quarta-feira, 30 de julho de 2008

Esclarecimentos

Mensagem do Sr. Caboclo Sete Estrelas


Em um belo e claro dia de sol senti que estava descendo, sei lá de onde, em direção a uma extensa, frondosa e incomensurável região de mata.
Sentia em meu mental, enquanto descia, como se estivesse a discutir com certo alguém no sentido de estar querendo afirmar minhas convicções como únicas e absolutas. Na realidade, eu estava irredutível em minhas opiniões.
Percebendo este meu estado mental, senti como se algo me estivesse aterrisando na região central daquela extensa floresta.
Notei então ao pisar no solo e olhar para o alto que a maior parte da vegetação daquela floresta era composta por árvores tão altas e frondosas que a luz solar parecia brigar com as folhagens para ter a oportunidade de brilhar no solo. Ao olhar ao redor a sensação que tinha é que toda a floresta estava sendo iluminada por uma luz verde, que na verdade era o reflexo da luz forte do sol refletido pelas folhagens ao redor.
Olhei para a enorme vegetação e apesar de saber de sua enorme extensibilidade e de não ter muita afinidade com a região de matas eu sentia algo bastante estranho e inconfundível como se tivesse a plena certeza de como sair dali.
Na verdade eu estava me sentindo como se estivesse sendo submetido a algum tipo de prova espiritual, onde se eu conseguisse encontrar a saída da mata conseguiria minha aprovação.
Posso dizer que não me fiz de rogado e comecei a caminhar na direção que tinha a plena certeza de que era a mais apropriada para conseguir meu objetivo. Andei, andei e andei e apesar de sentir que o tempo passava, eu percebia como se isto não estivesse ocorrendo porque a sombra das folhas no chão não mudava de posição apesar de estar fazendo pelo menos umas três horas que eu já estava caminhando.
Andei ainda mais umas duas horas e fiquei estupefato ao perceber que eu inexplicavelmente havia retornado ao meu local de partida. Já estava com muita sede ( e apesar de sentir o tempo passar o sol no céu não mudava de posição ), e com as pernas pesadas mas não dei o braço a torcer e, após um breve intervalo, pus-me a caminhar novamente a procura de uma saída e de, mais imediatamente, algum coqueiro carregado de frutos para tentar saciar a minha sede.
Só não conseguia entender o porquê de uma sensação estranha ficar rondando o meu emocional desde a primeira vez que eu me pus a caminhar para tentar achar a saída da mata, que era uma sensação como se eu sentisse que, apesar de achar que sabia o caminho que levava a saída, fosse um erro em eu assim fazer.
Eu já estava sentindo um cansaço muito grande e misturado a ele um enorme calor que se confundia com a estranha sensação emocional que descrevi anteriormente e que me deixava ainda mais cansado e provavelmente deve ter sido por tudo isso que eu, ao me deparar com vários pés de guiné, pus-me de joelhos em frente deles e comecei a fazer uma prece fervorosa a Deus pedindo, ainda sem entender muito bem o motivo, primeiramente o Seu perdão e depois que me mostrasse o caminho até um local onde pudesse matar a minha sede.
Curiosamente após esta prece eu olhei para uma determinada região da mata e senti como se alguém invisível aos olhos estivesse a me indicar que aquele era o caminho que eu deveria seguir para ter minha prece atendida. Sem mais demoras eu me levantei de um salto e passei a caminhar em passos acelerados na direção indicada; andei, andei e andei até ter uma visão que me fez sentir o homem mais rico do mundo: um extenso rio caudaloso, de correnteza forte, cheio de pedras e mediamente largo de uma margem a outra. Na verdade nem pensei duas vezes e corri com toda velocidade até começar a saciar a minha sede na maior voracidade.
Somente após acabar com minha sede ( me sentindo o mais feliz dos homens ) foi que eu percebi que se quisesse encontrar a saída daquela mata, deveria tentar atravessar o rio a minha frente e, na realidade, foi o que eu tentei fazer, mas ao lembrar a enorme quantidade de pedras dos mais variados tamanhos e a força da correnteza além de, principalmente, o fato de eu não saber nadar, cheguei a conclusão de que não conseguiria passar para a outra margem. Já estava mesmo começando a ficar desesperado quando me lembrei de fazer uma nova prece, com todo o meu coração, pedindo forças ao Criador para alcançar o meu intento.
Passado alguns instantes após o término da prece eu, já sentado e recostado a uma árvore, passei a ficar olhando toda a extensão daquele rio quando, de repente, senti como se aquele alguém invisível estivesse à beira do rio a indicar o caminho até a outra margem; e foi com certo medo e muita prudência que me pus a pisar passo a passo onde eu percebia que deveria colocar os meus pés para, não me perguntem como, de fato, alcançar a outra margem.
A adrenalina na travessia do rio foi tão intensa que a minha fome chegou a um nível praticamente insuportável; engraçado que se antes eu reclamava do sol pelo fato dele nunca sair de sua posição no meio do céu, apesar de eu sentir a passagem do tempo; agora eu agradecia a Deus por tudo estar acontecendo desta forma porque se assim não fosse, naquele exato momento, eu estaria perdido porque certamente seria tarde da noite e eu não enxergaria um palmo a frente do nariz e foi daí que eu notei, mais uma vez, o fato de que, com certeza, Deus sabe o que faz.
E vislumbrar toda essa infinita sapiência Divina e o “roncar” de meu estômago ( que insistentemente não me deixava esquecer a fome que estava sentindo ), além de observar o fato de que toda a vez que eu dirigia uma sentida e verdadeira prece a Deus, Ele de alguma forma ( e de acordo com meus merecimentos ) acabava por me atender, foi o que me deu uma enorme força para, mais uma vez, dobrar meus joelhos no chão e Lhe direcionar uma prece pedindo que me indicasse um caminho onde eu pudesse aplacar a minha fome.
Pode parecer incrível, mas novamente senti um alguém invisível a me direcionar os passos e eu, apesar de já estar com as pernas fadigadas, recomecei a caminhar até ter uma visão que, para um faminto como eu, parecia um verdadeiro manjar dos deuses: inúmeras bananeiras completamente carregadas com frutos maduros.
Ainda senti este mesmo alguém invisível a me pedir que antes de me alimentar agradecesse ao Divino criador pela graça recebida, mas a minha fome foi maior e eu comecei a andar em direção aos frutos de meu desejo até visualizar, a poucos centímetros da bananeira mais próxima, algo que fez o meu sangue gelar por completo: era a materialização de meu medo de cobras representada na figura de uma temível cascavel. Fiquei imóvel e boquiaberto olhando para sua língua colocada para fora e observando o som do seu chocalho já extremamente arrependido por não ter ouvido a determinação da espiritualidade me pedindo para agradecer a Deus por ter encontrado as bananeiras antes de procurar me alimentar.
Sabia que se fosse picado ali seria certamente o meu fim e percebi finalmente que para mim não haveria outra solução a não ser pedir perdão a Deus pela minha intolerância e assim eu fiz com toda a fé de minha alma para, ao descerrar os olhos, notar que a cobra ainda estava a minha frente a me fitar; mas foi nesse instante que, de repente, escutei um estranho e arrepiante assovio para assustadoramente observar ( como se ela também tivesse escutado ) a cascavel sair de minha frente e mover-se em direção ignorada como se nada tivesse acontecido.
Muito provavelmente sensibilizado por este fato e por tudo que já acontecera até ali eu, antes de agradecer a Deus pelo banquete que estava prestes a degustar, primeiramente agradeci (com a face completamente banhada por lágrimas de alívio), pelo livramento recebido.
Após alimentar-me eu, com um medo extremamente terrível de encontrar algumas outras cobras pelo caminho, coloquei-me novamente de joelhos e fiz ardorosa prece a Deus dizendo a Ele que eu não sabia o caminho que me fizesse sair da mata e que justamente por isso, de onde eu estava não teria condições nem físicas, nem racionais e nem emocionais de me mover em direção alguma se não fosse com o Seu divino auxílio.
Alguns instantes após a prece ouvi em minha mente uma voz a responder o meu apelo:
— Que sem o auxílio divino você não consegue achar o rumo de sua vida e a saída de seus problemas nós já sabíamos e tentamos lhe explicar quando fomos buscá-lo esta noite durante o seu sono físico, mas infelizmente você não nos escutou. Pelo fato de estar acostumado com nossas companhias nos rituais de umbanda você nos desrespeitou ao desprezar nossas determinações e nos tratar como espiritualmente e moralmente iguais a você. Agora você quer sair da mata e nós vamos auxiliá-lo como sempre estivemos a fazer a cada vez que você, com extrema humildade, fazia uma prece ao Divino criador; acontece que você terá que sair de onde está com suas próprias pernas.
— Sim senhor.
— Entenda que nada disso teria acontecido se você não tivesse sido intransigente, prepotente e até mesmo arrogante.
— Sim senhor.
— Comece a caminhar e você encontrará o caminho da saída e, no final deste, nós estaremos a te esperar.
— Sim senhor.
E assim eu comecei a caminhar com toda a fé do meu ser e, estranhamente, após instantes que me pareceram breves, eu consegui vislumbrar a saída da mata e acelerei os meus passos até deixar a última das árvores para trás.
Olhei então para minha frente e vi que estava diante de um campo revestido inteiramente por gramas como se fosse um estádio de futebol em perfeita qualidade de preservação; coloquei, então, a destra por cima de minhas vistas para eliminar a interferência dos raios do sol e pude perceber que logo adiante de mim, sentados debaixo da sombra de vários pés de carvalhos que estavam muito próximos entre si, havia vários espíritos que eu, de alguma forma, sabia que eram as entidades que trabalham comigo na religião de umbanda.
Estes espíritos estavam a sorrir como se estivessem a me esperar, mas à medida que eu deles me aproximava isto estranhamente fazia com que os seus semblantes ficassem cada vez mais sérios.
Quando eu me aproximei efetivamente deles o espírito que aparentava ter mais idade falou para mim:
— Conseguiu né fio?!?! Não foi fácil, mas fio conseguiu.
Pelo timbre de voz eu percebi que era o mesmo espírito que havia se comunicado comigo mentalmente quando estava na mata, mas havia dentro de mim uma dúvida tão grande sobre tudo aquilo que eu acabara de vivenciar que, apesar de todo o respeito que eu devoto a estes irmãos do plano maior eu sentia que tinha o dever de buscar algum esclarecimento antes que enlouquecesse, e foi o que fiz:
— É meu irmão, graças ao bom Deus eu consegui sair, só que na verdade eu estou com algumas dúvidas que eu gostaria de esclarecer, o senhor me permitiria?
— Pode falar fio.
— É que quando eu ainda estava na mata o senhor me disse que veio me buscar no momento do sono para me trazer a uma região de mata que, por sinal, é o ponto de forças da natureza com o qual eu tenho menos afinidade, e eu ainda não consegui entender o que o senhor gostaria de alcançar com tudo isso.
— Eu posso te explicar fio. Foi assim: eu junto com alguns companheiros espirituais afins fui buscá-lo em espírito esta noite e lhe explicamos que o que queríamos com a nossa visita é ensiná-lo como deve ser o procedimento mental, emocional e espiritual de todo médium enquanto uma entidade estiver se utilizando de seu corpo físico durante a incorporação; só que ao invés de tentar realizar o nosso intento em algum tipo de sala de aula, nós julgamos por melhor ensina-lo através de um ponto de forças da natureza que, no caso, é a região de mata, entendeu?
— Sim senhor, mas porque eu fui deixado sozinho em um ponto de forças da natureza com o qual eu não tenho afinidades?
— Engano seu companheiro, a região de mata pela qual você passou lhe é intimamente afim e particular; e lhe digo mais: você é a única pessoa no mundo que já viu e que poderá ver a região de mata pela qual atravessou.
— Verdade???
— Verdade e sabe por quê?
— Não senhor.
— Pois então eu lhe explico: é porque esta região de mata não existe no plano físico, ela é, antes, uma representação da essência vegetal que existe dentro de todo ser humano, e esta noite eu achei por melhor tentar faze-lo conhecer qual é o estado mental, físico e espiritual que todo médium deve ter enquanto está incorporado através da essência vegetal que lhe é particular. Acontece que no momento que você ouviu de nós que a lição da noite de hoje seria “Comportamento ideal de um médium durante a incorporação” e que para realizá-la nós plasmaríamos uma região de matas que representasse sua essência vegetal você, pela excessiva empolgação e por achar que já está bastante acostumado com o processo de incorporação, não quis escutar nossas orientações e passou a dizer que, se a região de matas seria plasmada a partir de sua essência vegetal, você então seria capaz de sair da região de matas de olhos fechados. Nós não lhe fechamos os olhos, mas devido ao seu terrível ato de intolerância e até mesmo de vaidade, nós lhe deixamos na região de mata por conta de suas próprias forças. Quando você, aos poucos, começou a recobrar a divina virtude da humildade ao longo de sua jornada, pôde, assim, sentir nossa presença e encontrar a saída da mata que, na realidade, como já dissemos, lhe é infinitamente particular.
— Meu Deus isto é inacreditável. Chegaria a dizer que é até mesmo impossível ou loucura se não tivesse vivenciado por mim mesmo.
— Nunca se esqueça de se lembrar fio e nem de falar a seus irmãos de religião que mesmo que vocês tenham décadas e mais décadas de contato com o mundo espiritual através da incorporação, na hora deste divino momento, o mais importante é vocês esquecerem toda impetuosidade desmedida, toda vaidade descabida e toda interferência indevida nos trabalhos e falas que as entidades incorporadas tenham a realizar. Toda vez que uma entidade incorpora é como se vocês e ela estivessem entrando em uma região de matas onde, se vocês quiserem extrair dela todos os sumos, sucos, ungüentos, benefícios e ensinamentos possíveis e saírem de seu território bem tanto fisicamente, quanto emocionalmente e mentalmente ao final de cada incorporação, devem seguir o humilde conselho que este caboclo como porta-voz de uma coletividade de espíritos com quem você tem afinidades, está a lhe comunicar: a incorporação é um momento divino que exige dos médiuns humildade, tolerância, sabedoria, disciplina e paciência. Sigam este singelo conselho e vocês terão todos os instrumentos para serem bons médiuns.
E como se já houvesse falado tudo que havia para ser dito o amigo espiritual bateu as mãos duas vezes e eu, na mesma hora, acordei espantado em cima da minha cama.


