sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Simples charuto de caboclo

Ligia segurava o charuto do caboclo que estava a cambonar enquanto a entidade em questão participava dos trabalhos em uma roda de descarrego.

Terminada a tarefa o caboclo dirigiu-se em direção a sua cambone e pediu o charuto de volta agradecendo-a por haver segurado o seu instrumento de trabalho, mas Ligia, não se contendo de sadia curiosidade, perguntou a entidade:
— Senhor caboclo?
— Pois não fia?
— O senhor poderia esclarecer-me uma dúvida?
— Pode fazer pergunta fia!
— O que eu gostaria de saber é o seguinte: por que o senhor sempre me agradece a cada vez que eu entrego o charuto que estou segurando de volta para as suas mãos?
— Suncê quer saber fia?
— Se for possível, gostaria sim.
— Fia, antes de caboclo responder, observe a atuação da nossa linha de trabalho nesta próxima roda de descarrego, sim?
— Sim senhor!
Após trabalhar com todas as pessoas que estavam naquela roda de descarrego a entidade estendeu sua destra a fim de que sua cambone segurasse o seu charuto enquanto ele e as demais entidades que participavam dos trabalhos na roda pudessem finalizar o trabalho.
Ao término daquela roda de descarga a entidade, então, tornou junto à Ligia dizendo:
— Entrega o pito de volta para Caboclo fia!
Ligia devolveu o charuto à entidade que, então, disse-lhe:
— Este caboclo agradece por toda sua atenção.
Ligia sorriu meio que ainda sem entender o porquê daquele agradecimento e o caboclo perguntou a ela:
— E então fia? O que suncê observou do nosso trabalho junto à roda de descarrego?
— Bem, eu observei algumas coisas, mas fica difícil de dizer algo, no aspecto geral, sobre o trabalho dos caboclos em uma roda de descarrego por que cada um trabalha de um jeito diferente em cada assistência.
— Isto até que é verdade, mas o que suncê observou de semelhante no trabalho de qualquer mano caboclo lá na roda?
 — A fumaça do charuto! Nenhum dos senhores trabalha sem ela!
— Muito bem observado fia!
A entidade soltava umas baforadas do seu charuto enquanto fitava o semblante de Ligia e, após alguns instantes, perguntou a ela:
— Suncê ainda não entendeu porque que caboclo lhe agradece por segurar o pito dele, não é?
— Não senhor!
— Fia suncê tem o dom para isso e é por esse motivo que caboclo vai dilatar um pouco de sua percepção sensorial.
— Sim senhor!
A entidade estalava os dedos e soltavas algumas baforadas do seu charuto por toda a cabeça de Ligia. O processo durou poucos segundos e quando terminou a entidade solicitou a Ligia que abrisse os olhos.
— Nossa senhor caboclo!
— O que foi fia?
— É que eu fiquei com um pouco de tontura.
— Não se preocupe que já, já ela passa.
— Sim senhor, na verdade ela já está passando.
— Fia este caboclo vai participar de outra roda de descarrego e pede a suncê que continue a observar pra ver se descobre o porquê do nosso agradecimento, sim?
— Sim senhor.
Quando o caboclo terminou de realizar o seu trabalho com o charuto naquela roda ele, então, estendeu o braço para Ligia que, prontamente, segurou o charuto em suas mãos.
Minutos depois de terminada mais uma roda de descarrego a entidade pediu a Ligia:
— Entrega de volta o pito pra Caboclo fia!
Ligia assim o fez e ele novamente agradeceu-a para depois perguntar:
— E agora fia? O que suncê observou do nosso trabalho na roda?
— Nossa senhor caboclo! Parecia que eu estava ficando louca!
— Por que isso fia?
— Parecia que a fumaça do charuto dos senhores funcionava perispiritualmente para os assistidos na roda como se fosse uma espécie de chuveiro que tira todas as sujeiras do corpo físico.
A entidade sorriu com a comparação de Lígia e ela prosseguiu:
— É sério Sr. Caboclo! Quando a roda de descarrego terminou alguma coisa nelas parecia que estava muito mais limpo do que antes: algumas pessoas respiravam melhor, outras estavam como se tivessem retirado um peso do coração, enfim foi muito bonito de se ver.
— Fia antes de ir para a próxima roda de descarrego este caboclo pede que suncê segure o pito dele.
E, estendendo-lhe a destra, o caboclo entregou o charuto a sua cambone solicitando:
— Fia, agora feche os seus olhos e faça uma prece ao Criador pedindo bênçãos por todos aqueles que ainda passarão pelas rodas de descarga na gira de hoje!
— Sim senhor!
Ligia fez a prece com todo o fervor de sua mente e do seu coração e, então, abriu os olhos.
A entidade, assim, disse-lhe:
— Fia este caboclo agradece por suncê ter segurado o pito dele mais uma vez e pede que suncê observe o trabalho de nós em mais uma roda de descarga para ver se agora descobre o porquê dele agradecer a suncê por segurar o pito, tudo bem?
— Sim senhor!
Quando o caboclo terminou de realizar o seu trabalho com o charuto naquela roda ele, então, estendeu o braço e Ligia, prontamente, segurou em suas mãos o charuto da entidade.
O trabalho naquela roda foi finalizado e quando a entidade aproximou-se de Lígia esta estendeu-lhe as mãos na intenção de devolver o charuto para o caboclo, mas este lhe disse:
— Deixe o pito por mais um tempo em suas mãos que na hora certa este caboclo pede de volta a suncê, sim fia?
— Sim senhor!
— Este caboclo agradece por toda sua dedicação fia e pergunta: o que suncê observou nos trabalhos da última roda que caboclo acabou de participar?
— Senhor caboclo eu realmente observei algumas coisas, mas eu peço ao senhor que, se eu houver visto demais, que o senhor fale francamente comigo como sempre o fez.
— Nossa fia Ligia! Mas por que todo este alvoroço?
— Por que se na penúltima roda que o senhor participou eu percebi que a fumaça dos charutos funciona como a água de um chuveiro, nesta última roda parece que eu vi o que funciona como uma espécie de sabão ou sabonete.
A entidade deu um discreto sorriso para sua cambone e esta tornou a dizer-lhe:
— E então Senhor caboclo? Eu vi coisa onde não existia?
— De forma alguma fia! Suncê só viu o que havia para ver!
— Nossa, mas o senhor fala isto de uma maneira tão calma!
— E qual é o espanto nisto fia?
— Por que o desconhecido assusta um pouco e eu não sei nem um pouco do que eu vi.
— Fia, mas é como suncê mesma disse antes: o que tem de assustador em se tomar uma boa ducha?
— Ducha?
— É fia ou, como suncês encarnados mesmo dizem uma boa chuveirada!
— ?????
— Fia conte pra este caboclo o que foi que suncê viu!
— Bem, enquanto o senhor dava umas baforadas em uma pessoa da roda de descarrego milhares de minúsculos seres ficavam a rodear esta assistência em questão sempre na direção da cabeça para os pés. Estas espécies de seres giravam numa velocidade absurdamente alta e direcionada como se estivessem sendo controlados por alguém a distância. Eles apareciam e sumiam como que por encanto quando o senhor terminava o trabalho em uma pessoa participante da roda de descarga e passava para outra. Bom, foi isto que eu vi.
— A fia só está se esquecendo de um detalhe fundamental em tudo que observou da participação deste caboclo na última roda de descarrego!
— Verdade?
— Fia, fale uma coisa pra este caboclo!
— Sim senhor!
— Segundo a sua observação, participar desta última roda de descarrego foi mais fácil ou mais difícil do que a penúltima em que este caboclo participou?
