revirar os olhos e respirar ofegante, com pontadas no lado esquerdo do peito, tentando entender o que acontecia com ela.
Forçando as vistas ao olhar o canto esquerdo do portão de entrada da senzala ela viu surgir na sua frente aquele mesmo ser que vira na horta da Casa Grande décadas atrás. Foi ele quem disse a ela:
— O que você teme?
— Num posso morrer agora meu sinhô, num posso!
— Por que não?
— Minha missão está incompleta, eu passei a vida curando com muito amor quem a minha sinhá e o meu sinhô queria e quando Deus me deu a chance de tentar reconquistar o amor de meus irmãos de raça aqui da senzala e trabalhar por eles eu num posso morrer!!!
— Sua missão está encerrada, você conseguiu completa-la!
— Mas, como? Meus irmãos têm ódio por mim!
— Um dia tudo será entendido, mas agora você precisa vir.
— Tudo bem, eu confio no sinhô!!! Me leva meu sinhô!!!
Imediatamente após o desencarne Salustiana era pura luz e, achando tudo aquilo bem estranho, perguntou a seu interlocutor:
— Que luz é esta meu sinhô? Quem é suncê, meu sinhô?
— Esta é a luz de Deus que trouxeste até a ti própria, pela prática do bem; quanto a mim, podes chamar-me de guardião da porteira.
— Guardião da porteira? O senhor abre portas?
— Não, sou só um atravessador!!! Atravesso pelas portas de Deus aqueles que, pela prática da caridade, conseguem abrir essas portas.
— Então o senhor veio me atravessar?
— Já lhe atravessei da morte para a vida.
— Mas eu morri, tô morta!!!
— Não Salustiana, você está viva na verdadeira vida que é a espiritual, agora feche os olhos e concentre-se para que possas retornar ao seu lugar original.
Assim foi feito e assim Nêga Salu, graças à prática incessante e abnegada da caridade conseguiu retomar o seu posto na luz na hierarquia divina.
Atualmente ela trabalha como uma preta-velha juremeira que trabalha no campo santo: através das ervas ela cura, sara e regenera àqueles espíritos que se fazem merecedores a fim de que possam ser levados para seus lugares de merecimento.
Nêga Salu, por onde passa, não cansa de repetir uma frase que tanto vivenciou em sua última encarnação: fora da caridade, não há salvação!!!

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Conversando com Exu

Certa vez eu caminhava à noite por um deserto muito, mas muito frio. A temperatura estava tão baixa que eu tinha a convicção de que se ali não estivesse fora do corpo físico, já haveria "congelado" por hipotermia.
Eu caminhava sem saber nem mesmo o porquê, só sentia algo dentro de mim determinando que procedesse desta forma.
Andei até que escutei uma sonora gargalhada que vinha de uma pequena inclinação localizada a minha direita. Subi inclinação acima e dei de frente com um ser que se encontrava ajoelhado ao solo e que me fitava seriamente como se estivesse a me esperar.
Caminhei passo-a-passo na sua direção e foi quando dele escutei:
— Salve cabra, senta no chão!
— Salve senhor Exu!
Foi o que intuitiva e respeitosamente respondi enquanto me sentava no solo arenoso.
— Como vai cabra?
— Vou bem senhor Exu, na força de Deus Pai.
— Fico satisfeito em escutar isto de ti, pois o assunto desta madrugada será sério por demais.
Preparei o coração e os ouvidos por que senti que vinha "chumbo grosso".
— A conversa desta noite será breve, mas nem por isso deixará de ser séria.
— Sim senhor.
— Um médium entra pela primeira vez para a corrente mediúnica de um terreiro de umbanda e começa a exercer o divino ato de cambonar as entidades; acontece que depois de algum tempo exercendo tal tarefa este médium começou a considerar esta sublime tarefa repetitiva, está acompanhando?
— Sim senhor!
— Pois bem, devido a este sentimento de repetitividade o referido médium passou a desejar ardentemente que as entidades começassem a se utilizar do seu corpo físico e da sua mente através da incorporação. Mas como filho de umbanda não tem querer isto só começou a ocorrer dois anos após sua entrada na corrente mediúnica. Ainda acompanhando?
— Perfeitamente, senhor Exu!
— Pois saiba que algum tempo depois que as entidades começaram a incorporar no médium este passou a achar o fato delas incorporarem e ficarem quase sempre parada no mesmo lugar, e fazendo as mesmas coisas, bastante repetitivo e começou a ansiar que as entidades que o assistem nas incorporações auxiliassem nas rodas de descarrego, está entendendo?
— Estou sim, senhor Exu!
— Algum tempo depois que as entidades passaram a trabalhar nas rodas de descarrego este referido médium também começou a achar este trabalho repetitivo e passou a desejar que as entidades que o assistem prestassem consultas a assistência, ainda me acompanhando cabra?
— Sim senhor!
— Algum tempo após este período as entidades que assistem a este referido médium em suas incorporações começaram a prestar consultas para a assistência e, após algum tempo, ele passou a considerar esta também sublime tarefa bastante repetitiva e começou a ansiar por algo que ele nem sabia o que era, ainda está atento ao que digo?
— Sim senhor Exu!
— Então me permita continuar a história: o tempo passou e como já estava prescrito no desenvolvimento mediúnico do médium, ele começou a ser utilizado por seus mentores para trabalhar a favor da caridade em espírito durante as noites de sono e, após algum tempo, começou a considerar esta tarefa repetitiva, está me entendendo?
— Sim senhor!
Como o Exu calou-se e começou a fitar-me com olhos inquisidores eu perguntei a ele:
— Acabou a história senhor Exu?
— Sim!
— Posso lhe fazer uma pergunta?
— Já estava esperando!
—Eu gostaria de saber, se possível, o seguinte: porquê essa sensação de repetitividade recorrente na vida mediúnica do médium em questão?
— Por que ele se ilude querendo e ansiando sempre por um algo mais por considerar-se um iniciado.
— Meu Deus!!! Então quer dizer que este médium está sendo assessorado por espíritos mistificadores?