Postado por Pedro Rangel T. Sá

quarta-feira, 9 de julho de 2008

A Pomba-gira da vida

Mensagem de uma guardiã



Certa vez eu estava andando pelas ruas, a altas horas da madrugada, pensando na vida e nas coisas pertinentes a ela quando, perto de uma encruzilhada, uma imagem chamou sensivelmente minha atenção: era uma mulher extremamente bela, dessas de corpo perfeito, olhos esverdeados e cabelos negros, sedosos, ondulados e que chegavam à altura da cintura.
Confesso que com estes nossos tempos de violência desenfreada fiquei, primeiramente, muito preocupado com a segurança da moça que era mesmo extremamente linda, mas depois fiquei mesmo preocupado é com a minha segurança porque, afinal, e se a bela moça, poucos metros a minha frente, fosse a isca para uma armadilha de assalto? E se a moça fosse a própria assaltante? E se nós fôssemos vítimas de alguma violência? E se......
— ....Moço, por favor, não tenha medo pode se aproximar.
Eu estava realmente receoso de aceitar o convite e confesso que cheguei até mesmo a pensar em dar meia volta e sair correndo com todas as forças de meu ser, mas o seu olhar ao fazer o convite fora tão enfeitiçador que não pude resistir e acabei me aproximando.
Ao chegar mais perto ela me fez um convite minimamente inusitado pedindo que eu ficasse ao seu lado e aguardasse alguns instantes, porque em pouco tempo ela começaria a receber algumas pessoas.
“ Tô lascado meu Deus do céu”, foi o que pensei já imaginando que aquela mulher era dessas de vida fácil. Mas só foi eu pensar nisso que ela virou-se para mim e deu um sorriso tão maravilhoso com seus dentes alvos e sua boca perfeita que meu corpo, assim, começou a aquecer-se e a ficar todo arrepiado!!! Pode parecer até loucura, mas eu tinha a nítida sensação que ela podia ler os meus pensamentos.
Pensei em perguntar o seu nome não no intuito de paquerá-la já que sua imagem provocava em mim um tremendo respeito, mas sim com o intuito de iniciar algum tipo de entendimento, só que eu não conseguia por que qualquer olhar, sorriso, gesto ou fala que ela me direcionava despertava em meu emocional emoções tão reais, intensas e indescritíveis que, temendo explodir meu coração eu preferi silenciar.
— Está vendo moço, disse a bela mulher expulsando meus pensamentos, está chegando meu primeiro convidado; não se preocupe que todos aqueles que aqui vierem a ter comigo serão incapazes de lhe enxergar.
Eu balancei a cabeça assentindo que estava tudo bem, apesar de estar achando tudo muito estranho, e procurei ficar bem atento com a conversação que estava para se iniciar.
— Boa noite, moço!
— Boa noite dona....
— Você está fazendo um curso pré-vestibular, mas de algumas semanas pra cá você não tem conseguido se concentrar nos estudos, certo?
— É, é isso mesmo!
— É só você ameaçar pegar os seus livros para estudar que você começa a sentir um sono terrível, não é?
— Sim, disse o jovem rapaz que não deveria ter mais do que dezessete anos.
— Olha moço eu estou autorizada a te dizer que você está com problemas nos campos do conhecimento e necessitado de estimulação nesta área, mas também que se você quiser melhorar eu tenho permissão pra te ajudar, tudo bem?
— Sim, tudo bem!
Neste momento a bela mulher fechou os olhos como se estivesse a fazer algum tipo de oração e entrelaçou os dedos das duas mãos posicionando as palmas voltadas para o solo; então uma espécie de luz azul-claro bastante irradiante surgiu em suas mãos e ela as depositou em cima dos joelhos do jovem; este deu um suspiro profundo e, como se fosse feito de fumaça, desapareceu da minha frente.
A linda moça, então, colocou as duas mãos nos quadris e soltou uma gargalhada que arrepiou todo o meu corpo. Em breves instantes uma outra pessoa já se encontrava em frente da bela mulher, desta vez era uma pessoa do sexo feminino por volta de seus quarenta e cinco anos.
— Boa noite, moça !
— Boa noite dona.....
— Hoje você está aqui comigo em busca de um equilíbrio na sua vida por que seu ex-marido está judicialmente tentando tirar de você a guarda de seu único filho, ou seja, um problema nos campos da justiça, certo?
— É isso mesmo!
— Tenho permissão para te ajudar, peço que feche os seus olhos e se concentre, tudo bem ?
E dizendo isto a bela mulher novamente fechou os olhos e entrelaçou os dedos das duas mãos posicionando as palmas voltadas para o solo; e outra vez, após estas terem tomado uma coloração azulada, ela as colocou em cima do joelho da simpática dama. Esta também deu um suspiro e desapareceu diante de minhas vistas. Então a bela mulher soltou mais uma gargalhada e me pediu que prestasse bastante atenção porque naquela noite, por parte dela, eu só escutaria mais cinco gargalhadas. Eu assenti com a cabeça dizendo que sim e pude perceber que estava chegando mais uma pessoa, desta vez um homem com aproximadamente trinta anos.
— Boa noite, moço!
— Boa noite dona.....
— Hoje você está aqui por que está se sentindo perdido na vida, sem senso de direção, ou seja, depois de tanto bater cabeça querendo que o Divino Criador fizesse a sua vontade você percebeu que tudo foi inútil e agora deseja submeter-se à vontade Dele, assim como também deseja que Este dê um rumo à sua vida resolvendo este problema nos campos da lei, certo?
— Sim, é isso!
— Bem moço, para sua felicidade eu tenho a permissão de te ajudar, feche os olhos, tudo bem?
Dizendo isso, novamente a bela mulher concentrou suas mãos tomadas de uma coloração azulada e as depositou em cima do joelho do rapaz; depois ela deu mais uma gargalhada e se ajeitou para conversar com a próxima pessoa que, por sua vez, era uma senhora com uns cinqüenta anos de idade.
— Boa noite, moça!
— Boa noite dona.....
— Apesar dos insistentes esforços em estar lhe esclarecendo você está aqui mais uma vez para reclamar sobre os membros da congregação religiosa a qual pertence e para, mais uma vez, dizer que a fofoca está demais e que está perdendo a fé porque não consegue entender como o Divino Criador pode permitir tanto ti-ti-ti dentro de uma Casa de Oração, certo?
— Sim!
— Este já é o décimo-primeiro templo religioso que você procurou para freqüentar em menos de doze meses, certo ?
— Certo.
— Bem moça, a ajuda que eu posso te oferecer é no sentido de estar desiludindo o seu sentido de religiosidade, de estar lhe esclarecendo o fato de que não existe a instituição religiosa perfeita porque perfeito só o é o Criador, tentando, assim,resolver este problema nos campos da fé, você aceita minha ajuda?
— Sim!!!
E a bela mulher depositou suas mãos coloridas de uma belo azul em cima do joelho da senhora com quem conversava para, logo depois de realizado este trabalho, soltar mais uma gargalhada.
Instante depois já estava à frente da bela mulher um senhor por volta de seus cinqüenta anos de idade, ela o cumprimentou:
— Boa noite, moço!
— Boa noite dona....
— Você tem tudo para estar feliz, não é moço? Dez anos de casamento, um belo filho, uma esposa dedicada, um ótimo emprego e dois belos carros. Contudo, já faz mais de dois anos que você tem a nítida impressão que sua vida está parada, não é? O que antes você fazia com prazer hoje você parece que faz obrigado. Mesmo não tendo deixado de gostar das coisas que você sempre gostou você tem a percepção de ter perdido por elas todo o apreço, não é?
— Sim!
— Olha moço, isto acontece com você porque você está apatizado nos campos da caridade. É necessário perceber que dar o conforto àqueles que amamos é importante, mas cuidar daqueles que são nossos irmãos por paternidade Divina é essencial para se alcançar o caminho da evolução que leva ao Divino Criador, você não acha?
— Sim!
— Deseja seguir o caminho da caridade?
— Sim!
— Então feche os olhos!
E dizendo isto a bela mulher colocou suas mãos encantadoramente coloridas de azul em cima do joelho do senhor com que acabara de conversar e, logo após, soltou mais uma gargalhada.
Imediatamente apareceu à frente da bela mulher uma mocinha por volta de seus vinte e três anos de idade e que se encontrava com os olhos inchados e molhados de lágrimas.
— Boa noite, moça!
— Boa noite, dona.....
— Anime-se moça, depois de três longos anos parece que você recebeu a benção de ser mãe, não alimente a dúvida e a incredulidade, pois em pouco tempo você será agraciada com a oportunidade de estar gerando dentro de si a vida de um belo rebento. Estou aqui para dar início à preparação de seu corpo físico e espiritual, nas atribuições que me competem, para que você possa praticar o divino sacerdócio da maternidade, finalizando, assim, este problema nos campos da geração da vida, tudo bem?