— Ah, é verdade! Bom quem estava na dinâmica do trabalho lá na roda é o senhor, mas para mim que observava dava a nítida impressão que o senhor conseguia realizar o trabalho com muito mais facilidade, tendo em vista que na penúltima roda parecia que o senhor se concentrava muito mais para poder fazer o seu trabalho do que nesta última.
— Não foi impressão sua fia: para este caboclo, trabalhar nesta ultima roda, foi muito mais fácil que na penúltima e você fia teve uma grande parcela de responsabilidade para que caboclo obtivesse esta facilidade.
— Eu?
— Claro fia, não é suncê que é a cambone deste caboclo?
— Sou eu sim senhor, mas não sei dizer qual foi minha contribuição!
— Pense um pouco minha filha! Qual foi a grande diferença entre a penúltima e a última vez que suncê entregou o pito para este caboclo antes dele participar das rodas?
— Na ultima vez, diferentemente da penúltima, eu fiz uma prece ao Criador pedindo bênçãos para todas as assistências que participariam das rodas. Foi isto senhor caboclo? A prece que fiz a Deus?
— Fia toda prece a Tupã é sempre muito válida em nosso trabalho de fazer a caridade, mas suncê pode relembrar para este caboclo o que suncê possuía em mãos quando proferiu a referida prece?
— Meu Deus é verdade! Em minhas mãos estava o charuto do senhor!
— Exatamente fia! E então, suncê descobriu por que caboclo agradece suncê a cada vez que pede o pito dele?
— O senhor me desculpe, mas é que eu ainda não consegui chegar lá!
— Então este caboclo não vai mais fazer mistério fia: Caboclo agradece a suncê por que a cada vez que sunce entrega o pito de volta pra ele, acaba entregando junto boa parte de sua firmeza, de sua vibração, de sua energia.
— Eu???
— Não só suncê, mas cada cambone que trabalha junto a cada mano caboclo que milita em cada terreiro de Umbanda neste mundo de Tupã Nosso Pai.
— Isto é surpreendente!
— Antes da última roda que caboclo participou suncê fez prece sentida a Tupã e entregou o pito pra caboclo trabalhar cheio destas sutilíssimas e importantíssimas vibrações do desejo de caridade ao próximo.
— Sim, mas eu devo ser sincera e dizer que só fiz isto da última vez.
— Este caboclo sabe.
— Mas se das outras vezes que eu segurava o charuto do senhor eu não fazia prece alguma por que o senhor, mesmo assim, me agradecia?
— Independente de suncê fazer preces ou não, a cada vez que suncê entrega o pito para caboclo, suncê passa muito de sua energia para ele.
— Mas e se eu não estiver com energia boa no dia da gira? Eu vou acabar passando o pito para o senhor impregnado com minhas energias não muito positivas, mesmo assim o senhor me agradeceria?
— Já houve alguma gira que suncê entregou o pito pra Caboclo e ele não lhe agradeceu?
— Não senhor!
— Mas já houve giras em que suncê veio trabalhar com uma energia não muito boa, não é verdade?
— Isto é verdade, mas então por que o senhor sempre agradece?
— Fia, na verdade, o que caboclo agradece é a oportunidade de trabalho no bem que suncês dá pra nós. Umbanda é parceria fia!
— Desculpe, mas como é?
— Parceria fia: estar juntos por um objetivo em comum. Quando suncês cambones estão bem, então suncês fazem preces ou não as fazem, mas entregam o pito para nós com as energias boas que suncês estão naquele dia para nós trabalhar em favor do próximo, não é assim?
— É sim senhor!
— Já quando é suncês que não estão bem, daí somos nós que fazemos preces ao Criador, enquanto seguramos o nosso pito, rogando que suncês possam encontrar melhoras para as dificuldades de suncês e ajudar nós a trabalhar em nome da caridade cada vez mais e melhor e daí, somente após esta prece fervorosa, é que nós entregamos o pito de volta pra suncês segurar a fim de que, captando um pouco de nossa energia que deixamos no pito, suncês consigam encontrar um pouco de lenitivo que o merecimento de suncês lhes facultar.
— Meu Deus, mas isto é lindo!
Assim exclamou Ligia com a voz embargada de emoção pungente e sincera.
— Isto é Umbanda fia e Umbanda, como caboclo disse, é parceria: quando suncê não está bem e entrega o pito impregnado de energias não muito positivas para caboclo, ele então, quando pega este pito das suas mãos, agradece a suncê pela oportunidade que suncê está dando a ele de trabalhar junto a Tupã objetivando a sua melhora energética, vibracional.
— Nossa pelo que o senhor me diz a Umbanda é parceria mesmo, hein?
— Com certeza fia e é por isso que cada vez que um mano caboclo pede o pito de volta para seus cambone ele só tem a agradecer a este.
— Mas o ideal, quando o cambone não está bem, é fazer sempre preces, pedir auxílio a alguma entidade e ficar vigilante para sua vibração não cair e, assim, dificultar o trabalho das entidades, não é assim?
— Certamente não é fia!?! Mas este caboclo sabe que a filha põe em prática aqui no terreiro muito do que acabou de perguntar pra caboclo, não é verdade?
— Infelizmente não é sempre, mas graças a Deus acaba sendo a maioria das vezes, mas...
A voz de Lígia mal conseguia sair dos seus lábios tamanha era a emoção de estar aprendendo coisas tão básicas e importantes para o bom andamento de uma gira, mas de uma forma simples e prática. Mesmo percebendo a dificuldade de Lígia em falar, devido à emotividade, o caboclo incentivou-a dizendo:
— Pode falar fia.
E, fazendo um esforço grandioso para não embargar a sua voz com uma honesta emoção, foi que Lígia disse:
— Sabe o que eu acho mais lindo na Umbanda em relação a tudo isto que o senhor acabou de revelar para mim?
— A voz de suncê está embargada não é fia? Embargada de singela emoção por contemplar a prova do que disse Jesus sobre a simplicidade da misericórdia e benevolência das coisas de Deus materializada na religião de Umbanda pela presença de um simples charuto de caboclo, não é verdade fia?
As lágrimas de agradecimento por estar tendo aquela preciosa conversa com o caboclo deslizavam aos borbotões pela face de Ligia e esta emoção tão bonita e sincera a impedia de proferir qualquer resposta em relação à indagação feita pela entidade e ela, assim, só pôde respondê-lo positivamente acenando com a cabeça.
O caboclo então continuou a conversa dizendo:
— Caboclo agradece a Tupã pela parceria entre suncê e este caboclo e respeita cada lágrima de gratidão ao Criador que está deslizando pelo seu rosto, mas deve solicitar licença por um breve instante neste seu processo de agradecimento para pedir a suncê que devolva o pito deste caboclo para que ele possa participar de mais uma roda de descarrego em nome da caridade ao próximo.
As lágrimas continuavam a escorrer pelo rosto de Ligia e ela, assim, só pôde estender as mãos para devolver o charuto sem nada conseguir dizer a entidade.
A entidade pegou o charuto nas mãos, deu as costas para Ligia, andou um passo a frente e ficou parado de costas para sua cambone.
Talvez fosse para substituir um pouco daquelas lágrimas de alegria por um sorriso singelo feito da mesma emoção, talvez não, o fato foi que o caboclo novamente virou-se de frente para Ligia e disse:
— Pensou que caboclo houvesse se esquecido desta vez não é fia Ligia? Mas este caboclo não esquece nunca de agradecer a suncê por haver segurado por mais uma vez o pito dele. Que Tupã abençoe em dobro toda a atenção que suncê dispensa a este caboclo nesta nossa parceria e que seja abençoada também a parceria que Tupã tem com todos nós através da nossa sagrada e amada religião de Umbanda.
Ao que Lígia, já um tanto refeita em suas emoções, respondeu:
— Que assim seja!!!!!