— Não cabra! Na verdade até mesmo um iniciado ele é, ele só precisa retomar o foco!
— Como?
— O foco cabra! Qual é o foco de qualquer tarefa, atividade ou trabalho umbandista?
— A caridade!
— Que bom você responder-me com uma afirmação ao invés de uma interrogação, pois isto significa que você não tem dúvida alguma no que diz respeito a isto.
— Mas se o senhor diz que o médium em questão é um iniciado por que também diz que ele encontra-se iludido?
— Por que toda e qualquer tarefa umbandista tem, aos olhos do Divino Criador, o mesmo valor. Não existe tarefa mais valorosa que outra: um cambone cuja meta é a caridade desinteressada está trabalhando por sua evolução o mesmo tanto que o chefe de um terreiro de umbanda se este labuta da mesma forma em favor da caridade. Você entende?
— Sim senhor!
— O valor do médium cuja entidade comanda uma roda de descarrego é o mesmo do que qualquer iniciado se ambos possuem no coração o desejo de ao próximo fazer o bem. Já estive em muitas tendas, casas, centros e terreiros de umbanda onde o valor equivocado de uma iniciação fez com que a vaidade e o inconformismo encontrassem acesso no mental e coração de muitos médiuns!
— Fazendo com que caíssem mediunicamente senhor Exu?
— Nem todos, mas fazendo com que trabalhassem com menos da metade da metade dos seus potenciais, certamente!
— Como assim?
— Imagine três operários que estão construindo uma edificação em comum. O primeiro não sabe o que será construído; o segundo sabe somente que será uma escola e o terceiro, além de ter consigo a mesma informação do segundo operário, sabe que não só os seus filhos, mas também os filhos dos seus dois colegas estudarão gratuitamente naquela futura instituição de ensino, entendeu cabra?
— Sim senhor Exu!
— Então eu lhe pergunto: os três ganharão o mesmo salário, mas qual deles provavelmente trabalhará com maior motivação?
— É muito mais provável que seja o terceiro operário!
— Pois bem cabra, todo médium umbandista está trabalhando a favor de uma edificação denominada EVOLUÇÃO ESPIRITUAL cuja matéria-prima básica é de conhecimento de todo médium e denominada CARIDADE, você entende?
— Sim senhor Exu!
— Então responda-me por que tantos médiuns umbandistas mesmo conhecendo as verdadeiras motivações que se deve ter para freqüentar a corrente mediúnica de um terreiro quais sejam, caridade e evolução espiritual, ficam tão ansiosos por uma iniciação a ponto de visualizarem o trabalho de fazer o bem ao próximo como repetitivo se isto não ocorre ou demora para acontecer?
Pensei, pensei e pensei, mas só consegui responder:
— Não sei senhor Exu!
— Mas eu já lhe disse hoje mesmo!
— A ilusão?
— Exatamente! Muitos médiuns vêem a iniciação de uma forma que não é a real.
— Como?
— Cabra, o que é um iniciado?
— Seria alguém que sabe manipular um mistério?
— A resposta, em parte, é essa. Agora diga-me: o que é uma iniciação?
— O aprendizado de como manipular um mistério?
— A resposta, também em parte, é essa. Agora responda-me uma última questão: qual o objetivo providencial de uma iniciação e dever moral e ético de todo iniciado?
Talvez lendo os meus pensamentos e vendo que eu estava "viajando" foi que o Exu disse a mim:
— Dê-me a resposta cabra, só não se esqueça de que Deus é simplicidade, assim como as coisas dele.
Foi aí que imediatamente respondi ao senhor Exu:
— A caridade!
— Gostei de ver outra vez cabra, pois novamente você respondeu-me com uma afirmação ao invés de interrogação.
— Entendo.
— É uma ilusão um médium deixar o desejo de fazer o bem esmorecer por querer alcançar algo que os seus próprios merecimentos não lhe facultam. Por que um cambone vai ter pressa de incorporar e esmorecer no desejo de fazer o bem quando ou enquanto isto não acontece se o ato de cambonar também é caridade?
— O senhor tem razão!
— Querer é uma coisa poder é outra ou, como disse Jesus, muitos são os chamados, mas poucos são os escolhidos.
— Como assim?
— O suposto médium da história que estava a lhe contar, lembra-se dele?
— Sim senhor!
— Pois eu lhe digo que ele está entediado em fazer o bem por julgar que está sendo demorada a sua iniciação. Acontece que ele mesmo está atrapalhando a sua própria iniciação por ter perdido o foco de que o objetivo principal dela é a caridade, quando este problema for resolvido a iniciação dele poderá ser iniciada.
— Entendo.
— Este Exu vê com muito desgosto quando um médium se enche de empáfia e vaidade para se dizer um iniciado disto ou daquilo. Manipular um mistério qualquer iniciado aprende, agora manipula-lo com maestria é para poucos: muitos os chamados e poucos os escolhidos, entendeu?
— Sim senhor Exu!
— O principal objetivo na manipulação de qualquer mistério para qualquer iniciado deve ser a caridade. Na verdade entenda que há muitos seres leigos em magia, mas que manipulam certos mistérios melhor do que muitos iniciados.
— Sério?
— Certamente. Imagine um brilhante professor universitário e responda se este é ou não um habilíssimo manipulador de parte do mistério do saber?
— Meu Deus é verdade!!!
— Imagine uma excelente e devotada mãe a cuidar zelosamente de sua prole e responda se esta é ou não uma habilíssima manipuladora de parte do mistério do amor?
— É verdade senhor Exu e a lógica também é impressionante!!!
— Esta mensagem eu posso dizer que é para todos, mas como estou ditando-a a você, peço que coloque-a em prática a cada dia de sua vida: mediunidade não torna ninguém melhor e iniciação não faz ninguém evoluir se não houver a prática da caridade pois, como já disse um grande iniciado no amor e saber religioso: " fora da caridade não há salvação!"
— Estou entendendo!
— E um médium, um iniciado deve labutar para tornar-se não melhor que os outros, mas melhor que ele mesmo, pois quanto mais bem ao próximo ele equilibradamente fizer, mais ele conseguirá evoluir moral e espiritualmente em direção a Deus, entendeu?
— Sim senhor Exu!
— Então salve cabra!
— Salve senhor Exu!