— Sim!
— Então feche os olhos.
E dizendo isto a bela mulher colocou suas mãos qualificadas com azul anil em cima do joelho da jovem; esta deu um suspiro profundo e, da mesma forma imediata que chegou ela foi-se. A bela mulher, então, colocou as duas mãos na cintura e deu mais uma gargalhada.
A seguir, a frente da bela mulher, surgiu uma pessoa do sexo feminino por volta de seus trinta e cinco anos.
— Boa noite, moça!
— Boa noite, dona.....
— Pois é moça, quanto sofrimento por um sujeito que, como homem, não mereceria nem o seu respeito quiçá um de seus maiores tesouros e de todas as mulheres que é o seu sentimento de amor. Não adianta você ficar insistindo em querer ficar voltando pra ele, ele está em sintonia com outras coisas, procure você sintonizar-se com o Criador. Insistir não vai adiantar nada, chorar também não; você precisa é agregar novos valores e conceitos em sua vida, principalmente em seu emocional, e será a partir deste acontecimento que você retomará seu equilíbrio emocional e evoluirá nos campos do amor, certo?
— Sim!
— O Divino Criador hoje lhe concedeu a oportunidade de estar readquirindo a paz em seu coração por meio de meus atributos e atribuições, e de assim ser resolvido este seu problema nos campos do amor, você assim deseja?
— Sim!
— Então feche os seus olhos.
Então, dizendo isto, a bela mulher depositou as suas mãos tomadas por uma tonalidade azul em cima do joelho da pessoa com quem conversava e esta, assim como todas as outras anteriores soltou um profundo suspiro e desapareceu. A bela mulher, assim, colocou suas mãos sobre a cintura e, pela sétima vez, pôs-se a gargalhar.
Então, instantaneamente, apesar de saber que ainda estava na encruzilhada, eu tive a sensação de que estava em um outro lugar. Tudo isto eu estava a pensar sem tirar os olhos dos belos olhos da bela mulher. Ela, então perguntou pra mim:
— Então moço, já descobriu quem eu sou?
— Sim, creio que a senhora é uma entidade da umbanda conhecida como Pomba-gira.
— Exatamente! E você sabe o que veio fazer aqui?
— Observar a senhora atender várias pessoas?
— Com que finalidade?
— Ah, isto eu não sei. Eu só sei que via a senhora esclarecendo as pessoas para depois oferecer a sua ajuda, digo, aquela que está no campo de suas atribuições e atributos. Daí então a senhora fechava os olhos, cruzava os dedos das mãos voltando-as para o solo e após elas ficarem azuis a senhora as depositava nos joelhos das pessoas. Agora a finalidade eu não sei por que não entendi o “lance” da cor azul.
— Bem moço, noto que você é curioso, mas vamos por partes: Primeiro, ao fechar os meus olhos, como você bem observou, eu evoco o mistério da linha de umbanda a qual eu estou fatorada; desta forma parte do meu mistério você percebeu como uma coloração azul opalina que viu em minhas mãos ao qual eu procuro honrar e trabalhar depositando-as em cima dos joelhos dos assistidos para que este meu mistério possa alcançar os chacras e sentidos que estiverem problemáticos.
— Mas por que a senhora trabalha na irradiação energética de parte de seus mistérios as pessoas através dos joelhos delas?
— Moço, não sou apenas eu, mas toda pomba-gira trabalha desta forma e isto se dá pelo fato dos joelhos serem a melhor porta de acesso para realizarmos nosso trabalho.
— Como assim?
— Bem moço, toda pomba-gira trabalha através do chacra básico das pessoas, porque ele é a porta de acesso mais direta para estarmos estimulando os chacras que estiverem mais necessitados, é por meio dele que podemos trabalhar os demais e os joelhos são a forma de contato mais prática de estarmos acessando o chacra básico, entendeu?
— Mais ou menos.
— Bem moço, vou te dar um exemplo. Você notou que uma das pessoas que eu assisti esta noite encontrava-se “com a vida ganha”, mas desmotivada de estar realizando as tarefas mais básicas de sua vida, certo?
— Sim.
— No caso desta pessoa a desmotivação era proveniente de sua apatia nos campos da caridade; ou seja, ela pouco realizava em benefício do próximo estando, assim, apatizado nos campos da evolução porque é a caridade a maior responsável pela evolução do espírito, certo?
— Sim.
— Pois bem, detectado o problema e tendo permissão do Criador para resolvê-lo eu poderia até evocar o meu mistério e impor diretamente minhas mãos em cima do chacra que é regido pela linha de umbanda responsável pela evolução, mas sendo eu uma Pomba-gira, ou seja, um espírito estimulador dos desejos e, de certa forma, até mesmo da vida, tendo em vista que sem desejos um ser humano não vive, nada mais pertinente para eu realizar o meu trabalho do que irradiar as minhas energias pelos joelhos do assistido, que é onde se reflete a energia do chacra responsável pelo sétimo sentido da criação Divina ou, se você quiser, o chacra da vida que é o chacra básico. Entende?
— Sim senhora.
— Após o chacra básico do assistido em questão ter absorvido a energia doada por mim este chacra conduz esta energia naturalmente para o chacra umbilical afim de que este irradie a energia de transmutação que foi por mim estimulada. Enfim, entenda que nós, as pomba-giras, temos a nossa forma de trabalho e devemos segui-la a risca se quisermos trabalhar pelo Criador junto à religião de umbanda, entendeu?
— Sim senhora!
— Bem, isto entendido deixe eu lhe explicar sobre a coloração de minhas mãos que, aliás, reside no fato de meu mistério estar fatorado na linha de umbanda que é responsável pela geração da vida então, quando eu evoco o mistério, junto com ele vem uma coloração que representa este mistério que, no caso, é a azul-claro, entendeu?
— Sim senhora. Isto quer dizer que as Pomba-giras irradiam uma energia estimuladora, é isso?
— Exatamente. Cada uma de nós irradia uma energia que estimulará aquilo que estiver dentro de nossos atributos e atribuições.
— Como assim?
— Isto varia bastante.
— Perdão? Não entendi!
— Você é curioso, não é moço?
— Sim senhora.
— Tentarei lhe esclarecer até onde você tenha condições de entender. Eu, por exemplo, sou uma Sete Ondas, ou seja, uma Pomba-gira que atua nas sete linhas regida pelo mistério Yemanjá logo, uma de minhas atribuições é estimular a geração nos sete sentidos da Criação Divina
Após responder esta ultima pergunta ela ficou fixamente olhando em meus olhos sem dizer absolutamente nada. Somente após um breve período foi que ela retomou o assunto:
— Moço está quase na minha hora e desejo ouvir de ti uma última pergunta antes de ir embora.
Fiz então a pergunta derradeira:
— Eu gostaria de saber por que até o momento que a senhora atendia a sétima pessoa eu via claramente que estava em uma encruzilhada ao passo que após o instante que você deu a sétima gargalhada eu, apesar de ver fisicamente que estou na encruzilhada, de alguma forma sinto como se não estivesse, por quê?
— Bem moço, eu só posso lhe dizer que antes do fim do atendimento da sétima pessoa nós estávamos na encruzilhada, que é meu ponto de atuação aí na terra, sem que eu precisasse sair de meu campo de atuação aqui no astral; após o término deste atendimento eu te trouxe no meu campo de atuação aqui no astral sem você precisar sair de meu campo de atuação no lado material.
Eu ia dizer a ela que não havia entendido a resposta, mas ela, parecendo estar novamente lendo meus pensamentos, ainda pôde me dizer.
— Sei que você não captou de forma global o que eu lhe respondi, moço. Mas não se preocupe com isso por que não vou ter nem mesmo a oportunidade de lhe responder. Só te peço um último favor: diga a quantos forem preciso que eu sou uma Pomba-gira da vida. Sim, diga a todos que eu existo! Existo para estimular, de acordo com a vontade do Divino Criador, em todos os seres necessitados a geração de energias que beneficiem os sete sentidos da criação divina. Diga a todos que quando de mim precisarem é só me evocarem que eu , de acordo com a permissão do Divino Criador, estarei em Seu santo nome e em nome da divina mãe Yemanjá a estimular a geração de conhecimento,justiça,lei,amor,fé,vida e evolução na vida e no lar de todos quantos a mim clamarem.Você pode fazer isso ?
— Sim!
— Boa noite, moço.
— Boa noite dona.....