Mensagem de um caboclo canalizada por Pedro Rangel em 27/01/2010

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Sobre a certeza




— Márcia você me desculpe lhe falar mais uma vez amiga, mas é que eu realmente penso que você deveria ir comigo lá no terreiro.
— Bobagem Vera, isto é coisa de ignorante!
— Ignorante amiga? Então quer dizer que você julga-me como tal?
— Não Vera! Apenas digo que as pessoas que fazem parte destes centros são ignorantes.
— Os médiuns?
— Exatamente!
— Mas lá na corrente do terreiro que eu freqüento como assistência existem médicos, professores, entre outros.
— Então, eles são doutos na profissão que exercem, mas ignorantes por acreditarem em contos de fadas.
— Desculpe pela insistência minha amiga, mas é que eu estou muito preocupada com esta sua tontura que nenhum dos médicos que você visitou encontrou explicação plausível.
— Eu sei Vera, eu sei!
— Então amiga, o que lhe custa dar uma chance para que as entidades que militam na umbanda possam lhe auxiliar? Você não quer acabar com esta tontura?
— Puxa, já perdi as contas de quantas vezes você abordou este assunto comigo!!!
— Perdão! Eu não mais lhe aborrecerei!
— Não Vera, eu vou contigo! Está na hora de acabar com esta história de uma vez!
— Então você vai?
— Vou!
— Graças a Deus!
— Quando é a sessão?
— Hoje a noite, às 20;00 horas.
— Pode deixar que eu não faltarei.
Naquela sexta-feira à noite, precisamente às 20h45min, Márcia sentou-se em um toco para receber a consulta do caboclo Rompe-mato que disse-lhe:
— Salve Tupã filha!
Ao que ela respondeu:
— Salve!
— Este caboclo ignorante só gostaria de saber em que poderia auxiliá-la.
Márcia pensou: “ será que esta entidade sabe o que eu penso a respeito desta seita?”
— Religião filha!
— Como?
— A umbanda não é uma seita, é uma religião!
— Então você pode ler meus pensamentos?
— Posso ver somente aquilo que Tupã julgar que seja importante para auxiliá-la.
— Então por que você... caboclo Rompe-mato, não é isso?
— Exatamente!
— Por que você não me diz o que vim fazer aqui nesta noite? Será que Deus permitiria que você visse?
— Já vi!
— Viu?
— Você pode até não saber, mas veio até aqui para acabar com uma certeza dentro de você!
— Acho que você não viu direito!
— Filha eu não devo tentar convence-la de nada. Eu só posso dizer aquilo que a Lei me permita revelar.
— Mas de que certeza você está falando?
— Da mesma certeza que o vosso pai explicou-lhe aos cinco anos de idade!
— Meu falecido pai?
— Exatamente, lá no circo.
— Não me recordo.
— Filha você se lembra quando seu pai lhe explicou como é possível um animal robusto como o elefante ficar preso em um pequenino toco de madeira?
Os olhos de Márcia marejaram com as recordações do pai saudoso e ela respondeu ao caboclo:
— Lembro.
— Então, o seu pai lhe explicou que o elefante desde pequenino tem uma corda amarrada em seu corpo que o prende a um fortíssimo tronco de árvore, não foi?
— Exatamente!
— E como o elefante tenta inúmeras vezes se libertar daquela corda e não consegue um dia ele acaba desistindo de tentar fazer isto justamente por ter a certeza de que isto seria impossível.
— Meu Deus, mas como o senhor pode saber disto?
— Filha não precisa chamar-me de senhor, continue a tratar-me de você.
— Acho impressionante como o senhor pode saber de uma coisa tão antiga, entretanto devo lhe dizer que se enganou quanto ao motivo que me trouxe até aqui esta noite.
— Verdade filha?
— Sim. Vim até aqui por que estou com uma tontura terrível.
— A tontura é conseqüência e a certeza é a causa dela!
— Como é?
Uma certeza que você possui está provocando esta tontura.
— É incrível como o senhor consegue ver tão bem o meu passado, mas não enxerga o momento presente!
— Fale mais filha!
— Na verdade o meu esposo vem cobrando certa coisa há seis anos e eu tenho um medo muito grande de “quebrar a cara” com a decisão que eu tomar. Eu tenho medo e não certeza!
— Você não está indecisa pelo medo, mas devido à certeza!
— Certeza?
— É! Certeza de que vai “quebrar a cara” se concordar com o seu marido.
— E qual é a diferença?
— Aquele que tem medo procura se precaver e se preparar para depois escolher um caminho. Após a escolha ele até teme pelo pior, mas não tem receios de viver um dia após o outro. Já aquele que tem a certeza de que vai “quebrar a cara” acabará “quebrando-a” por que será incapaz de enxergar o aprendizado da caminhada em sua decisão.
— Nisto você tem razão.
— Você entende que é a certeza que a vem impedindo de agir tal qual um pequenino tronco de madeira que consegue prender o mais potente elefante?
Neste instante, ao misturar imagens do presente com recordações do seu saudoso pai, Márcia chorou um copioso pranto.
O caboclo Rompe-mato deixou que a tempestade passasse e somente quando chegou a bonança emotiva no coração de Márcia foi que ele disse:
— Toda escolha envolve perdas e ganhos: o importante é saber o que se quer perder e o que se deseja ganhar com uma determinada escolha.
— Você sabe de qual escolha eu estou falando, não sabe?
— Você, até sentar na frente deste caboclo, tinha a certeza de que engravidar iria acabar com a paz em sua vida. Agora, depois da conversa que estamos tendo, esta certeza já não está tão clara em seu coração.
— É verdade!!! Mas...
— Fale filha!
— Qual é a relação desta certeza com a tontura que venho sentindo?
— Filha, esta gravidez foi programa no plano espiritual antes de seu reencarne e este caboclo só pode dizer que é uma oportunidade que você vem esperando há muitas encarnações.
— É mesmo?
— Sim. E o seu espírito sabendo que a hora é chegada vem lhe fazendo recordar do compromisso assumido há tanto tempo.
— E isto vem causando a tontura?
— Não. A sua teimosia em não querer assumir o compromisso vem atraindo compainhas espirituais indesejadas e grande desequilíbrio energético para você.
— Nossa, caboclo Rompe-mato, eu não entendo muito do que você está falando, mas sinto a força da verdade em suas palavras dentro do meu coração!
— Que bom filha, pois este caboclo só pode lhe dizer o que Tupã permite que seja dito.
— Eu entendo!
— Reflita no que caboclo lhe disse e use o seu livre-arbítrio com sabedoria! Peça a Deus que lhe dê entendimento para discernir verdadeiramente o que é ganhar e o que é perder de acordo com as decisões que você tomar, entende?
— Sim senhor, mas...
— Solta língua seu filha!
— Será que o sonho que tenho desde criança, mas que vem se repetindo intensamente nos últimos seis meses, está relacionado com este meu compromisso pré-reencarnatório?