domingo, 17 de maio de 2009

A CONDIÇÃO ANÍMICA

Fazia frio naquela noite de inverno em que eu fora convidado, em espírito, a aprender mais um pouquinho sobre a misericórdia divina.
Fora uma belíssima mulher de meia idade quem fizera-me o convite fraterno: tinha os traços orientais; cabelos longos, negros e sedosos; a pele era de um moreno bem claro e as suas vestes assemelhavam-se com as de alguma antiga sacerdotisa do império Maia; a região do coração dela, por sua vez, irradiava uma brilhante e tranqüilizante luz violeta e eu, sem conter a admiração, disse a ela:
— Deus do céu, eu estava morrendo de frio!!!Mas, é impressão minha, ou desde que aproximei-me de você minha temperatura está voltando ao normal???
— Não é impressão sua.
— A senhora poderia dizer-me o porquê?
— Até que sim, mas só se você puder explicar por que não fez a ativação para a falange dos preto-velhos que nós lhe intuímos à tarde.
— Nós? Mas eu só estou vendo você, a senhora é uma preta-velha?
— Você não me respondeu!
— Eu não fiz a ativação por que parecia ser apenas uma idéia "da minha cabeça" e não uma determinação espiritual.
— Amigo, da próxima vez que surgir em sua mente a idéia de acender uma vela para a falange dos preto-velhos, faça!
— Mas, e se for só coisa da minha cabeça?
— Amigo, toda prece sincera feita com sentimento e fé sempre traz as bênçãos do Grande Espírito* na vida de quem a fez.
— Como?
— Se, por acaso, fosse uma coisa da sua cabeça, não seria o seu inconsciente pedindo uma prece?
— Sim, mas seria uma coisa vinda de mim mesmo!
— Exatamente, seria um recado do seu espírito expressado por seu inconsciente, ou você acha que seu espírito não pode dizer a você àquilo que você tanto precisa para ter cada vez mais condição de aproximar-se do amor do Grande Espírito Deus?
— Incrível a lógica!!! Nunca havia parado para pensar desta forma!!!
Ela sorriu para mim e eu resolvi dizer-lhe:
— É por isso que eu estava sentindo frio?
— O frio que você estava sentindo era proveniente da energia de dois espíritos desencarnados que estavam a lhe acompanhar desde hoje à tarde.
— Hoje à tarde? Mas eu procurei ficar a tarde inteira com pensamentos elevados!
— E eu sei que isto é verdade!
— Mas então....
— ...onde você esteve hoje a tarde?
— Fui ao banco fazer um depósito.
— Pois então, você trouxe estes dois espíritos do banco para sua casa.
— Mas como se eu não estava sintonizado com eles?
— Amigo você ainda não entendeu?
— Como?
— Todo médium é uma lâmpada!
— Como?
— Companheiro, se você fosse uma destas lâmpadas que existem no plano físico, qual tipo de compainha você gostaria de trazer para perto de si?
— Bem, penso que gostaria de trazer a mim àquelas pessoas que gostam de claridade, pois não atrairia nada que viesse a incomodar-me para perto de mim.
— Não?
— Penso que não!
— Nem mesmo aqueles insetos que são atraídos pela claridade das lâmpadas?
— É verdade!
— Você, enquanto lâmpada, teria como escapar deles?
— Não, a senhora tem razão!!!
— Entenda meu amigo, que a lei das afinidades é verdadeira, divina e justa! Pensamentos do bem atraem espíritos envolvidos com o bem e pensamentos maus atraem espíritos afins a eles.
— Mas eu procurei...
— ...eu sei amigo, sei que procurou ficar com pensamentos elevados.
— Então!
— Mas, em algum momento do dia de hoje, você sentiu tontura, dor de cabeça, indisposição digestiva ou algum mal deste gênero?
— Não!
— Sabe por quê?
— Por que procurei cultivar pensamentos positivos?
— Exatamente! E justamente por você ter procurado cultivar pensamentos desta qualidade no dia de hoje foi que nós direcionamos estes dois espíritos para que notassem a luz da sua lâmpada.
— Minha lâmpada?
— Isto, sua mediunidade! Você levou, sem saber, estes dois espíritos para sua casa por que na rua nós, através de você, não poderíamos fazer nada para ajudá-los.
— Estou entendendo!
— Ao chegar em casa nós lhe intuímos que você fizesse uma ativação para a falange dos preto-velhos, clamando, primeiramente ao Grande Espírito, que eles abrissem um portal de luz e que encaminhassem para dentro dele todo e qualquer espírito necessitado de auxilio nas moléstias de suas almas, não é verdade?
—Sim é verdade!!!
— Mas você, por não perceber a presença destes dois espíritos lhe acompanhando e, consequentemente, por estar sentindo-se bem, julgou mais prático pensar que era "coisa da sua cabeça" e nada fez do que lhe foi determinado.
— Sim é verdade!
— Assim, ao dormir e ter seu espírito desprendido parcialmente do seu corpo físico você trouxe para cá, mesmo sem saber, os dois espíritos que estavam lhe fazendo compainha.
— Meu Deus, então quer dizer que esta é a explicação para o afamado "frio espiritual"?
— Você, mais uma vez, tentando catalogar os fenômenos da criação divina de uma maneira tão rígida, não é meu amigo?
Confesso que corei de vergonha.
— Não precisa ficar encabulado meu amigo, peça apenas e sempre que o Grande Espírito ajude-o a desenvolver a virtude da sabedoria.
— Sim senhora!
— Você perguntou-me o porquê do frio desta noite e foi isto o que lhe expliquei!
— Sim senhora, mas...
— ...prossiga!
— Por que meu frio passou? A senhora abriu um portal e encaminhou os dois espíritos para o local de merecimento deles?
— Exatamente, mas com esta minha atitude você deixou de trazer mais luz ao seu espírito!
— Como?
— O que traz luz para o espírito?
— A prática da caridade.
— E se você, á tarde, houvesse feito a ativação não teria feito a caridade?
— Meu Deus, é verdade, mas eu não sabia!!!
— Nós sabemos que você não sabia. E o Grande Espírito permitiu que nós, a partir desta sua "ignorância", ofertássemos a você, neste instante, a oportunidade de fazer uma caridade.
— Meu Deus obrigado!!! Desta vez tenho fé que não falharei! O que a senhora deseja que eu faça? Uma ativação?
— Não, apenas dê um recado!
— Recado?
— Sim, diga a todos os seus irmãos de fé que busquem cada vez mais ficarem próximos do Grande Espírito por meio da oração.
— Sim senhora!
— Pois somente assim eles conseguirão alimentar e desenvolver a fé.
— Sim senhora!
— Pois somente com a fé fortalecida vocês conseguirão desenvolver a sabedoria, eliminar a dúvida e praticar mais a Lei de Caridade.
— A senhora me desculpe, mas que dúvida?
— A seguinte dúvida: acabo de ter uma intuição; será que é "da minha cabeça" ou trata-se de alguma determinação espiritual?
— Foi o que aconteceu comigo hoje!
— Na verdade, amigo, é o que acontece com a grande maioria dos médiuns que consciente ou inconscientemente vivem a combater a condição anímica como se esta fosse pedra de tropeço para a vida de um médium.
— Mas esta tal de mediunidade intuitiva é realmente muito complicada de desenvolver, de entender!!!
— Penso que oração e fé são remédios suficientes para curarem qualquer insegurança; de mais a mais, muitas vezes o animismo surge somente para que a consciência do espírito do médium possa manifestar-se e instruí-lo para o bem dele próprio.
— Não entendi muito bem.
— No seu caso de hoje, por exemplo, suponhamos que fosse animismo e que você fizesse a referida ativação para a falange dos preto-velhos pedindo que fosse aberto um portal e que por este fosse encaminhado todo e qualquer espírito necessitado de auxilio nas moléstias de suas almas, está acompanhando o raciocínio?
— Sim senhora!
— Então eu pergunto: o que seu espírito estaria querendo instruir para você?
— A necessidade de oração?
— Exatamente! Não se esqueça que a prece é o alimento do espírito!
— Mas usando o caso ocorrido comigo hoje como exemplo de animismo, seria notório o fato de que não haveria espíritos para serem encaminhados por este portal!
— Quem lhe garante?
— ...............
— Uma prece dirigida com verdade e sentimento para o Grande espírito nunca fica sem resposta. Ainda utilizando o exemplo do caso ocorrido hoje contigo percebe-se que notório é o fato de que estes dois espíritos em questão não seriam encaminhados portal adentro, mas será que são somente estes dois os espíritos desencarnados necessitados e merecedores de auxilio? Será que o Grande Espírito não encaminharia outros espíritos pelo portal aberto por você? Como afirmar que se conhece os desígnios de Deus?
— É verdade!
— Então, meu amigo, por caridade, dê este recado aos seus irmãos de jornada: animismo só faz mal, a priori, se estiverem associados a ele: egoísmo, orgulho, vaidade e fanatismo. Peça a todos que alimentem seus espíritos com a oração, pois só ela faz nascer o bom senso na mediunidade, sem matar a importância do animismo, você compreende?
— Sim senhora!
— Muito se fala de mediunidade e animismo como se uma fosse o trigo e o outro o joio, mas não é assim: ambos são o trigo de onde se pode utilizar o material para produzir o fermento da fé e o pão da sabedoria; joio são, repito: egoísmo, orgulho, vaidade e fanatismo, você entende?
— Sim senhora!
— Então, por caridade, vá e transmita o nosso recado e que o Grande Espírito abençoe a todos vocês, os nossos irmãos umbandistas!!!!!