Mensagem recebida por Pedro Rangel T. de Sá


sexta-feira, 13 de junho de 2008

A VERDADEIRA HUMILDADE

Mensagem de um preto-velho








Escrita por Pedro Rangel T. Sá

Estava eu em um terreiro de umbanda intensamente acolhedor participando de uma Gira de Preto-velho, preste a terminar, quando uma Entidade desta linha de trabalho umbandista convidou-me a sentar em sua frente.
— Saravá zifio! Suncê é o ultimo filho de Deus que Nêgo atende no dia de hoje, mas tem nada não né fio por que muitas vezes os últimos acabam sendo mesmo os primeiros, não é?
— É verdade Pai, mas é que eu não estou entendendo uma coisa.
— Calma fio, este Nêgo já escuta suncê, mas antes gostaria de lhe dar um presente.
— Presente?
— É fio! Nêgo pode?
— Por favor, meu Pai, fique à vontade!
— Pois então Nêgo pede que suncê jamais se esqueça que o presente é somente pro fio e que este presente é umas palavras que escrita neste pedacinho de papel.
A Entidade estendeu sua destra para me entregar o papel e, quando fiz menção de abri-lo, disse para mim:
Fio, Nêgo pede a suncê que não abra este presente agora não senão ele vai ficar envergonhado.
— Sim senhor.
Nêgo pede, antes, que suncê dê um presente a ele perguntando o que suncê não entendendo.
— Bom meu Pai, o que eu não estou entendendo é que sempre que visito algum dos Senhores em alguns momentos do sono físico fico como se fosse um repórter: olhando e pesquisando tudo que me for permitido relatar posteriormente na forma de mensagens.
— E o que o fio não entende?
— É que, pelo o que eu estou entendendo o senhor vai me dar uma consulta, não é isso?
— Não fio, Nêgo só quer agradecer suncê!
— Ah, ta!
— Mas se Nêgo fosse dar uma consulta suncê ia achar ruim?
— Não. Eu só iria achar estranho e inusitado, pois isto, conscientemente, nunca aconteceu, antes, em um sonho.
Fio, permita-se viver e descobrir as novidades e a dinâmica da vida sem transformá-las em uma fórmula. Não é por que algo nunca aconteceu com suncê antes que não poderia acontecer agora, certo?
— O senhor tem razão.
— Nunca queira dizer que sabe tudo da religião que suncê professa pelo fato de ver os fenômenos acontecerem sempre da mesma forma. Ponha-se sempre na condição de um eterno aprendiz.
— Sim senhor, perdão!
Suncê não precisa pedir perdão não zifio. Nêgo é que tem de se desculpar por estar falando demais.
— O senhor não precisa pedir desculpas, pois é sempre bom eu estar relembrando esta questão da eterna aprendizagem sobre a umbanda a fim de que eu sempre possa estar exercitando a divina virtude da humildade.
Nêgo pede perdão a suncê por que ele não gosta muito de falar, mas sim de escutar.
— Pôxa meu Pai, é uma pena por que eu não tenho nada para falar, mas sim para agradecer a Vossa lembrança na questão do eterno aprendizado umbandista.
— Então Nêgo se despede do fio pedindo a Zambi que ilumine e abençoe suncê em sua jornada e dizendo a fio que Nêgo é que sempre vai ter o que agradecer ao fio.
Eu nada respondi ao Pai velho. Fiquei pensando no agradecimento que Ele me fez e, acho que sem perceber, fiz algum tipo de careta que O fez retomar o diálogo comigo.
Nêgo inté já se despediu de suncê zifio, mas jamais poderia ir embora vendo esta “careta” de interrogação no rosto do fio. Pode perguntar pra Nêgo fio!
— Sabe meu Pai velho é que não é bem uma pergunta.
— Então é o que zifio?
— É uma observação.
— Pode falar fio.
— É que eu agradeci o senhor por ter ressaltado para mim à importância do umbandista se considerar sempre como um eterno aprendiz e o senhor me agradeceu de volta dizendo que sempre vai ter o que me agradecer.
— E o fio não concorda com este agradecimento que Nêgo fez a suncê, não é isso?
E eu, meio sem graça, respondi:
— É meu pai.
— Sempre quando nóis acaba de atender um fio suncê já viu ele agradecer a nóis e nóis agradecer a ele de volta, certo?
— Certo só que eu não entendo...
— ... calma zifio, se suncê não entende deixa Nêgo tentar explicar.
— Sim senhor.
Fio, sempre que suncê vê um de nóis, preto-velhos, agradecer um fiado quando o atendimento dele termina, lá no fundo, suncê fica pensando se nóis, na verdade, não estaria bajulando os zifios atendidos com o intuito de, através dessa bajulação, os zifios esquecer desta “imensa luz” que suncê diz que nóis tem e nos igualar a eles, não é verdade?
Devo confessar que fiquei extremamente desconcertado com esta observação precisa da Entidade amiga, no entanto, eu o respondi:
— É verdade!
Fio, Nêgo gostou de sua sinceridade, mas imagine com Nêgo:
Imagine um doutor de branco de suncês ai da terra indo para o seu lugar de trabalho e, depois de tanta preparação na escola, não aparecer um fio de terra para ele atender. Passa um dia inteiro e não aparece um paciente, passa dez dias e nada, passa um mês e nada.
— Imaginou?
— Sim senhor!
— Então responde pra Nêgo: que mérito terá este doutor de terra quando tiver que prestar esclarecimento ao seu chefe sobre o seu trabalho?
— Nenhum.
— E esse doutor que nóis imaginou, vai ter chance de subir na profissão?
— Não senhor!
— Então suncê tá acabando de dizer pra Nêgo que só o conhecimento não leva a nada se, junto dele, não estiver à prática. È isso?
— Sim senhor!
— Então suncê começando a entender: um fio que vai ao doutor de terra jamais deve se sentir apenas um receptor da ajuda dele, ele deve se sentir também um doador de ajuda ao doutor de terra. Por que sem um doutor de terra os paciente continua com seus problemas, mas sem os paciente o doutor de terra perde a oportunidade de verificar a eficácia do seu aprendizado e, com isso, aperfeiçoar suas técnicas e evoluir nos seus atendimentos. Nêgo tá mentindo?
— Não senhor!
— Então porque suncê acha que nóis mentiria pra suncê ao agradecer o fio pela oportunidade de nóis tá praticando a caridade?
— .............
— Desculpe a franqueza de Nêgo, mas suncê precisa parar de ver ele como se fosse um espírito de luz que nada mais tenha a aprender e, consequentemente, evoluir.
— Mas os senhores são espíritos de luz.
— Não zifio. Nóis, como suncês, somos espíritos. A luz, que suncês diz que nóis tem, também é de suncês por que se não fosse o atendimento de nóis com suncês, o aprendizado de nóis com suncês, nóis ainda estaria no breu da ignorância.
Ouvindo os comentários sábios da Entidade comecei a sentir o coração a “bater na boca”, uma lágrima a querer escorrer do canto de meus olhos e só pude responder:
— O senhor tem razão.
— Este Nêgo Véio pode falar o português errado, andar aos farrapos e bem devagarinho, mas se tem uma coisa que nóis não faz é bajular quem quer que seja! Quando acaba um atendimento e nóis agradece aos fiado, nóis agradecendo a oportunidade que aquele fiado tá nos dando de praticar a caridade e evoluir junto a Zambi nosso Pai. Porque esse fiado que foi atendido poderia ter muito bem procurado um outro Mano pra fazer atendedor, mas o fiado escolheu este Nêgo e Nêgo tem que agradecer porque se o fiado se consultasse com outro Mano era só o fiado que iria evoluir, pois Nêgo ia ter que ficar parado no mesmo lugar se não prestar atendimento aos zifios necessitados,
suncê não concorda?
Sim senhor
.
Zifio, entenda uma coisa: humildade é uma coisa, falsa humildade é outra.
— Como assim?
— Humilde não é aquele fio que tem um potencial, uma luz, e a renega com medo de atrapalhar a visão de seus companheiros de jornada com o reflexo dessa luz. Este é o falso humilde, pois o próprio mestre Jesus disse: “Que brilhe a vossa luz!!!”. Humilde mesmo zifio é aquele fiado que procura, de alguma maneira, iluminar o caminho de seus irmãos compartilhando a sua luz, não apenas pela consciência da importância desta benfeitoria, mas também para que a luz que vem de Zambi também possa iluminar o caminho dele, pois o mestre Jesus, através de seus exemplos, também deixou bem claro que: “É dando que se recebe”.
— Quando este Nêgo agradece a suncês quando termina um atendedor significa que ele procurando, de alguma forma, exercer a verdadeira humildade não apenas para iluminar o caminho dos zifios, mas também para ter um pouquinho do caminho dele alumiado com a luz que vem de Zambi nosso Pai. Sem suncês nóis não é nada. Entende zifio?
— Sim senhor!
— Na verdade zifio, quando Nêgo agradeceu suncê hoje ele viu uma luz que, ao clarear um pouco os seus caminhos, deixou a mostra uma pedra que está a obstruí-lo.
— Uma pedra?
— Exatamente. Mas o fio não se preocupe, pois o peso dela é do tamanho exato que suas forças podem remover.
— E que pedra seria essa?
— A pedra da desvalorização que o zifio tem por si próprio.
— Como???
— Por que suncê acha que quando Nêgo se despediu do fio dizendo que sempre ia ter muito que agradecer a suncê, o fio manifestou a descrença no sincero agradecimento de Nêgo? Suncê acha que é por falta de conhecimento seu sobre a nossa forma de trabalho? Pois Nêgo fala que não foi esse o causador da descrença! Nêgo fala que suncê não acreditou na sinceridade do agradecimento dele pelo fato de suncê não acreditar em si próprio. Aquele que não acredita em si próprio jamais poderá acreditar em alguém.
— Mas eu acredito no senhor.
— Quando o fio era curumim, apesar de diversas situações sinalizarem o oposto, o fio se achava feio por demais, certo?
— Certo.
— Por causa desta forma de pensar o fio pensava que jamais encontraria um rabo-de-saia pra namorico, não é verdade?
— Sim senhor.
— E quando foi que suncê arrumou um rabo-de-saia? Foi quando seus amigos falaram que suncê era capaz?
— Não.
— Então zifio, quando foi?
— Quando eu passei a acreditar em mim mesmo.
— E quando isto aconteceu suncê nem demorou a arranjar um rabo-de-saia. Não é verdade?
— Sim senhor.
— Pois então zifio este Nêgo fala pra suncê que foi este seu sentimento de inferioridade que fez o zifio duvidar da sinceridade do agradecimento dele a suncê.
— Como?
— O fato de suncê se achar inferior a Nêgo fez suncê duvidar da sinceridade do agradecimento dele ao zifio quando estava a se despedir.
— Mas eu não sou inferior ao senhor?
— Inferior em que zifio?
— Na elevação espiritual, por exemplo.
— Mas zifio, se Nêgo, ao longo de séculos, subiu um degrauzinho ou dois na escada da evolução Divina foi graças aos zifios que Zambi permitiu que ele auxiliasse!!! São as dificuldades que suncês passam na vida e que nóis tenta ajudar que fazem com que nóis, que suncês chama de Entidades, possa engatinhar na direção de Zambi. Nóis quer que suncês nunca tenha dificuldade, mas se o carma de suncês cobrar nóis tem o dever de auxiliar suncês por que fazendo isso somos nóis mesmos que estaremos sendo ajudados.
— Como assim?
— Seu sentimento de inferioridade, por exemplo, nóis queria que ele não existisse mais, mas se ele existe e nóis consegue fazer com que suncê transmute ele em auto-estima, nóis estaremos lhe ajudando, certo?
— Certo?
— E se suncê vence essa dificuldade e evolui, nóis também acabamos evoluindo, certo?
— Certo.
— Então suncê entendeu Nêgo: nóis não gosta de ver suncês triste e, se suncês tiver merecedor, nóis vai fazer de tudo que for possível para transmutar este sentimento em alegria e, se suncês vence a tristeza e evoluem na direção de Zambi nóis também vamos evoluindo e, se suncês nos agradecer por isso, nóis também temos o dever de fazer o mesmo, pois quando suncês evolui, nóis também evoluímos, entendeu?
— Sim senhor.
Nêgo fica feliz com seu entendimento, mas Nêgo quer perguntar pro fio se suncê pode fazer um favor pra ele.
— Com certeza!!!
— Então Nêgo pede pra suncê dizer a todos os seus irmãos umbandistas que nóis, que suncês chama de Entidades, temos para com eles uma divida eterna de gratidão que nos faz agradece-los ao término de cada atendimento e trabalho espiritual que realizamos em favor do próximo.
— Divida? Qual divida?
— A divida da eterna gratidão por eles auxiliar a nóis em nossa evolução rumo a Zambi nosso Pai.
— Pode deixar que eu o farei querido Pai velho.
— Então este Nêgo pode se despedir de suncê outra vez em forma de agradecimento?
— O senhor não precisa nem pedir!
— Não preciso porque agora suncê entende o agradecimento?
E eu, com os olhos cheios de lágrimas, respondi:
— Não. Não precisa porque o senhor mora no fundo do meu coração!
Ao contrário do que pensei o Preto-velho nada respondeu em relação a minha sincera manifestação de amor a Ele. Eu achei até estranho por que sei que esta linha de trabalho da umbanda é extremamente atenciosa e afetuosa, mas o Pai velho, com um sorriso enigmático na face, apenas despediu-se dizendo:
— Fique na força e na luz de Zambi, nosso Pai!!!
E eu O respondi:
— Que assim seja!!!
Após esta despedida a gira de preto-velho acabou e eu, no entanto, ao invés de retornar ao corpo físico, fiquei ali parado sem entender por que a Entidade nada me respondeu em relação a minha manifestação de carinho. Na verdade, eu já estava começando a querer ressuscitar até o meu antigo problema de inferioridade, querendo pensar que a Entidade nada me respondeu pela minha inferioridade moral e espiritual em relação a Ela. Foi quando, ao apalpar o bolso direito de minha calça eu senti um volume sutil e me lembrei do presente que o Pai velho havia me ofertado.
Sem mais demoras eu abri o pedaço de papel que se encontrava dobrado e pude ler:
“Pare de se sentir inferior zifio! Nêgo nada respondeu pessoalmente a sua manifestação sincera e pungente de carinho por que Nêgo já havia dado este presente pra suncê e se Nêgo falasse alguma coisa ia acabar estragando a sua surpresa e, se isto acontecesse, suncê poderia ficar até mesmo triste, justamente o que este Nêgo não quer, ele quer é ver suncê feliz.
Como suncê observando existe uma parte desta mensagem em que, aparentemente, não existe nada escrito.
Concentre-se de olhos abertos e segurando com as duas mãos este papel, próximo a região onde se encontra o seu coração, em todo o amor que suncê sente por suncê mesmo que o zifio acabará encontrando, aqui mesmo nessa parte em branco da mensagem, o presente de eu pra suncê
Achei inusitado o pedido de concentrar-me de olhos abertos, mas sem questionar fiz o que me foi determinado e o que aconteceu depois beira o indescritível de tão surreal: ao aproximar mediamente o papel do meio do meu tórax, concentrando-me no amor solicitado pela Entidade, eu vi uma energia sair do bilhete e formar uma bola de luz violeta que levitou até a altura acima da minha cabeça para depois adentra-la e, quando isto ocorreu, eu percebi que todo o meu tórax estava irradiando uma coloração rósea que, ao alcançar o papel, fez com que este deixasse a mostra, na região que antes parecia não haver nada escrito, letras que formavam uma mensagem que o Pai velho havia deixado pra mim:
“Não se preocupe com a cor rosa saindo do seu tórax por que ela só significa que a luz da transmutação violeta que Nêgo Véio deixou de presente pra suncê neste pedaço de papel conseguiu transformar seu sentimento de inferioridade, devido à falta de amor por si mesmo, em auto-respeito e, somente porque isto aconteceu foi que suncê conseguiu ler este pedaço da mensagem que aparentemente estava em branco; por que somente quando se ama a si próprio, um ser humano tem verdadeira capacidade de amar o próximo e de enxergar todo o amor que este tem a lhe ofertar, por exemplo, na forma de um presente. Suncê diz que ama Nêgo e eu fico muito feliz, mas nunca esqueça de amar a si próprio, pois só assim Nêgo consegue sentir com mais intensidade todo esse seu amor. Suncê vive a recordar que não é superior a ninguém, só não esqueça de se lembrar que também não é inferior. Por ultimo, este Nêgo só tem uma coisa a mais pra dizer a suncê: suncê também mora no mais recôndito lugar do coração deste Nêgo Véio!!!.”
Nem preciso dizer que despertei em minha cama aos prantos, mas penso que, esteja onde estiver, o Pai velho do meu sonho está muito ditoso com a origem do meu pranto: uma renovada e consciente sensação de gratidão a Deus pelo sonho transmutador que acabara de ter com os amados e inestimáveis preto-velhos.