— Filha este caboclo, no momento, só está autorizado a lhe dizer que assim que o seu filho nascer este sonho não mais se repetirá.
— Sim senhor, obrigada por tudo!
— Não agradeça a este caboclo, agradeça a Tupã.
Dois anos depois deste atendimento Márcia senta-se com o seu filho na frente do caboclo Rompe-mato e lhe diz:
— Senhor caboclo eu vim aqui hoje por dois motivos, sendo que o primeiro é lhe agradecer pela vida do meu filho, Henrique.
— O caboclo cruzou a testa da criança, olhou para Márcia e disse sorrindo:
— O seu curumim é lindo, mas caboclo lembra de ter pedido a você que só agradecesse a Tupã, não é verdade?
— É verdade!
— Mas diga filha Márcia: qual foi o outro motivo que trouxe você para conversar com este caboclo?
— É que eu tenho uma dúvida que para esclarecê-la eu teria que lhe contar aquele sonho que eu tinha desde criança e que, como o senhor mesmo me disse, parou de ocorrer desde o nascimento do Henrique.
— Pode falar filha!
— É que em meu sonho eu me via como esposa de um governante de um dos povos do antigo império babilônico. Eu via também que estava grávida, mas que o filho não era do meu esposo e sim de um escravo de nossa residência que tinha o nome de Josias.
Caboclo Rompe-mato recordava junto com Márcia quando lhe disse:
— Prossiga filha!
— Bom daí, de uma forma que eu não sei dizer como, o meu marido descobriu este fato e chicoteou.....
O caboclo Rompe-mato prosseguiu:
... chicoteou o escravo até mata-lo.
— Isto! Mas o que mais me impressiona foram as palavras ditas pelo escravo antes de morrer e que foram: ........
O caboclo Rompe-mato prosseguiu:
— “...............não se preocupe , pois um dia eu a auxiliarei a trazer a criança de volta a vida”.
— Isto! Mas, como o senhor sabe?
— Continue a contar o sonho filha!
— Naquele momento eu não entendi o porquê do escravo haver dito aquelas palavras a mim; somente dois dias depois do seu óbito foi que descobri: meu marido obrigou-me a escolher entre ter a criança e ser vendida como escrava ou abortar e continuar como a amante dele. Visando apenas o meu conforto eu tive a certeza de que era melhor abortar, mas o meu marido, mesmo assim, vendeu-me como escrava, do resto não me lembro.
— E qual é a sua dúvida filha?
— É que o meu bebê, o Henrique aqui no meu colo, eu sinto como se ele fosse aquele escravo reencarnado, eu estou certa?
— Isto é coisa que caboclo Rompe-mato não está autorizado a dizer só o seu próprio coração.
— Então está bem, agradeço a Deus por tudo, mas também não tem como deixar de agradecê-lo!
E, com um esboço de sorriso no canto dos lábios, o caboclo disse a ela:
— Agradeça somente a Tupã filha! Este caboclo é só um espírito ignorante!
Márcia sorriu ao recordar-se do quanto era pedante e preconceituosa com as práticas umbandistas há dois anos até o momento que conversou pela primeira vez com o caboclo Rompe-mato.
O caboclo despediu-se de Márcia e ela bateu ritualisticamente a cabeça no gongá em reverência e agradecimento a Deus.
A cambone do caboclo Rompe-mato olhou para ele de forma quase suplicante ao solicitar:
— Posso falar com o senhor?
— Pode falar filha!
— É que eu gostaria muito de agradecer o aprendizado que obtive com o senhor neste atendimento: muitas vezes deixamos de agir, de optar, de escolher nem tanto por medo, mas pela certeza de que o caminho que escolhermos nos levará ao arrependimento. Jamais devemos agir com o intuito de errar, mas se errarmos devemos entender que isto só nos aproxima do jeito correto de se fazer as coisas.
— Caboclo está vendo que filha aprendeu mesmo, hein?
— Muitas vezes deixamos de agir não por medo de errar, mas pela prepotência de querermos sempre ser infalíveis e pela triste certeza de que é melhor não agir do que errarmos.
— Caboclo fica feliz com seu aprendizado, mas agradeça somente a Tupã por ele.
— Sabe senhor caboclo foi incrível, quase inacreditável, como o senhor sabia descrever com minúcias o multissecular sonho da Márcia.
— Multissecular?
— É por que, como o senhor sabe, o império babilônico existiu há muitos séculos.
— Entenda, filha cambone, que você não deveria se espantar com este caboclo por isto!
— Ah eu sei que não deveria mesmo, pois eu sei como o senhor é poderoso e..........
— ...............Filha cambone?
— Sim senhor caboclo?
— Nunca mais repita que este caboclo é poderoso!!!
— Desculpe!
— Este caboclo sabe que você exerce há pouco tempo a tarefa de cambonar, mas nunca se esqueça que só Tupã é poderoso aliás, Todo Poderoso!
— Sim senhor!
— Não precisa ficar assustada, porque caboclo não está brigando, mas tentando esclarecer você.
— Sim senhor!
— Caboclo sabia do sonho da filha Márcia não porque é poderoso, a justificativa é muito, mas muito mais simples!
— E o senhor poderia contar qual é?
— É que este caboclo é contemporâneo da época em que ocorreu a história contada pela filha Márcia e é por isso que tem conhecimento do sonho narrado por ela, entendeu?
— Sim senhor!
— Então, por caridade, vá chamar a próxima assistência para este caboclo atender por que a prática da caridade não pode parar, não é filha?
— É sim senhor! Deixa eu ir lá chamar a assistência!
E enquanto a cambone se afastava do caboclo ele agradecia intimamente a Deus pela oportunidade de ter auxiliado na tarefa que há muito aguardava.
A cambone trazia uma senhora de aproximadamente sessenta e cinco anos de idade que seria o próximo atendimento da entidade e, enquanto isto acontecia, o Caboclo Rompe-mato passou a recordar dos tempos em que fora líder religioso de um povo que posteriormente foi feito escravo pelos caldeus. Na religião que ele professava eram ensinadas as verdades sobre a reencarnação, mas também a existência em um único Deus.
Lembrou-se de que era casado e que, quando o seu povo foi feito escravo, o governante maior dos caldeus tomou a sua mulher para amante, sem saber que ela estava grávida do esposo há poucas semanas.
A entidade se recordava destes momentos referentes a esta encarnação com um profundo sentimento de respeito e gratidão ao Divino Criador pelo fato de tanto haver evoluído por meio do sofrimento, e, enquanto a próxima pessoa a ser assistida pela entidade sorria para ele e já se sentava no toco o caboclo Rompe-mato terminava de agradecer a Deus por todo o crescimento espiritual que adquirira quando fora a encarnação do escravo caldeu que possuía, nesta referida época, o nome de Josias.