* Grande Espírito : Deus



Mensagem de um irmão espiritual ditada a Pedro Rangel em julho de 2008

sábado, 11 de abril de 2009

UM JUREMEIRO





Um senhor muito simpático e com vasta cabeleira branca aguardava o meu desprendimento do corpo físico no momento do sono para que eu viesse a aprender algumas preciosas lições àquela noite.
Não consigo recordar-me de haver conhecido uma pessoa que irradiasse uma energia de simpatia tão grande quanto aquele senhor. Fiquei olhando impressionado em sua direção até quando ele me disse:
— Preparado esta noite?
— O senhor me desculpe, mas preparado para que exatamente?
— Para mais um aprendizado.
— Ah, sim senhor!!!
Foi o que sinceramente respondi, mesmo sem ter ainda a mínima noção de que aprendizado seria aquele.
— Você não está com medo, está?
— Não senhor, pois à medida que o tempo vai passando e eu tenho a divina oportunidade de aprender com os senhores, eu vou adquirindo confiança ainda maior em Deus e nos vossos trabalhos.
— Então, vamos juremar?
— Juremar?
— Sim, entender um pouco sobre o nosso trabalho.
— O senhor está me dizendo que é um juremeiro, é isso?
— Não seria melhor você aprender com os próprios olhos?
— Se o senhor acha que é melhor assim seguirei vossa determinação à risca.
— Então vamos!!!
Aceitei o convite prontamente e assustei-me quando percebi que, ao invés de estarmos nos dirigindo para alguma região de mata, adentrávamos um hospital situado no plano físico; penso que este meu estranhamento deve ter se manifestado em minha face, pois foi quando eu o ouvi dizer:
— Não estranhe companheiro, pois seu aprendizado se dará aqui mesmo dentro deste hospital.
Estávamos em um grande hospital onde, obviamente, pessoas com os mais variados problemas encontravam-se internadas e eu, apesar de não entender qual tipo de aprendizado eu poderia obter com um juremereiro naquele ambiente, respondi:
— Sim senhor, estou as suas ordens!
— Então me diga: se pudesse escolher, quais pacientes você desejaria curar?
Pensei um pouquinho e respondi:
— Pacientes com problemas no aparelho circulatório!
— Pois bem. Então passemos para a ala onde estão os internos cardiopatas!
Havia quarenta quartos neste setor e nós entramos em um deles quando o juremeiro disse a mim:
— Observe!
O juremeiro, primeiramente, aproximou-se do enfermo e passou um olhar perscrutador ao longo de todo o corpo deste, depois ele abriu uma espécie de pequena sacola que estava pendurada em seu ombro e, de dentro dela, retirou com a mão direita uma espécie de gel transparente que ele usou em beneficio do chacra cardíaco do paciente; então, instantes depois, o inacreditável ocorreu: a acompanhante do enfermo foi chamar a enfermeira as pressas por que o seu esposo estava melhorando.
Eu olhei espantado para o juremeiro que, sem pestanejar, levou-me a outro quarto.
Desta vez o juremeiro escolhera uma paciente do sexo feminino só que utilizou um pouco do gel na região da fronte ao invés do coração e o médico que neste mesmo instante, no plano físico, tirava a pulsação da enferma impressionou-se pelo fato de ela ter saído do coma após sete anos.
Saímos do quarto e acho que meu olhar suplicante de esclarecimento deve ter contribuído para o juremeiro dizer-me:
— Pode falar filho!
— Meu Deus, o que o senhor fez com estes dois pacientes?
— Eu não fiz nada!!! Esta paciente que acabamos de assistir só saiu do coma por que já estava na hora dela despertar e o mesmo eu posso dizer do paciente do outro quarto que visitamos anteriormente, ou você se esquece do fato de que não cai uma única folha de uma árvore se não for da vontade de Tupã?
— O senhor tem razão, mas e este gel? O que há neste gel?
— Deus!
— Perdão?
— Quem criou o prana dos vegetais?
— Deus!
— Então penso que você me entendeu.
— Entendi sim senhor, mas que erva tão poderosa é essa que acorda até uma pessoa do coma?
— Já lhe disse que nenhum poder é maior que a vontade de Tupã e que foi Ele quem despertou a paciente do coma.
— Sim senhor, perdão!
— Não há o que perdoar, há o que se entender!!!
— Sim senhor!
— Quanto ao gel desta bolsa, o prana, ele é formado de cada energia que o paciente estiver necessitado de receber.
— Como? O senhor está me dizendo que existem pranas das mais diferentes ervas ai dentro desta pequena sacola que o senhor carrega consigo?
— Não só de plantas, mas também frutas, frutos e legumes.
— Mas então, como eu só vejo o senhor retirar sempre o mesmo gel? Como esta sacola pode conter tantos pranas diferentes se ela me parece tão pequena?
— Filho, antes de ir lhe buscar esta noite eu colhi o prana que fosse suficiente para auxiliar na cura de trinta e cinco pacientes deste hospital e que meus superiores determinaram.
— Trinta e cinco! Mas...
— ...Antes de lhe buscar eu estive neste hospital junto com outros companheiros e auxiliamos trinta e dois enfermos.
— Se o senhor tem a ordem para curar trinta e cinco enfermos, curou trinta e dois deles antes de ir me buscar e mais dois desde que aqui estou com o senhor, isto quer dizer que ainda resta mais um enfermo a ser curado!
— Exatamente!
— Será que antes de auxiliar na cura deste irmão que está faltando o senhor poderia esclarecer-me uma dúvida?
— Bem, não serei eu quem auxiliará a este irmão, mas eu posso lhe esclarecer a dúvida, pergunte!
— É que o primeiro paciente com problemas circulatórios que o senhor auxiliou eu percebi e penso que entendi porque o senhor aplicou o prana na região do chacra cardíaco, mas eu não compreendi por que na paciente que encontrava-se comatosa o senhor passou o gel no chacra frontal, ao invés de aplica-lo no cardíaco.
— Veja bem. Não é por que uma pessoa está com problemas cardíacos que o chacra cardíaco será o único a encontrar-se debilitado.
— Ah é?
— Perfeitamente. Veja o caso da paciente que se encontrava comatosa, por exemplo: descobriu que fora traída pelo marido, mas não estava querendo analisar a situação com clareza para decidir qual a melhor atitude a ser tomada. Ao contrário, colocou toda culpa dentro de si e passou a desejar secretamente a morte. Veio para este hospital realizar uma cirurgia cardíaca onde o corpo dela não reagiu bem e a forma pensamento do desejo de morte auxiliou-a a tornar-se comatosa. Após sete anos sem assumir o corpo físico e tendo a prendido muitas lições faltava o último passo para que ela saísse do coma que é uma expansão na visão sobre a vida espiritual e foi por isso que eu apliquei o prana no chacra frontal.
— Deus, é extraordinário!!! Mas...
— ...Sim?
— O senhor disse que falta o auxilio fraterno para a cura de mais um irmão enfermo e que não será o senhor quem o auxiliará; então, quem será???
— Você!
— Como?Eu?Mas eu não poderia!!!
— Por quê?
— Por que não sei fazer, posso fazer errado!
— Você já amou?
— Já! Já amei e ainda amo muito!
— Pois o teu amor irá lhe guiar, tendo em vista que uma parte do conhecimento de como proceder encontra-se dentro de ti, é só você se permitir o despertar.
— O amor vai me guiar, mas como?
— A pessoa que já se foi do plano físico e que você mais amou no mundo foi o seu pai, não é verdade?
— É sim senhor!
— Quando você era criança o seu pai teve um princípio de enfarte e décadas depois veio a desencarnar por um problema circulatório, não é verdade?
— É sim, meu Deus o senhor sabe!
— Sim e também sei que foi por isso que você escolheu, quando perguntado, o setor de pacientes com problemas circulatórios para praticar a caridade esta noite, não é verdade?
— É sim senhor!
— Diga-me: qual foi uma das lições mais importantes que você aprendeu com o seu pai?
— A dar sempre o meu melhor na realização das tarefas.
— Então, você entende como o amor lhe guiará na tarefa que lhe cabe?
Ao invés de responder deixei que minhas lágrimas falassem por mim. O juremeiro foi extremamente respeitoso e aguardou que eu serenasse as emoções. Instantes depois foi que ele disse a mim:
— Você sabe para onde devemos nos dirigir, correto?
Assenti com a cabeça que sim e caminhei com passos resolutos para o quarto de número vinte e três. Fiquei de pé ao lado direito do paciente e perguntei ao juremeiro:
— E agora, como devo proceder?
— Feche os olhos e faça uma prece a Tupã.
Rezei e, estranhamente, ao abrir os olhos eu entendia claramente o que fazer: como aprendera naquela noite que apesar de um paciente estar com problemas cardíacos o auxilio não deveria ser aplicado necessariamente ou unicamente no chacra cardíaco, então eu deveria ter uma fé muito grande para sentir onde estava o problema no paciente, tendo em vista que eu não possuo a mediunidade de ver com os olhos espirituais.
Cerrei novamente os meus olhos e passei as duas mãos, sem tocar, ao longo do corpo do paciente e comecei a sentir uma energia muito forte na região do plexo solar do irmão enfermo então, involuntariamente, veio a minha mente a imagem de saião e boldo e eu estiquei a mão direita em direção ao juremeiro que, sorrindo, abriu a sacola e despejou um pouco do prana na minha mão.
Após ter ministrado o prana no paciente nós saímos de dentro do hospital e ele me disse:
— Fale meu filho, é importante que eu lhe responda uma última pergunta antes de ir embora.
— Quando o senhor colocou o prana na minha mão eu senti o odor de saião e boldo, quando o senhor ministrou o prana nos outros dois pacientes eu senti o cheiro de outras ervas como pode ser isto?
— Eu já não lhe disse que colhi o prana de certos vegetais antes de vir lhe buscar no sono físico?
— Sim senhor, mas como estes pranas diferentes podem ficar todos misturados dentro desta sacola e serem tirados de forma específica, e não tudo misturado, quando ele vai ser ministrado a alguém em especifico? Esta sacola do senhor é mágica?
— Sim!
— Verdade?
— Sim, este embornal tem a magia do divino mistério de Jurema, a força divina contida no astral vegetal.
— Meu Deus!!!
— Filho, o amor lhe guiou pelos caminhos da fé e este juremeiro fica feliz em pedir a Tupã por todos vocês, os filhos de fé, que encham as vossas vidas do amor excelso Dele, pois só o amor perdoa e só o perdão pode fazer vocês se amarem ainda mais e clarearem os vossos caminhos na estrada que leva em direção ao Pai Criador de todas as coisas. Muitas vezes o que os olhos não vêem só o coração pode sentir, nunca se esqueça disso meu filho!!!