Saravá ao Divino trono da evolução!!!
Saravá a divina linha de trabalho deste Divino trono!!!
Saravá a transmutação!!!!



quinta-feira, 22 de maio de 2008

Correndo gira - Uma canção de amor

Por Pedro rangel T. de Sá


Ditado pelo Sr. Caboclo Sete Estrelas


Certo dia ao me deitar, e já era tarde da noite, senti alguém a me pedir que fizesse uma prece: agradecendo primeiramente pelo dia que tivera e, posteriormente, pelas bênçãos que eu queria em minha vida e por uma ótima noite de sono.
Assim eu fiz e tomei um enorme susto ao acordar e perceber que me encontrava em algum terreiro de umbanda. Quando digo susto eu quero dizer susto mesmo: Eu estava apavorado por perceber que me encontrava sozinho e em um terreiro que eu nunca estivera na vida.
Mas o que mais me apavorava era o fato de que eu estava em um terreiro, onde uma gira estava prestes a se iniciar, sem ter sido ao menos convidado e, para piorar, NENHUM MÉDIUM CONSEGUIA ME VER!!!!. Eu não sabia se estava morto ou vivo e já estava começando a me descontrolar quando uma voz em minha mente pediu que eu me acalmasse.
Na verdade era uma voz bastante familiar para mim e, devido a este fato, eu fiz uma prece a Deus e pedi que acalmasse os meus nervos. Instantes depois escutei a mesma voz a dizer em minha mente:
— Gostei de ver companheiro, a fé é a mãe de todas as virtudes, mas ela só pode se manifestar plenamente se houver equilíbrio.
— Obrigado meu irmão, mas a sua voz não me é estranha, por acaso o Senhor não é o preto velho.....
— .... Desculpe lhe interromper companheiro, mas é que, na verdade, o meu nome é o que menos importa. Prioritário mesmo é a tarefa que você tem a desempenhar esta noite.
— Eu !?!?!?
— E por que não? Sente-se indigno ou não crê na magnitude de Deus?
— Não é isso não; é que estou em um templo desconhecido e não posso nem mesmo Lhe ver.
— Bem companheiro, esta é uma casa de oração composta por cinqüenta médiuns, todos hoje aqui presentes, contando com o auxílio de Jesus para a prática da caridade, pois foi ele mesmo quem disse que onde houvesse duas ou mais pessoas reunidas em seu nome ele estaria presente, certo?
— Sim senhor.
— Então, neste templo, neste exato momento, há a presença de Jesus, certo?
— Sim senhor.
— Sendo assim você não está sozinho e por isso a nada deve temer. Quanto a me ver eu posso lhe dizer que os olhos às vezes podem pregar muitas peças e lhe peço, portanto, que possa me enxergar através de seu coração tudo bem?
— Tudo bem, acho que entendo o que o senhor quer dizer. Mas você poderia me informar que tarefa eu poderia realizar aqui neste terreiro se nenhum médium pode me ver?
— Perfeitamente. Sua tarefa é observar o desenrolar desta gira desde o seu início até o seu término.
— ??????????
— Pode dar inicio a sua tarefa companheiro!
— Olha o senhor queira me desculpar até a ousadia, pois se me disse que aqui neste terreiro os médiuns vivenciam as lições de Jesus, com certeza deve ser porque aqui é um terreiro exemplar; mas é que eu já visitei outros templos que também são bastante valorosos e não consigo entender o que este possui de diferente dos outros aos quais me referi.
— De diferente? Nada.
— Mas então por que....
— ....Acalme-se companheiro, emudeça a sua curiosidade e você observará nesta noite situações claras onde falar é prata e calar-se é ouro.
— Sim senhor.
Disse isso ainda um tanto sem entender nada e comecei a observar a abertura da gira que já estava para começar. Os médiuns começaram a cantar os pontos de abertura e só por esse inicio já dava para perceber que havia uma sinergia muito grande naquela casa de caridade; entretanto, excetuando-se este fato, não observei nada de inédito no inicio da gira; a maioria dos pontos, inclusive, eu conhecia. Mas, lembrando do recado do amigo espiritual eu procurei calar a minha curiosidade e minha impaciência e pus-me a observar a gira com todo respeito que merece toda casa de oração.
Tudo ocorria naturalmente em minhas observações quando de repente eu vi algo mágico: um cordão dourado de mais ou menos cinco centímetros de espessura foi conectado nas costas do sacerdote da casa, na região do coração, e imediatamente após a ocorrência deste fato ele incorporou a entidade responsável pelos trabalhos espirituais.
Instantes depois eu pude observar esta Entidade bater três vezes as duas mãos e todos os médiuns de incorporação também terem seus corpos conectados por um cordão de mesma espessura que, de uma forma incrível, fez com que todas as entidades que os acompanham incorporassem.
Já não agüentava mais de tanta curiosidade quando a voz amiga veio em minha mente para me esclarecer:
— Por que este espanto companheiro? Você não acreditava que na incorporação o espírito, literalmente, entrava no corpo do médium, certo?
— Não senhor, eu sabia que não era assim, só não sabia que o processo da incorporação poderia se dar desta forma que eu acabei de ver. Agora o Senhor poderia me dizer o porquê de cada um dos médiuns de incorporação ter os cordões conectados em partes diferentes de seus corpos e nas mais diversas cores?
— Sim companheiro. Isto é algo que eu posso lhe informar, veja bem, cada cor representa o orixá a qual cada uma destas Entidades serve no plano espiritual, ou seja, aos quais ela esta fatorada; assim o cordão conectado ao sacerdote deste templo é dourado porque a Entidade que o acompanha pertence à falange de Oxalá e assim por diante, entende?
— Sim senhor.
— Já no que diz respeito ao local de conexão do cordão eu só estou autorizado a lhe dizer que as Entidades só acessam no corpo do médium os chacras em que estão autorizadas a trabalhar para realizarem sua ligação mental, emocional, energética e até mesmo física com os mesmos; assim, no sacerdote desta casa, o cordão está conectado em suas costas por que o chacra cardíaco é aquele que a entidade que lhe acompanha está autorizado a trabalhar, entendeu?
— Meu Deus, isto é impressionante!!! Entendi sim senhor!!!
— Muito bem, continue a observar.
E foi assim que eu me aproximei de uma roda de descarrego para observar, com todo o respeito, o trabalho das Entidades e o que eu vi me deixou muito, mas muito, assombrado por que o que eu pude ver era tão incrível que talvez eu não consiga nem mesmo descrever: havia cinco Senhores caboclos participando desta roda de descarga a qual me refiro e na região exata acima de onde se encontrava a roda de descarga havia um portal aberto do tamanho exato da mesma.
A dinâmica do trabalho dos Senhores Caboclos na roda se dava da seguinte maneira: os passes cada um Deles dava da sua forma, mas o que era invariável é o fato de que com o estalar dos dedos da mão direita Eles jogavam sobre os assistidos várias formas de energias que provocavam naqueles um enorme bem-estar; já com a mão esquerda Eles absorviam destes uma espécie de gosma que desaparecia por encanto quando Eles estalavam os dedos desta mão.
Procurei saber do amigo espiritual que estava fazendo companhia para mim o porquê daquela gosma terrível desaparecer quando os Senhores Caboclos estalavam os dedos, mas dele só ouvi a resposta de que aquela gosma retirada das pessoas eram energias negativas que os elementais cuidavam de eliminar.
Perguntei, então, a ele por que eu não conseguia ver os elementais, foi quando ouvi sua resposta:
— Você não consegue ver porque isto não lhe é permitido e antes que me pergunte o porquê eu lhe peço encarecidamente que não se prenda a detalhes e continue a observar o desenrolar desta gira.
Entendi o recado velado do amigo espiritual e procurei continuar a observar o trabalho das entidades na roda de descarga e considero importante ressaltar que no preciso instante que as Entidades fechavam o trabalho na roda, do alto do portal localizado acima desta, um enorme feixe de luz banhava a todos dentro dela ( tanto consulentes quanto Entidades) e logo após este portal se fechava para só se abrir novamente quando também era aberta uma nova roda de descarga.
Após observar estes fatos eu me pus a analisar como Deus pode ser tão perfeito e ao mesmo tempo manifestar esta Sua perfeição de forma tão simples e foi então que eu ouvi novamente em minha mente a voz do amigo espiritual que estava a me acompanhar:
— Realmente companheiro a simplicidade é uma virtude inerente ao Divino Criador, ou você acha que Jesus mentia ao dizer que o reino dos céus é dos simples e humildes? Agora cabe a vocês desenvolverem esta divina virtude cada vez mais em suas existências. No dia em que você perceber que está perdendo esta preciosa virtude procure sempre lembrar da Divina simplicidade dos Senhores Caboclos ao ministrarem seus passes energéticos: fazem-no por meio do ato simples e discreto de estalar os dedos e, no entanto, quantas maravilhas este ato gera na vida de seus assistidos não é mesmo?
— É verdade!
—Companheiro, estou notando que você está observando por aqui fatos realmente proveitosos, mas agora eu gostaria que você os escutasse, você me permite?
— Claro,digo, sim Senhor.
Dito isto eu fechei meus olhos por breves instantes e senti um leve formigamento em minha cabeça, foi ai que eu abri meus olhos e o que vi e escutei me fez sentir que estava ficando louco: os médiuns que não estavam incorporados cantavam pontos da linha de Xangô e as Entidades incorporadas estavam cantando o mesmo ponto só que, no caso destas, eu não estava escutando em nosso idioma que é o português, explico: estes médiuns incorporados estavam cantando em português, só que as entidades “ligadas” a estes médiuns cantavam os pontos em uma língua desconhecida e que só posso denominar de mágica porque os pêlos de todo o meu “corpo” estavam eriçados e não voltavam a seu estado normal de forma alguma; além disto, meu chacra umbilical começou a irradiar uma forte e fosforescente coloração alaranjada. Antes que eu perdesse o equilíbrio por tanta curiosidade clamei a Entidade amiga que me explicasse alguma coisa e, graças a Deus, ela veio em meu socorro.
— Está se sentindo confuso companheiro?
— É, o senhor sabe não é?
— Da sua curiosidade? Sei sim e posso tentar lhe esclarecer em algumas coisas. Primeiramente eu posso lhe dizer que você não está louco e sim com sua capacidade auditiva momentaneamente potencializada, entende?
— Sim senhor.
— O som que você está ouvindo as entidades firmarem e que não é da sua língua, na realidade, são mantras, entende?
— Agora que o senhor me explicou eu até entendo, mas por que Elas não firmam em português.
— Companheiro, os Senhores Caboclos firmam o ponto cantado em português, mas entenda que a linguagem original de pontos como estes, conhecidos como pontos de raiz, na verdade, é a linguagem mântrica; vocês aqui na terra podem até cantar em suas linguagens de origem, mas entenda que no plano espiritual estes pontos evocam mantras ancestrais que ativam as energias das linhas de umbanda a qual se refere o dito ponto e trazem estas energias para o terreiro em favor dos assistidos. Você só pôde ouvir os Caboclos entoando estes mantras a fim de que pudesse perceber auditivamente, mesmo que de forma ainda bastante imprecisa, que eles existem e que os efeitos das ações destes mantras são reais. Na realidade eu só dilatei sua capacidade auditiva para que aprendesse de verdade uma das formas como as entidades se utilizam da energia e poder de concentração de vocês quando estão a firmar os pontos cantados umbandistas com discrição, dedicação e desejo de ao próximo fazer o bem, e os pêlos eriçados do seu corpo e esta forte coloração alaranjada em seu chacra umbilical refletem isto, entendeu?
— Sim, agora eu entendi. Mas será que o senhor poderia me esclarecer uma outra coisa?
— Pergunte primeiro companheiro.
— É que depois que eu senti o formigamento na cabeça eu também comecei a perceber que a maioria dos médiuns que estão cantando os pontos estão irradiando em torno de si cores que são divinamente maravilhosas e eu gostaria de saber, se possível, o porquê disto.
— Isto eu posso lhe responder companheiro, mas eu devo lhe dizer que ainda estou esperando uma determinada pergunta de sua parte. Quanto a esta que você acaba de me fazer eu volto à pergunta anterior que era relacionada à questão dos mantras, lembra?
— Sim senhor.
— Eu havia lhe dito que o cantar dos pontos ativa energias da linha de umbanda evocada no ponto que está sendo cantado, certo?
— Sim senhor.
— Pois entenda companheiro que os sons destes pontos geram cores porque sete são as cores do arco-íris e sete são as notas musicais, está acompanhando?
— Sim senhor.
— Pois então, o divino Criador permite que as cores geradas através das notas musicais dos pontos cantados, que na realidade são bênçãos divinas ativadas para a caridade na forma de cores, também possam colorir, ou seja abençoar, aqueles que estão cantando os pontos e é por isso que você está vendo tantos médiuns “coloridos”, percebe?
— Sim senhor.
— Além deste motivo ainda existem outros que justificam a “coloração” dos médiuns e eu posso te revelar mais um destes que consiste no fato das entidades do templo também banharem os médiuns da casa com as cores das linhas de umbanda a que estão fatoradas, percebe?
— Sim senhor, agora o senhor poderia me dizer se eu devo justificar a ausência de irradiação de cores em certos médiuns que estou a observar pelo fato deles não estarem firmando os pontos?
— Graças ao Criador você fez a pergunta que eu passei esta gira toda querendo escutar de ti antes que ela chegasse ao seu fim, como está prestes a acontecer. E na verdade eu lhe respondo companheiro que a ausência de irradiação de cores por partes destes médiuns que você citou não se deve pela ausência do canto por parte deles; Entenda que cantar é meramente um ato externo, entenda que em uma gira o que faz o templo e a vida de vocês ficar “colorida” é a concentração no que está sendo cantado e o desejo que este canto possa fazer o bem ao próximo. Entenda que as entidades no plano astral,quando é fundamental, também estão a firmar os pontos cantados e você, na noite de hoje, está sendo testemunha disto, não é verdade?
— É sim Senhor.
— Agora o que jamais deve ser esquecido é o fato de que, por serem seres desencarnados, o canto das entidades tem efeito mínimo em uma gira de umbanda: vocês médiuns é que são a parte fundamental em uma gira de umbanda por que são vocês que estão no plano onde fisicamente acontecem as giras que é o plano material. Então vocês médiuns devem fazer a parte de vocês com perfeição para que nós possamos fazer a nossa. Entenda a maior e mais profunda verdade: em uma gira de umbanda, sem a firmeza e vibração de vocês, nós pouco podemos realizar em favor do próximo, entendeu?
— Sim senhor.
— Eu disse que estava ansiosamente esperando esta sua pergunta por que este é o recado que eu desejo que você, por obséquio, passe aos seus irmãos de fé, afinal de contas você não acha que foi trazido até aqui esta noite apenas para realizar “turismo espiritual”, não é?
— Não senhor. O senhor pode deixar que eu passarei agora mesmo este Vosso recado.
— Agora mesmo não companheiro, a gira vai se encerrar agora e eu, como disse anteriormente, gostaria que você ficasse até o seu término, tudo bem?
— Sim senhor.
E dito isto eu pude observar que enquanto no plano material os médiuns estavam todos de mãos dadas em volta do gongá a fazer as orações de agradecimento a Deus; no plano espiritual as entidades também estavam todas de mãos dadas só que cantando uma canção que, desde o momento que começara a ser entoada, serviu como um dispositivo para que um enorme feixe de luz com singela coloração rósea jorrasse do alto e banhasse a médiuns e entidades ao mesmo tempo que uma verdadeira cascata de pétalas de rosas vermelhas também banhasse a ambos. Sei que a gira já estava terminando e que eu deveria prezar pelo silêncio, mas a curiosidade e o desejo de saber foram maiores que a prudência e eu, respeitoso, perguntei:
— Irmão sei que não é a hora mais apropriada, mas o Senhor poderia me dizer que canção é aquela que as Entidades estão cantando?
— Companheiro, não se acanhe. Na verdade eu também estava esperando por esta pergunta; eu só gostaria que você, após a dúvida ter esclarecido, também passasse esta mensagem para todos os seus irmãos de umbanda, tudo bem?
— Sim senhor.
— Então companheiro, diga a seus irmãos de fé que em todo templo de umbanda onde a única meta é a caridade, ao término de cada gira, quando os médiuns dão-se as mãos e põe-se a orar em agradecimento a Deus pela oportunidade do trabalho a favor do próximo; nós, as entidades espirituais de cada uma destas casas de caridade também damo-nos as mãos e nos pomos a orar, através de uma canção, e a agradecer ao Criador, por meio desta, pelo fato Dele nos ter dado a benção de contarmos com a presença de vocês médiuns, apesar das dificuldades de cada um, para todos juntos realizarmos a caridade em favor do próximo em mais uma gira de umbanda. E o nome desta canção que todas as entidades de todos estes terreiros põem-se a cantar no final de cada gira para agradecer a Deus a presença, dedicação, amor e firmeza de todo filho de fé tem um nome que se representa em três palavras: CANÇÃO DE AMOR.