sábado, 28 de novembro de 2009

TELEFONE




Em uma madrugada de quarta-feira, em meio à orla marítima, Pai Benedito preparava-se para o último atendimento fraterno daquela noite.



A lua cheia brilhava esplendorosa no céu quando o perispirito de uma senhora de aproximadamente sessenta anos de idade, mas de mente jovial, sentou-se à frente da entidade.


— Como vai suncê zifia?


— Apesar de preocupada eu até que vou bem, mas qual é o nome do senhor?


— Zifia o nome deste nêgo é Benedito, mas nêgo deve pedir licença a suncê pra dizer que o senhor tá no céu.


— Vovô desculpe-me, mas eu só o chamei de senhor para demonstrar respeito.


— Nêgo véio sabe zifia, mas para que fique tudo certo é que nêgo pergunta: eu também posso tratá-la respeitosamente chamando-a de senhora?


— Ah não vovô, se for possível eu gostaria que o senhor me chamasse apenas de Mercedes.


— Então tá tudo certo zifia: nêgo chama suncê de Mercedes e suncê chama nêgo de Benedito.


Respondendo com um sorriso nos lábios Mercedes disse a entidade:


— Está certo vovô!


— Mas conte pra nêgo o que trouxe suncê até ele minha filha!


— Vovô, veja bem, eu conversei com o meu filho e ele disse que na próxima gira do terreiro ele vai estar sentado lá na assistência.


— Que bom zifia! Muito formoso suncê levar mais um zifio pra conhecer uma das casas de caridade onde nóis trabalha em nome da umbanda.


— Nem me fale vovô, pois eu não vejo a hora de chegar o dia da próxima gira no terreiro!


— Mas por que tanta ansiedade zifia Mercedes? O filho de suncê tá com algum problema?


— Foi bom o senhor ter tocado neste assunto vovô, por que, na realidade, quem está com um problema sou eu!


— Conta pra nêgo véio zifia!!!


— Bem, é que nos últimos meses eu tenho me sentido muito só lá na casa onde eu vivo com meu filho, minha nora e meu netinho.


— Como assim zifia?


— A solidão que eu sinto é mais por parte do meu filho, que quase não tem tempo para estar comigo. O meu esposo faleceu há poucos meses, mas eu o sinto muito mais presente na minha vida do que o meu filho que eu tanto amo!


— Zifia Mercedes, nêgo inté que entende suncê; só o que nêgo não entende é o porquê da sua ansiedade em que o seu filho vá à assistência do terreiro.


— Olha vovô a minha ansiedade é por que eu não vejo a hora de o senhor conversar com o meu filho Ramon sobre toda esta solidão que eu já venho sentindo há um bom tempo. O senhor poderia fazer isto?


— Zifia antes, por caridade, responde uma coisa pra nêgo.


— Sim senhor!


— Zifia se o seu filho Ramon, ao invés de morar junto com suncê, residisse numa terra bem distante como suncê haveria de fazer pra conversar com ele?


— Bem vovô, eu poderia usar o telefone.


— Telefone?


— É vovô! O senhor não conhece?


— Ver nêgo já viu só que nêgo não sabe como funciona; suncê pode explicar pra ele?


— Certamente vovô! O telefone é um aparelho de comunicação onde eu posso fazer contato com outras pessoas, tanto como emissora quanto como receptora de mensagens.


— Nossa zifia Mercedes esse tal de telefone é mesmo um aparelho muito importante, não é?


— É sim vovô!