Mensagem de um amigo espiritual recebida por Pedro Rangel em julho do ano de 2008.

segunda-feira, 16 de março de 2009

LIÇÕES DE SABEDORIA


Certa vez eu estava incorporado com um preto-velho que, naquele momento, prestava consulta a um jovem casal.
Conversa vai e conversa vem quando ele determinou que a companheira do jovem à frente dele passasse por um determinado tratamento espiritual a fim de resolver os problemas que afligiam o casal.
Acontece que enquanto o pai-velho explicava para a jovem os procedimentos do tratamento espiritual ele mesmo esclarecia-me mentalmente dizendo que o jovem também se encontrava com um problema espiritual que estava atrapalhando a vida afetiva do casal.
Quando perguntei sobre o que ele faria para tentar resolver o problema do jovem em questão, assustei-me quando ele respondeu:
— Nada!
Ainda estupefato ousei repetir a pergunta para ele:
— Desculpe vovô, mas como?
— Nada!
— O senhor por acaso poderia explicar o por quê?
— O que Nêgo véio pode fazer ele já tá fazendo, concentre-se no tratamento espiritual que Nêgo tá prescrevendo pra fia.
— Mas o senhor acabou de me dizer que o cônjuge dela também se encontra com problemas espirituais e eu não entendi o por que.
— Num entendeu o porquê de que, fio?
— O porquê de o senhor dizer-me que o jovem está com problemas se o senhor não vai fazer nada para tentar resolve-lo!
— Suncê quer aprender né fio?
— Com certeza!
— Mas muitas vezes fio, o aprendizado só vem com o tempo e se suncê se diz um eterno aprendiz da umbanda Nêgo num entende o porque da pressa.
— Mas...
—..... Fio, se Nêgo pudesse ele inté se estendia nessa prosa, mas é que os dois “fiados” na sua frente tão precisando muito de sua concentração para que Nêgo possa passar pra eles, através de suncê, um tratamento formoso para ajudar os dois “fiados” a resolver os problemas que os afligem.
— Sim senhor!
— Concentre-se fio, o importante é a caridade!
— Sim senhor!
E assim o preto-velho prescreveu o tratamento e pouco tempo depois ( a gira estava prestes a acabar ) desincorporou.
A gira terminou, os dias foram passando e aquele questionamento não saía de minha mente: por que o preto-velho dissera mentalmente a mim que o jovem atendido possuía problemas espirituais e nada fez para tentar solucioná-los?
Fiquei pensando porque, afinal, umbanda não é caridade? Então por que não exercer esta caridade para auxiliar a um irmão de jornada que necessite? Por que, tratando-se de um casal, só a mulher seria merecedora de caridade, se o homem também estava com problemas?
Os dias foram passando e eu, segundo minha forma de pensar, cheguei a duas conclusões: ou eu estava mistificando, ou os preto-velhos não faziam à caridade do jeito que deveriam, e como esta segunda alternativa é muito improvável conclui que, apesar de meus esforços para ser um bom médium, eu estava mistificando.
Esta conclusão estava deixando-me até mesmo deprimido, mas em certa noite tive um encontro que me emociona profundamente a cada vez que dele me recordo.
Neste encontro eu me vi andando por um campo enorme onde o gramado era tão perfeito que passava a impressão de ser um carpete.
Neste campo havia um único pé de arvore ( uma jabuticabeira ) e junto a ela, desfrutando de sua sombra e sentado em um toco também havia um preto-velho que estava a acenar para mim.
Procurei andar na direção dele e quando estava na sua frente eu o ouvi dizer:
— Pode sentar zifio.
— Obrigado vovô!
Assim eu o respondi procurando atender prontamente sua determinação.
— Suncê nem sabe como foi trazido aqui, né zifio?
— É vovô, como sempre não é?
— Suncê sabe onde está?
— Não senhor!
— Sabe o que veio fazer aqui?
— Não senhor!
— Quem sabe hoje num é o dia de suncê descobrir, né zifio?
— Descobrir o que vovô? O porquê de eu estar aqui?
— Não zifio, descobrir o porquê de suncê ser um eterno aprendiz!
— Desculpe, não entendi!
— Não se preocupe não zifio, imagine só com Nêgo uma determinada situação:
Imagine que suncê é um empregado doméstico responsável pela limpeza de uma residência.
Imagine também que sua patroa é uma fia extremamente rígida e ordenadora em relação ao cumprimento correto de suas funções enquanto doméstico.
Imagine ainda que essa patroa lhe faça uma única exigência em relação a suas atribuições na residência dela, dizendo que suncê nunca deveria varrer debaixo de um imenso tapete que fica na sala de estar.
Imagine por último que esta patroa do fio teria como saber, de uma forma ou de outra, se esta exigência estaria sendo cumprida a risca.
Eu estava com o pensamento firme nas suposições que o vovô passava para mim quando ele perguntou-me:
— Está imaginando zifio?
— Sim senhor!
— Então este Nêgo pergunta: suncê desobedeceria esta exigência?
— Não senhor!
— Por que não zifio?
— Por que ordens foram feitas para serem cumpridas!
— Muito formoso zifio!!! Nêgo gostou desta resposta sua!!!
— Verdade?
—Verdade. Agora continue a imaginar com Nêgo véio zifio:
Imagine que suncê um dia, só por curiosidade, resolva olhar debaixo do tapete e descubra muito lixo sobre ele. Nêgo então pergunta pro fio:
— E nessa condição, suncê desobedeceria à patroa e limparia debaixo do tapete?
— Não senhor!
— Mas imagine zifio: a casa toda limpa por suncê e com sujeira só embaixo do tapete; suncê não limparia a sujeira?
— Não senhor!!!
— Mas qualquer “fiado” que entrar neste casuá e olhar debaixo do tapete vai pensar que suncê num trabaia direito e pode até exigir que a sua patroa demita suncê. Suncê correria este risco?
— Sim senhor!
— E por que zifio?
— Por que a ordem foi dada por minha patroa e, certamente, ela deve saber o que está fazendo.
— Mas mesmo suncê cumprindo esta ordem ela lhe seria incompreensível, né zifio?
— Isto, de fato, eu não posso negar vovô!
— Mas esta incompreensão faria suncê, todos os dias de sua vida, ficar duvidando da capacidade de comando e de trabalho da sua patroa?
— Não senhor!
— E por que zifio?
— Justamente pela confiança que teria nesta capacidade de comando de minha patroa.
— Muito formoso zifio!!! Nêgo também gostou desta resposta sua. Agora Nêgo pede pra suncê imaginar uma última coisa:
Imagine que os únicos residentes desta casa que suncê trabaia como empregado doméstico sejam a patroa do zifio e o “ perna de calça” dela.
Imagine também que esta patroa, vendo toda dedicação e obediência de suncê em desempenhar suas tarefas, um belo dia resolva explicar pro zifio o porquê dela ter determinado a suncê que nunca limpasse sob o tapete.
Então zifio, imagine a patroa explicando a suncê que todo aquele lixo que suncê via debaixo do tapete era ali depositado exclusivamente pelo “perna de calça” dela e que ela sempre pedia a suncê pra nunca limpar ali embaixo por ela não achar justo que nem suncê e nem ela, que não produziram o lixo, limpasse a sujeira dos outros.
— Tá imaginado zifio?
— Sim senhor!
— Então Nêgo pergunta: suncê agora veria lógica na determinação de sua patroa a suncê em relação ao tapete?
— Sim senhor?
— Suncê limparia o casuá da patroa até mais satisfeito por ter entendido a exigência dela em relação ao tapete, né?
— Sim senhor!!!
— Mas entenda zifio que a explicação da patroa em relação a tal determinação só foi possível quando ela viu em suncê dedicação e confiança em relação ao seu trabalho, certo?
— É verdade vovô!!!
— Suncê tá entendendo aonde Nêgo quer chegar?
Penso que sim. Creio que quando o senhor atendeu àquele casal naquele dia e passou um tratamento espiritual apenas para a mulher eu deveria ter tido mais confiança em Deus e na forma de trabalho do senhor.
— Fio, entenda que Nêgo num sabe tudo, mas aquele pouquinho que Nêgo sabe ele sempre há de ir ensinando um bocadinho a suncê à medida que o zifio for evoluindo em moral e disciplina.