Salve Deus pai todo poderoso!!!!
Saravá as sete linhas de umbanda!!!!
Saravá a todas as linhas de trabalho da umbanda!!!!
Saravá a canção de amor!!!!

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Perfeiçao

Mensagem de um exu







Josiel retornava do centro umbandista que freqüentava há cinco anos para sua casa visivelmente transtornado.
Em sua forma de pensar continuar a freqüentar o terreiro tornara-se impossível, pois, segundo ele, em um local onde reina a fofoca e a maledicência Jesus e a caridade não poderiam se manifestar.
Não pensem que Josiel era um espírito desprovido de autocrítica. Não, era o oposto!!! Josiel criticava a si próprio de uma maneira até demasiada; tinha consciência que era um espírito em expiação para tentar sanar erros praticados em encarnações pretéritas.
Não possuía, assim como acontece com a grande maioria dos encarnados, a mínima noção dos erros que praticara em encarnações pretéritas, mas tinha a plena convicção que a prática da caridade seria a única forma de tentar corrigi-los.
Ah, meus amigos como era difícil para Josiel à prática da caridade!!! Mas não se espantem por que a dificuldade desta prática redentora não era devido ao orgulho e egoísmo exacerbados; muito pelo contrário, ele era um espírito até generoso.
Não meus irmãos, a dificuldade do exercício da caridade para Josiel se dava pela impossibilidade dele, assim como ocorre com qualquer pessoa, pratica-la sozinho. Não, por favor, não estranhem o comportamento de Josiel, pois poucos espíritos são mais tímidos e sensíveis à energia do próximo do que ele.
Fora o divino mestre Jesus quem ensinara que onde estivessem duas ou mais pessoas reunidas em nome Dele ele estaria presente; também fora Jesus quem escolhera doze apóstolos para auxiliá-lo a pregar a Boa Nova; ou seja, o mestre divino sempre ensinara que a caridade deveria ser praticada em beneficio ao próximo, pois seria somente dando que se teria a possibilidade de recebê-la de volta e evoluir junto a Deus.
Imaginem companheiros alguém ter a clareza da necessidade de se buscar a fraternidade em prol da caridade, mas sentir uma extrema dificuldade para tanto, seja por sua enorme timidez ou pela imensa facilidade de, apenas pela proximidade, sentir o que vai ao coração e na mente do ser humano.
Aliás, desde cedo, mesmo quando professara outras religiões, todas estas foram unânimes em afirmar que aquela extrema sensibilidade seria ou um problema neurológico ou um ataque do demônio; seus pais, assim, submeteram-no tanto às práticas médicas quanto à algumas práticas religiosas sem conseguirem resultado algum.
Foi somente quando se tornou umbandista que Josiel passou a enxergar sua extrema sensibilidade não como uma maldição, mas como um dom. Josiel descobrira-se não doente ou endemoniado, mas tão somente médium; descobrira também que somente utilizando o exercício da mediunidade em favor da caridade é que ele encontraria alguma luz que clareasse os seus caminhos na estrada que leva a evolução junto a Deus.
Josiel pensava que havia encontrado a religião perfeita praticada em um terreiro perfeito e por pessoas perfeitas.
Cinco anos se passaram desde a entrada dele no terreiro e é quando podemos vê-lo retornar para o conforto de sua residência totalmente convicto de que, no dia seguinte, pediria desligamento daquele centro umbandista e partiria em busca de outro.
Tomou um banho relaxante, deitou em sua cama confortável e não foram necessários muitos minutos para que seu duplo se desprendesse parcialmente do corpo físico.
Josiel não sabia, mas estava sendo guiado para junto de uma pedreira em mata aberta para receber instruções do seu exu de trabalho no ritual de umbanda.
Chegando ao local indicado, Josiel viu um ser de mais de dois metros de altura e roupas pretas que irradiavam um estranho magnetismo sentado em uma espécie de cadeira de cor prateada localizada em cima da pedreira.
Só de olhar para aqueles dois olhos grandes negros e penetrantes Josiel entendeu que deveria subir aquela pedreira e ficar diante daquele ser; então, sem pensar duas vezes, Josiel caminhou em direção a ele e ajoelhou-se respeitosamente diante daquele ser.
— Levante-se!
Josiel obedeceu prontamente.
— Sabe quem sou eu?
— Não senhor.
— Sabe o que faz aqui?
— Não senhor.
O guardião então soltou uma sonora e gutural gargalhada para depois dizer:
— Aquele que não sabe quem é e nem para onde vai me parece que está perdido.
— O senhor me desculpe, mas eu sei quem sou.
— Sabe?
— Sim senhor!
— Quem é você?
— Sou Josiel.
— Não. Esta resposta prova que você sabe qual é o seu nome, eu quero saber quem é você.
Vendo o silêncio pertubador de Josiel o guardião tornou a gargalhar:
— Ahahahahahahah!!! Complexa esta questão de identidade não é companheiro?
— Sim senhor, mas...
— Prossiga!!!
— ... pelo menos eu sei para onde vou!
— Tem certeza?
— Absoluta.
— Para onde você vai?
— Para um outro terreiro. Um terreiro que também pratique a caridade, mas onde não se julgue tanto o próximo.
— Você procura um terreiro perfeito?
Diante do silêncio de Josiel o guardião continuou:
— Companheiro, sou um exu e devo lhe perguntar: que terreiro você procura?
— Um terreiro com pessoas perfectíveis.
— Responda-me: Jesus quando encarnado viveu dentro de templos religiosos ou junto das imperfeições de prostitutas, ladrões e malfeitores?
— Mas Jesus convivia com estes malfeitores para levar a perfeição do amor de Deus até elas.
— Concordo, mas ele realizava esta tarefa sozinho?
— Não, ele era auxiliado principalmente por seus apóstolos.
— Os apóstolos eram perfeitos?
— Não, mas Jesus sabia que podia contar com cada um deles porque tinha certeza que nenhum falharia em sua tarefa.
— Você se engana companheiro: Pedro era impulsivo, Tiago esperava sempre mais ver para depois crer e eu poderia continuar tecendo comentários sobre as dificuldades humanas dos demais apóstolos só para que você entenda que Jesus não tinha a certeza de que cada um dos apóstolos não falharia em suas missões; Jesus tinha a esperança que o amor dos apóstolos à obra de Deus seria maior que suas imperfeições e que esse amor os auxiliariam a não falhar no desempenho de suas missões.
— Entendo.
— Jesus tinha esperança e não certeza.
— Entendo.
— A mesma esperança que tem em você e em cada um de seus irmãos que compõem a humanidade.
— Entendo.
— Esperança de que cada um de vocês não falhe na missão de praticar a caridade.
— Entendo o que o senhor quer dizer, realmente não devemos medir esforços para praticar a caridade e alcançar a luz.
— Luz? Que luz?
— Um mundo de luz.
— Ahahahahahahahahahahahaha!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
A risada do guardião foi tão profunda e pungente que tremeu até mesmo a pedreira sob os pés de Josiel, este, então, perguntou ao guardião:
— Por que o senhor deu esta risada tão forte?
— Para não chorar com a ilusão de tantos de vocês, os umbandistas.
— Ilusão?
— Sim, a ilusão de acharem que antes de encarnarem vieram de um plano espiritual elevado e que a ele retornarão quando desencarnarem se desempenharem a missão de vocês de forma satisfatória.
— ..................
— O teu silencio é revelador, entretanto a Lei não permite me calar. Entenda companheiro que o umbandista é aquele que procura, quando incorporado ou não, fazer a prática da caridade dentro dos templos religiosos por meio da prática da magia.
— Magia?
— É, a utilização de poderes mágicos em prol do próximo, afinal, a fumaça de um cachimbo, um charuto é ou não é magia?
— É sim senhor.
— O uso de bebidas é ou não é magia?
— É sim senhor.
— O uso de velas é ou não é magia?
— É sim senhor.
— Acho que não preciso continuar não é?
— Certamente que não.
— Agora me responda: Por que a grande maioria dos umbandistas não estranha o uso destes instrumentos mágicos, entre outros, seja por parte das entidades que os assistem, seja daquelas que incorporam nos demais médiuns da corrente mediúnica a que pertençam?
— Sinceramente não sei, agora o senhor me falando tudo isto me fez pensar que a primeira impressão que tive ao adentrar pela primeira vez um centro de umbanda era que tudo aquilo ali me era familiar.
— Perfeito. Tal familiaridade aconteceu contigo, como acontece com a maior parte dos umbandistas, por que em encarnações pregressas vocês também conheciam a magia; muitos até dela se utilizaram em algum momento da vida ou em vários, para prejudicarem o próximo, entende?
— Entendo sim senhor.
— Vocês, de forma geral, não estranham o uso e a prática da magia por que muito recorreram a ela em vidas passadas.
— É custoso crer que todos nós umbandistas fomos magos negros em encarnações passadas.
— Eu não disse todos, disse a grande maioria. De mais a mais a magia ( tanto para o bem quanto para o mal ) está no mental de cada ser humano assim, inveja é magia negra, maledicência é magia negra, cobiçar ardentemente a mulher do próximo é magia negra, odiar é praticar magia negra e assim por diante.
— Meu Deus do céu!!!
— Você não deve praticar a caridade esperando como prêmio por esta prática, após o desencarne, a passagem para um plano espiritual elevado. Trabalhe pela caridade tão somente para salvar a sua alma da ignorância acerca da lei de amor e pacificar sua consciência dos malfeitos praticados no passado.
— Pacificar minha consciência?
— Sim, veja o vosso caso, por exemplo. Você sabe por que é extremamente tímido e sensível?
— Não senhor.
— Devo lhe dizer que é porque a consciência do teu espírito não está em paz.
— Como?
— Eu lhe acompanho há muito tempo e sei que nesta encarnação você jamais cometeu atentado algum contra o bem estar do próximo, mas o teu espírito terrivelmente endividado vive a se culpar por erros de encarnações pretéritas. Quando esta consciência espiritual estiver em paz você não mais terá esses problemas manifestados de forma tão exacerbada.
— Mas a consciência de outras vidas não é apagada antes do espírito reencarnar?
— A sua consciência foi apagada, mas não a do seu espírito, tamanhos foram os erros das suas vidas pretéritas.
— O senhor me desculpe, mas fica difícil acreditar no que diz.
— companheiro você também me desculpe, mas não estou aqui para que creia em mim, haja vista que nada sou. A lei divina aqui me permitiu estar contigo para que acredites verdadeiramente em Deus.
— Mas eu creio em Deus!
— Então por que desejas sair do terreiro que freqüentas?
— Mas o meu crer em Deus nada tem a ver com o fato de eu desejar sair do terreiro.
— Ahahahahahahahahah!!!!!!!!!!!!
Gargalhou exasperadamente o guardião para depois prosseguir:
— Não? Então por que desejas sair do terreiro?
— Por que neste terreiro que freqüento sou acusado por meus próprios irmãos de fé de tudo quanto é coisa, muitos deles se consideram profundos conhecedores de meu comportamento e de minha consciência e julgam cada um de meus gestos e atitudes como se tivessem conhecimento de causa.
— Eles já lhe disseram isso?
— Não, mas penso que gestos valem mais do que mil palavras e eu também, de alguma forma, consigo sentir o que vai ao coração deles.
— E você, procurando a perfeição na Terra, começará a sua busca pelo terreiro perfeito?
As palavras diretas do exu fizeram com que Josiel olhasse duramente para ele que, assim, retomou o dialogo:
— A sua interpretação dos gestos e do que vai ao coração dos seus irmãos de fé não está equivocada; entretanto devo lhe repetir que você só consegue sentir o que vai ao coração deles e se intimidar cada vez mais devido ao seu sentimento de culpa em relação ao passado tendo em vista que somente aquele que deve pode sentir-se culpado.
— Não consigo entender suas palavras!
— Isto acontece porque você não entende a si próprio, mas como você mesmo disse “ um gesto vale mais do que mil palavras”, então sente-se nesta cadeira atrás de você!!!
Josuel estava extremamente desconfiado, mas a sincera autoridade que aquele ser lhe impunha fez com que ele se assentasse; o exu, então, retomou o diálogo:
— Não seja desconfiado! Não pense que foi trazido até aqui para ser demovido da idéia de deixar o terreiro que freqüentas, pois isto lhe faria prisioneiro de si próprio; na verdade você está aqui para conhecer um pouco mais a si mesmo a fim de que assim, quem sabe, possa se libertar da culpabilidade espírito-psicológica que o torna um ser tão escravo de suas culpas das vidas passadas. Feche os seus olhos e esvazie sua mente de todo e qualquer pensamento!!!
Foi após proferir esta determinação para Josiel que o guardião, ajoelhado na frente dele, segurou-lhe as mãos em forma de “X” e deu um grande suspiro.
A partir deste instante, sem saber como, uma série de imagens incontroláveis a sua vontade, passaram a desfilar na mente dele.
Josiel então se viu como um sumo-sacerdote do legendário império assírio na transição do reinado de Assurbanipal para o sucessor deste.
O nome de Josiel nesta encarnação era Sejernastides, um homem de letras que, não obstante ser o mais alto servidor do império com funções religiosas, foi o grande idealizador da grande biblioteca do império assírio, àquela cujos livros com escritas cuneiformes seriam o maior legado para posteridade da forma de viver dos povos da Mesopotâmia.
Entretanto, apesar de sua mente brilhante, Sejernastides fora um homem que após muitos anos usando de práticas de magia negra não apenas a favor do império, mas principalmente a favor de si próprio começou a ser sugestionado por poderosos entes trevosos que o manipulavam a tornar-se mais forte e poderoso através da desvirginizaçao e posterior sacrifício de crianças.
E foi assim que ele, após três anos na prática nefasta e cruel de violação sexual e assassinato de crianças, perdeu de forma completa o maior e ultimo dos poderes que o tornara tão imensamente famoso em todo o império: o dom oracular da premonição. Assurbanipal já não vivia mais quando este fato ocorreu.
Sejernastides ao invés de comunicar esta ocorrência ao rei preferiu se omitir e continuar realizando oráculos; acontece que em um dia, ao praticar o oráculo e dizer que todo o exército imperial deveria invadir um reino distante com posição geográfica estratégica para aumentar a extensão do império ele acabou atuando involuntariamente como o catalisador do principio do fim do grande império assírio, pois três meses após esta “premoniçao oracular”, enquanto a maior parte do exército imperial estava a léguas e léguas da capital Assur, esta foi violentamente atacada por caldeus e outros povos que já se encontravam por muito tempo oprimidos por este sanguinário império.
O tempo passou velozmente na mente de Josiel e ele pôde ver quando, enquanto Sejernastides, fora violentamente forçado a presenciar o assassinato brutal, esquartejamento e decapitação de cada um dos cento e vinte funcionários do templo e de seus tutelados mais diretos.
Sejernastides sabia que o grande império assírio não duraria por muito mais tempo e foi desta forma que ele, replete de arrependimentos, foi levado como prisioneiro e encarcerado. Um dia, cinco anos após estes fatos e ainda encarcerado, ao ver o império se desmanchando a passos largos, Sejernastides, numa terrível situação de remorso suicidou-se através do enforcamento.
Após a ocorrência destes últimos fatos se passarem em sua tela mental, Josiel queria chorar, mexer-se e abrir os olhos, mas não conseguia e o exu, assim, falou-lhe mentalmente:
— Concentre-se companheiro, pois minha tarefa ainda não terminou!
Josiel, também mentalmente, respondeu ao guardião:
— Pelo amor de Deus, pare com este castigo!!!
— Quando a Lei Divina faculta-me o direito eu certamente puno os devedores Dela, mas entenda que este não é o seu caso, eu não o estou punindo, mas exercendo a tarefa que me foi ordenada pelo seu anjo de guarda e que eu, sem queixumes e satisfeito por estar labutando em prol da Justiça Maior, devo exercer. Tenha humildade, paciência e concentre-se, pois minha tarefa está quase no fim.
Assimilando o sentido de ordem daquele guardião Josiel pôs-se a concentrar-se e a se ver em sua ultima encarnação como um escravo jamaicano do Brasil - colônia que ao invés de aproveitar a oportunidade redentora para auxiliar aos seus irmãos de sina e senzala com palavras e atitudes confortadoras e, principalmente, com a utilização de ervas e feitiços; fez exatamente o contrário e utilizou estes últimos para, em seus sessenta e cinco anos de vida, prejudicar terrivelmente quase uma centena de pessoas.
E após estes últimos fatos o guardião retirou suas mãos das mãos de Josiel, ordenou que ele abrisse os olhos e aguardou a visualização da cena que ele já se acostumara a presenciar:
Josiel, poucos minutos após abrir os olhos e retornar a si, caiu em um pranto convulsivo tão sentido e verdadeiro que levaria as lágrimas qualquer espírito que presenciasse aquela cena, no entanto, dos olhos do guardião a frente dele não havia o menor resquício de uma lagrima sequer e, se olhássemos um pouco mais abaixo na face do guardião, por mais estranho que possa parecer, veríamos até mesmo o esboço de um sorriso: é que poucas coisas trazem tanto contentamento a um exu do que quando ele vê um ser humano reconhecer a pequeneza de si próprio diante da infinita sabedoria e excelsa misericórdia do Divino Criador.
Após serenar as emoções, Josiel disse ao guardião:
— Então foi por isso que reencarnei umbandista, para expiar os meus erros crassos praticados com o uso da magia em vidas anteriores?
— Não apenas estes erros, mas principalmente.
— No terreiro que freqüento, o corpo mediúnico é composto daqueles antigos servidores assírios assassinados por conta de minha vaidade e imprudência?
— Isto não importa!!! Você não deve achar este tipo de justificativa para permanecer ou abandonar o terreiro que freqüenta, o importante é você entender que cinco daqueles seus antigos servidores trabalham no terreiro que você freqüenta como entidades espirituais.
— Meu Deus, eles evoluíram tanto!!!
— Evoluíram e querem que você e seus irmãos por paternidade divina também evoluam pela prática da caridade.
— Meu deus!!! Eu, um umbandista, que nesta encarnação nunca fiz mal a ninguém, jamais poderia pensar que sou um espírito tão imperfeito e devedor!!!
— Não só você companheiro. Já disse e repito: raros são os umbandistas que são de hierarquia espiritual elevada,; na verdade, quase todos ainda são espíritos em encarnações de provas e expiações, melhor dizendo, quase todos os espíritos sob a face da terra, independente da religião que professem, são espíritos ainda em encarnações de provas e expiações.
— Entendo.
— Agora Josiel seja honesto comigo e diga se não é verdade que você pensa em sair do terreiro que freqüentas por julgar que seus irmãos de fé têm a ingratidão para com você; ou melhor ainda, por vê-los praticar esta ingratidão contra ti na forma de gestos e comentários a seu respeito.
— Serei honesto: é verdade!
— Este exu que vos fala não é nenhum espírito perfeito, mas devo dizer que procuro executar o meu trabalho a favor da Lei Maior e da Justiça Divina de uma maneira surda tanto para a gratidão quanto para a ingratidão.
— Como?
— Sou surdo para a gratidão por que não trabalho para recebê-la, mas para evoluir. Só o Divino Criador é digno de toda gratidão, honra e louvor.
— Entendo.
— Também sou surdo para a ingratidão por que quem tem o dever de escutar cada um dos impropérios que me forem dirigidos e julgar a cada um conforme a sua obra também é o divino criador.
— Então quer dizer que o senhor trabalha para a caridade de uma forma surda?
— Surda para a gratidão e ingratidão, ouvinte apenas de minha consciência a me dizer que é praticando a caridade que terei cada vez mais paz no meu mental e emocional.
— Meu Deus, o senhor me disse que é um exu e quantas coisas lindas acabou de me dizer, o senhor é um sábio, obrigado por me ajudar!
— Como? Não ouvi!!!
— Obrigado!
— Como?
— Obrigado!
— Como? Bem não importa, pois se não estou escutando certamente deve ser por que você se esqueceu de que sou surdo a gratidões e ingratidões.
Josiel riu a valer e depois perguntou ao exu:
— O senhor tem mais algo a dizer para mim?
— A você devo dizer que quando despertar em sua cama esquecerá por completo dos fatos relativos a estas duas de suas vidas passadas que você presenciou esta noite. Sua consciência esquecerá de tudo, mas a partir do instante que você acordar seu inconsciente estará sempre a lhe cobrar que procure a perfeição dentro de si mesmo e não no próximo.
— Entendo.
— A você e a todos os seus irmãos umbandistas, a Lei Maior e a Justiça Divina só me permitem adverti-los que vocês, ao sentirem a ingratidão, não devem usa-la como dispositivo para esmorecerem na fé e na prática da caridade façam, antes, como os grandes mártires do cristianismo e procurem usa-la como bússola a lhes indicarem que estão no caminho certo da prática da caridade a fim de evoluírem em direção a Deus.
O guardião fixou ainda mais os olhos nos olhos de Josiel e continuou a dizer:
— Recordem todos vós que se sentem injustiçados por serem vitimas de ingratidão das vivificantes palavras de Jesus: “Bem aventurados sejam todos aqueles que forem perseguidos por amor ao meu nome”. Não reclamem de ingratidão, sigam os exemplos de Jesus, pois nenhum espírito na face da Terra sofreu mais do que ele pela má ação da própria humanidade que ele viera salvar e, mesmo assim, em nenhum momento de seu martírio Jesus sentiu-se vitima de ingratidão por toda humilhação e sofrimento a que foi acometido, muito pelo contrário Jesus, ao invés de ingratidão tinha era piedade daqueles que lhe maltratavam, por que era conhecedor de quantas provas e expiações eles deveriam passar em futuras encarnações para descobrirem que a verdadeira felicidade não está em humilhar e destruir aqueles que pensam diferente de você, mas dentro de cada um!!!
Josiel escutava aquele guardião falar com tanto vigor e verdade sobre Jesus que se encontrava imensamente emocionado em todas as fibras de seu ser e, enquanto isso, o guardião continuava a falar:
— Na verdade, desde àquela época até os dias de hoje, Jesus tinha uma incomensurável piedade pela ignorância humana. O ignorante é aquele que ignora as regras globais de funcionamento da vida como um todo para tentar, de uma forma ou de outra, fazer com que ela seja vista e interpretada de acordo com suas idiossincrasias. Muitos ignorantes fazem valer suas opiniões por meio das palavras, outros, um pouco mais severos, usam de coerção enquanto que ainda outros utilizam quaisquer tipos de violência para que muitos vejam as cores do arco-íris da vida pelo seu prisma.
Josiel só escutava emocionado e intimamente transformado as palavras daquele exu que continuava a lhe comunicar:
— E Jesus, um excelso espírito em humildade e amor jamais rebateu qualquer uma das criticas que sofreu, jamais violentou sua natureza dócil e simples para fazer com que qualquer pessoa aceitasse as verdades das idéias que constituem o Evangelho. A melhor resposta que Jesus ofertava aos críticos era o trabalho através de suas palavras e ações convocando-os para a prática da Lei de amor. Jesus é o bem e o bem jamais violenta a natureza intima de qualquer pessoa para afirmar suas convicções. Você quer ser um bom médium Josiel?
— Sim senhor!
— Então procure agir como Jesus e não sofra de ingratidão pelas criticas daqueles irmãos de fé que se sentem os senhores da verdade a cerca do seu comportamento ou de qualquer outra coisa, apenas trabalhe porque, como você mesmo disse a esse exu nesta noite, “um gesto vale mais do que mil palavras”; enfim, deixe que suas ações falem por você, está entendendo?
— Sim senhor!
— Uma ultima coisa a ser dita para a sua reflexão: se os terreiros são feitos por homens e estes são imperfeitos, como encontrar o terreiro perfeito?
Ao despertar em seu leito na manhã seguinte Josiel só tinha consciência de uma frase que escutara durante sua noite de sono: “se os terreiros são feitos por homens e estes são imperfeitos, como encontrar o terreiro perfeito?”.
Esta frase mudou a vida dele de tal forma que dez anos após este sonho Josiel ainda estava trabalhando no mesmo terreiro de que certa vez pensara em sair a descobrir, a cada gira que participava, que a perfeição é um ideal possível somente pela prática da caridade, pois somente ela aproxima cada filho de fé da perfeição absoluta que vem de Deus.