— Zifia pelo que este nêgo tá entendendo o telefone é um aparelho que encurta a distância aproximando pessoas, é isto?


— Exatamente vovô!


— Zifia, se uma pessoa que suncê gosta muito e sente muito a falta de comunicação com ela morasse do lado da sua casa suncê ia preferir entrar em contato com ela pelo telefone ou pessoalmente?


— Olha vovô eu preferiria pessoalmente.


— Suncê pode contar por quê?


— Perfeitamente. Para mim nada é mais importante do que o contato pessoal com aqueles que são tão caros ao nosso afeto. O telefone é importante, mas não deve substituir o carinho, a troca de energia e afeto que só o contato pessoal sabe proporcionar inigualavelmente.


— Deixa nêgo ver se entendeu: suncê tá dizendo que o telefone serve para encurtar distâncias em relação às pessoas que estão longe de nós, porque para pessoas que estão próximas nada é melhor do que o contato pessoal é isto?


— Exatamente isso vovô!


— Zifia Mercedes, nêgo véio entende que suncê veio até aqui pedir auxílio, mas, por caridade, será que Benedito pode fazer mais uma pergunta pra suncê?


— Puxa vovô, não precisa nem pedir!


— Zifia, como suncê mesma pode ver este nêgo véio não é muito chegado a beleza, mas mesmo assim ele pergunta: será que Nêgo Dito é tão feio, mas tão feio que parece um telefone?


Completamente atônita Mercedes respondeu:


— Como é vovô?


— Nêgo véio parece um telefone zifia?


— Claro que não vovô! O senhor é completamente diferente!


— Completamente diferente?


— Completamente vovô!


— Então porque zifia Mercedes deseja transformar este nêgo véio num telefone de suncê?


— Não entendo vovô!


— Não é suncê que mora na mesma casa com o seu filho Ramon?


— Sim senhor.


— Ele não lhe é muitíssimo caro?


— É sim senhor.


— E se ele mora na sua casa isso não quer dizer que ele lhe é próximo?


— Exatamente!


— Suncê quer que ele saiba que suncê se sente só em relação a ele, não é isto?


— Exatamente!


— Então por que suncê não aproveita esta oportunidade de ouro que é viver ao lado dele e não lhe diz o quanto a ausência dele a está fazendo sentir-se sozinha, triste, com medo de ser abandonada? Quem é nêgo véio pra substituir suncê no coração do seu filho? Se suncê souber quando, como e o que falar as suas palavras terão muito mais valia no coração do filho Ramon, do que qualquer palavra que este nêgo disser a ele, pois aos olhos daquele zifio nêgo véio seria apenas um telefone.


Talvez seja pelo fato do preto-velho falar das coisas que vão ao coração de um jeito tão humilde, talvez seja pelas palavras daquela entidade terem ampliado a consciência de Mercedes, ou talvez seja mesmo pelo fato dela ter carregado aquele sentimento de abandono por tempo demais dentro do seu ser: a realidade é que nenhuma destas teorias é mais importante do que o pranto transmutador que brotou dos olhos de Mercedes, desafogando o peito dela do medo e clareando o seu mental.


Após alguns instantes, e já se sentindo bem melhor, Mercedes disse a entidade:


— Vovô, o senhor me disse que se eu souber quando, como e o que falar com o meu filho o resultado será benéfico para nós dois, mas como é que eu vou saber o que quando e como comunicar-me com o meu filho?


— Simples zifia: é só suncê fazer um telefonema antes de conversar pessoalmente com o filho Ramon!


— Telefonema? Mas o senhor não acabou de dizer que é melhor falar pessoalmente?


— Este telefonema que suncê vai fazer num é pro fio Ramon!


— Não!?!?


— Não! É pra Zambi-Nosso-Pai!


— Telefonar para Deus? Vovô, o senhor está falando sério?


— Claro zifia Mercedes!


— E como é que se telefona pra Deus?


— Um telefone não serve pra comunicação?


— Sim.


— E como comunicar-se com Deus?


— Ah, entendi vovô! Eu devo fazer uma prece a Deus, não é isso?


— Exatamente zifia!


— Só que eu já fiz inúmeras preces a Deus e até agora não consegui encontrar forças para falar da minha dificuldade com o meu filho, por isto é que eu fui trazida até aqui para falar com o senhor!


— Nêgo véio sabe disto zifia: os filhos de fé são os emissores dos pedidos de auxilio divino, Zambi é o receptor destes pedidos, a oração é o telefone e nós, que suncês chamam de entidades, somos os impulsos telefônicos!


— Pois é vovô a sua definição é, mais uma vez, brilhante em tanta simplicidade, mas o que o senhor quer me dizer, na realidade, é que eu devo fazer mais preces antes de conversar com o Ramon?


— Zifia, por caridade, cite pra nêgo pelo menos dois problemas que podem atrapalhar ou impossibilitar a comunicação num telefonema entre duas pessoas aqui na terra.


— Bem, quando o telefone está mudo isto impossibilita a ligação telefônica; já quando esta é estabelecida os chiados podem atrapalhar a comunicação.


— Muito bom zifia! Foi suncê que acabou de ser brilhante!


— Eu?


— É zifia! Suncê mesma acabou de responder por que não conseguiu forças pra conversar com o seu filho apesar de sua reiterantes rogativas a Zambi.


— Eu respondi vovô?


— É zifia! Suncê até hoje não obteve a resposta de Zambi em relação aos “telefonemas” que suncê faz a Ele por conta das interferências no telefone.


— Não entendi vovô!


— Zifia Mercedes suncê mesma respondeu pra nêgo: quando o telefone está mudo a ligação fica impossibilitada.


— Desculpe, mas ainda não entendi vovô!


— Zifia muitas vezes quando suncê pega o telefone da oração pra fazer rogativas a Zambi ele está mudo e daì Zambi não recebe a mensagem de suncê!


— Quando é que isto acontece vovô?


— Quando sunce, por exemplo, faz a prece, mas se julga imerecedora de receber a benção, nêgo véio tá mentindo?


— Não senhor!


— O fato de emitir a oração com algum juízo de valor é o suficiente, por si só, pra torná-la muda, pois só Zambi-Nosso-Pai pode julgar o merecimento ou não de cada um em suas orações.


— Estou entendendo vovô, mas será que o senhor também poderia contar-me a interferência que faz a minha oração ficar com “chiados” aos ouvidos de Deus?


— Perfeitamente zifia! É quando suncê faz preces com outros desequilíbrios nos campos da fé!


— O desequilíbrio nos campos da fé provoca chiados na oração a Deus: é isto?


— Exatamente, pois a oração é por si só, um ato de fé, não é verdade?


— É verdade, agora estou entendendo Pai Benedito!


— No seu caso, como suncê bem sabe, o desequilíbrio nos campos da fé que produz os chiados em suas orações é originário do medo que suncê tem que Deus lhe dote de forças pra conversar com o seu filho e de que você, depois de conversar com ele, seja tratada de forma indesejada pelo Ramon devido à incompreensão dele.


— Não vou negar o senhor tem razão, é verdade!!!


— Pois então minha filha mudar sua postura, seu estado consciencial, continuar a ter fé em Deus sem duvidar de seu próprio merecimento e capacidade são as condições que farão a qualidade dos seus telefonemas ser a melhor possível aos ouvidos de Zambi-Nosso-Pai, suncê entendeu?


— Sim senhor!


— Então vá na força e na luz de Zambi-Nosso-Pai!


— Que assim seja e muito obrigado vovô!


— Nêgo véio é que agradece zifia Mercedes, nêgo veio é que agradece!!!