— Sim senhor!!!
— Entenda que muitas vezes nós, que suncês chamam de entidades, dá o peixe, mas o que nós prefere mesmo é ensinar suncê a pescar.
— Estou entendendo!
— Quando Nêgo passou o tratamento espiritual pra fia e não passou pro “perna de calça” dela, mas disse mentalmente a suncê que ele também precisava de tratamento, Nêgo só queria que suncê orasse por este “perna de calça” em todos os momentos que suncê fosse fazer uma prece a Zambi- Nosso-Pai.
— Acho que estou entendendo vovô!
— Este Nêgo tava tentando ensinar suncê a pescar, tentando ensinar pro fio que antes, durante e depois dos nossos atendimentos aos consulentes, suncês também devem ter responsabilidades para com eles, suncês também devem rezar por eles, suncês também devem exercer a tarefa de suncês na prática de fazer a caridade e ajudar os zifios que foram atendidos por nóis a encontrar o equilíbrio e a paz.
— O senhor tem razão vovô!!
— Nêgo pergunta com todo carinho: suncê fez isso alguma vez?
— O que vovô? Orar por aquele rapaz necessitado de auxilio espiritual?
— Isto zifio!
E eu, de olhos marejados, respondi:
— Não senhor!
— Não precisa chorar de tristeza por não ter entendido Nêgo antes, zifio. Se suncê tiver que chorar que sejam lágrimas que enquanto deslizam por seu rosto possam fazer subir a Zambi o seu desejo sincero de sempre crescer em sabedoria e humildade.
E eu, já transbordando emoção, respondi àquela entidade tão carinhosa e humilde:
— Sim senhor, vovô!!!
— Agora que suncê entendeu Nêgo véio, Nêgo pergunta pra suncê: suncê ainda quer saber por que Nêgo não prescreveu nenhum tratamento espiritual pro “perna de calça” daquela filha?
— Não senhor!
— Olha zifio, Nêgo inté que ia acreditar em suncê se não conhecesse um bichinho que vive no coração do zifio e que, algumas vezes, tanto dodói causa a suncê.
— Bichinho?
Perguntei eu preocupado e já pensando em alguma doença física.
— É zifio, um bichinho!
— Que bichinho vovô?
— O bichinho da curiosidade.
Deus do céu, como eu sorri neste momento!!! Engraçado é que o sorriso saia de meus lábios enquanto lágrimas de gratidão ainda caiam de meus olhos. Mas eu, é claro, não tive como negar e respondi ao preto-velho:
— É verdade vovô! Para ser sincero, sou mesmo bastante curioso!!!
— Nêgo sabe zifio, e é também por isso que Nêgo vai explicar pra suncê por que não passou tratamento espiritual pro “perna de calça” daquela fia.
— Sou todo ouvidos vovô!!
— Fio, voltando praquela história da patroa que Nêgo pediu a suncê pra imaginar é que Nêgo pergunta: que mérito o “perna de calça” da suposta patroa do fio teria se ela ou então suncê retirasse o lixo que ele acumulou debaixo do tapete?
— Nenhum!
— E com o passar do tempo o “perna de calça” da patroa do fio ia colocar mais lixo debaixo do tapete, né?
— É verdade!!!
— Ou seja, ele não ia aprender o valor da limpeza, né?
— Sim senhor!
—E ficaria a repetir o mesmo erro, certo?
— Certo!!!
— Então zifio, é por isso que Nêgo não passou tratamento espiritual pro “perna de calça” daquela fia que Nêgo atendeu: tratamento espiritual é para a limpeza dos fios que precisam e dele se façam merecedores. O “perna de calça” daquela fia ainda não entende o valor da limpeza espiritual e vive a empurrar pra debaixo do tapete do próprio coração dele as impurezas da infidelidade conjugal.
— Meu Deus!!!!
— O tratamento espiritual que Nêgo passou praquela zifia foi no sentido de estar isolando do espírito dela e do espírito do curumim que está no ventre dela ( e que ela ainda não sabe) as energias deletérias que o “perna de calça” dela constantemente traz pra elas e pro lar deles devido a essas companhias femininas nada edificantes.
— Deus do céu!!!!
— Este “lixo” da infidelidade é um lixo que nem suncê e nem este Nêgo pode tirar debaixo do tapete do coração daquele zifio.
— Compreendo!
— Aquele zifio tá precisando de tratamento espiritual não por que é infiel, mas sim por que esta infidelidade está trazendo companhias espirituais indesejáveis para o equilíbrio energético do zifio. Agora enquanto o zifio não desejar e procurar mudar, de fato, este comportamento espiritualmente inadequado de nada ia adiantar nóis passar tratamento espiritual, por que este ia restabelecer o equilíbrio energético do zifio, mas o zifio logo ia tratar de trazer mais sujeira pra debaixo do coração dele justamente por não valorizar a limpeza espiritual.
— Meu Deus, é impressionante!!!
— Então zifio, como Nêgo já disse antes, quando ele falou pra suncê que o “perna de calça” daquela fia que Nêgo atendeu tava precisando de ajuda espiritual, mas que não podia fazer nada, era simplesmente pra suncê orar pedindo as bênçãos de Zambi praquele fio, suncê não precisava saber necessariamente o porquê daquele fio estar precisando de ajuda, suncê só precisava fazer prece sincera a Zambi-Nosso-Pai pedindo por aquele fio e deixar a espiritualidade agir.
— Entendi.
— Então também entenda que serão as suas preces um, entre vários fatores, que ajudará àquele zifio a desejar limpar a sujeira do espírito dele.
— Sério?
— Claro zifio! Obrigação de rezar suncê num tem nenhuma, mas saiba que se suncê assim desejar agir acabará beneficiando por demais a vida daquele fio e a suncê mesmo, pois suncês só podem receber de volta apenas daquilo que ofertarem; além do mais zifio suncê não deve desprezar a força e o poder de alcance de uma prece equilibrada realizada com o coração.
E eu, boquiaberto, respondi:
— É verdade!!!
— Pois é zifio, Nêgo agradece a presença sua aqui neste dia tão lindo e neste campo tão formoso que inté parece um tapete.
— Vovô, eu é que lhe agradeço do fundo do meu coração, mas como o senhor tocou no assunto eu pergunto: que campo é este em que estamos?
— Essa será a última coisa que Nêgo vai responder pro fio, antes Nêgo precisa saber que pergunta é essa que tá fomentando aí na cabeça do fio.
E eu, mais uma vez boquiaberto pelo fato do meu íntimo ser tão aberto para aquela entidade, perguntei:
— O senhor tem algum recado?
— Nêgo tem sim zifio! Diga a todos os umbandistas que já trabalham com a mediunidade de incorporação que os “manos” são responsáveis pelos trabalhos pertinentes a eles, mas que suncês, os “cavalinhos”, também são responsáveis pelo bom andamento dos trabalhos que são realizados com todos os consulentes atendidos por esses manos!!!
— Sim senhor!!!
— Responsáveis não só pela concentração na hora em que os “manos” tão realizando estes trabalhos, mas também pelas orações em favor de todos os assistidos pela espiritualidade maior após o encerramento das giras.
— Sim senhor!!! Fique certo que transmitirei o vosso recado!!!
— Quanto a este campo em que nóis estamos zifio, Nêgo véio tem a dizer que não é suncê que tá visitando Nêgo em alguma esfera distante da terra, é Nêgo véio que veio ter com o fio numa localidade próxima a suncê.
— Como?
— Na verdade zifio, Nêgo véio fala que este campo pertence a suncê.
— O que? Este campo que parece um carpete pertence a mim?
— Claro zifio, Nêgo véio num ia mentir pra suncê!!! Nêgo só pede que pra debaixo deste “tapete” suncê nunca esconda nenhum tipo de lixo, certo zifio?
E eu, meio atônito, respondi apenas:
— Sim senhor!
— Então Nêgo já vai zifio, mas não sem antes esclarecer que este toco de carvalho e esta jabuticabeira são presentes que Zambi deu a Nêgo e que, portanto, são de Nêgo já este campo em que estamos é o campo que religiosamente representa o seu coração. Fique na força e na luz de Zambi-Nosso-Pai!!!!!
— Que assim seja!!!
Acordei, aos prantos, repetindo está última frase em cima do meu leito
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Mensagem ditada por um amigo espiritual e recebida por Pedro Rangel em 08/01/2008