sábado, 12 de abril de 2008

Direção


Mensagem de um amigo espiritual


Esta história ocorreu há muito tempo, na época em que estava encarnado o profeta bíblico Jeremias.
Conta-se que o líder de uma tribo, um homem robusto por volta de seus quarenta anos de idade, estava a ponto de explodir de tanta aflição por não saber para onde guiar os seus irmãos tutelados já que não tinham mais o que produzir naquela terra em que habitavam e que se tornara estéril devido a uma seca que já durava muito tempo.
A aflição era tanta que o peito do homem em questão parecia querer explodir de tanta angústia desenfreada.
Este homem era o quinto de uma geração de líderes daquela tribo, só que era muito inseguro e impreciso; ou seja, na forma de pensar dele ele não era um líder nato.
A escolha do líder, na tribo liderada por este homem, se dava através de um Oráculo e ele não entendia por que o Oráculo o havia indicado como líder daquela comunidade há cinco anos. O Oráculo só respondeu que ele era filho do vento e que este um dia o guiaria e a sua tribo para uma terra onde deveriam fazer morada, e como isto ocorrera há cinco anos o homem achava que o Oráculo se equivocara por que a terra em que eles moravam, na época da predição, era intensamente fértil.
Acontece que se passaram cinco e eis que este homem, de nome Jacó, era o líder de sua tribo em uma época que a mãe terra resolvera ficar ressecada e infértil.
Jacó tinha uma grande tristeza com o Oráculo por que ele também lhe advertira, na mesma época, que contraísse os laços do matrimônio somente a partir do instante em que o dia virasse noite. Pensava Jacó que o Oráculo dissera um disparate e que ele nunca viria a casar e deixar herdeiros.
Para aumentar ainda mais a angústia de Jacó fiéis homens de sua tribo comunicaram a ele que forasteiros de aspecto mau e com vestimentas estranhas estavam rondando ao derredor deles; o que fizera com que estes seus dois conselheiros lhe dessem o parecer de que havia chegado a hora de se cumprir a profecia e dele, assim, procurar uma nova terra para o seu povo antes que eles, uma tribo de agricultores, fossem transformados em escravos.
E é assim que vamos encontrar Jacó, num dia de intenso calor sufocante, extremamente duvidoso e revoltado com a sua sina predita pelo Oráculo porque, ele não revelara a ninguém, mas neste instante estava há pouco mais de cem metros de uma falésia de onde pretendia se atirar.
Andou um tanto mais e antes que chegasse ao limite da falésia eis que uma intensa ventania formou-se a frente dele. Devo dizer que não era uma simples ventania, mas um redemoinho de três metros de altura que ficava a girar e girar na frente de Jacó.
Sem entender bem o porquê Jacó prostrou-se ao solo em reverência aquele redemoinho e neste instante, inexplicavelmente, a sua face parecia uma corredeira de onde se podia ver grossas e pesadas lágrimas deslizando não de uma forma desenfreada, mas direcionadamente como águas cristalinas de um rio que tem o endereço certo do mar.
Ele chorava sentidamente e parecia que cada lágrima que brotava de seus olhos desentortava a fundo as emoções desequilibradas de seu coração, ao mesmo tempo em que lhe trazia grande paz.
Minutos depois, sentindo-se indefinidamente mais leve e seguro de si, Jacó ergueu a cabeça, que estava estranhamente no chão em reverência a ventania, e ao olhar a sua frente vislumbrou algo que o deixou infinitamente maravilhado: era um homem com pouco mais de dois metros de altura, com uma lança na mão e que se encontrava totalmente rodeado por um tênue redemoinho, foi então que Jacó escutou dele:
— Levante-se!
Ainda espantado Jacó obedeceu à determinação do homem.
— Difícil é para eu, entender a incredulidade que reina no coração humano!
Jacó nada respondeu, continuo observando, ainda boquiaberto, a manifestação daquele Ser.
— Responda-me, por que tantas dúvidas Jacó?
— Quem é o senhor? O Oráculo?
— Ora, pois não estás a me ver?
— Sim senhor!
— Então entenda que sou como sou. Sou como o vento e pronto.
— Sim senhor!
— Responda-me Jacó, por que tantas dúvidas?
Era difícil para Jacó dizer alguma coisa.
— A insatisfação de ter sido escolhido líder de sua tribo aliado ao seu intenso desejo de constituir família sempre fez com que você desenvolvesse a revolta dentro de si, certo?
— Não posso negar!
— Apenas devo lhe informar que sua insatisfação e incerteza não são oriundas de sua impossibilidade de manifestar o amor através da constituição de uma família.
— Não?
— Não. O motivo de sua revolta é o mesmo da grande maioria de todos os espíritos criados por Deus que é o orgulho de desejar o que não se pode ao invés de querer poder aquilo que se pode desejar.
— Como assim?
— O Oráculo disse-lhe há tempos que você só deveria se casar a partir do instante que o dia virasse noite e você por ter um grande desejo de constituir família continuou a desejar o que ainda não podia ao invés de poder desejar aquilo que deveria ser desejado. Nem tudo aquilo que vocês humanos querem, vocês podem, mas infelizmente tudo o que vocês podem não é o que vocês humanos desejam.
— E o que eu deveria desejar?
— A evolução.
— Como?
— Você deveria desejar evoluir e fazer com que sua tribo evolua junto consigo; ou não é verdade que estavas prestes a pular desta falésia por julgar que sua evolução só poderia se dar se você constituísse família?
— Sim senhor, é verdade!
— E eu bem que sei, pois acompanho os teus passos desde antes de nasceres.
— Mas também acho que não é difícil ao senhor entender que o Oráculo dizer a mim que só poderei casar-me com Narúndia quando o dia virar noite é o mesmo que dizer que nunca irei me casar e isso é para esmorecer a tenacidade de qualquer um.
— Não. Isto é para esmorecer a tenacidade de qualquer um que não crê nas tradições e legados de seu povo e, principalmente, daquele que não crê na sapiência infinita do Divino Criador.
— Mas eu creio em Deus!
— Então como achas que Ele poderia ter se equivocado quando o escolheu para líder de sua tribo? Você se esqueceu das noções que o líder espiritual de sua tribo lhe passou acerca da família? Esqueceu-se que você, junto com sua tribo, forma uma grande família e que o bem desta grande família é prioritário em relação ao bem pessoal de qualquer integrante da tribo, incluindo você?
— Entendo o que o senhor quer dizer.
— Muitos dizem que o amor impede a visão, mas na realidade o que os tornam cegos é o orgulho de cada um em não abrir mão de suas convicções em prol de um bem maior; no entanto, entendo a pureza de seus sentimentos pela bela jovem com cabelos encaracolados de nome Narúndia.
— O senhor a conhece?
— Tanto quanto conheço você. Ela é o fogo e você o ar. O fogo só expande se encontrar o ar, já este só se aquece se houver calor; mas tudo na criação divina tem a sua hora e seu lugar, até mesmo a junção do ar com o fogo.
— É verdade.
— Então pare de duvidar de si mesmo, continue a acreditar em Deus, mas jamais volte a desacreditar de si.
— Sim senhor.
—Entenda que um homem só realiza algo se ele realmente acreditar em si mesmo, você compreende?
— Sim senhor, mas...... Valei-me Deus!!!, O que está acontecendo? O sol está sumindo e está tudo escurecendo, é o fim!
— Acalme-se Jacó o que você hoje está vendo tem o nome de eclipse e para vocês ainda não tem explicação, mas haverá o dia em que nada ficará incompreendido. Na verdade, você não está vendo o fim, mas o inicio de uma nova era para você e sua tribo, pois é este ambiente noturno fora de hora que impedirá que vocês caiam como escravos nas mãos de guerreiros cruéis que estão prestes a lhes subjugarem.
— O que?
— Não se preocupe! Volte agora mesmo para sua tribo e guie a eles durante cento e oitenta e cinco dias em direção aonde o sol se deita que vocês encontrarão a terra que lhes foi prometida alguns anos atrás.
— Mas e os guerreiros cruéis?
— Não se preocupe! Neste momento eles estão muito assustados com a escuridão que se inicia para tentarem alguma coisa contra vocês; mas você tem que ir agora, sem perda de tempo!
— Sim senhor!
— Guie sua tribo com prudência e sabedoria, pois a jornada será longa e árdua.
— Sim senhor! Entendo a urgência da situação, mas só que antes do retorno para junto dos meus o senhor poderia revelar quem é você?
— Ora, o Oráculo já não lhe disse que você é filho do vento?
— Sim senhor!
— Pois então, você, de alguma forma, é um filho meu. O meu nome pouco importa; fundamental mesmo é o seu crer em Deus e em você mesmo e a manifestação de meu mistério em ti por meio de tua crença no Divino Criador.
— Sim senhor!
— Uma folha que cai de uma árvore nunca sabe para onde vai, mas quando vem o vento ele lhe mostra o caminho. Saiba então Jacó que minha Senhora é rainha dos ventos e eu, como enviado dela, só estou aqui e contigo, pela graça do divino criador, para tentar reconduzi-lo até Ele através de minha rainha e senhora. Agora vá Jacó por que tua tarefa é urgente!
— Sim senhor!
Jacó desceu a falésia e conseguiu direcionar a sua tribo, em segurança, para seu destino final. Mais do que isto a Lei não me permite revelar, assim como também não me permite vos revelar o meu nome.
Concluo esta história revelando que ela aconteceu a tanto tempo que se perde no próprio tempo o seu desenrolar no plano terreno, que ocorreu contemporaneamente à época da encarnação do profeta bíblico de nome Jeremias e também que é imensamente encantador e divino ver que tanto este quanto Jacó, personagem de nossa história, tiveram como direcionadores de suas vidas e de suas tribos a presença de um Ser filho do vento e com um harmonioso redemoinho direcionador ao seu redor; ou seja, um Ser que hoje, no ritual de Umbanda, é conhecido como Caboclo Ventania servo, por sua vez, de sua Senhora: a Divina mãe Yansã.





Saravá a mãe Yansã!!!!
Saravá ao Senhor Caboclo Ventania!!!!