Mensagem de Pai Benedito recebida por Pedro Rangel.





segunda-feira, 2 de novembro de 2009

OLHOS DO CORAÇÃO


O corpo de Jorge repousava em seu leito em um sono dos mais profundos e foi quando o seu espírito libertou-se parcialmente do invólucro carnal que ele recebeu uma visita inusitada: um homem alto, com barba branca, rala e olhar sereno o aguardava de braços cruzados.
Fazia pouco menos de um ano que Jorge entrara na corrente mediúnica de um terreiro de umbanda onde atuava como cambone. Apesar de amar a umbanda e os trabalhos das entidades ele, devido ao seu gênio cético, sentia-se pouco à vontade para participar de trabalhos envolvendo obsessores.
A cada trabalho deste gênero que acontecia no terreiro ele observava atentamente a tarefa dos doutrinadores e das entidades junto a estes irmãos necessitados sendo que uma dúvida raramente saia de sua cabeça: “Será que tudo isto que vejo é realmente verdade?”.
Quando esta dúvida tornava-se por demais exacerbada em alguma gira o caboclo a quem ele cambonava dizia-lhe:
— Firmeza no ponto filho! Firmeza nos trabalhos!
Daí então ele procurava afastar as dúvidas e concentrar-se nas orações, mas ao sair do terreiro, aos términos das reuniões, ele invariavelmente dizia aos seus irmãos de fé em tom jocoso: sou discípulo de São Tomé!
Caboclo Rompe-mato era a entidade a quem Jorge cambonava e que ali, dentro daquele terreiro, tinha a incubência de comandar as rodas de descarrego.
Ele observava o sentimento crescente de dúvida em seu cambone a cada reunião até que em uma gira a entidade pediu a ele que assentasse no banco disposto onde aconteciam os trabalhos especiais de descarrego e em que chegavam, quando necessário, espíritos obsessores e sofredores.
Jorge já se dirigia ao banco determinado pelo caboclo quando ainda tentou argumentar com a entidade:
— “Seu” Rompe-mato, eu estou super-bem na minha vida pessoal, familiar, nos estudos, no trabalho e não sabia que estava com problemas junto a espíritos obsessores e sofredores!
Fio, não vamos ser pejorativos com o sofrimento alheio, chamemos o espírito que aqui se manifestará a implorar perdão como: irmão.
Jorge estava, de fato, sentindo-se muito bem e não entendia o porquê da realização daquele trabalho, entretanto em tom respeitoso ele respondeu à entidade:
— Sim senhor”
— Procure não usar muito o intelecto; ao invés disto sinta o amor divino em seu coração e procure oferta-lo ao irmão que aqui se manifestará tão necessitado do seu perdão. Estamos combinados?
— Sim senhor!
Jorge respondera ao caboclo sem entender o porquê da ênfase que ele dera a necessidade de perdão por parte de seu cambone por que sendo Jorge uma pessoa que não era rancorosa então ele não haveria de ter dificuldades em conceder o perdão a qualquer espírito que lhe solicitasse isto.
Mesmo sentindo-se um discípulo de São Tomé, Jorge sentou-se no banco e em poucos minutos um espírito sofredor manifestou-se em um médium que não era o mesmo que cedia o corpo físico para a manifestação do caboclo Rompe-mato.
O sofrimento do espírito era imenso e muitas lágrimas eram vertidas enquanto ele pedia perdão a Jorge:
— Perdão! Perdoe-me Ernesto! Hoje sei que o que eu fiz foi errado, mas na época eu julgava que era amor! Perdão pelo amor de Deus!
Jorge não conseguia entender nada do que acontecia, pois desde a manifestação deste espírito, no médium de nome Carlos, um ódio inexplicável brotou do seu coração em relação ao referido sofredor.
Não suportando a curiosidade e já começando a pensar que estava enlouquecendo Jorge abriu os olhos e olhou para o espírito manifestado em Carlos, mas só que ele estranhamente não conseguia ver o médium apenas o espírito incorporado; foi quando o caboclo Rompe-mato determinou-lhe:
— Feche os olhos fio! Abra somente o teu coração e procure fazer o que combinamos!
— Sim senhor!
O espírito berrava com todo o seu sofrer:
— Olhe pra mim Ernesto! Perdoe-me, daqui eu vejo que Renilda, nossa companheira de outrora, está de volta ao seu lado! Você não precisa continuar a odiar-me! Perdoe-me!
Enquanto tudo isto acontecia o caboclo Rompe-mato estendeu a destra na direção do chacra cardíaco de Jorge irradiando energias que funcionavam como um bálsamo nas emoções de seu cambone.
Foi somente assim que Jorge conseguiu respirar melhor, abrandar as emoções, abrir novamente os olhos e balbuciar para o espírito manifestado em Carlos:
— Eu te perdôo! Vá em paz!
O espírito, assim, virou-se em direção ao caboclo e perguntou:
— E então, falta pouco para eu ser livre?
— Sim meu irmão, em breve você será liberto.
— Obrigado, obrigado, obrigado!!!
Foi o que respondeu o espírito em questão antes de desincorporar.
A gira, então, prosseguiu normalmente até o seu término.
Os médiuns despediram-se com abraços fraternais antes de retornarem para os seus lares.
Jorge chegou a sua casa e, enquanto tomava um banho, encontrava-se deveras impressionado com o que lhe ocorrera na gira, mas a fome era ainda maior que sua curiosidade e ele procurou não demorar-se para lanchar.
Após uma leve refeição um sono pesadíssimo o acometeu e ele foi preparar-se para deitar.
Somente quando o sono chegou foi que o seu espírito, então semi-liberto do corpo carnal, reparou na visita que recebia em seu quarto: era um homem alto, com barba branca, rala e de olhos amorosamente serenos que o aguardava de braços cruzados.
Jorge fitava os profundos olhos azuis deste homem quando este lhe disse:
— E então, vamos?
— Você desculpe-me, mas vamos aonde se eu nem mesmo lhe conheço?
— Seus olhos podem não me reconhecer, mas o seu coração sim. Feche os seus olhos e sinta quem eu sou!
Jorge fechou os olhos e então o homem estendeu sua destra na direção do chacra cardíaco dele enviando ondas de energia que subiam em direção ao chacra frontal, na direção do “terceiro olho”, como se estivesse a estimulá-lo.
Então, tomado por incontida emoção, foi que Jorge ajoelhou-se respeitosamente e disse ao homem:
— Meu coração o reconhece e saúda senhor caboclo Rompe-mato!
— Deixe de formalidades meu filho! Faça como o de costume em dia de gira: chame a mim de “Seu” Rompe-mato.
— Sim senhor!
— E então? Vamos?
— O senhor me desculpe “Seu” Rompe-mato, mas vamos aonde?
— Ora não é você que vive dizendo aos seus irmãos de fé que é discípulo de São Tomé?
Visivelmente encabulado Jorge respondeu:
— Sim senhor!
— E você não gostaria de ver para crer se o seu perdão efetivamente serviu para auxiliar na libertação do espírito que se manifestou a pedi-lo calorosamente na gira?
— Gostaria de ver, mas não para crer, apenas para auxiliar.
— E por que não?
— Por que na última gira eu aprendi a ver pelos olhos do coração.
— Bela resposta meu filho, demonstra sabedoria.
— Na verdade eu não sei se conseguiria perdoar aquele irmão se o senhor não tivesse me doado um pouco da sua energia.
— Mas não foi a minha energia que o fez perdoar!
— Não!
— Não. A minha energia só clareou os caminhos para que você pudesse enxergar a luz do perdão divino que existe não só dentro de ti, mas de cada ser humano.
— Entendo.
— Usando um dos meus atributos eu enviei-lhe uma energia rompedora que o auxiliou a romper tristezas, mágoas e ressentimentos que estavam a obstruir o teu acesso ao caminho do perdão.
— Puxa que lindo!!!
— E então vamos?
— Estou as suas ordens!
E Jorge, acompanhado do caboclo Rompe-mato, foi até a região umbralina interligada ao espírito que se manifestara na gira do terreiro a suplicar o perdão dele.
Havia uma espécie de complexo prisional e eles pararam em frente à cela onde se encontrava o referido espírito, mas este não conseguia vê-los. Foi então que a entidade disse a Jorge:
— Vou densificar o seu corpo astral para que o irmão encarcerado possa vê-lo. Não procure dialogar com ele, apenas abra as grades e liberte-o!
— Sim senhor!
Jorge, assim, tornou-se visível ao espírito que, fortemente emocionado, bradou:
— Ernesto! Graças a Deus! Louvado seja Deus! Vejo que de fato você me perdoou! Saiba que muitos se ofereceram para abrir este portão, mas eu tinha que recusar! Eu só poderia sair daqui e ser um homem realmente livre se o meu leal amigo de outrora julgasse que eu merecesse ser liberto por meio do seu perdão e você veio, você veio! Louvado seja Deus!
Jorge percebeu que o portão não possuía tranca alguma e então o empurrou para que a cela fosse aberta.
O caboclo pedira-lhe que não travasse nenhum dialogo com o espírito encarcerado e olhar para aquele ser maltrapilho e que exalava odores fétidos era terrível para Jorge, mas foi procurando manifestar a essência divina do amor e do perdão que havia encontrado dentro de si que Jorge abriu amorosamente os braços e, procurando vencer a náusea, disse para o ex-encarcerado:
— Venha meu irmão, abraça-me!
Saindo de dentro da cela agradecendo a Deus pelo tamanho infinito de Sua misericórdia o espírito caminhou com passos inseguros em direção a Jorge e encaixou-se perfeitamente nos seus braços que se apertaram em torno dele com uma força de sinceridade tão pungente que acabaram levando ambos a copiosas lágrimas.
Após alguns instantes eles se soltaram e o espírito foi para uma zona de refazimento energético-espiritual acompanhado por um espírito que ele chamava amorosamente de “mãe”.
O caboclo, então, levou Jorge de volta a sua residência após aplicar-lhe uma descarga energética desagregadora de fluidos perniciosos.
Após estes procedimentos Jorge resolveu perguntar a entidade:
— “Seu” Rompe-mato o senhor permitiu que eu tivesse esta experiência só por que muitas vezes eu duvidava se aqueles obsessores e sofredores realmente estavam manifestados nos médiuns que lhes cediam o corpo e a mente nas giras do terreiro?
— “Só” filho? Você diz “só”? Por que você se julga tão pouco assim meu filho?
— Hein? Desculpe-me, mas como?
— Filho, entenda que uma pirâmide não prescinde da menor de suas pedras, que uma corrente jamais será a mesma se um dos seus elos se partir e que, portanto, a força mental, a dedicação, o carinho e a prece de cada filho de fé é imprescindível para que a caridade possa ser praticada no andamento de uma gira, está entendendo?
— Sim senhor!
— Em uma gira você não é mais e nem menos importante que qualquer irmão de fé ou entidade: você é tão importante quanto! O próprio mestre Jesus foi quem disse isto só que nessas palavras: “ Vos sois deuses, se tiverdes fé fareis coisas mais fantásticas das que eu fiz”; então, quem é este caboclo para desmentir o mestre eterno e amado?
— Entendo.
— Mas a experiência desta noite não aconteceu somente por este motivo, mas também para acabar com quase dois séculos de culpa, dor e sofrimento, certo?
— Sim senhor!
— Então vá meu filho! Retorne ao seu vaso corpóreo por que já é dia e o sol que está nascendo vem a despertar-lhe para os seus compromissos enquanto espírito encarnado!
— Sim senhor!
— Salve Deus!
— Para sempre seja louvado!




segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Marinheiro

Mensagem de um marinheiro recebida por Pedro Rangel


Acontecia uma gira de esquerda e José Carlos cambonava uma entidade conhecida como Capitão Miguel.
Havia um ano que ele começara a participar da corrente mediúnica daquele terreiro e, apesar de conhecer um pouquinho da forma de trabalho dos marinheiros, ele não conseguia entende-la e nem aceita-la completamente.
Nesta referida gira, então, José Carlos estava tão preocupado com as dificuldades que o afligiam que não conseguia nem concentrar-se direito na divina tarefa de cambonar.
A entidade girava para cá e atendia uma pessoa, girava para lá e atendia outra enquanto José Carlos mantinha-se com o pensamento distante; Capitão Miguel sorria para seu cambone como se nada estivesse acontecendo e continuava a prestar seus atendimentos.
José Carlos afligia-se bastante com os problemas que estavam a martelar sua mente e desconcentrava-se cada vez mais permitindo que sua mente começasse a vaguear para fora do terreiro, mas foi justamente neste instante que o marinheiro disse a ele:
— Quer resolver os seus problemas?
— Sim Capitão Miguel!
— Pois então se concentre com todo o carinho e dedicação no próximo atendimento que farei para que tudo comece a ficar mais claro para ti, ok?
— Sim senhor!
— O senhor tá no céu, agora vem comigo que eu preciso trocar uns dedos de prosa com aquela sereia!
Chegando perto de Matilde e beijando-lhe respeitosamente a destra foi que a entidade cumprimentou-a:
— Boa noite minha flor!
— Boa noite Capitão Miguel!
— Gostei do seu sorriso minha sereia! Você poderia mantê-lo no rosto enquanto eu choro suas dores?
Ao obter um franco sorriso como resposta a sua indagação a entidade passou a utilizar as glândulas e o canal lacrimal do seu médium como forma de descarregar a consulente através de pesadas e insistentes lágrimas.
Capitão Miguel nada dizia a Matilde. Só ficava a segurar-lhe a destra e a olhar no fundo dos grandes, negros e doces olhos dela. José Carlos até estranhou, mas quanto mais a entidade "chorava" mais o sorriso nos lábios de Matilde enlarguecia.
Após alguns instantes, Capitão Miguel soltou-lhe a destra e disse-lhe:
— Não se preocupe por que seu esposo vai parar de beber e a harmonia voltará a reinar em seu lar.
— Meu Deus é tudo o que eu mais preciso e quero!!!
—Leve três cigarros e uma "loura" pra eu na orla marítima que a gente finaliza o trabalho. Faça isso na terça-feira à noite e a partir das 21:00 horas!
— Com certeza que farei Capitão Miguel, mas...
— Pode falar minha flor!
— Como foi que soube do meu problema sem eu nada dizer?
— O teu sorriso me disse tudo que eu precisava e poderia saber pra te ajudar.
— Meu sorriso?
— É! Ou não é verdade que você, quando percebeu minha aproximação, pensou assim: " Deus, meu pai, é hora de deixar os meus problemas para lá e ganhar um pouco da alegria deste marinheiro"?
— É verdade!!!
— Saiba que a alegria da nossa vida vem da satisfação de poder ajudar todos aqueles que nos são permitidos por Deus.
— Alegria? Mas você chorava ao tocar na minha mão!
— Enquanto o teu sorriso era um esforço divino para espantar a tristeza, as minhas lágrimas foram uma forma de descarregar a sua tristeza através da alegria.
— Alegria?
— Sim. A alegria de encontrar um filho de fé que consegue nos ver como realmente somos.
— Não entendo!
— Muitos pensam que nós marinheiros somos seus escravos, que temos a obrigação de resolver problemas que eles mesmos criam para si próprios. Aparentemente sofrem com os problemas e desejam que sejam resolvidos; no entanto, secretamente, são seres que das brumas ainda não saíram que só encontram um sentido para sua vida através das dores oriundas dos problemas que vivem a criar na forma de casos nascentes uns após outros.
— Puxa!!!
— Encontrar uma sereia como você que nos vê apenas como "lixeiros" auxiliadores do Cristo Divino só nos faz sorrir de alegria enquanto limpamos as mazelas astrais daqueles que se fazem merecedores.
— Lixeiros?
— Qual é a casa mais limpa? Aquela que mais se limpa ou aquela que menos se suja?
— A que menos se suja!
— Pois então, muitos dos filhos de fé ao nos avistarem numa casa de umbanda despejam sobre nós todas as suas imundícies, na forma de suas mazelas conscienciais como se eles mesmos não tivessem dever algum com o asseio das suas mentes, das suas emoções e dos seus espíritos. Poucos agem como você agiu na gira de hoje ao me perceber indo na sua direção dizendo de você para o Divino Criador: " meu Deus afaste estes problemas de mim e faça com que um pouco da alegria deste marinheiro possa trazer felicidades à minha vida"; ou seja, você ao me avistar não quis se utilizar e nem abusar do meu atributo de "lixeiro"para despejar suas mazelas sobre mim, você viu o melhor em mim, você só viu a minha alegria e dela procurou compartilhar.
— Puxa Capitão Miguel, você falando assim dá até vontade de chorar!
— Não chore minha sereia, pois eu já chorei por ti nesta gira!
E, como se já houvesse falado tudo o que havia para ser dito, a entidade despediu-se de Matilde:
— Boa noite minha sereia!
— Boa noite Capitão Miguel!
Após dar algumas baforadas o marinheiro olhou para José Carlos e falou:
— E então companheiro, você se sente melhor?
— Olha, eu nem lhe falei da dificuldade que venho enfrentado e, mesmo assim, sinto-me totalmente renovado, como pode ser isso?
— Isso acontece por que o seu "lixo" já está na minha rede.
— Rede?
— É! Você não vê?
— Não!!!
— Então deixa eu dilatar um pouquinho da sua vidência e audição mediúnica: segure minha "loura" com a mão esquerda, feche os olhos, tome um gole e mentalize que está de frente ao mar.
— Deus meu que gosma nojenta é esta na sua rede?
— Este é o "lixo" que recolhi de quem me foi autorizado na gira de hoje.
— Nossa que incrível!!!
— Tão incrível que aquele seu problema com sua sereia agora nem parece tão grande, não é verdade?
— Puxa Capitão Miguel você é danado, hein? Não vou nem perguntar como o senhor sabe disto!
— Nem haveria como eu não saber!!!
— Ah é? Por quê?
— Por que você não parou de reverberar este problema desde o inicio da gira.
— É verdade!
— Reverberava tanto o seu próprio problema que nem conseguia auxiliar-me corretamente junto à assistência.
— Puxa, desculpe-me! Realmente esta é uma dificuldade que eu tenho, mas tudo o que você conversou com a irmã Matilde fez-me refletir bastante sobre este meu erro e, se Deus quiser, eu conseguirei resolver esta minha deficiência.
— Entendeu porque eu lhe determinei que se concentrasse em minha conversa com a Matilde?
— Entendi!
— Nenhum ser humano é maior que outro. Um problema de um ser humano jamais será maior que o problema de outro ser humano; então, no auxilio fraterno ao próximo, um filho de fé não deve disso se esquecer para que possa auxiliar ao seu irmão da melhor forma possível!
— É verdade Capitão Miguel!!! Penso que aprendi a lição.
— Na história de vida de um único ser humano está contida toda a história da humanidade: na história de cada um haverá alegrias com vitórias alcançadas, tristezas devido a quedas morais e esperança de que novas vitórias sejam alcançadas ao conseguirem vencer a si mesmos.
— É verdade!!!
— E, se assim é, nenhum auxilio fraterno ao próximo deve ser prejudicado por conta das dificuldades pessoais daquele que auxilia.
— Amar ao próximo como a si mesmo.
— Exatamente companheiro!!! Pois somente dando deste amor é que se conseguirá receber do mesmo.
— Entendo.
— Será que entende mesmo?
— .....................????
— A sua sereia companheiro.
— Minha esposa?
— Isto.
— O que há com minha esposa?
— Você diz que a ama muito e que gostaria que ela demonstrasse o mesmo amor por você.
— É verdade!
— Mas, será que você demonstra este amor por ela?
— Claro!
— E que amor você demonstra?
— O meu amor por ela!
— O fato de você estar ingerindo muita bebida alcoólica, aos olhos dela, será que é demonstração de amor? Os palavrões que você profere em direção aos sensíveis ouvidos dela também serão demonstração de amor?
José Carlos engoliu seco e Capitão Miguel prosseguiu:
— Por que se você chamar estas atitudes de demonstração de amor, então saiba também que é todo esse "amor" que você vem ofertando a sua sereia que a tem feito ofertar do mesmo"amor" a você só que na forma de indiferença nas intimidades entre vocês.
— Puxa!!!
— Amar ao próximo como a si mesmo também é demonstrar aquele amor que a pessoa amada espera receber de você, por que é muito fácil amar sem ter que abrir mão de você mesmo. Observe como eu seguro minha "loura".
E, dizendo isto, Capitão Miguel levantou rapidamente o casco de cerveja e tomou do seu liquido da mesma forma. Olhando posteriormente para José Carlos ele disse:
— Eu adoro espuma e é por isto que viro a minha loura desta forma quando vou tomá-la. Se eu não gostasse de espuma procuraria virar o casco de outra forma.
— É verdade.
— E você, como prefere beber a cerveja?
— Sem espuma.
— Tome aqui um gole da minha "loura".
José Carlos bebericou e procurou esconder a careta por ter ingerido o tanto de espuma que ainda estava aderida à cerveja.
— A minha "loura" desceu quadrada na sua garganta, não foi companheiro?
— Desculpe, mas foi isso mesmo!
— Pois então da próxima vez que você for agir com a sua esposa de uma forma que a desagrade procure, antes, lembrar-se de como este gole da "loura" de Capitão Miguel desceu quadrado na sua garganta e mude sua postura no agir com ela para que seu comportamento não desça quadrado em direção aos mais puros sentimentos que ela nutre por você.
José Carlos sensibilizou-se profundamente e colocou um sorriso sincero no rosto quando respondeu:
— Com fé em Deus eu farei o que me pede!
— Teu sorriso não foi tão lindo quanto o da sereia Matilde, mas eu também gostei da sinceridade presente nele.
— Puxa Capitão Miguel você surpreendeu-me!
— Eu?
— É! Pois dizem que a linha dos marinheiros trabalha com pedidos materiais, mas com a irmã Matilde o senhor não trabalhou desta forma!
— Entenda que o nosso atributo é sermos lixeiros do astral e encaminhar toda negatividade recolhida para ser esgotada no seio do Mar Sagrado, sendo que muito da sujeira recolhida advém de energias referentes a questões da vida material de vocês encarnados, está entendendo?
— Sim Capitão Miguel!
— Mas com a sereia Matilde tive que proceder diferente por que, afinal, ela em toda sua benignidade só quis ver o melhor de mim. Ela não foi logo despejando seus "lixos" em cima de mim, mesmo sabendo que meu dever é recolhê-lo. De mim ela só quis a alegria que existe no coração de cada marinheiro por trabalhar na umbanda.
— Puxa Capitão Miguel, que lindo!!!
— A maioria dos nossos consulentes pelos terreiros de umbanda julgam que nós temos a obrigação de limpar todo o "lixo" deles, mas nem se importam de receber a nossa alegria; outros, em número bem menor, entregam-nos as suas imundícies, mas também divertem-se em receber da nossa alegria.
— É verdade.
— Já a sereia Matilde foi um caso raro no trabalho deste marinheiro por que de Capitão Miguel ela só quis a alegria, chegando inclusive a rogar a Deus que levasse a tristeza dela embora para que eu não me sujasse com a sua melancolia.
— Puxa Capitão Miguel, o que o senhor hoje confessa a mim é tocante!
— Por falar em tocante, o apito do navio está tocando a nos chamar, você está escutando?
— Meu Deus é incrível, eu estou escutando!!!
— Dá licença só um instantinho companheiro!
Chamando a atenção dos marinheiros que estavam presentes no terreiro, Capitão Miguel disse:
— Vambora marujada, o barco já vai partir!
E falando com todos os médiuns do terreiro, mas olhando na direção de José Carlos, Capitão Miguel despediu-se dizendo:
— Boa noite!!!
Os marinheiros então foram desincorporando e, um a um, passaram a formar uma fila para entrar no barco atracado na beira da praia. Cada um deles carregava uma rede cheia de lixo astral para ser esgotado com a energia divina do Mar Sagrado.
Quando a última entidade entrou na embarcação a visão de José Carlos foi embora.
Todos os médiuns da corrente mediúnica do terreiro deram-se as mãos a realizar preces de agradecimento a Deus por todas as bênçãos recebidas naquela reunião, mas o que nenhum médium conseguia compreender era a insistência caudalosa com que inúmeras lágrimas deslizavam dos olhos de José Carlos por toda a sua face: é que cada lágrima representava uma prece de agradecimento sincero ao Divino Criador pelo fato dele, naquela gira, ter aprendido não apenas a aceitar o trabalho dos marinheiros, mas também a amar com todas as forças de sua alma e, principalmente, humildade do seu coração.

Saravá a toda linha de trabalho dos marinheiros!!!!!