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A VITÓRIA





Guilherme estava indo para o centro umbandista que freqüentava há pouco mais de seis meses e onde ocorreria, naquela noite, uma gira de preto-velho em que ele teria a gratificante oportunidade de cambonar mais uma vez a Pai Guiné do Congo.
Guilherme era um jovem universitário que procurava desenvolver as atividades do centro com a maior boa-vontade possível.
Auxiliava àqueles que eram atendidos pelo preto-velho e sempre, após o último atendimento, Pai Guiné solicitava ao jovem que sentasse a sua frente para trocarem alguns “dedos de prosa”. Eram nestes momentos que Guilherme mostrava à entidade o sentimento e a idéia de que ser umbandista é ser sempre um vitorioso, como podemos observar no diálogo que se segue:
— Salve Zambi, menino Guilherme! Como vai suncê?
— Salve Deus, Pai Guiné!!! Melhor do que estou seria impossível!!!
— E, por que, zifio?
— Desde que entrei na umbanda só conheci vitórias: minhas notas melhoraram, parei de farrear e encontrei uma menina incrível pra namorar que é médium da corrente deste terreiro.
— Olha zifio, Nêgo fica feliz com sua alegria no desabrochar de sua descoberta de qual é a real felicidade de ser umbandista.
— Olha meu pai-velho, para mim, ser umbandista é ser vitorioso sempre e, se Deus quiser, eu vou vencer ainda mais nesta vida!!!
— Zifio, de fato, ser umbandista é ser vitorioso sempre, desde que se saiba o que é vitória!
— Como?
— O que é vitória pra suncê, meu filho?
— Para mim vitória é vencer, alcançar aquilo que se quer!!!
— Suncê inté que ta certo, mas como se vai saber se aquilo que suncês quer, é aquilo que vai fazer suncês vencer???
— Não entendi!!!
— A sabedoria meu menino!!! É ela o instrumento com que Deus dotou cada ser humano afim de que ele, ao exercê-la, seja sempre um vitorioso em qualquer situação que enfrente na vida.
— Ainda não consegui entender, Pai Guiné!!! O senhor está meio enigmático hoje!!!
— Num se preocupe não zifio, pois nas forças de zambi no tempo certo suncê há de entender!!! Agora Nêgo deve dizer que tá muito ditoso com o namoro entre suncê e a “cavalinha” Gabrielle!
— Mesmo?
— Sim meu fio, pois ela é uma fia tão formosa que é capaz de fazer os zifios crescer moralmente só pelo fato de estarem juntos dela e aprenderem com seus exemplos práticos de amor, bondade e caridade!!!
— Para mim ela é quase uma santa!!!
— É por que suncê só tá vendo ela, nestes três meses de relacionamento, com os olhos do amor, mas em breve o tempo o fará vê-la como é: imperfeita, mas portadora de virtudes morais e edificantes!!!
— Se o senhor diz, eu acredito, mas será que eu poderia tocar em um outro assunto?
— Fique a vontade zifio!!!”
— É que eu gostaria de uma ajuda para alcançar mais uma vitória através da umbanda!
— Qual ajuda?
— É que eu estou muito interessado em uma vaga de estágio numa grande firma de advocacia!
— Vamos ver né zifio, pois só Zambi Nosso Pai é que pode todas as coisas!!!
Guilherme continuou cambonando a entidade e três semanas após o diálogo em questão podemos vê-lo travar uma nova conversa com Pai Guiné do Congo:
—Puxa vovô, eu estou muito feliz por ter obtido minha vitória!!!
— Conseguiu a vaga zifio?
— Graças a Deus, alcancei minha vitória!!!
— Peça sempre sabedoria a Zambi para que esta vitória não seja uma derrota na sua vida!
— Pode deixar vovô, pode deixar!!!
Um ano após esta conversa, encontraremos Guilherme a ter uma nova conversa com o preto-velho:
— Pai Guiné, continuo vencendo na umbanda, alcancei nova vitória!!!
— Como assim, zifio?
— Comprei um carro usado, mas que está tão bonito e ajeitado que parece novo, agora a vida vai ficar mais fácil com esta minha conquista!
— Zifio, peça sempre sabedoria a Zambi para que esta vitória não seja uma derrota na sua vida!!!
— Pode deixar vovô, pode deixar!!!
Três meses após esta prosa lá estava o jovem guilherme em mais um “bate-papo” com Pai Guiné:
— Vovô, é capaz até de o senhor ficar triste, mas eu consegui vencer de novo por meio da umbanda!!! Terminei com a Gabrielle e estou namorando com uma menina da minha turma na faculdade e que me entende melhor; o nome dela é Valquíria.
— Zifio, peça sempre sabedoria a Zambi para que essa vitória não seja uma derrota na sua vida!!!
— Pode deixar vovô, pode deixar!!!
Quatro meses depois Guilherme, abatido, estava novamente a dialogar com o pai-velho:
— Pai Guiné, tive minha primeira derrota desde que sou umbandista!
— Conta pra Nêgo o que aconteceu, meu menino!!!
— Olha, sem eu dar motivo algum, fui dispensado do meu estágio!!!
— Zifio, peça a Zambi nosso pai que faça você ver a vitória que esta derrota é na sua vida!!!
— Como?
— O umbandista é sempre vitorioso zifio!!! Lembra quando nóis conversou sobre isso?
— Lembro sim vovô! Pode deixar que eu vou fazer isto vovô, pode deixar!!!
Três semanas após, Guilherme está outra vez em frente a Pai Guiné a dizer-lhe:
— Pai Guiné, apesar das minhas rogativas a Deus o meu pai desenvolveu uma grave doença e não tem muitas chances de cura!!!
— E na visão de suncê isto é uma vitória ou uma derrota?
Guilherme pensou profundamente antes de responder a entidade, mas só conseguiu dizer:
— Desculpa Pai Guiné, mas para mim é uma derrota!
— Num precisa se desculpar zifio, Nêgo gostou da sinceridade!!! Mas peça a Zambi nosso pai que faça você ver a vitória que esta derrota é na sua vida!!!
— Eu vou fazer!!! Pode deixar vovô, pode deixar!!!
Cinco meses depois Guilherme está de frente a Pai Guiné para ter com ele aquela que, na opinião do jovem, seria a última conversa que teria com a entidade:
— Vovô, graças a Deus, o meu pai já está praticamente curado, mas é que eu acabo de sofrer a maior derrota da minha vida e vim até aqui comunicar ao senhor que vou pedir desligamento do terreiro hoje!!!
Guilherme chorava muito e o pranto era copioso. Pai guiné estalava os dedos enquanto aguardava as emoções do seu pupilo serenarem. Poucos minutos depois a entidade retomou o diálogo:
— Suncê pode dizer pra Nêgo que derrota foi essa meu fio?
— Para que vovô? Para o senhor dizer que a minha derrota é vitória?
— Se o zifio tá zangado e for pra aliviar a dor do seu coração, suncê ta autorizado a fazer malcriação com Nêgo até ficar aliviado, mas depois que suncê tiver falado tudo; Nêgo vai pedir silêncio para que suncê possa escutar tudo o que ele tem a dizer, tudo bem?
— Desculpe Pai Guiné, o senhor pode falar agora que eu escutarei!!!
— Suncê tem certeza?
— Sim senhor!!!
— Então Nêgo vai conversar com suncê, meu menino!!! O zifio tá zangado por que a “rabo-de-saia” Valquiria, vendo que não tinha mais o que sugar de suncê, terminou o namoro, não é?
Boquiaberto, Guilherme respondeu:
— Sim senhor!
— Suncê num tem mais o carro porque teve que vender para ajudar no tratamento do seu pai, não tem mais dinheiro por que está sem emprego; e sem carro e sem dinheiro ela não te quis mais, não é verdade?
— Sim senhor!
— E isto foi uma derrota ou uma vitória em sua vida?
— Agora com o senhor falando assim deste jeito eu, sinceramente, não sei!!!
— Então vamos começar do inicio, certo???
— Certo!
— Um tempo atrás suncê procurou Nêgo pra dizer que tinha conseguido uma vitória que Nêgo sentia que poderia ser uma derrota em sua vida, lembra???
— A vaga de estágio na firma conceituada de advocacia?
— Exatamente!!! Esta vitória não deveria, mas foi uma derrota na sua vida pelo que o motivou prioritariamente a alcançá-la!!!
— Como?
— Comprar um carro, não era o que suncê mais queria?
— Mas isso é ruim?
— Depende do que motiva prioritariamente uma pessoa a adquirir um carro, o que nos leva a segunda vitória que não deveria, mas foi uma derrota em sua vida!!!
— Como?
— Não foi o desejo ardente de impressionar Valquiria e tê-la apenas para si que o motivou prioritariamente a comprar o carro?
— Sim, mas isto é ruim???
— Zifio, isso levou suncê a terceira vitória que não deveria, mas foi uma derrota em sua vida!
— Como assim?
— O desejo de impressionar e ter para si uma mulher de beleza rara e extasiante foi o que fez você abrir mão do relacionamento com a fia Gabrielle, certo?
Boquiaberto, novamente, Guilherme respondeu:
— Sim senhor!
— Suncê abandonou uma fia que só fazia compartilhar para ficar com outra que só queria tudo pra si, isso foi derrota ou vitória?
— Meu Deus!!! Foi por isso que fui mandado embora do estágio: por estar fazendo tudo errado!!! Por isso eu tive minha primeira derrota!!!
— Menino Guilherme, aquilo que suncê chama de primeira derrota foi, na realidade, sua primeira vitória!
— Mas, por quê?
— Por que você estar desempregado proporcionou-lhe a oportunidade de assistir melhor e por mais tempo ao seu pai na ocasião do adoecimento dele!
— Meu Deus!!! Olhando por este lado eu vejo que o senhor tem razão!!!
— E, quando seu pai adoeceu, aconteceu aquilo que suncê chamou de segunda derrota, mas que foi, na verdade, sua segunda vitória.
— Vitória? A doença do meu pai foi vitória?
— Não, mas proporcionou-lhe uma sensibilização na sua vida que o ajudou a sentir e pensar a vida e o amor de uma forma moralmente mais elevada, ou não é verdade que você quase terminou o relacionamento com a Valquiria por três vezes, devido ao excesso de materialismo por parte dela?
— É verdade vovô, é verdade!!!!
— Suncê foi intuído por seus mentores para terminar o relacionamento com ela, mas como a beleza e o envolvimento carnal foram maiores que o seu bom senso, eis que suncê obteve a sua terceira vitória que foi o término da relação só que por iniciativa dela; e logo agora que suncê tá tão perto de conseguir uma vitória crucial pra sua evolução, suncê pensa em largar a sua fé? Nêgo num entende!!!!
— Vitória? Vitória sobre o que? Sobre o desemprego? Sobre o desamor?
— Não meu menino, nas forças de Zambi, há de ser uma vitória sobre suncê mesmo: sobre suas más tendências, sobre a ilusão da matéria e sobre sua ignorância acerca da beleza do espírito. Vitória não é só conseguir o que se deseja, pois se suncê pedir a Zambi e desenvolver a sabedoria, suncê verá a real vitória em todas as situações de sua vida: até mesmo nas derrotas aparentes, suncê entende meu fio?
— Estou entendendo vovô!!!
— Sem sabedoria vencer é só alcançar aquilo que suncês quer, já com sabedoria vencer é encarar as dificuldades da vida como oportunidades sagradas de Deus para a evolução de suncês, pois se isto for alcançado a vitória é certeira, mesmo que aos olhos do mundo seja a mais flagrante derrota, suncê entende?
— Estou entendendo, sim senhor!!!
— Por isso o verdadeiro umbandista vence sempre: por que pede sempre a Zambi que o faça enxergar todas as situações da vida com a visão espiritual da sabedoria!
— É verdade vovô!!!
— Neste mundo tão materializado e ilusório somente o olhar da sabedoria espiritual pode vislumbrar os caminhos que levam suncês a real vitória que, por sua vez, não é aquela sobre o próximo ou sobre a carne, mas sobre suncês mesmos, suncê entende meu menino?
— Sim senhor!!!
— Suncê ainda quer sair do terreiro pelo que lhe parece uma derrota? Ou quer continuar na sua fé aprendendo, a cada gira, a enxergar os fatos com a visão espiritual através dos “óculos” que vem da sabedoria infinita de Zambi nosso pai?
E com o coração e a mente transformados pela misericórdia de Deus foi que Guilherme respondeu:
— Eu fico com Deus, fico com o senhor, fico com Jesus, fico com os orixás, fico com a Umbanda e tudo com muita felicidade!!!!!
E talvez para trazer um pouquinho mais de paz para o coração de Guilherme, foi que Pai Guiné do Congo lhe disse:
— Vamos aprender a vencer sempre?
— Vamos, mas como?
— Fazendo aquilo que Nêgo explicou pra suncê: pedindo a Zambi nosso pai o desenvolvimento da sabedoria!
— Mas como é que se faz isso?
— Tem um jeito muito simples, que foi ensinado pelo próprio mestre Jesus!
— É uma prece?
— É!
— O senhor me ensina?
— A prece fio já conhece, agora o fio deve começar a fazê-la direcionando-a não mais apenas pela memória, mas pelo pensar e pelo coração. Suncê ta pronto?
— Sim senhor!!!
— Então vamos: feche os olhos, relaxe o corpo, esvazie sua mente, concentre-se nas batidas de seu coração e chame Deus para junto de si conectando-se a Ele através da seguinte prece:
“ Pai nosso que estais no céu,
santificado seja Vosso nome,
venha a nós o vosso reino,
seja feita a Vossa vontade,
assim na terra como nos céus....”